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Or


Adeus ao Sol
Thiago Lucarini
Quando as últimas palavras foram ditas
Todas as cores saíram de mim,
Pois era um adeus, e todo adeus é
Naturalmente sem cor, pois não bebe da alegria.
Palavra fria, feita de distância não escolhida e saudade.
De dentro ressoa o eco
De um mundo já passado,
Intocável e imutável,
Mas, quente, por nele existirem
Velhos sorrisos doados
Em tempos de inabalável Sol.
***
Música: https://www.purple-planet.com/
Mar de Aral
Thiago Lucarini
Lágrimas destituídas do sal
São águas quaisquer sob o Sol
Alheias ao que de mim
Faz parte daquele eu fulcral.
Meus olhos secos de sorrisos
São como o mar de Aral,
Roubado de si, transposto, tóxico,
Desértico e salino de feições e afeições.
Sou mar, morto.
Futuro de cinzas
Thiago Lucarini
Perdi tanto de mim
Que bem poderia ser outro.
Há tanto passado
Há tanto deixado
E nada feito sagrado.
A quem me achar, aviso:
Continuo me desfazendo
Na marcha insidiosa do dia
E na calma velada da noite.
Sorrateiro e incansável
Reconstruo e adio brevemente
Meu inevitável futuro de cinzas.
Vida de cão
Thiago Lucarini
Sem orgulho
E de barriga vazia
Eu te procuro
Como um cão
Atrás de restos de comida.
Sou cão que sabe dos riscos
Da vida descartada e vencida
Mas que prefere a disenteria,
A morrer de solidão.
Tromba d’água
Thiago Lucarini
Quando as nuvens brigam
Há conhecida tempestade.
Eu quando brigo
Há silêncio, pois
Abrigo no invisível de mim
Meus raios e trovões,
Toda água não dita.
E assim, aos poucos
Vou escurecendo.
Sem mudança de tempo.
Uma vez que ainda não aprendi
A chover sem me desfazer.
Resquícios de afogamentos
Thiago Lucarini
Cercado, eu flutuo
Mesmo em águas rasas.
Por toda parte há resquícios
De severos afogamentos,
Por isso, não mais me arrisco
Nas intenções das profundezas.
Na ilusão vagueio, flutuo
Querendo não sentir,
Mas terrivelmente eu sei
Que mesmo na superfície,
Na menor das coisas,
Ainda posso perder o ar.
Pactos rompidos
Thiago Lucarini
Sou assombrado por ausências.
Olho para lugares
Onde deveriam estar sensações,
Mas só encontro fantasmas,
Arrepios e o vazio nas mãos.
Sou cheio de pactos rompidos
E é horrível que não se possa
Exorcizar tantas ausências
Com um pouco de nada.
Lázaros
Thiago Lucarini
Minta pra mim enquanto é tempo,
Talvez assim, eu acredite
Que de alguma forma divina
Nós possamos continuar
Frente a um milagre inesperado
Além de algumas sensações esquecidas,
De algumas emoções secas e vazias,
De um coração que já não bate.
Minta pra mim, e talvez, eu creia
Na vida após a morte.
Minta pra mim
E assim, nós seremos Lázaros.
Celas
Thiago Lucarini
Tenho tantas celas dentro de mim
Que me fiz prisão sem perceber,
E agora, quando olho para fora
Já não sei como ser livre.
Toda grandeza me assusta,
E se, por acaso, acho
A chave da minha liberdade
Eu a jogo fora.
Newton
Thiago Lucarini
Relativo ao meu sofrer
Orbitar é cair nunca seguir
Maior gravidade é não ter.
Proporcional ao tamanho dos corações que amam
(o meu inchado de ausência sem centro)
E inversamente ao quadrado da distância entre nós
(pois quem ama distorce o outro pra melhor)
Orbito no campo da vasta ilusão
Caindo sempre rumo a sua direção
(encontrando maior força de repulsão)
Meu amor é física experimental sem luz
(a consciência de um pecado sem liberdade só solidão)
Guiado por tempos viciosos em espaços restritos
Gerado por infinitos erros de uma vida sem ciência.
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