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Cara, 600 episódios do Cafezinho! O primeiro foi publicado em quatro de setembro de 2017. E o texto dele era assim:
O que é que leva alguém a falar bobagem em público? Em primeiro lugar vem a ignorância. O sujeito desconhece o assunto, abre a bocarra e dá sua opinião superficial. É na praia da ignorância que nadam dezenas de influenciadores digitais.
A burrice é outro ponto. O burro tem certeza de que sabe o que não sabe. E, pior, não aprende! Como dizia Nelson Rodrigues: A ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades. A burrice é uma força da natureza.
O outro ponto é a soberba, a manifestação de superioridade sobre outras pessoas, que tem a ver com orgulho, pretensão, arrogância, altivez e autoconfiança exagerada. Nesta praia, a da soberba, também nadam muitos influenciadores digitais, mas mais ainda muitas personalidades da mídia.
E tem o estratégico, que fala bobagem intencionalmente. O comentarista Milton Neves, por exemplo. Ele faz questão de falar bobagem sobre times e torcidas, para agitar os ânimos e ganhar audiência. E consegue! Sabe outro magistral falador de bobagem? Donald Trump…
Por fim, a canalhice. O sujeito sabe que o que está falando é bobagem, e fala mesmo assim, na intenção de obter algum resultado. Esses são os piores, pois não têm a ingenuidade da ignorância ou da soberba, nem a intenção puramente pragmática do estratégico. São canalhas, querem vantagem para si e os outros que se explodam. E é complicado lidar com eles. A má fé e a canalhice fazem parte da arte de falar bobagem.
A arte de falar bobagem envolve ou ignorância, ou burrice, ou soberba, ou estratégia ou canalhice. Da próxima vez que você se deparar com alguém falando bobagem, tente enquadrá-lo numa dessas categorias.
Ficará mais fácil evitar que seu ouvido vire penico.
Pois bem, 600 cafezinhos depois, não tenho medo de dizer: aumentou exponencialmente a quantidade de gente falando merda. E aumentou mais ainda a quantidade de gente seguindo gente que fala merda.
Quer saber? Ambos se merecem.
Obrigado a você que tem prestigiado meu cafezinho. Aqui é um esforço diário para não falar merda. Não porque eu seja melhor que os outros. É porque eu respeito profundamente a sua inteligência.
https://youtu.be/LLB0bFZO_aQ
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Notícia no Estadão diz que a Magalu reconhece em balanço um rombo de 830 milhões de reais após denúncia anônima. Uma empresa campeã do “compliance”, agarrada no tal ESG, queridinha da bolsa e capa de revistas precisa de uma denúncia anônima para descobrir um rombo de quase um bilhão?
Dez anos atrás fui fazer a palestra Tudo Bem Se Me Convém, sobre moral e ética, num evento de uma badaladíssima empresa brasileira. Era lançamento do Código de Conduta. Mais de 80 páginas, montado num fichário. Coisa finíssima. Assisti diretores discursando sobre os processos rígidos e como a empresa não aceitaria quem agisse fora dos padrões. Uma beleza. Fui embora satisfeito.
Algumas semanas depois, aqueles diretores caíam na Operação Lava Jato, acusados de desvios bilionários.
Agora Lojas Americanas e Magalu. De que servem as áreas de compliance, os códigos de conduta, todo o discurso de ESG, ou seja lá qual for o novo modismo?
São fantasias. Maquiagens. Servem para mostrar como as empresas são legais e corretas. São como fachadas bonitas, que não representam o que existe dentro da empresa.
As narrativas ganharam o protagonismo. Não é mais o que você é, mas o que você parece ser.
-Ah, Luciano, sempre foi assim.
Sim, sempre foi assim, mas a aparência não se sustentava. Ou você era bom – e provava que era bom – ou não se estabelecia. Não adiantava o blábláblá. Quantos castelos de cartas vimos caindo? Empresas sustentadas pelo discurso e o marketing de seus executivos? No primeiro sopro, caiu tudo.
Mas agora não é assim. O discurso e o marketing estão em outro patamar, sofisticados a ponto de anular a capacidade crítica das pessoas. Embalados por siglas pomposas, que dão a ideia de que, se você adotar – ou parecer que adota – certos processos, está tudo resolvido.
Aí o sujeito aparece na tv com focinho de cão, rabo de cão, pernas de cão, latindo como cão, diz que é gato e a turma acredita. E ai de quem disser que ele não é gato.
Pulverizaram as responsabilidades, e isso é mortífero para empresas, governos e nações.
Quando ninguém mais é responsabilizado, é isso aí. Precisa de uma denúncia anônima para perceber que tem um elefante na sala.
