Cemitério dos Infinitos

Cemitério dos Infinitos

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Cemitério dos Infinitos episodes

  • Poesia 32 - Ontem

    Ontem

    Thiago Lucarini


    Volto mais vezes do que gostaria

    Às lembranças que foram nossas.

    Desfeitas de nós as horas de agora

    São solitárias, em casa não há riso

    Fácil, o tempo está sempre fechado.

    Busco fuga daquilo que sinto, e assim,

    Fico repetindo o passado, o antes,

    Na esperança de acordar ontem,

    Onde o sol morava ao meu lado.

    1 min
  • Poesia 31 - Cádaver

    Cadáver

    Thiago Lucarini


    Como um coveiro avesso,

    Às vezes, eu brinco de te desenterrar

    Apenas para saber qual seu estado

    Dentro de mim, depois de tanto tempo passado.

    Encaro o cadáver sem vida, frio,

    E percebo que não é muito diferente

    De quando andava ao meu lado.

    1 min
  • Poesia 30 - Verdade exposta à mesa

    Verdade exposta à mesa

    Thiago Lucarini


    No prato branco de amores

    Repousam os restos obsoletos

    Das minhas verdades expostas.

    Intragáveis permanecem neste mar flutuante,

    Branco insensível, que não alimenta, nem causa coma,

    Mas provoca fome ferrenha ferida e dolorosa.

    Olho a cena posta no prato, cadáveres tão falhos.

    Corto pequenos pedaços ultrajados embalsamados em lágrimas

    Só eu posso engolir estas verdades preparadas, magras e amargas.

    ***

    Música: https://www.purple-planet.com/

    1 min
  • Poesia 29 - Afogados

    Afogados

    Thiago Lucarini


    Esqueça o que eu disse,

    Pois era noite no céu da minha boca,

    Noite de temporal quando a língua

    Revolta-se feito mar e acaba por machucar

    Com ondas de palavras sem qualquer ar

    Vindas do fundo, de um mundo escuro,

    Por favor, esqueça o que eu disse

    Se eu não te afoguei.

    1 min
  • Poesia 28 - Rigor Mortis

    Rigor Mortis

    Thiago Lucarini


    Sou de um tempo

    Onde a carne é mais mole

    A preguiça e o tédio são mais presentes.

    Nascemos cozidos, tenros e insossos

    Não endurecemos as linhas da luz

    Somos terra quase infértil

    De poucas intempéries,

    Nossas plantas são rasteiras

    Precisam de apoio baixo,

    Pois têm a languidez de crescer pro alto.

    Este tempo ocioso gera carne mole

    Gado de fácil abate

    Sequer temos na morte

    Rigor mortis, afinal

    Não houve em tempo algum

    Rigor qualquer.

    1 min
  • Poesia 27 - Fim de tarde

    Fim de tarde

    Thiago Lucarini


    As construções da cidade

    Bebem da tua silenciosa asfixia.

    Nas cores evanescentes do crepúsculo

    Tentam achar prometida calmaria,

    Pois almejam dormir no embalo

    Do calor das lâmpadas de mercúrio,

    Recolher as falanges de concreto

    Que tentam em vão arranhar o céu indiferente por ter verdadeiras estrelas.

    O trânsito virulento cala-se aos poucos

    As pessoas cansadas vão para suas casas.

    A lua e as estrelas se levantam no eterno

    E as construções da cidade no fim de tarde,

    Assim como os peixes, embalam seus sonhos

    De olhos arregalados, incapazes de dormir.

    1 min
  • Poesia 26 - Fora do Éden

    Fora do Éden

    Thiago Lucarini


    Fui posto fora do Éden

    Quando me deixaste.

    Tive minha queda decisória,

    Tive a dissociação e dissolução

    Desta alma una de amor

    E da forma sólida deste coração.

    Perdi meu Deus soberano

    E percebi que um deus fabricado

    Não opera milagres

    Apenas produz as vontades

    Daquele que o criou

    Em sua crença infantil

    Sem qualquer simetria.

    Este não passando nunca

    De um ridículo fósforo-sol,

    Farol de míseros segundos

    Que não salva do precipício.

    Perdi-me de Deus. Vaguei

    No sal das lágrimas de prata fria,

    Pois demônios de falsa vulgata

    Comeram as raízes de vidro da minha

    Árvore da Ciência do Bem e do Mal

    Não tive sua sombra nem seu alívio

    Nem seu fruto de doce pecado, guardado

    Latejante e febril pouco abaixo do umbigo.

    Restou-me somente a incitante

    Serpente ao meu lado vago

    E a sabedoria dos passos solitários.

    Ao estar com esta alma longe, tão longe

    Da unidade deste ser Todo-Poderoso Amor

    Pereço. Padeço. Ando em busca de uma

    Nova crença, tentando achar uma ideologia

    Própria, mais poderosa e justa, que não fabrique

    Cacos, tristes corações quebrados e espalhados.

    Talvez assim, abrace-me a onisciente, Verdade.

    Agora que me fecharam as portas do Éden

    Em último fiasco de vã tentativa eu rolarei

    Na lama santa da Parusia onírica da apoteose

    Apocalíptica da solidão eterna que se abre

    Num ato tão somente dramático e sem anunciação.

    Erguem-se as fundações, as barras de ferro desta prisão,

    Desta gaiola aberta, porém sem fuga, inferno da carne.

    3 min
  • Poesia 25 - Imagético das eternidades

    Imagético das eternidades

    Thiago Lucarini


    Há algumas eternidades, das quais,

    Não devemos nunca falar

    Deixar de lado estas horas líquidas passadas

    Depostas pelos relógios e atiradas goela abaixo.

    Há um botão de roupa perdido

    Há um botão de rosa ferido

    Há o meu coração partido.

    1 min
  • Poesia 24 - A graça do rei

    A graça do rei

    Thiago Lucarini


    O dia passa.

    Quem é o rei das horas?

    Das facas? Da graça? Do meu coração partido?

    Que coroa tenho eu? Que pedaço de dádiva?

    Como afiar meus dentes de enfeitado leão e rugir?

    Como colar as feridas da guerra sem provocar

    Uma dor imensamente maior ao filhote que sou?

    Tenho um trono vazio, uma sarjeta preenchida,

    Desgraça adquirida e uma faca para corte final.

    Sou rei escravo do povo

    Sou rei sem carne só osso

    Sou rei deposto por mim antes de outro.

    1 min
  • Poesia 23 - Estado frio

    Estado frio

    Thiago Lucarini


    Estamos num período

    Onde os mortos não valem

    Sua última roupa

    E vão à sepultura nus,

    Mas vestidos de um tempo cruel.

    Vão-se os mortos despidos

    De dignidade, de empatia, dos seus.

    E cá estamos nós de pele exposta

    Também sem perceber a nossa nudez.

    1 min

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Um podcast de poesias melancólicas e de somenos, dificilmente, você achará aqui um amor correspondido. Eu falo muito de laços perdidos, esperanças nunca alcançadas, fantasmas do passado, traumas. O Cemitério dos Infinitos é o meu autorretrato lírico, desbotado. Todas as obras poéticas apresentadas são originais de Thiago Lucarini.