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Este domingo, 25 de Outubro, os brasileiros vão às urnas para escolher entre Lula da Silva, que procura um quarto mandato presidencial, e o senador Flávio Bolsonaro, filho do antigo Presidente Jair Bolsonaro, num clima de forte polarização. O resultado poderá ter repercussões que vão muito além das fronteiras do país, influenciando as relações Brasil com os Estados Unidos, a China e a União Europeia, e o futuro de uma das maiores economias mundiais, rica em recursos naturais estratégicos.
Este domingo, 25 de Outubro, os brasileiros vão escolher o seu próximo Presidente. A escolha é entre o Presidente cessante, Luiz Inácio Lula da Silva, que quer um quarto mandato e o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro, que está preso por tentativa de golpe de Estado, após as eleições presidenciais de 2022.
Os resultados da primeira volta revelaram uma forte polarização: o senador ficou em primeiro lugar, com 47% dos votos, e o actual presidente em segundo, com 45%. As sondagens mais recentes apontam para um empate técnico, com os dois candidatos separados por apenas um ponto percentual.
Todo o mundo tem os olhos postos neste sufrágio. O Brasil é a segunda maior democracia do continente americano, a seguir aos Estados Unidos, e uma das maiores economias do mundo. Os seus recursos naturais, nomeadamente os materiais críticos, de que o Brasil tem a segunda maior reserva, são essenciais para a tecnologia, a defesa e a transição energética.
Do ponto de vista geopolítico, estas eleições podem ser vistas como uma escolha entre o multilateralismo e a proximidade com a China e a União Europeia, que Lula da Silva representa, ou uma maior aproximação aos Estados Unidos e ao Presidente Donald Trump.
Monica de Bolle, economista, professora na Universidade de Georgetown, em Washington D.C., e senior fellow do Peterson Institute for International Economics, explica o que está em jogo no sufrágio de domingo.
Monica de Bolle: "Em primeiro lugar, está em jogo a própria institucionalidade do Brasil, porque o candidato Flávio Bolsonaro já falou em alterar a Constituição e fazer mudanças na Suprema Corte e uma série de outras alterações institucionais que podem ser bem problemáticas para a democracia brasileira. Então, essa é uma grande coisa que está em jogo.
A segunda grande coisa que está em jogo é a própria economia, porque até aqui essa campanha tem sido uma campanha especialmente peculiar. Porque, de um modo geral, as medidas econômicas que o Brasil precisa e as discussões sobre economia que geralmente dominam campanhas eleitorais. Desta vez não foi assim, não houve qualquer discussão mais ampla e mais aprofundada sobre a economia. No primeiro turno, isso certamente não aconteceu. E agora, na reta final do segundo turno, começaram a aparecer algumas propostas, sobretudo do candidato Flávio Bolsonaro, já que o Presidente Lula, já se sabe mais ou menos o que ele pretende fazer. Mas o candidato Flávio Bolsonaro não, e nos últimos dias houve um debate, o primeiro debate presidencial no último domingo e desde então, dá uma certa confusão para tentar entender o que precisamente eles estão propondo fazer no plano da economia. Mas até aqui, o que surgiu nos últimos dias da campanha do senador Flávio Bolsonaro para a economia parece bastante irresponsável, porque o Brasil, nesse momento, está com uma dívida muito alta e as propostas do senador Flávio Bolsonaro são bastante populistas. Assim, envolvem gastos que o Brasil não tem como sustentar. Ele está falando em fazer um ajuste fiscal, mas esse ajuste fiscal não tem nenhum detalhamento. Então fica difícil de saber precisamente o que eles estão pretendendo fazer. Então, de um modo geral, a discussão econômica está muito ruim. Do lado de Lula também não há grandes propostas. E também existe um certo populismo e uma campanha repleta de demagogia para tudo que é lado.
E muitas coisas estão em jogo porque o Brasil está nessa situação complicada, tanto do ponto de vista doméstico quanto do ponto de vista externo. Lula e Flávio Bolsonaro representam propostas muito distintas em relação à política externa. No caso do Lula, seria a continuação de uma política externa que prioriza esse pragmatismo que o Brasil tem nas suas relações internacionais: uma espécie de multilateralismo pragmático, sendo que o Brasil engaja com todos os seus parceiros e não dá preferência a ninguém. Mas o Flávio Bolsonaro claramente defende um alinhamento mais forte com os Estados Unidos, dada a proximidade que existe entre a família e o governo Trump e a própria conexão que já existe entre membros da equipe do Flávio Bolsonaro e membros do, enfim, do em torno de Donald Trump aqui nos Estados Unidos.
Eu diria que são quase dois Brasis distintos: o Brasil governado por Flávio Bolsonaro vai ser completamente diferente de um Brasil governado pelo presidente Lula."
Está todo o mundo de olhos postos nas eleições do Brasil. Como explicar este interesse?
Monica de Bolle: "Eu acho que o interesse grande à volta dessas eleições são essencialmente três coisas.
A primeira delas é que o Brasil é a segunda maior democracia das Américas, os Estados Unidos é a maior. Então tem claramente uma preocupação já pelo tamanho do país, é uma economia muito grande. Então é uma economia que oferece muitas oportunidades para investidores estrangeiros e é um país que está cheio de recursos naturais que todo mundo quer. O Brasil tem muitas reservas de minerais críticos, tem o segundo maior depósito do mundo de terras raras, é o principal exportador de nióbio do mundo. O Brasil produz e exporta 90% do nióbio global, fundamental para a indústria de defesa, para aviões, para automóveis, é de facto um minério estratégico.
E os minerais críticos e as terras raras, que não precisa nem falar, não é? Isso aí está sendo utilizado para uma porção de coisas, inclusive para a própria , que para os outros parceiros do Brasil, sobretudo países europeus, sobretudo a União Europeia, com um alinhamento maior do Brasil com os Estados Unidos, a União Europeia fica um tanto sem espaço no mercado brasileiro. Ao contrário do que quer o Lula, ele pretende que o Brasil continue fazendo uma diversificação de mercados e tudo mais, justamente para não ficar tão espremido entre Estados Unidos e China, que é o que acontece. O que certamente aconteceria, imagino, num governo do Bolsonaro.