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Link para a versão do Youtube: https://youtu.be/wbEK9Y45O_Q
Recentemente, assistindo a uns vídeos de Youtubers me deparei com a “estratégia de modelagem” que os jovens dinâmicos ensinam como forma de ganhar dinheiro no Youtube. “Modelar” é achar um vídeo, adaptar e publicar. Na cabeça dessa rapaziada, adaptar é “substituir algumas palavras”, “aplicar umas imagens extras”, “recortar e editar trechos”, “fazer a locução com sua voz”. Os caras ensinam como encontrar canais gringos para “modelar”, como usar “máscaras de edição de vídeos” para evitar problemas com direitos autorais...
Resumindo: “Vá lá na gringa, pegue os vídeos dos caras, dê uma maquiada, publique e ganhe rios de dinheiro com isso”. Ou no popular: roube vídeos de terceiros, aplique uns truques para evitar ser pego e ganhe dinheiro com isso.
E tudo isso é explicado com a maior tranquilidade. “Modelar” é o termo da moda.
Me lembrou do conceito de Desengajamento Moral, desenvolvido pelo psicólogo canadense Albert Bandura. Vale lembrar dos pontos principais:
1.O sujeito se vê como alguém excepcional e genuinamente crê que está acima das normas e dos regulamentos; anseia constantemente por vantagens e regalias injustificadas.
Aí me deparo com uma fala de Noam Chomski, um intelectual que acompanho com reservas, falando sobre Inteligência Artificial: "Vamos chamá-la pelo que é: um ‘software de plágio’. Nada cria, copia obras existentes de artistas existentes alterando-as o suficiente pra escapar às leis de direito autoral. É o maior roubo de propriedade intelectual desde que os colonos europeus chegaram.
Taí. É isso que tenho visto por todo o lado: às favas com as regras éticas, vale tudo desde que se dê um nome novo e se ganhe muito dinheiro. E aí é coach quântico para um lado, mentor holístico para outro, consultor financeiro pra cá, filósofo de sofá pra lá, e milhões de pessoas que buscam uma luz, caindo na conversa dos caras. Um desses coachs quânticos uma vez me disse: “Luciano, pare de criar conteúdo. Simplesmente abra a câmera e vá fazendo reflexões sobre seu dia a dia. Mas faça bastante. É isso que o povo quer.”
Vou “modelar” o conselho dele: “Luciano, entenda que você é seguido por idiotas. Esse povo não está nem aí com a qualidade do que você produz, quer é um modelo que ele possa admirar e tentar copiar. Não importa que esse modelo seja de mentira.”
Bem, eu não sei você, mas eu não consigo fazer isso.
Modelagem é roubo de propriedade intelectual. Mas acho que a sociedade, especialmente os jovens dinâmicos, não está preparada para essa discussão.
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Na década de 1950, o psicólogo Solomon Asch conduziu o Experimento de Conformidade de Asch, onde formava um grupo de 7 a 9 alunos. Exceto um, todos eram cúmplices do pesquisador. A cada um deles foram mostradas linhas desenhadas num cartão, para que indicasse qual linha era maior. Embora a resposta correta fosse claramente evidente, os cúmplices apontavam a resposta errada. O sujeito que não era cúmplice sentia uma forte pressão do grupo para adotar a mesma opção errada, mesmo contra sua lógica. Cerca de um terço dos participantes reais escolheu a resposta errada, porque queria se encaixar no grupo. Isso passou a ser chamado de mentalidade de rebanho.
Considere com que frequência você faz certas escolhas simplesmente porque seus amigos a fazem. Esse processo facilita a tomada de decisões e evita que você destoe em um grupo.
De acordo com pesquisas, uma pequena parte da multidão toma as decisões informadas às quais as outras pessoas se conformam. Quanto maior o grupo, menos membros informados existem. Entendeu? Uma elite pensante conduzindo a maioria para onde ela quer.
Mas sabe o mais interessante do experimento Asch? Quando a pessoa era convidada para dar a resposta em privado, ela escolhia a opção certa. Ou seja: ela só escolhia a resposta errada se o grupo a estivesse observando. Ela sabia que estava escolhendo o errado, mas tinha medo de não ser aceita pelo grupo.
E quando Asch colocava no experimento uma outra pessoa, também cúmplice, que destoasse da opinião da maioria, o número de pessoas que se sentiam confiantes para apontar a solução correta aumentava consideravelmente. Havia mais alguém que concordava com ela.
Entendeu por que existe tanta pressão para calar a voz dos que se atrevem a discordar da opinião da maioria? Esse povo que pergunta e contesta é perigoso demais para a elite que controla o rebanho.
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A figura de linguagem que envolve o uso de palavras ou termos que aparentemente se contradizem é chamada de "oxímoro". Por exemplo:
Quase sempre. Ué? Se é sempre, como pode ser quase?
