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O advogado, poeta e dramaturgo francês François Andrieux escreveu um poema chamado “O Moleiro de Sans-Souci”, que ilustra muito bem as ideias de outro francês, o Barão de Montesquieu que, em sua obra “O Espírito das Leis”, consagrou a Teoria da Separação dos Poderes, também conhecida como Sistema de Freios e Contrapesos.
Montesquieu acreditava que para evitar governos absolutistas e tirânicos, seria fundamental estabelecer a autonomia e os limites dos poderes. O Legislativo, o Executivo e o Judiciário sendo autônomos em suas funções, mas um contendo os abusos do outro de forma que se equilibrassem.
Funções distintas, mas harmônicas e independentes.
No poema, Andrieux conta que Frederico II, rei da Prússia, construiu um belo palácio numa região chamada Sans-Souci, que significa “sem preocupação”, próxima a Berlim. Imagine a maravilha que um lugar chamado “sem preocupação” deve ser...
Mas havia no local um velho moinho de vento que impedia a visão do rei e atrapalhava a ampliação de seu palácio. O rei tentou demolir o moinho, oferecendo compensações para o moleiro, mas sem sucesso. Chamado para uma conversa, o moleiro disse que ele, seu pai e seu avô trabalharam a vida toda naquele moinho, e que seu filho faria o mesmo. Não venderia o moinho de jeito nenhum.
Frederico II, disse então: “Sabes que se eu quisesse, poderia expropriar o moinho, sem lhe dar nenhuma compensação, não sabes?”
E o moleiro respondeu: “O senhor? Tomar-me o moinho? Só se não existissem juízes em Berlim!”
Encantado que, sob seu reinado, alguém acreditasse em justiça, o monarca riu, se voltou para alguns súditos e disse: "Bem, meus senhores, eu acho que devemos mudar nossos planos. Vizinho, mantenha o seu bem. Eu amo sua resposta. "
Dessa história veio a frase “Ainda existem juízes em Berlim”, como símbolo da independência, isenção e equilíbrio da Justiça, que não veria diferença alguma entre o humilde moleiro e o poderoso monarca.
A Justiça verdadeira limita o poder absoluto dos governantes.
Por isso estamos assistindo nestes dias o Supremo Tribunal Federal dando ordens ao Executivo e legislando no lugar do Legislativo.
São os freios e contrapesos.
Mas quem é que controla os juízes de Brasília?
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Olha, parece que está cada dia mais difícil tomar posição sobre as grandes questões em debate na sociedade, viu? A gente lê uma argumentação brilhante e concorda com ela. Segundos depois lê uma contra argumentação tão brilhante quanto e também concorda com ela. Sem contar as fake News... Dá a impressão que antigamente as coisas eram mais claras, não é? Que havia o preto e o branco, o bem e o mal em contraste evidente e não era difícil escolher de que lado ficar.
Mas será que aquela “facilidade” de definir o bom e o ruim não acontecia apenas porque antigamente, mais jovens e inexperientes, nosso raciocínio era simplório e escolhia de forma superficial, pelas aparências?
Conforme evoluímos, ouvindo e lendo mais, refinando nossa capacidade de análise crítica, reparamos nos detalhes sutis, entendendo as argumentações sofisticadas e a multiplicidade de pontos de vista. E aquele mundo que a nossa ignorância transformava em preto ou branco, fica cinza...
Por exemplo, tenho como princípio não roubar. Qualquer ação que eu decida praticar tem que estar de acordo com esse princípio, do qual não abro mão.
Mas então surge o pragmatismo, que subordina a verdade à utilidade. Eu não roubo, mas se a vida de meu filho depender de roubar, roubarei, sim. O princípio do “não roubar” foi atropelado por um princípio mais forte: o da preservação da vida. E a minha decisão terá sido pragmática.
Lula abraçado a Sarney ou Collor é um exemplo do pragmatismo que se sobrepõe a princípios. Bolsonaro indicando um petista para Procurador Geral da República é outro exemplo.
Muitos dirão que Lula e Bolsonaro traíram seus princípios. Outros dirão que se não for assim, não governam. Para exercer política é necessário ser pragmático. E então passamos a aceitar certos deslizes como sendo “parte do jogo”.
É desconfortável? Para muita gente, é. Uma luz de alarme que se acende e baixa a dúvida com a qual abri esta reflexão.
Afinal, o que é que você leva em consideração ao escolher um amigo ou amiga, um parceiro, uma parceira? O então para eleger um político?