Então, tem muitas coisas em jogo: tem a democracia do Brasil, tem a disputa pelo mercado brasileiro e pelos recursos naturais, pelos minerais críticos e terras raras.
E aí tem também uma outra questão para além dessas, que é a questão ambiental, a Amazônia e tudo que envolve a transição verde e transição energética e tal que o governo Lula tem uma visão pró-transição energética pró-economia verde. E o Flávio Bolsonaro representa exactamente o contrário. É a mesma coisa que nós já vimos no Brasil durante o governo do pai dele. Então, há uma expectativa de que o Flávio Bolsonaro. Haveria um certo desmonte da legislação ambiental do Brasil. O que pode ter um impacto bem complicado no acordo que entrou em vigor, de forma provisória em Maio, entre a União Europeia e o Mercosul."
Vemos então que Lula da Silva prefere o multilateralismo, a relação com vários parceiros ao mesmo tempo, o Mercosul e uma maior proximidade com a China. Já Flávio Bolsonaro dará mais prioridade às relações com os Estados Unidos e com o Presidente Trump, podendo juntar-se à iniciativa “Escudo das Américas”, uma aliança entre países latino-americanos e os EUA para combater os cartéis. Mas, apesar da proximidade ideológica entre os novos dirigentes da direita latino-americana e Trump, não é certo que isso implique um afastamento da China. No Brasil também?
Monica de Bolle: "Eu acho que um Brasil governado pelo Flávio Bolsonaro não vai conseguir se afastar da China, acho que nem essa seria a intenção, porque a China está tão entranhada na economia brasileira, assim como está na Colômbia, assim como está na Argentina, assim como está no Peru, em vários países da região, que é impossível, ainda que se queira fazer uma espécie de alinhamento ideológico, econômico, político, geopolítico e tal. Esse alinhamento com os Estados Unidos ele tem limitações.
Agora, o que pode acontecer? Dada a preferência pelos Estados Unidos, isso abre menos espaço para outros parceiros do Brasil, então parceiros como a União Europeia, parceiros como eu estou pensando já no âmbito do Acordo dos Acordos com o Mercosul, além do acordo com a União Europeia. Todos esses acordos Mercosul e países da Europa contemplam regras e salvaguardas ambientais consideráveis. Eu tenho um certo temor de que, com o Flávio Bolsonaro na presidência e havendo um certo desmonte dessa legislação ambiental brasileira, que possa haver uma reviravolta nesses acordos, sendo o ainda o acordo Mercosul-União Europeia provisório. Então poderia haver um certo revés aí nessas relações e isso seria bastante prejudicial para todos, inclusive para o Brasil.
O que eu acho é que numa eventual presidência do Flávio Bolsonaro, embora não haja um cenário de afastamento do Brasil em relação à China, pode haver um afastamento do Brasil em relação a outros parceiros."
E olhando para o mapa político da América Latina, hoje muito inclinado para a direita radical e a extrema-direita, como aconteceu recentemente na Colômbia e no Perú, e sendo agora a maior democracia da região a ir a votos, como explicar esta viragem à direita?
Monica de Bolle: "Eu acho que essa virada é menos sólida do que parece, assim como de certa maneira foi a "Pink Tide". Porque não é que exista propriamente uma mudança completa de na sociedade, e nos valores. Eu acho que não é isso exactamente o que acontece, o que acontece é uma fadiga. Todos esses países, e nisso é muito parecido com o que a gente vê acontecendo no restante do mundo, e na Europa em particular, como com os protestos que a gente vê na França, por exemplo.
Acho que existe uma fadiga completa com governos que não conseguem entregar o que prometem. E no caso do Brasil, e aí eu acho que o Brasil é um pouquinho diferente dos outros. Quando eu digo aos outros, eu estou falando dos outros na América Latina especificamente, porque o Brasil, o Lula já no terceiro mandato dele. Então, essa fadiga da qual eu falo, ela é compreensível de várias maneiras, mas inclusive porque o próprio presidente Lula já foi presidente três vezes. Então, as pessoas estão de fato buscando alguma coisa diferente. Infelizmente, o sistema político brasileiro falhou, como tem falhado outros sistemas políticos mundo afora, mas falhou em apresentar candidatos de facto novos e, de facto, com novas propostas.
Porque o Lula, estando aí concorrendo à presidência pela quarta vez, não é uma novidade. E o Flávio Bolsonaro tampouco, porque ele, afinal de contas, representa uma linha de governo e uma linha de pensamento que já ocupou a Presidência da República no Brasil entre 2019 e 2022. Então, o caso brasileiro, eu acho, é um pouco diferente, por exemplo, do (Javier) Milei, na Argentina. O Milei da Argentina, de facto se apresentou como uma novidade e foi eleito por ser novidade. O mesmo vale para o (Abelardo) de la Espriella, na Colômbia, sendo que lá também foi uma eleição extremamente contestada e muito polarizada. No final, a gente viu também um segundo turno em que o candidato da esquerda, que era uma certa extrema-esquerda, é o candidato da extrema-direita. Ficaram cabeça a cabeça na contagem final de votos, então, a gente viu lá realmente uma uma divisão profunda. Eu acho que a história na América Latina é muito mais uma história de polarização mais aprofundada, do que uma história de 'ah, estão todos preferindo a extrema-direita.'"
Nas últimas semanas, uma onda de protestos percorreu a Europa. Em França, os estudantes saíram à rua contra a degradação do ensino e o aumento do custo de vida. Na Bélgica, em Itália e na Grécia, também eclodiram protestos. Em Portugal, as acampadas pelo direito à habitação inspiraram-se na que tive lugar em Madrid. De diferentes formas, estas mobilizações dão voz a um descontentamento crescente perante a precariedade e as dificuldades em garantir condições de vida dignas.
Nas últimas semanas, uma onda de manifestações percorreu a Europa. Em França, em meados de Setembro, estudantes do ensino secundário começaram a bloquear as suas escolas para exigir melhores condições de ensino. Os protestos alastraram a todo o país, e as mobilizações estudantis juntaram-se à luta contra o custo de vida. Em Itália, a juventude mobilizou-se sob o grito “Come la Francia”. Na Bélgica, os estudantes também saíram à rua a pedir mais meios para a educação. Na Grécia, foi a vez dos professores e dos funcionários públicos.