Aposta segura. Se a definição de “aposta” é “evento incerto”, como é que pode ser segura? E a pior de todas... Guerra Santa. O conflito que é considerado sagrado, justo ou legítimo por uma determinada religião ou grupo religioso. Como é que uma guerra, com assassinato de pessoas, pode ser conduzida em nome de Deus ou de uma causa religiosa? Como é que degolar um bebê, matar uma mulher grávida ou um ancião pode ser um dever religioso? Como é que o terrorismo pode caber numa ideia de santidade, retidão e justiça divina?
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É impressionante como gostamos de frivolidades, não é? Pode ser pela busca por entretenimento e escape das pressões da vida cotidiana. Pode ser a necessidade de conexão social pelo compartilhamento de interesses comuns. Pode ser influência da cultura da mídia que valoriza notícias sensacionalistas. Pode ser pela facilidade de consumo desse tipo de conteúdo. O atrativo da novidade. A pressão social para se manter informado sobre certos tópicos. O fascínio pela vida de outras pessoas. Aspectos psicológicos que estimulam emoções imediatas. E pode ser pela escassez de tempo em vidas ocupadas.
Não haveria nenhum problema se equilibrássemos esse interesse pela frivolidade com conteúdos que promovem crescimento pessoal e aprendizado. Mas...
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O escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, publicou em 1995 seu livro “Ensaio sobre a cegueira”. A obra é uma narrativa distópica que aborda questões sociais e humanas por meio de uma alegoria. A história começa com um homem que, enquanto está no trânsito, de repente fica cego. Essa cegueira é contagiosa, e, gradualmente, um grande número de pessoas na cidade também perde a visão. O governo decide isolar os cegos em quarentena, criando uma sociedade caótica e brutal.
Saramago se definia como um militante “hormonal” comunista. Em 2003, ficou indignado com o regime cubano, que até então ele defendia, por conta da execução de três sequestradores de um barco que queriam fugir para os EUA. Publicou uma carta dirigida a Fidel Castro, que começava assim: "Até aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá seu caminho, e eu fico onde estou.”
“Até aqui cheguei...” Em 2003, quando Saramago escreveu sua carta, o regime cubano já havia executado cerca de 3 mil pessoas desde que assumiu o poder em 1959. Para Saramago, até 3 mil execuções dava para suportar. Mais três, não.
Ele se curou da cegueira e anunciou que caia fora da torcida cubana.
Me lembrei disso por causa dos acontecimentos recentes em Israel, com o massacre de civis, inclusive crianças, pelos terroristas – deixe-me repetir bem claro – ter-ro-ris-tas – palestinos do Hamas. Uma barbárie, sem justificativa moral, ética, humanitária ou religiosa que a respalde, um crime de ódio racial que eu torcia para que não assistíssemos mais.
Lembrei de Saramago pela quantidade de gente relativizando o morticínio. Vi gente se recusando a chamar o Hamas pelo que ele é – grupo terrorista. Vi gente relativizando o massacre. Vi gente dizendo que foi bem feito para Israel. Vi gente dando as maiores piruetas retóricas para igualar moralmente a reação israelense ao ataque covarde dos terroristas. E essa gente que vi, não foram bêbados em discussão de boteco, mas autoridades políticas, influenciadores digitais e, especialmente, jornalistas.
Vivemos um ciclo de pressões angustiantes, com um clima de ameaça contínua. Era para estarmos unidos, combatendo um inimigo comum, como já fizemos em alguns momentos da história. Mas não. Uma epidemia de cegueira moral parece que tomou conta da sociedade.
Saramago precisou de 3.003 execuções de adultos para sair da cegueira moral. Você aí, que relativiza o terror vendo execuções de adultos e crianças, vai precisar de quantas?
Quem relativiza o crime, criminoso é. Quem relativiza o canalha, canalha é. Quem relativiza o terror, terrorista é. Não precisa pegar em armas e praticar o crime.
Basta ser um cego moral.
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A "Alexandria Safe-Zone" é uma comunidade fictícia na série de quadrinhos e na adaptação televisiva "The Walking Dead". Esta comunidade é um local chave na narrativa, proporcionando um ambiente relativamente seguro para os sobreviventes em meio ao apocalipse zumbi. Muito parecido com o que vivemos hoje.
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Hoje vai ser um pouco diferente aqui. Em vez de ler um artigo meu, vou ler uma abertura de um livro muito interessante que você encontra à venda na livraria Café Brasil: A máquina de matar - A biografia definitiva de Che Guevara
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No meu tempo e no tempo dos seus pais havia uma coisa mágica chamada... troco. A gente comprava coisas usando dinheiro de papel. Quando chegava na padaria, dava dois dinheiros por uma caixinha de Chiclete Adams que custava, sei lá, 18 centavos. Imediatamente nosso cérebro começava a processar o cálculo do troco: 2 menos 0,18 = 1,82. Pronto.
Nossas mentes eram computadores processando operações matemáticas todo o tempo, estabelecendo conexões e identificando padrões. Mas um dia isso acabou...
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