Os princípios ou pragmatismo deles?
Pois é... O mundo ficou cinza.
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Li uma pesquisa chamada “Falta de Talentos” realizada pela Manpower, uma das grandes empresas globais na área de Recursos Humanos. A pesquisa aconteceu em 23 países, envolvendo 33 mil empregadores. O objetivo era determinar o impacto que a ausência de candidatos qualificados está causando no mercado de trabalho.
Os resultados revelam que 40% dos empregadores têm dificuldades para ocupar posições, por falta de talentos em seus mercados.
O presidente da Manpower, Jeffrey Joerres diz:
"A escassez de talentos está se transformando em realidade para uma grande quantidade de empresas no mundo todo, e se agravará nas próximas décadas. Mudanças demográficas e outros fatores continuam reduzindo a quantidade de pessoas que estão esperando uma vaga e têm talento para participar da força de trabalho".
As dez categorias em que os empregadores pesquisados encontraram mais dificuldade para recrutar foram: Representantes de vendas, Engenheiros, Técnicos (principalmente de produção/operações, de engenharia e manutenção), Operadores de produção, Operários qualificados e artesãos como carpinteiros, soldadores e encanadores, Pessoal de TI (programadores/analistas), Assistentes administrativos e Pessoais, Motoristas, Contadores e Gerentes e executivos.
A Manpower alerta para as consequências a médio prazo. Diz que em dez anos veremos muitos negócios fracassarem por não saberem planejar com antecipação a maneira como encarar a escassez de talentos. E afirmam que esta não é uma tendência cíclica como no passado.
“Desta vez a escassez de talentos é séria e durará por várias décadas", ressaltou o presidente da empresa.
Aí um amigo meu, excelente profissional, diz que isso é conversa, que ele tem todas as qualificações, mas está desempregado há mais de 10 meses. Quando se candidata a uma vaga invariavelmente recebe a informação de que está super qualificado. E que está velho demais...
Pois é. A situação de meu amigo apenas comprova a pesquisa: faltam talentos nas posições. Quem está fazendo o recrutamento e a seleção nas empresas é gente limitada a seguir “scripts”. Gente incapaz de reconhecer o potencial de um profissional maduro e buscando o impossível: um jovem recém-formado, que tenha “pelo menos cinco anos de experiência profissional”.
No Brasil só discutimos a quantidade do desemprego. Ta na hora de discutir a qualidade do desemprego.
Ah, a tal pesquisa é de 2006, viu? Já estamos no futuro que ela previa.
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Vira e mexe recebo comentários de ouvintes que não se conformam com a pouca quantidade de acessos a meus canais e ao conteúdo que distribuo. Ficam indignados com certos canais que têm centenas de milhares, até milhões de seguidores, e que distribuem irrelevância, desinformação e treta.
Assim como dinheiro atrai dinheiro, popularidade atrai popularidade. E isso tem muito pouco a ver com a qualidade do conteúdo distribuído. É mais forma, irreverência e o apelo a certos instintos básicos do ser humano.
O editor da revista de escaladas Rock And Ice escreveu assim:
“Porque monitoramos nosso site, temos uma boa ideia do que as pessoas gostam de clicar e os resultados podem ser resumidos em: sexo, morte e Everest. Qualquer post sobre mulheres, alguém morrendo ou desafiando a morte, ou a maior montanha do planeta, conseguirá uma grande quantidade de acessos. Nos dias de menor tráfego, sempre me pego fantasiando sobre o dia em que finalmente publicarei uma história que combine as quatro coisas: Mulheres Gostosas Fazem Sexo e Morrem no Everest. Até esse dia, tenho de me virar com o que temos.”
Sexo e situação de risco que pode levar à morte. Eros e Thanatos, os instintos de vida e morte que Freud definiu quase um século atrás. Foi isso que despertou seu interesse por este texto aqui, não é? Mas se veio procurar mulher gostosa, sexo e morte no Everest, pode parar que não tem. O título foi só para demonstrar a tese.
Muito tempo atrás fiz uma escolha entre quantidade e qualidade. Não busco uma audiência de milhões, só me interessam aqueles mil leitores ou ouvintes certos. Gente interessada em apreciar o conteúdo, acrescentar, contestar. Gente que não tem medo de textão e não está cega por rótulos fáceis. Gente que me obriga a ficar esperto e que me mostra outras janelas pelas quais ver o mundo. Gente que me ajuda a crescer.