Em Portugal, as acampadas pelo direito à habitação começaram no Porto, no dia 10 de Outubro, e alargaram-se a Lisboa. Inspiram-se na ocupação da Puerta del Sol, em Madrid, que surgiu na sequência do despejo de uma madrilena de 87 anos, Maricarmen Abascal, e que reclama igualmente o acesso à habitação.
Esta vaga de protestos surge depois de um ano em que os jovens saíram à rua contra os seus governos em países como Marrocos, Nepal, Peru, Indonésia e Madagáscar.
Embora os contextos e as reivindicações sejam diferentes, a socióloga Cristina Nunes, da Universidade Lusófona, explica-nos o efeito de contágio entre todos estes movimentos.
Cristina Nunes: "Hoje em dia, a juventude atravessa problemas semelhantes em diferentes países do mundo. Já o ano passado, também tivemos uma onda bastante grande de protestos em países não europeus.
E, portanto, eu penso que há uma onda de contágio, porque em diferentes países do mundo, de facto, jovens vêm sem condições de trabalho, sem perspectivas de futuro.
Em Portugal, e também nalguns países da Europa, embora, claro que depois os problemas variam um pouco de país para país, vemos, que, hoje em dia o direito à habitação e esta reivindicação por ter uma habitação digna, independente dos pais, também, é uma das reivindicações mais comuns entre os jovens. Mas este é um problema que não diz respeito só aos jovens, porque também vimos pessoas de outras gerações que atravessam precisamente também este problema da habitação.
Mas sim, podemos falar de uma onda de contágio, até porque hoje em dia, também devido ao desenvolvimento das tecnologias de informação e de comunicação, estas ondas de protesto mimetizam-se muito mais facilmente do que antigamente. Se bem que antigamente já se propagavam também, começavam num país e depois também se estendia a outros países. Mas hoje em dia, claro que de facto, esta onda de contágio é mais fácil e mais rápida."
Vemos que muitos destes movimentos começaram, e são sustentados, pela juventude. Em França, por exemplo, foi a geração Z, nascida entre 1997 e 2012, que lançou os protestos; em Portugal, em média, os jovens só saem de casa dos pais perto dos 29 anos; na Índia, o “movimento das baratas” surgiu depois de o presidente do Supremo Tribunal ter qualificado os jovens desempregados de “parasitas” e “baratas”. Porque está a juventude em revolta?
Cristina Nunes: "Esta juventude está em revolta porque, de facto, é uma juventude bastante qualificada, sobretudo nos países da Europa. Hoje, a maior parte dos jovens têm uma educação superior e, depois de concluírem os seus estudos, vêem que de facto não tem futuro ou encontram empregos precários. Por exemplo, em Portugal, que não ganham mais de 1.000 €, isso obriga uma parte também da juventude a ter que emigrar. Portanto, vêem que muito provavelmente não vão viver com as mesmas condições que têm os seus pais ou os seus avós, apesar de serem mais qualificados e escolarizados, irão viver, portanto, em situações piores.
E eu penso que essa é a principal resposta dos jovens, porque chega a uma determinada fase da vida, ou seja, quando chegam ao início da vida adulta, depois de concluir em toda a sua escolaridade e de quererem ingressar no mercado de trabalho, vêem que de facto vão ficar na mesma e não conseguem sair de casa dos pais. Isto implica também tem repercussões em muitas outras esferas da vida. Se uma pessoa se não tem uma casa, muito dificilmente vai conseguir construir uma conjugalidade ou construir uma família. É o sonho de muitos jovens e de muita gente a partir de uma determinada idade. E isto depois afecta todo um conjunto de outras esferas da vida dos jovens e das pessoas.
Mas se nós pensarmos aqui em 2011, 2012, estas já eram algumas das reivindicações dos jovens aqui em Portugal. E também quando emergiram os protestos anti-austeridade, sobretudo no sul da Europa, e não tanto focadas no direito à habitação porque este problema, de facto, agudizou-se nos últimos anos, mas era já uma reivindicação dos jovens também não terem condições de vida dignas. Se conseguirem autonomizar aos pais e, portanto, não conseguirem também construir uma vida independente. Têm condições de trabalho precárias, instáveis.
Se pensarmos mais ou menos há dez ou quinze anos atrás, já era um problema comum, mas agudizou-se de facto, nos últimos anos, também devido a este problema da habitação. E portanto, eu penso que a revolta dos jovens tem a ver sobretudo com isso, tanto de verem que, de facto não têm grandes perspectivas de futuro.
Depois também há todo um conjunto de características que são inerentes à juventude, mais do que a outras gerações, a questão da radicalidade, do sonho, da utopia, também faz parte da categoria de se ser jovem ou da juventude. Essas características de reivindicação, de protesto, de uma certa radicalidade."
Nos protestos em França, o que começou como uma reivindicação em torno do estado das escolas secundárias estendeu-se às universidades, ao custo de vida, à oposição à extrema-direita, à exigência de acção perante a crise climática e até à causa palestiniana. Existe hoje uma convergência de lutas?
Cristina Nunes: "Sim, podemos falar numa convergência de lutas, mas eu penso que em cada país há um foco central. Mas essa convergência de lutas às vezes também leva a que haja divisões entre os movimento, e sempre aconteceu.
Por exemplo, em relação à causa palestina, eu lembro-me que também aqui, já quando foi os protestos anti-austeridade, também a causa da Palestina estava presente e por vezes havia divisões dentro dos movimentos porque uns queriam dar mais destaque a essa causa e outros diziam que estavam a fugir ao foco da luta, naquela altura era lutar contra a austeridade e contra a troika.
Eu penso que muito provavelmente isso também se deve passar hoje em dia. Quando olhamos para estes movimentos assim de uma forma superficial, parece nos que se calhar é uma massa homogênea de pessoas que têm todas as mesmas reivindicações. Mas depois fomos estudar aprofundadamente, vemos que há sempre diferentes facções ou diferentes grupos, que têm posições político-ideológicas diferentes e, por vezes, isso gera divisões internas.
A causa da Palestina até pode ser comum a todos os manifestantes que participam mais activamente nas manifestações, os activistas, que são aqueles que organizam, preparam as manifestações, as pessoas que estão, por exemplo, agora diariamente acampada, pode ser uma causa comum a todos."
Qual é o papel das redes sociais nestas mobilizações?
