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Ontem
Thiago Lucarini
Volto mais vezes do que gostaria
Às lembranças que foram nossas.
Desfeitas de nós as horas de agora
São solitárias, em casa não há riso
Fácil, o tempo está sempre fechado.
Busco fuga daquilo que sinto, e assim,
Fico repetindo o passado, o antes,
Na esperança de acordar ontem,
Cadáver
Thiago Lucarini
Como um coveiro avesso,
Às vezes, eu brinco de te desenterrar
Apenas para saber qual seu estado
Dentro de mim, depois de tanto tempo passado.
Encaro o cadáver sem vida, frio,
E percebo que não é muito diferente
De quando andava ao meu lado.
Verdade exposta à mesa
Thiago Lucarini
No prato branco de amores
Repousam os restos obsoletos
Das minhas verdades expostas.
Intragáveis permanecem neste mar flutuante,
Branco insensível, que não alimenta, nem causa coma,
Mas provoca fome ferrenha ferida e dolorosa.
Olho a cena posta no prato, cadáveres tão falhos.
Corto pequenos pedaços ultrajados embalsamados em lágrimas
Só eu posso engolir estas verdades preparadas, magras e amargas.
***
Música: https://www.purple-planet.com/
Afogados
Thiago Lucarini
Esqueça o que eu disse,
Pois era noite no céu da minha boca,
Noite de temporal quando a língua
Revolta-se feito mar e acaba por machucar
Com ondas de palavras sem qualquer ar
Vindas do fundo, de um mundo escuro,
Por favor, esqueça o que eu disse
Se eu não te afoguei.
Rigor Mortis
Thiago Lucarini
Sou de um tempo
Onde a carne é mais mole
A preguiça e o tédio são mais presentes.
Nascemos cozidos, tenros e insossos
Não endurecemos as linhas da luz
Somos terra quase infértil
De poucas intempéries,
Nossas plantas são rasteiras
Precisam de apoio baixo,
Pois têm a languidez de crescer pro alto.
Este tempo ocioso gera carne mole
Gado de fácil abate
Sequer temos na morte
Rigor mortis, afinal
Não houve em tempo algum
Rigor qualquer.
Fim de tarde
Thiago Lucarini
As construções da cidade
Bebem da tua silenciosa asfixia.
Nas cores evanescentes do crepúsculo
Tentam achar prometida calmaria,
Pois almejam dormir no embalo
Do calor das lâmpadas de mercúrio,
Recolher as falanges de concreto
Que tentam em vão arranhar o céu indiferente por ter verdadeiras estrelas.
O trânsito virulento cala-se aos poucos
As pessoas cansadas vão para suas casas.
A lua e as estrelas se levantam no eterno
E as construções da cidade no fim de tarde,
Assim como os peixes, embalam seus sonhos
De olhos arregalados, incapazes de dormir.
Fora do Éden
Thiago Lucarini
Fui posto fora do Éden
Quando me deixaste.
Tive minha queda decisória,
Tive a dissociação e dissolução
Desta alma una de amor
E da forma sólida deste coração.
Perdi meu Deus soberano
E percebi que um deus fabricado
Não opera milagres
Apenas produz as vontades
Daquele que o criou
Em sua crença infantil
Sem qualquer simetria.
Este não passando nunca
De um ridículo fósforo-sol,
Farol de míseros segundos
Que não salva do precipício.
Perdi-me de Deus. Vaguei
No sal das lágrimas de prata fria,
Pois demônios de falsa vulgata
Comeram as raízes de vidro da minha
Árvore da Ciência do Bem e do Mal
Não tive sua sombra nem seu alívio
Nem seu fruto de doce pecado, guardado
Latejante e febril pouco abaixo do umbigo.
Restou-me somente a incitante
Serpente ao meu lado vago
E a sabedoria dos passos solitários.
Ao estar com esta alma longe, tão longe
Da unidade deste ser Todo-Poderoso Amor
Pereço. Padeço. Ando em busca de uma
Nova crença, tentando achar uma ideologia
Própria, mais poderosa e justa, que não fabrique
Cacos, tristes corações quebrados e espalhados.
Talvez assim, abrace-me a onisciente, Verdade.
Agora que me fecharam as portas do Éden
Em último fiasco de vã tentativa eu rolarei
Na lama santa da Parusia onírica da apoteose
Apocalíptica da solidão eterna que se abre
Num ato tão somente dramático e sem anunciação.
Erguem-se as fundações, as barras de ferro desta prisão,
Desta gaiola aberta, porém sem fuga, inferno da carne.
Imagético das eternidades
Thiago Lucarini
Há algumas eternidades, das quais,
Não devemos nunca falar
Deixar de lado estas horas líquidas passadas
Depostas pelos relógios e atiradas goela abaixo.
Há um botão de roupa perdido
Há um botão de rosa ferido
Há o meu coração partido.
A graça do rei
Thiago Lucarini
O dia passa.
Quem é o rei das horas?
Das facas? Da graça? Do meu coração partido?
Que coroa tenho eu? Que pedaço de dádiva?
Como afiar meus dentes de enfeitado leão e rugir?
Como colar as feridas da guerra sem provocar
Uma dor imensamente maior ao filhote que sou?
Tenho um trono vazio, uma sarjeta preenchida,
Desgraça adquirida e uma faca para corte final.
Sou rei escravo do povo
Sou rei sem carne só osso
Sou rei deposto por mim antes de outro.
Estado frio
Thiago Lucarini
Estamos num período
Onde os mortos não valem
Sua última roupa
E vão à sepultura nus,
Mas vestidos de um tempo cruel.
Vão-se os mortos despidos
De dignidade, de empatia, dos seus.
E cá estamos nós de pele exposta
Também sem perceber a nossa nudez.
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