Distribuir conteúdo pela internet é uma função nobre, que corre numa via de duas mãos. Assim faço um convite para a troca de ideias, para construir um caminho. É essa a audiência que me interessa.
Quem quer ver mulher gostosa fazendo sexo e morrendo no Everest está no canal errado.
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A Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico a OCDE, foi fundada em 1961, e reúne países com elevados índices de desenvolvimento humano e econômico. O colegiado, formado por 36 membros, tem como objetivo coordenar políticas econômicas entre eles.
Os diálogos para admissão do Brasil começaram em dezembro de 2017, com a formalização do pedido durante o Global Forum on Competition em Paris. Em março de 2018 O Brasil recebeu sinal positivo e começou a se preparar para preencher os requisitos. Em média os países levam de dois a três anos para passar pelo processo e se tornarem membros, e é preciso ter aprovação de todos os outros membros da organização.
Durante esse período, os candidatos precisam ajustar sua legislação de acordo com as regras. O Brasil já tinha adotado em março cerca de 30% dos instrumentos necessários para ingressar no bloco. A sequência e velocidade com que cada país é aceito segue uma ordem de avaliação por um conselho, baseado num processo estruturado. Além do Brasil, estão na fila Argentina, Romênia, Croácia, Hungria e Bulgária.
Em março, o presidente Donald Trump anunciou que ajudaria o Brasil a ingressar no bloco, para atrair mais investimentos e se colocar entre os países mais desenvolvidos do mundo.
A agência Bloomberg teve acesso a uma carta de 28 de agosto na qual Mike Pompeo, Secretário de Estado americano apoiou pedido da Argentina e Romênia. A Bloomberg reportou o caso assim:
"O governo dos EUA se recusou a endossar a tentativa do Brasil de ingressar na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, marcando uma reviravolta após meses de apoio público por parte das principais autoridades norte-americanas. (...) Os EUA apoiam a ampliação comedida da OCDE e um eventual convite para o Brasil, mas estão trabalhando primeiro para as entradas da Argentina e Romênia, tendo em vista os esforços de reforma econômica e o compromisso com o livre mercado desses países, disse uma autoridade sênior dos EUA”.
Pronto. E o que é que a maioria da imprensa está gritando para você?
Que o Brasil foi recusado.
Para essa gente, o Brasil não pode dar certo.
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Em 1990 os psicólogos Deborah Prentice e Dale Miller foram chamados para tentar resolver um problema na Universidade de Princeton. A garotada estava entrando de cabeça na bebida, o consumo de álcool estava atingindo proporções alarmantes com as consequências conhecidas. Após conversar com a garotada que enchia a cara, os psicólogos descobriram que, individualmente, os garotos e garotas concordavam que a bebida era um problema, que o consumo era excessivo e que deveria haver algum tipo de controle no campus. Mas esses garotos e garotas achavam que essa era a opinião deles, que a maioria achava que o consumo de álcool estava certo, portanto eles nada diziam ou faziam.
Vem daí o conceito da Ignorância Pluralística: todo mundo tem seu pensamento próprio a respeito de algum fato ou atitude, mas está convencido que sua opinião é a única. E, com medo de ser atacado, humilhado ou expulso do grupo, cala a boca.
A única forma de evitar a Ignorância Pluralística é interagir com indivíduos, da forma mais neutra possível.
Durante as eleições fiz uma experiência com motoristas, balconistas e frentistas. Quando eu perguntava em quem a pessoa votaria, a resposta de 8 em cada 10 era: “eu não sei, tem que ver…”. E assim que eu demonstrava que não tinha restrições ao nome do Bolsonaro, 7 dos 8 se abriam para a possibilidade de votar nele. As pessoas temiam ser a opinião minoritária, arrumar encrenca e, portanto, expressavam seu “em cima do murismo”.
Preste atenção: quando alguém aparecer com alguma ideia, veja se não está a apresentando como algo já estabelecido na sociedade. Veja se a pessoa não está fazendo com que todos pensem que todo mundo concorda com a ideia, mesmo que seja a primeira vez que você está ouvindo a tal ideia. Repare se a discussão dessa ideia acontece em grandes grupos, provoca altos debates em redes sociais, sempre envolvendo muita gente…num grupinho.
Veja se você de repente não se sentiu sozinho ou sozinha. Talvez alguém esteja tentando jogar você na Ignorância Pluralística…
Colocando em você o medo de ser apontado como o único ou única que não concorda com a maioria.
