Numa referência à ressurreição empreendida por La Loba, lemos aqui "O Amor", um poema de Vladimir Maiakóvski. La Loba, a Mulher Selvagem, a Velha La que Sabé, que vai habitando nossa psique, a cada ossada de lobos que monta, ressuscita-os, cantando, como faz com a mulher que foi deixada para morrer no deserto; esta mulher que representa cada uma de nós, nas muitas travessias do nosso processo de iniciação. "O amor"
"Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo, a mãe, pelo menos a Terra." Vladimir Maiakóvski (1923).. {tradução de Haroldo de Campos}. do livro “Poemas de Maiakóvski”. [tradução, notas e organização de Boris Schnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos]. São Paulo: Editora Perspectiva, 9ª ed., 2013.