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Or


Cemitério dos infinitos
Thiago Lucarini
Existem sentimentos
Que são eternos, pois estão
Enterrados na carne do dia.
Ás vezes, eles passam despercebidos
Devido ao silêncio no tempo e das palavras,
Mas basta revirar um pouco a terra
Para poder ver suas faces brancas
Nuas nunca completamente dissolutas
À espreita
Quase vivas
Quase mortas
Eternas.
Eco geométrico
Thiago Lucarini
Dentro desta casa há ecos
Dos pensamentos que eu alicerço.
As paredes revestidas de solidão e cal
Têm resquícios de lágrimas, fraturas de sal
No seu firmamento, com pernas fracas
Minha casa é frágil e sem sustentação.
Jazem aqui pensamentos outrora inocentes
E na brancura urram diante do reflexo
No eterno eco geométrico que eivou
A pureza de um anjo desfeito na queda.
***
Música: https://www.purple-planet.com/
Casa assombrada
Thiago Lucarini
Nesta casa assombrada
Grito com os meus fantasmas.
Cansei dos sustos escondidos
Nos cantos tristes da minha vida.
Assepsia, eu retiro as teias de aranha,
E todo o cinza coalhado da alvenaria.
Removo os escombros dos olhos
É tempo de expor o medonho à luz
E dar às minhas assombrações
A clareza que me negaram.
Lavanda
Thiago Lucarini
Os lençóis ainda têm o cheiro de lavanda
Retido nos poros macios da sua ausência.
É uma fragrância frágil que me rouba, já que não sou forte nas noites, e que me faz regar
As flores bordadas, fazendo-as exalar a falta de um jardim em mim.
Levanto-me como uma abelha sem ferrão e voo baixo pelo quarto, abraçado a lençóis de lavanda,
Envolto em flores falsas, velando por um amor que nunca mais terei.
Enterro de um amigo
Thiago Lucarini
A pá se atirou sobre o caixão
Em busca da cálida e calejada mão
Que pelo seu corpo tanto andou.
Eram cúmplices na diária missão.
Em função, porém inconformada
A pá jogou o último punhado
De terra barata sobre o perdido.
Chorou a pá o pó
Secas lágrimas vermelhas
Nem uma rosa rubra pôde comprar.
A pá no sacrilégio do ofício
Enterrou seu velho amigo, clichê
Morreu num dia de chuva, o coveiro.
O homem que banha o morto
Thiago Lucarini
O que pensa o homem que banha o morto?
O que pensa o morto que é banhado pelo homem?
Que segredos trocam? Que palavras compartilham?
Precisa o morto de tamanha vaidade?
Ser limpo e vestido com tamanha elegância?
(Será tudo isso coisa do homem, do morto
Ou pura exigência da fria sepultura?!)
Sepultura que só guarda em teu útero estéril
Coisas limpas e bem vestidas, afinal, dela
Não nasce nada, nem morto nem alma.
Não importa a razão final das coisas
Tudo é cíclico, hoje, o homem vivo
Banha o morto do momento, daqui a pouco,
Será outro morto, depois, o homem que banha
Será o próprio morto e outro homem vivo o banhará.
À mesa
Thiago Lucarini
A partir dos deslizes ingratos da tristeza
Enfeites translúcidos pingam sobre a mesa.
Rolam mundos e incertezas, mudos,
Escavados de um interno tempo nublado.
Dos méritos vencidos
Ao elo de afeto rompido
A borda da mesa é precipício.
Os olhos naufragam no rosto
À medida que a dor se agrava.
Dedos tontos brincam de Caronte, e conduzem
Os talheres a uma felicidade jamais alcançada.
São pedaços de metais limpos, sem norte e com fome,
São gôndolas vazias numa Veneza seca,
Pois não há qualquer intenção de se pôr a mesa.
Nos pratos nus das mãos côncavas em junção
Só há o choro desgostoso para maldita refeição.
***
Música: https://www.purple-planet.com/
Lithium
Thiago Lucarini
Tomo estes comprimidos
Farsantes coloridos, antidepressivos,
Como uma galinha se afogando em milho.
A solidão acende sua chama
No quarto vazio
Deste tolo, triste e sozinho.
Tudo em mim chora a perda
De quem se foi para nunca mais voltar.
O lençol é meu fantasma particular,
Não há assombro maior que não amar,
O travesseiro oferta descanso
Ás lágrimas cansadas de caírem.
Resta-me melancolia
Pseudo-felicidade em pílulas.
***
Música: https://www.purple-planet.com/
Último café
Thiago Lucarini
É tarde para um último café
O líquido quente esfriou no bule.
Xícaras tristes choram seus torrões de açúcar perdidos,
Solitárias, cada qual, em seu pires é levada à derrocada,
Naufragam nas mãos bêbadas dos avessos apaixonados
Com uma mesa que se faz um mar de distância entre si.
Começa a chover lá fora de mim
Enchendo as xícaras pálidas de água límpida.
O café esfriou no coração, desova de amor,
Depõem-se as xícaras e as lágrimas no cais de porcelana,
Pois é tarde para um último café
E cedo demais para se afogar.
***
Música: https://www.purple-planet.com/
Ausência de roupa
Thiago Lucarini
Feito uma roupa velha, às vezes,
Pego um amor passado e o visto.
Sempre sozinho, não ouso torná-lo
Público às lágrimas em mim.
E numa prova de resultado antes já achado,
Eu tento desamassar amarguras,
Remendar buracos deixados pelo descaso,
Em vão, atar botões feitos de ausência.
A roupa velha traz ao corpo
Um novo abraço de último adeus,
Que não serve nem aquece, mas fere, e assim,
É posta de volta na gaveta escura do coração.
***
Música: https://www.purple-planet.com/
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