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Olha, os sinais já estavam em 2002, no filme Cidade de Deus, passado nas favelas do Rio. Em meio a bandidos, policiais corruptos e violência, Buscapé é um garoto bom, que só quer trabalhar para vencer na vida. Todos os bandidos se dão mal e Buscapé termina bem. O filme é um dos maiores sucessos do cinema brasileiro. Enquanto isso, nas novelas da Globo, eram os bandidos que se davam bem e as famílias tradicionais eram repletas de gente ruim, falsa e desonesta. Uma agenda progressista passa a ser empurrada pela goela do povo e as novelas começam a perder relevância. Ao mesmo tempo, a audiência de programas policiais que esculachavam bandidos explodia.
Em 2007, chega Tropa de Elite, outro marco do cinema brasileiro. O público vibra com o Capitão Nascimento, policial honesto e disposto a defender seus valores a sangue e fogo. Tanto o ator quanto o diretor ficam constrangidos com o sucesso do personagem. O povo se identifica com o herói que tratava os bandidos na porrada.
Em 2013, um movimento que começa como uma luta artificial contra aumento de passagens se desdobra, colocando milhões nas ruas contra a corrupção e os péssimos serviços do Estado. Ao mesmo tempo, autores, jornalistas e personalidades com discursos frontalmente contra a opinião publicada, começam a despontar, vendendo livros, dando audiência e pregando ideias como valores familiares, honestidade, patriotismo e obediência à lei e à ordem.
A imprensa não percebe os sinais, seu discurso se dissocia do povo. Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, dono da Jovem Pan, percebe que há uma carência de ideias em conformidade com aquele povo que despertava. Ele muda a programação e o viés da rádio. Enquanto a maioria puxava o saco do governo, a Jovem Pan batia, e batia com gosto, aos poucos atropelando dinossauros como a CBN ou a Bandeirantes, apegados à agenda progressista. Deu no que deu.
A Jovem Pan é a maior audiência do rádio brasileiro e até mesmo do Youtube, com uma pegada diferente das outras mídias. Tutinha percebeu os sinais dados por Buscapé, pelo Capitão Nascimento, pelas patinadas da Globo, por Olavo de Carvalho do True Outspeak e por um Reinaldo Azevedo que não existe mais.
Goste você ou não, o brasileiro é conservador.
Quem não entendeu, já quebrou.
Ou vai quebrar.
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Compareci a um jantar em homenagem a um colega que estava se aposentando após dirigir por anos uma empresa que fazia parte do grupo no qual trabalhei por 26 anos. Fui recebido com uma profusão de sorrisos e abraços, cabelos brancos, barrigas e traços envelhecidos, mas o mesmo velho calor humano.
Quando entrei na sala de jantar fui encaminhado para uma mesa reservada. A mesa da velha guarda. “Velha guarda” foi uma bofetada.
Enquanto eu assistia ao vídeo em homenagem ao colega que deixava a empresa, minha carreira passava diante de meus olhos. Lembrei-me da ansiedade com que, aos 26 anos de idade, caprichei na feitura de meu “curriculum vitae” para tentar emprego numa multinacional, quase quarenta anos atrás!
Então veio à minha mente Rubem Alves, sempre ele, que um dia escreveu assim:
“Um curriculum vitae é uma enumeração dos lugares por onde se passou, na correria da vida. As coisas que ele registra não existem mais. O que é passado está morto. Assim, na minha homepage, ao invés de curriculum vitae eu escrevi curriculum mortis, porque eu não sou o meu passado. Eu sou o meu agora”.
Naquele momento eu mudei minha atitude. Para mim, aquela deixou de ser a mesa da velha guarda para ser a mesa onde estavam velhos amigos cheios de planos, sonhos e com energia para fazer acontecer.
Tudo que fiz em minha carreira serviu para construir a minha história, para definir quem eu sou e do que sou capaz. Sou grato àqueles que me homenageiam pelo meu passado, que reconhecem minha contribuição, aos que valorizam o tempo que permaneceram ao meu lado, aos que acham que aprenderam algo comigo.
Mas isso passou. Não existe mais. O que importa é o que eu farei amanhã.
Me aguardem.
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Então o piscineiro faz seu trabalho semanal e vai embora largando um registro aberto. Inunda a casa de máquinas e o motor vai pro brejo. Protestei, e vem a resposta:
– Foi mal...