Cristina Nunes: "O papel das redes sociais é fundamental, para a propagação da informação e das manifestações. Hoje em dia, é isso que leva que uma manifestação seja organizada em Paris, e que, passado umas horas ou uns minutos, esteja a ser organizada pela mesma organização em Lisboa, ou em outras partes do mundo sob o mesmo mote. Ou seja, a informação propaga se mais facilmente. Também os activistas entre si têm um contacto mais permanente, mais frequente entre si, e activistas de diferentes partes do mundo e, às vezes, também de diferentes pontos do país. Isso faz com que as manifestações propagam-se muito mais facilmente.
A organização é muito mais simples do que era antigamente. Agora, se é mais sólida? Eu não sei. Mas, de facto, tem um papel fundamental na propagação da informação e até na adesão de pessoas que normalmente podem não participar tanto em manifestações ou em protestos. Portanto, hoje em dia a formação está muito mais acessível e a comunicação entre as pessoas é muito mais simples, rápida e fácil."
Penso também nos casos de alegadas violências policiais que têm circulado nas redes sociais. Qual é o efeito da propagação destas imagens na mobilização? Como é que a repressão e a criminalização dos protestos afectam a sua evolução?
Cristina Nunes: "Ah, pois também tem esse efeito. As pessoas verem episódios de violência ou de alegada violência policial, de não gostarem, de se solidarizarem com a causa.
Mas também temos outra questão nas redes sociais, que é o problema das fake news. Muitas vezes, as pessoas não verificam a informação que circula nas redes sociais. Por vezes podem estar a aderir a um evento ou a uma situação de forma falsa, digamos assim.
E muitas vezes as imagens que circulam nas redes sociais apelam precisamente às emoções e aos sentimentos e, têm esse efeito de pôr a nu certos eventos ou certas situações que se passaram. Mas há também sempre o problema da verificação da informação e das fake news, que nem toda a gente tem esse cuidado."
Existe o risco de estes movimentos serem apropriados por forças políticas? Penso nas imagens de pilhagens em França, que podem favorecer a extrema-direita, e na esquerda radical, acusada de instrumentalizar estes jovens.
Cristina Nunes: "Há sempre uma tentativa de os dos partidos políticos se aproximarem ou se distanciarem destes movimentos.
Falamos, por exemplo, destes movimentos da habitação, mais ligados a causas materialistas, normalmente são mais ligados à esquerda política e há sempre uma tentativa dos partidos políticos de esquerda de se aproximarem destes movimentos e de haver uma confluência entre militantes e activistas. Aqui em Portugal é muito comum. E por outro lado, de serem vistos de uma forma negativa pelos partidos mais à direita radical.
Há sempre uma tentativa de apropriação, e podemos dizer que, às vezes, de uma certa instrumentalização. Isto também afasta algumas pessoas de participarem nos movimentos sociais porque chegam e vêm as forças políticas, que tentam exercer um certo controlo e poder, e afastam-se, porque não se revêem nas direcções que os movimentos sociais e os protestos estão a tomar. Mas eu digo que essa "ligação", essa "aproximação" dos partidos face aos movimentos é quase que natural, digamos assim."
Se calhar será um pouco de futurologia, mas que cenários antevê para os próximos meses? Estes movimentos podem manter-se, transformar-se em força eleitoral ou desvanecer-se?
Cristina Nunes: "Os sociólogos não fazem futurologia (risos), explicam aquilo que está a acontecer, podem pensar analiticamente nalgumas tendências.
De facto, face aos movimentos sociais, é sempre um bocadinho imprevisível nós dizermos o que é que vai acontecer, porque os movimentos sociais não são organizações formais, são protestos que acontecem num determinado período de tempo e que nascem, crescem e morrem e depois vêm outros.
Passado algum tempo, é difícil de dizer o que é que vai acontecer nos próximos meses, mas eu penso que esta juventude não vai encontrar ou os governantes não vão encontrar tão cedo as soluções que satisfaçam às suas reivindicações.
E, portanto, eu penso que a curto e médio prazo estas manifestações vão continuar, e se calhar até se vão propagar por mais países. Como nós vimos o ano passado em muitos países não europeus, que aqui não se falou muito, aconteceram grandes ondas de contestação. Agora estamos a ver na Europa, mas, por exemplo, nos Estados Unidos e no Canadá, não de forma tão aguda, os jovens têm os mesmos problemas do que os jovens europeus, também têm dificuldade em sair de casa, encontrar a habitação.
Eu penso que muito provavelmente nos próximos meses vamos assistir a ondas de protestos maiores. Agora, quanto tempo é que vão demorar, ou quando é que vão acabar? Isso é mais difícil de responder, até porque os ganhos políticos dos movimentos, deste ou dos movimentos sociais (em geral), só se conseguem ver à posteriori, muitas vezes quando essas ondas de protestos já terminaram.
Mas eu penso que a questão da habitação era de facto uma discussão que já estava em cima da mesa, em termos de políticas públicas e de políticas sociais. Mas com estes movimentos de protesto em Portugal, a discussão tornou-se muito mais visível e mediática, constante em todos os meios de comunicação social nos últimos dias. Eu penso que pelo menos já tiveram esse ganho, digamos assim, de trazer a questão da habitação ainda mais para a discussão pública e política, mais do que aquilo que já se estava a discutir."
Em Portugal, a questão do acesso à habitação está a mobilizar camadas inteiras da sociedade. Em Lisboa e no Porto, organizaram-se acampadas e grupos de pessoas dormem em tendas para reivindicar mais soluções de habitação e melhores condições de acesso a um bem essencial, que não deveria beneficiar a especulação mas sim servir um direito básico: habitar. Uma investigação do jornal Público revela que os deputados que estão a mudar as leis da habitação em Portugal detêm mais de mil imóveis. Entretanto, mais de um quarto da população (26,7%) vive abaixo do limiar de pobreza depois de pagar renda, segundo dados da Eurostat.
O preço do imobiliario aumentou 180% em 10 anos, em Portugal, de acordo com dados da Eurostat, que indicam que esta foi a segunda maior subida na União Europeia (UE), depois da Hungria. Entretanto, uma investigação do jornal Público revelou que os 60 governantes portugueses possuem, juntos, 436 imóveis. Na mesma investigação, ficamos a saber os deputados que estão a mudar as leis da habitaçao em Portugal detêm mais de mil imóveis.
