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Na manhã de 18 de dezembro de 2021, o sol batia sobre o relvado e as bancadas do Marques da Silva. Dezenas de pessoas reuniam-se então no topo norte - umas junto à baliza, outras sobre a relva, algumas entre os pilares que marcam o lugar habitual dos FANS 1921.
A technada que saía de uma coluna portátil pautava o ritmo de trabalho, mas os preparativos eram já parte da festa. É que estávamos na véspera de um Ovarense-Lamas, o que fala por si, mas era também a véspera do centenário da Associação Desportiva Ovarense.
O peso da data arrastara até ali a claque – ou o grupo de amigos, se preferirem - para os últimos ensaios com uma tarja gigante, qual carta de amor de 25 metros, carregada em fila indiana desde a Caixinha de Fósforos, e pronta a desvelar na tarde do dia seguinte.
Só que nada disso se conquistou de um dia para o outro. Se puxarmos a fita dez anos atrás, os FANS numeravam uma dúzia, e num dia bom. A faixa improvisada chegava para deixar de sobreaviso as populações de Rocas do Vouga ou de Mamarrosa, para quem a grupeta que arrancara do Tulipa Negra mais parecia a Gate 7 a invadir-lhes a freguesia. Melhor do que ninguém, adivinhavam já o que aí vinha.
Neste episódio, celebramos o primeiro número redondo, e percorremos histórias, cânticos, e até as dores de crescimento dos FANS 1921. Numa altura em que a distrital de Aveiro rebenta pelas costuras com investimentos megalómanos e clubes-empresa a aterrar no nosso concelho, separamos o trigo do joio, na voz de quem, há longos e atribulados dez anos, vai mantendo intacta a paixão de criança.
Na capa, fotografia do blog Sempre Ovarense. Design por Marta Dias, como habitual.
A época de 61/62 prometia. O Dr. Malícia, que no ano anterior tinha comandado a Académica de Coimbra, regressava a Ovar e não vinha sozinho: trazia consigo um conjunto de reforços que nos fazia sonhar mais alto.
E assim teria sido, se o Neca Calceteiro não tivesse dado asas à imaginação e passado para uma canção aquilo que todos sentiam.
Décadas mais tarde, ainda há quem saiba de cor esta tragédia de Couto. É o caso do Carlos Campos, que nos abriu as portas de casa na Arruela para uma atuação com “cheirinho”, bem secundada pela guitarra do Rui Pedro.
Já lá vai o tempo em que a nossa esquina preferida virava feira improvisada, com cachecóis pretos e brancos à espera de um adepto menos agasalhado. Outros, já apetrechados, faziam a primeira paragem no bar, guiados pelo cheirinho a bifana, que era sempre diferente em dia de bola. Jogava-se a Segunda Liga, e pela Ovarense alinhavam nomes como Nei, Artur, Mingote ou Zé Pedro. Lamas, Feirense e Espinho eram clientes habituais, sem esquecer alguns tubarões que de vez em quando nos batiam à porta.
Desta altura há muitos jogos que merecem um episódio, mas começamos antes por recordar um da época passada, bem fresco na nossa memória. Foi como se os anos voltassem para trás e de repente acordássemos num desses jogos com a Primeira Liga no horizonte. Estádio cheio, coreografias na bancada e uma Ovarense embalada por sete vitórias nas primeiras sete jornadas.
A 27 de outubro de 2019, o Marques da Silva vestia-se a rigor para o Ovarense – Lamas, oitava jornada do SABSEG. Não era apenas o grande teste de um início de época especial. Era também uma resposta para quem dizia que a Ovarense não tinha lugar na Liga dos Campeões, cortesia daquele golo à Kelvin do nosso Marmelo.
É a primeira vez que fazemos algo do género: um jogo, um episódio. Como tal, fomos ouvir adeptos e protagonistas, que nos narram o filme de um jogo em que o coração não parou de saltar.
Na capa, fotografia de Tiago Carriola. Design por Marta Dias, como habitual.
Não há sombra de laranjeira ou beiral de muro que nos devolva um carnaval em pleno. Quantos de nós já não pensaram em bater às portas do Lamarão em busca de um lugar cativo, um daqueles a que só têm direito os que em domingo de bola fazem do quintal bancada. Por estes dias de carnaval, os vareiros combatem o silêncio estranho do centro como podem: dão música aos vizinhos, arejam os casacos de grupo e repetem chimpões em frente ao computador.
É dia de treino. O Marques da Silva prepara-se para receber os heróis que carregam Ovar ao peito. Os jogadores vão chegando às pinguinhas, mas ao longe já se ouve um Renault 5 a dar música nas alturas. Gipsy Kings, talvez. Ao volante, um guardião de cabelo comprido, patente dos míticos anos 90. Não é Higuita, nem David Seaman, mas tem nome de craque: Titó. Titas para os amigos, Vaca Voadora para companheiros e adeptos mais apaixonados.
Minhoto de nascença, fez-se jogador no Braga e guardou balizas em Paços de Ferreira e Setúbal, antes de se juntar à Ovarense em 89. Daqui não mais saiu e conquistou o coração da terra. Dentro de campo, com o título da II B em 90/91 à cabeça. Mais tarde, quando aceitou liderar o barco num fim de época atribulado, e como distinto dono de café na nossa cidade.
Enquanto cozinhamos o próximo episódio, aproveitamos para recordar um dos mais acarinhados guarda-redes do nosso clube, que nos deixou no início de 2021. Para isso, vamos à boleia do eterno capitão Artur Marques, numa espécie de “curta” sobre uma figura que fará sempre parte do imaginário vareiro.
Tentou a sorte na Académica e no Porto. Mas foi só depois dos 18, e em casa, que encontrou um lugar ao sol. Campeão em 70/71 e pai-treinador para uma geração que ainda veste preto e branco, Armindo Malícia dedicou grande parte da carreira à Ovarense. Entre viagens de Renault, bifanas na sede dos Axu-Mal e o desaparecimento de um leitão, viajamos pelo testemunho de uma figura que deixou marca na história do nosso clube.
No pontapé de saída do Às três na Oliveirinha, conversamos com o antigo capitão e treinador alvinegro.
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