Cemitério dos Infinitos

Cemitério dos Infinitos

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Cemitério dos Infinitos episodes

  • Poesia 12 - Cemitério dos infinitos

    Cemitério dos infinitos

    Thiago Lucarini


    Existem sentimentos

    Que são eternos, pois estão

    Enterrados na carne do dia.

    Ás vezes, eles passam despercebidos

    Devido ao silêncio no tempo e das palavras,

    Mas basta revirar um pouco a terra

    Para poder ver suas faces brancas

    Nuas nunca completamente dissolutas

    À espreita

    Quase vivas

    Quase mortas

    Eternas.

    1 min
  • Poesia 11 - Eco geométrico

    Eco geométrico

    Thiago Lucarini


    Dentro desta casa há ecos

    Dos pensamentos que eu alicerço.

    As paredes revestidas de solidão e cal

    Têm resquícios de lágrimas, fraturas de sal

    No seu firmamento, com pernas fracas

    Minha casa é frágil e sem sustentação.

    Jazem aqui pensamentos outrora inocentes

    E na brancura urram diante do reflexo

    No eterno eco geométrico que eivou

    A pureza de um anjo desfeito na queda.

    ***

    Música: https://www.purple-planet.com/

    1 min
  • Poesia 10 - Casa assombrada

    Casa assombrada

    Thiago Lucarini


    Nesta casa assombrada

    Grito com os meus fantasmas.

    Cansei dos sustos escondidos

    Nos cantos tristes da minha vida.

    Assepsia, eu retiro as teias de aranha,

    E todo o cinza coalhado da alvenaria.

    Removo os escombros dos olhos

    É tempo de expor o medonho à luz

    E dar às minhas assombrações

    A clareza que me negaram.

    1 min
  • Poesia 09 - Lavanda

    Lavanda

    Thiago Lucarini


    Os lençóis ainda têm o cheiro de lavanda

    Retido nos poros macios da sua ausência.

    É uma fragrância frágil que me rouba, já que não sou forte nas noites, e que me faz regar

    As flores bordadas, fazendo-as exalar a falta de um jardim em mim.

    Levanto-me como uma abelha sem ferrão e voo baixo pelo quarto, abraçado a lençóis de lavanda,

    Envolto em flores falsas, velando por um amor que nunca mais terei.

    1 min
  • Poesia 08 - Enterro de um amigo

    Enterro de um amigo

    Thiago Lucarini


    A pá se atirou sobre o caixão

    Em busca da cálida e calejada mão

    Que pelo seu corpo tanto andou.

    Eram cúmplices na diária missão.

    Em função, porém inconformada

    A pá jogou o último punhado

    De terra barata sobre o perdido.

    Chorou a pá o pó

    Secas lágrimas vermelhas

    Nem uma rosa rubra pôde comprar.

    A pá no sacrilégio do ofício

    Enterrou seu velho amigo, clichê

    Morreu num dia de chuva, o coveiro.

    1 min
  • Poesia 07 - O homem que banha o morto

    O homem que banha o morto

    Thiago Lucarini


    O que pensa o homem que banha o morto?

    O que pensa o morto que é banhado pelo homem?

    Que segredos trocam? Que palavras compartilham?

    Precisa o morto de tamanha vaidade?

    Ser limpo e vestido com tamanha elegância?

    (Será tudo isso coisa do homem, do morto

    Ou pura exigência da fria sepultura?!)

    Sepultura que só guarda em teu útero estéril

    Coisas limpas e bem vestidas, afinal, dela

    Não nasce nada, nem morto nem alma.

    Não importa a razão final das coisas

    Tudo é cíclico, hoje, o homem vivo

    Banha o morto do momento, daqui a pouco,

    Será outro morto, depois, o homem que banha

    Será o próprio morto e outro homem vivo o banhará.

    1 min
  • Poesia 06 - À mesa

    À mesa

    Thiago Lucarini


    A partir dos deslizes ingratos da tristeza

    Enfeites translúcidos pingam sobre a mesa.

    Rolam mundos e incertezas, mudos,

    Escavados de um interno tempo nublado.

    Dos méritos vencidos

    Ao elo de afeto rompido

    A borda da mesa é precipício.

    Os olhos naufragam no rosto

    À medida que a dor se agrava.

    Dedos tontos brincam de Caronte, e conduzem

    Os talheres a uma felicidade jamais alcançada.

    São pedaços de metais limpos, sem norte e com fome,

    São gôndolas vazias numa Veneza seca,

    Pois não há qualquer intenção de se pôr a mesa.

    Nos pratos nus das mãos côncavas em junção

    Só há o choro desgostoso para maldita refeição.

    ***

    Música: https://www.purple-planet.com/

    2 min
  • Poesia 05 - Lithium

    Lithium

    Thiago Lucarini


    Tomo estes comprimidos

    Farsantes coloridos, antidepressivos,

    Como uma galinha se afogando em milho.

    A solidão acende sua chama

    No quarto vazio

    Deste tolo, triste e sozinho.

    Tudo em mim chora a perda

    De quem se foi para nunca mais voltar.

    O lençol é meu fantasma particular,

    Não há assombro maior que não amar,

    O travesseiro oferta descanso

    Ás lágrimas cansadas de caírem.

    Resta-me melancolia

    Pseudo-felicidade em pílulas.

    ***

    Música: https://www.purple-planet.com/

    1 min
  • Poesia 04 - Último café

    Último café

    Thiago Lucarini


    É tarde para um último café

    O líquido quente esfriou no bule.

    Xícaras tristes choram seus torrões de açúcar perdidos,

    Solitárias, cada qual, em seu pires é levada à derrocada,

    Naufragam nas mãos bêbadas dos avessos apaixonados

    Com uma mesa que se faz um mar de distância entre si.

    Começa a chover lá fora de mim

    Enchendo as xícaras pálidas de água límpida.

    O café esfriou no coração, desova de amor,

    Depõem-se as xícaras e as lágrimas no cais de porcelana,

    Pois é tarde para um último café

    E cedo demais para se afogar.

    ***

    Música: https://www.purple-planet.com/

    1 min
  • Poesia 03 - Ausência de roupa

    Ausência de roupa

    Thiago Lucarini


    Feito uma roupa velha, às vezes,

    Pego um amor passado e o visto.

    Sempre sozinho, não ouso torná-lo

    Público às lágrimas em mim.

    E numa prova de resultado antes já achado,

    Eu tento desamassar amarguras,

    Remendar buracos deixados pelo descaso,

    Em vão, atar botões feitos de ausência.

    A roupa velha traz ao corpo

    Um novo abraço de último adeus,

    Que não serve nem aquece, mas fere, e assim,

    É posta de volta na gaveta escura do coração.

    ***

    Música: https://www.purple-planet.com/

    1 min

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Um podcast de poesias melancólicas e de somenos, dificilmente, você achará aqui um amor correspondido. Eu falo muito de laços perdidos, esperanças nunca alcançadas, fantasmas do passado, traumas. O Cemitério dos Infinitos é o meu autorretrato lírico, desbotado. Todas as obras poéticas apresentadas são originais de Thiago Lucarini.