Nesta entrevista, convidamos o jornalista e membro da Vida Justa, Nuno Ramos de Almeida, a analisar os contornos da situação.
RFI: As dificuldades de acesso à habitação vêm-se arrastando há vários anos em Portugal, mas estão agora a eclodir e a motivar mobilizações e protestos. Porquê?
Nuno Ramos de Almeida: Acho que o facto de não ser recente não significa que não seja cumulativo. Isto é, que não haja por parte das pessoas uma situação de estarem sufocadas pela impossibilidade de terem acesso à habitação. O problema atinge a classe média, atinge a classe trabalhadora, atinge a classe trabalhadora das periferias e está se a tornar totalmente insuportável.
RFI: Em Lisboa, à conta da gentrificação e da invasão dos AirBnB's, desapareceram espaços lisboetas e outros estão no ponto morto como a praça do Martim Moniz, o quartel-geral da Graça a tornar-se em mais um hotel, ou ainda o largo do Intendente, onde fecharam o Sport Club, o café das Joanas...
Nuno Ramos de Almeida: O Café das Joanas já eram produto da gentrificação. Temos que nos recordar que o presidente da Câmara, na altura António Costa, que depois foi primeiro-ministro, e é actualmente presidente da Comissão Europeia, mudou a Câmara Municipal para o Intendente, prometendo que havia de nascer ali um bairro com novas populações. O que aconteceu foi que o Estado alienou todas as propriedades que havia nessa parte da cidade para hoteis e para habitação de luxo. Destruíu-se todo o espaço popular que existia nesse lado da cidade e posteriormente foram destruídas as instituições como as Joanas, como o Largo residências, como a Casa Independente que vai fechar. Estes sítios vieram na primeira fase do processo de gentrificação, dando um ar cool e cultural ao bairro e depois foram vítimas do seu próprio sucesso.
RFI: Como se explica esta forma de gerir a cidade em que coexistem duas dinâmicas: o aparecimento de hotéis em cada esquina e simultâneamente, espaços tão centrais como o largo do Intenendente e o Martim Moniz que estão a morrer?
Nuno Ramos de Almeida: Na realidade, é o mesmo mercado que faz funcionar isso. Por um lado, o mercado cria um processo de gentrificação e de especulação financeira. Torna as casas que são construídas apenas para os mais ricos. Porque é que as pessoas vão construir casas para 200.000 € se podem construir casas para estrangeiros ricos que as vão comprar por mais de 1 milhão?
E depois as outras zonas da cidade, [o mercado] torna-as degradadas para depois virem a ser novamente reconstruídas para habitação de luxo. É isso que está a acontecer e por isso é que há revoltas um pouco por toda a Europa. A habitação deixou de ser um bem para que as pessoas possam habitar e passou a ser uma reserva de valor, um activo especulativo para que os fundos possam investir.
Quando nós vemos que em Portugal, 25% das casas que foram construídas desde 2006 estão vazias, nós percebemos que para esses activos valorizarem do ponto de vista da especulação financeira, nem precisam ter gente lá dentro. Basta existirem. Vão subindo de preço e de valor. Portanto, temos que criar uma realidade social e política que volte a colocar a habitação para o seu objectivo social, que é dar habitação às pessoas.
RFI: O jornal Público revelou recentemente que os deputados que estão a mudar as leis da habitação em Portugal têm mais de 1.000 imóveis. Como é que isto é possível e legal?
Nuno Ramos de Almeida: Pois é uma boa pergunta. O mesmo artigo do jornal Público dizia que os governantes tinham 436 imóveis.
RFI: Os 60 governantes possuem 436 imóveis.
Nuno Ramos de Almeida: Sim, portanto, aquilo que acontece é que eles estão sempre a legislar em causa própria. Isto acontece com as medidas que tomaram, como aquelas de não haver cobrança de impostos no caso de os proprietários cobrarem rendas até 2.300 €. O salário mediano dos portugueses está muito abaixo desse valor. Portanto o problema é que estão a legislar sempre à vista dos ricos e dos que têm dinheiro.
É natural que o primeiro-ministro que possui 55 imóveis, tenha alguma dificuldade em perceber a necessidade de ser taxado. Não é uma realidade propriamente de Cuba e Venezuela. Existe essa realidade de taxação em França. Na Alemanha há essa taxação. Em Portugal existe de facto um mecanismo, mas está dependente das autarquias.
Temos 700.000 casas que estão devolutas. Mas, pelo que se percebe, do ponto de vista das estatísticas, apenas quase 10.000 casas é que estão a pagar o IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis). Portanto, não há nenhum incentivo para que as pessoas coloquem essas casas devolutas no mercado, sendo que os fundos especulativos podem continuar com elas vazias. Esta realidade só pode ser alterada com outro tipo de políticas, é preciso que haja uma intervenção do Estado. A nossa realidade é de não termos casas para as pessoas que trabalham. Recentemente saiu uma notícia também no Público, baseada num estudo que, depois de pagar a casa, 27% dos portugueses estão no limiar da pobreza.
RFI: Os deputados que estão a mudar as leis da habitação em Portugal detêm mais de 1.000 imóveis. Que esperança há, ainda, para os cidadãos em Portugal?
Nuno Ramos de Almeida: A esperança de se mobilizarem e demonstrarem que esta situação é insustentável. Na realidade, não é só o Parlamento que pode mudar aquilo que acontece. Nós já tivemos na história recente portuguesa situações de manifestações e de movimentos que acabaram com leis que eram, que eram dadas como adquiridas.
Por exemplo, recentemente, o pacote laboral. Mas também durante o período da Troika, o governo de Passos Coelho quis criar uma medida em que a parte da Segurança Social, que era paga pelos patrões, passasse a ser paga só pelos trabalhadores. E nessa altura, quase 1 milhão de pessoas saiu às ruas em Portugal contra a Troika. E essa medida caiu. Portanto, é possível criar na sociedade o mesmo tipo de mobilização, nomeadamente contra a nova lei do arrendamento, para que nao passe, e para que o governo perceba que se não alterar estas políticas, o que vai acontecer é que não se vai manter.