No estacionamento, o manobrista me entrega o carro com um lindo risco na lateral. Chamo o gerente, que dá a resposta definitiva:
– Foi mal...
Eu pensei em dar aqui um exemplo de companhia aérea, mas nem precisa, né?
– Foi mal. Foi mal. Foi mal...
Pois é. Essa é a grande encrenca da prestação de serviços. Você só sabe se o serviço é bom depois que recebe. Não dá pra ver antes, pra cheirar, experimentar, saber que peso tem, de que tamanho é... Precisa encomendar e torcer pra receber algo que preste.
Ou então se preparar para ouvir um...
- Foi mal!
Pois o ouvinte Caio Márcio Rodrigues manda uma ideia deliciosa que, se não é a solução, ao menos nos daria um saborzinho de vingança contra a turma do “foi mal”: o Real Flutuante. Olha só, ele me escreveu assim:
“Outro dia, o dono da empresa que trocou o telhado de minha casa, ao terminar a labuta de uns 15 dias, tascou:
– Então, seu Caio, desculpe alguma coisa, tá?
– Ué, mas se você fez algo para se desculpar, vai lá e arruma, tá? ... Ainda dá tempo!
Não deu tempo: em vez de me pegar pelo braço e mostrar orgulhosamente sua obra, as qualidades, modo de usar, tecer comparações entre o prometido e o realizado, ele entrou no carro e se mandou. Aí fiquei pensando: já ouvi essa frase algumas vezes nos últimos tempos. Parece que ela está ficando comum. No Brasil, em vez de fazer o serviço direito, o sujeito faz de qualquer jeito e então pede desculpas por alguma coisa.
Pensei em propor ao Banco Central a criação de uma moeda flexível: um Real que valesse mais ou menos, conforme a qualidade do serviço que estamos pagando. Essa moeda de escala flexível funcionaria assim: um serviço impecável você pagaria com um Real "A" bom, firme. Um serviço mais ou menos você pagaria com o Real "B" roto, com o qual só dá para comprar metade das coisas. Seria legal, não? A moeda correspondendo à qualidade do serviço prestado.”
Que tal? Genial a proposta do Caio, não é? Você já pensou na cara do sujeito?
– Pô, seu Luciano, mas o senhor me pagou com o Real de merda!
– Ô, vai desculpando aí... Foi mal...
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Num cafezinho anterior eu falava da entropia, o processo universal de deterioração de todos os sistemas naturais ou feitos pelo homem. E dizia que a única coisa que podemos fazer é cuidar da manutenção dos sistemas para controlar a velocidade da deterioração.
O problema é quando a entropia ataca os processos sociais e morais. Precisa de gente capaz de perceber o problema e com coragem para apertar o botão de alarme acionando a equipe da manutenção.
Essa gente está aí,ó, do seu lado. Uma delas, com certeza, é você, que talvez nunca tenha considerado essa responsabilidade como o agente que abre os olhos da sociedade para o nível de degradação a que ela está chegando. E isso é até compreensível, viu?
Precisa de tempo. Coragem. Generosidade. Perseverança. Ah, e você pode dizer que não tem os conhecimentos necessários, né?
Pois saiba que a formação da gente capaz de perceber os sinais de entropia se dá por meio de umas besteiras aí que deixamos de lado: educação e cultura, que geram um olhar crítico, imune aos apelos comerciais da mídia e ao blábláblá dos marqueteiros e políticos.
E é então que se percebe o buraco em que estamos caindo. A gente olha em volta e só vê gente como a gente, desorientada, perdida... Aqui e ali surgem uns que parece, repare bem, parece que sabem o caminho. E a gente vai cegamente atrás. Para descobrir lá na frente que esses visionários também estavam perdidos.
Entropia precisa de manutenção, de consertar o que é possível, de aproveitar as partes boas e corrigir o que está errado. Desconfie de todos que aparecem dizendo pra você derrubar a casa, jogar tudo fora, sucatear as coisas e começar de novo, do zero. Esses aí devem estar tentando te vender alguma coisa, que provavelmente você não quer.
Não terceirize o papel de zelador de sua vida, de sua empresa, de sua cidade, do seu país. Não passe pelo lixo no chão, pela goteira, pela rachadura, como se não fosse problema seu. Grite, reclame, mostre sua indignação, aponte para o problema faça um escândalo!
Aperte o botão de alarme, pô!
Ele tá aí na sua cara. Tá escrito “enter” nele.
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