De acordo com os especialistas, o valor dos danos materiais registados nos protestos de 17 e 18 de Outubro em França poderá atingir mil milhões de euros. Um custo muito elevado, que será suportado em parte pelo contribuinte francês, sublinha o Presidente da Câmara de Comércio Franco-Portuguesa, Carlos Vinhas Perira. O estado de choque decorrente das violências urbanas e das violências policiais tem ainda o efeito de invisibilisar as reivindicações da sociedade civil francesa.
Em França, registou-se esta segunda-feira 19 de Outubro uma primeira noite de acalmia, depois de um fim de semana de tensão, de violência urbana e violência policial.
Este fim de semana marcou o regresso dos Coletes Amarelos, um movimento social nascido em 2018 para protestar contra o custo elevado da vida que se juntou, estes dias, à mobilização estudantil que exige melhores condições de ensino.
Nesta entrevista, abordamos as questões económicas que levantam as destruições materiais registadas em todo o país. Qual é o valor dos danos? As indemnizações das seguradoras serão suficientes para os comerciantes? Quem pagará os salários na restauração e nas lojas saqueadas que deverão manter-se inactivos? Quem pagará pela reconstrução dos edíficios públicos? A França, mal avaliada pelas instâncias financeiras internacionais e com uma dívida pública das mais elevadas da Zona Euro, poderá sair deste impasse?
Carlos Vinhas Pereira é Presidente da Câmara de Comécio Franco-Portuguesa e Professor de Finanças na Universidade Paris-Dauphine.
RFI: Qual é o valor dos danos materiais registados em França durante os protestos de 17 e 18 de Outubro?
São centenas de milhões de euros. Estamos a falar de grandes comércios. A Câmara de Limoges, outro exemplo, são centenas de milhões de euros para poder reconstruir. Se somarmos tudo o que foi feito em Paris e nas grandes cidades, eu diria que nos aproximamos dos mil milhões de euros de danos. E agora a grande pergunta é quem vai pagar isto tudo?
RFI: Todos os os comerciantes e empresários impactadas pelos saques, pilhagens e danos materiais, poderão ser integralmente indemnizados, à altura dos danos que lhes foram infligidos?
Os seguros vão ser atribuídos em função das garantias que você subscreveu. Vou-lhe dar um exemplo muito simples. Se um comércio não subscreveu a garantias facultativas como a perda de exploração, (para indemnizar todo o tempo em que não conseguiu vender a mercadoria), ficará penalizado. Quem subscreveu receberá um montante por dia, fixado em função do volume de negócio que fez no passado. Mas muitas empresas não subscreveram a tal garantia.
RFI: Em França existe garantia para "tumultos e movimentos populares". Mas é opcional...
Sim, é uma garantia cada vez mais utilizada. Mas nem todos a têm, porque sempre pensamos que isso só acontece aos outros. Nesse caso, nenhum dano será recuperável a 100%. Isto é de certeza absoluta. Depois estão os edifícios públicos. Aquela Câmara Municipal de Limoges é um prédio que tem 250 anos, são montantes enormes para a sua reconstrução. A Câmara Municipal não vai poder pagar, vai pedir ao Estado para pagar. Mas o Estado quem é? São os contribuintes! Ou seja, isto vai acabar por ser pago por toda a gente, por todos aqueles que pagam impostos. E nem todos os franceses pagam impostos, como sabe. Alguns estão fartos de ter sempre que pagar pelos outros.
RFI: Em alguns casos, os seguros não poderão ser activados porque os danos ocorreram em locais muito distantes das manifestações. Houve casos assim no dia 17 de outubro. Há comércios que não terão direito a uma cobertura?
Isto é um caso mais político. O que é que se vai passar? As companhias de seguros, as principais, vão se reunir depois de terem recolhido todas as declarações de sinistro.
Efectivamente, em termos de condições gerais, estes comércios situados longe dos locais dos saques não estão abrangidos porque não estavam dentro do circuito da manifestação. Mas geralmente as companhias respondem pela positiva. Porquê? Porque em termos de notoriedade, se amanhã disser que tal companhia não pagou, vai ter efectivamente uma imagem completamente negativa.
RFI: O governo anunciou as primeiras medidas para acompanhar os profissionais. A partir desta terça-feira 20 de Outubro, os trabalhadores que não puderem exercer a sua actividade vão poder ser incluídos no regime de desemprego parcial (lay-off) e receber indemnização integral por parte do Estado. E, além disso, um fundo de apoio está a ser disponibilizado aos estabelecimentos comerciais afectados, pelo tempo em que não conseguem faturar. Como é que interpreta estas medidas? Considera que são rápidas e eficazes?
A primeira medida vai ser imediata, porque basta se inscrever ao Fundo de desemprego para receber. Não tenho dúvida de que será muito rápido. Já a criação de um fundo, isto é muito francês. Vai-se criar um fundo alimentado pelo Estado, ou seja, pelos contribuintes, para poder indemnizar as pessoas que não tinham seguro, para não estar a favorecer uns e penalizar os outros. E vai demorar um bocadinho mais tempo.
RFI: Falamos dos danos materiais e das violências. Mas o que dizer das vozes que se elevam para denunciar uma cobertura mediática que privilegia as degradações materiais e que passa sob silêncio as reivindicações dos estudantes e as violências policiais?
Acho muito triste. Muito triste porque realmente, de um lado houve manifestações completamente legais, respeitando todos os critérios impostos pela prefeitura e não houve esta cobertura. Alguns órgãos de comunicação social vão onde há mais impacto mediático. É verdade que ver uma manifestação na televisão onde tudo se passa bem, onde há silêncio ou há reivindicações sem haver pessoas a quebrar, não tem tanto impacto do que o incêndio de uma Câmara Municipal. Nem falo dos jornalistas, porque geralmente são as redacções que impõem uma cobertura dos eventos que terá mais impacto para o canal. E você sabe que a comunicação social vive de publicidade. As pessoas vão ligar mais a um canal onde têm a certeza de ver este tipo de coisas do que o canal onde vão ver pessoas a andar num ambiente de calma. Mas isto não se vai resolver hoje.
RFI: E tudo isto levanta também a questão da imagem que a França dá aos investidores e, nomeadamente, aos investidores estrangeiros.
Claro que isto é um travão quando se vêem estas imagens. É um travão para o investimento. Muitas empresas preferem investir num país onde há mais estabilidade do que aqui. Enquanto não houver um novo Presidente da República vai ser assim, penso eu. Vai ser um período de instabilidade muito, muito importante. E toda a economia francesa está parada.
O Governo angolano oficializou, neste mês de Outubro, a candidatura da embaixadora Josefa Sacko ao cargo de directora-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A candidatura de Angola assenta na experiência profissional e institucional da candidata, que exerceu funções de secretária-geral da Organização Africana do Café e de comissária da União Africana para a Agricultura, Desenvolvimento Rural, Economia Azul e Ambiente Sustentável. Josefa Sacko, actualmente embaixadora de Angola em Itália, defende uma visão centrada na modernização dos sistemas de produção e no reforço da segurança alimentar.
Angola defende uma reforma e uma descentralização da FAO. Em que consiste a reforma da FAO?
Quase todas as agências das Nações Unidas estão num processo de reforma. A reforma visa melhorar os serviços da nossa instituição, nomeadamente a prestação de serviços e os dados estatísticos, bem como olhar com atenção para a área científica. É nesta área que estamos a tentar fazer a reforma.
O foco desta reforma passa pela descentralização e pela capacitação dos escritórios regionais, sub-regionais e nacionais da FAO. Temos de aproveitar todo o conhecimento e potencial de que a organização dispõe. Temos de apresentar resultados para erradicar a fome e a má nutrição a nível global.
Estamos a analisar problemas globais e dispomos de evidências através dos relatórios sobre o estado da segurança alimentar. Percebemos que temos de fazer mais trabalho para que todos os cidadãos tenham acesso à alimentação.
A segurança alimentar e o aumento da produtividade são outros pontos da proposta angolana à direcção da FAO. Qual é a melhor solução para erradicar a fome?
A melhor solução para erradicar a fome é dar prioridade a este sector ao nível do Executivo e investir na agricultura e no desenvolvimento rural, de forma a atrair os jovens para o sector.
Trata-se de um grande projecto integrado. Temos também de perceber como podemos atingir as metas, uma vez que só temos três anos até 2030. Como vamos conseguir lá chegar?
Temos os programas e a estratégia. O desafio é converter o conhecimento e os programas em acções concretas que tenham impacto nas populações e nos nossos camponeses, melhorando as suas condições de vida. Sabemos que a alimentação é um direito universal.
Olhando para o continente africano, que é o mais afectado pela insegurança alimentar, não estamos a apresentar novos modelos. Queremos promover um sistema agroalimentar resiliente.
Angola quer também apostar na valorização do trabalho das mulheres e dos jovens. Esta valorização passa pelo acesso à terra, à formação e a oportunidades de emprego. Como pretende concretizá-la?
Queremos deixar os machados e as enxadas nos museus. Estamos a falar de mecanização para facilitar o trabalho das mulheres. Sabemos que as mulheres têm trabalhos muito penosos no campo e, por isso, queremos evitar este tipo de agricultura tradicional, que representa um grande esforço para elas.
Como podemos, então, promover o empoderamento das mulheres? Estamos a falar de mecanização, acesso a títulos de propriedade da terra, acesso à tecnologia e também acesso ao financiamento, porque, normalmente, é difícil conseguirem crédito junto dos bancos.
São este tipo de facilidades e apoios que os Estados devem proporcionar às mulheres, para que possam reduzir o trabalho árduo que realizam no campo.
Queremos também atrair a juventude através de modelos como o agronegócio. São estas modernizações que queremos promover ao nível do sistema agroalimentar mundial.
Num mundo em que a inteligência artificial ocupa cada vez mais um lugar de destaque, de que forma podem as novas tecnologias e a ciência trabalhar a favor da agricultura e da economia azul?
Temos de aproveitar estas novas inovações, mas também de compreender como funciona a inteligência artificial e quais são os seus benefícios para o sector agrário.
Temos de regular a forma como a informação e os dados são utilizados, porque tudo isso é muito importante. No entanto, não queremos depender apenas da inteligência artificial e deixar o homem desempregado.
Queremos criar modelos que se adaptem melhor ao sector produtivo e facilitem o acesso ao mercado através destas inovações. Queremos utilizar a inovação, mas de forma devidamente regulada, para que não prejudique os nossos camponeses.
As alterações climáticas são hoje uma das maiores ameaças à agricultura e à segurança alimentar, provocando perdas de produtividade e instabilidade nos mercados globais. Que estratégias, segundo Angola, devem ser implementadas para que os produtores possam lutar contra este flagelo?
A resposta está na resiliência. A nossa resiliência passa pela adaptação do ambiente em que estamos a cultivar, para que a produção não seja afectada pelos impactos das alterações climáticas.
Precisamos de sementes melhoradas, capazes de resistir aos períodos de seca e às cheias. É este tipo de resiliência que queremos promover.
Portanto, a solução está na resiliência. Temos de garantir resiliência em toda a cadeia de valor.
África tem vindo a pedir uma maior voz nas Nações Unidas. Com uma angolana na direcção da FAO, o continente terá mais espaço para definir as políticas globais de alimentação e agricultura?
Tenho um perfil marcadamente agrícola. Sou engenheira agrónoma e dediquei toda a minha vida a esta área. Durante três décadas, trabalhei sempre neste sector, nomeadamente na área do café e no meu país, no campo.
Trabalhei também como comissária da União Africana para a Agricultura, a Economia Azul, o Desenvolvimento Rural e as questões relacionadas com as alterações climáticas.
A minha eleição poderá também representar uma mais-valia para analisar as questões que estão a afectar a segurança alimentar, principalmente no Sul Global. Mesmo nos países desenvolvidos existem problemas.
Queremos estabelecer parcerias com esses países para que nos possam ajudar e para trabalharmos todos juntos, apoiando os mais necessitados.
Que conhecimento pode África levar à FAO? Quais são as vantagens?
África é membro da FAO. Já tivemos um senegalês à frente da organização. Portanto, não há razão para considerar que não temos capacidade. A Europa também tem os seus representantes. Nós temos quadros e inteligência.
Vamos, por isso, transmitir também as nossas experiências à FAO. Queremos concentrar-nos no mandato que foi atribuído à organização. Não queremos inventar a roda. Ela já existe.
O importante é implementar e tornar as coisas viáveis. Porque continuamos a ter problemas de insegurança alimentar se já conhecemos os problemas?
Com a minha liderança, vamos reforçar a implementação destes programas, em vez de continuarmos apenas a elaborar relatórios e a concentrar-nos em estudos. Os estudos já existem. Temos de passar à operacionalização das ferramentas disponíveis na FAO, que precisam de ser implementadas.
Isso implica mobilizar recursos financeiros e investimento para que possamos ir muito mais longe.
A sua presença na FAO poderá também ajudar a erradicar a fome no continente africano e a combater este flagelo?
A minha batalha é trabalhar para erradicar a fome, em coordenação com todos, com transparência e com responsabilidade na aplicação de cada investimento.
Temos de garantir que os recursos são respeitados e aplicados nos projectos que negociámos com os bancos e com os parceiros. Esta é a minha visão.
Em que fase se encontra a sua candidatura? Que apoios tem recebido?
As candidaturas ainda não estão abertas, mas temos este projecto. Quando se fala de uma posição global tão importante como a direcção-geral da FAO, existe um processo de preparação da candidatura de Angola.
O primeiro passo que demos foi submeter a nossa intenção ao Comité de Candidaturas Internacionais da União Africana. O Conselho Executivo da União Africana endossou a nossa candidatura, que é a única candidatura africana.
Neste processo, avançámos também com a SADC para criar o nosso bloco na SADC. Apresentámos ainda a candidatura na CPLP, onde também tomaram nota da nossa intenção. Neste momento, estou também a solicitar o apoio de outras regiões.
Para além de Angola, a Irlanda, a Espanha, a Itália, a Turquia e a Argentina deverão também apresentar candidaturas à direcção-geral da FAO. A eleição do próximo director-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura deverá ocorrer entre 26 de Junho e 2 de Julho de 2027, durante a 45.ª sessão da Conferência da FAO, em Roma.
A violência que marcou a mobilização de sábado não explica, por si só, a dimensão do descontentamento em França. Para Éric Monteiro, docente de Ciências Políticas na Universidade de La Rochelle, o país chega ao fim da presidência de Emmanuel Macron com problemas sociais que atravessam várias gerações e sectores. O diagnóstico vai além da contestação nas ruas: "A França está em crise de regime, sem dúvida".
O docente universitário, Éric Monteiro, vê na mobilização deste sábado, 17 de Outubro, a expressão de um mal-estar que não nasceu agora e que ultrapassa o movimento estudantil. "Estamos numa crise social já há muitos anos", afirma, lembrando que o primeiro mandato de Emmanuel Macron ficou marcado pelos "coletes amarelos" e que a presidência se aproxima do fim novamente sob forte contestação. "Começámos o primeiro mandato com um movimento social que durou muitas semanas" e chegamos ao final de quase dez anos de presidência com "grandes movimentos sociais" e uma situação que, na sua análise, pouco mudou.
O regresso dos "coletes amarelos" às ruas é, para o docente, um dos sinais dessa continuidade. O movimento, que perdeu força depois de 2019, voltou agora a manifestar-se, de forma pacífica, em solidariedade com os estudantes e contra o aumento do custo de vida. Há, contudo, uma diferença em relação a 2018, nessa altura, a contestação ao preço dos combustíveis estava directamente ligada às escolhas fiscais do Governo, hoje, lembra Éric Monteiro, os preços são também condicionados pela situação geopolítica internacional.
"Os jovens hoje manifestam por desespero", afirma. A escola é apenas uma parte do problema, à falta de professores e de meios juntam-se as dificuldades de entrada no mercado de trabalho. Éric Monteiro dá o exemplo de uma antiga estudante, com cinco anos de formação superior, recusada para um lugar técnico por ter qualificações a mais para uma função cujo salário não correspondia ao seu nível de estudos. "As saídas profissionais não correspondem ao nível de estudos que os jovens atingiram", resume.
É essa ausência de perspectivas que, segundo o académico, distingue a actual contestação de anteriores grandes movimentos estudantis franceses. Em 1986, os jovens contestavam uma reforma concreta do acesso à universidade, em 2006, mobilizaram-se contra o contrato de primeiro emprego. "Hoje não há lei nenhuma em particular", sublinha. O que existe são "condições de vida que se deterioraram completamente" e "a falta de esperança sobre a possibilidade de ter um emprego no fim dos estudos". A explosão das rendas, as longas deslocações até às universidades, o preço dos combustíveis e a escassez de transportes ao fim do dia alimentam, diz, "um mal-estar generalizado".
Éric Monteiro considera que a profissão docente perdeu atractividade à medida que os salários foram perdendo valor relativo. "São muitos anos de estudo, um concurso relativamente selectivo" para uma remuneração pouco superior ao salário mínimo, observa. "A profissão não atrai mais ninguém." A falta de candidatos junta-se à redução do número de professores substitutos, agravando um problema que está hoje no centro das reivindicações de muitos alunos do ensino secundário.
Mas o docente insiste que seria redutor explicar a actual contestação apenas pela escola. O descontentamento atravessa o poder de compra, a habitação, o emprego e os serviços públicos, ao mesmo tempo que a sucessão de reformas e de ministros acentua a sensação de falta de rumo. "Há uma incoerência total, não há uma linha contínua, legível, que permita oferecer visibilidade aos jovens ou aos professores para saber onde vão", afirma. Para Éric Monteiro, a França sofre ainda com a desvalorização histórica da formação profissional, ao contrário de países como a Alemanha, onde percursos técnicos mais curtos continuam a oferecer saídas profissionais valorizadas.
A violência registada no sábado ameaça tornar menos audíveis essas reivindicações. Éric Monteiro distingue os cortejos pacíficos, com estudantes, professores, sindicatos e pais, dos grupos responsáveis por pilhagens e ataques a edifícios públicos. Na Universidade de La Rochelle, conta, os próprios estudantes procuraram impedir a entrada de elementos exteriores. "Não são estudantes", afirma sobre muitos dos autores dos actos violentos. Entre eles, identifica delinquentes que aproveitaram a confusão para roubar e grupos radicais que procuram confrontar directamente as instituições.
É essa sobreposição entre crise social, violência e aproveitamento político que torna o momento delicado a poucos meses das presidenciais. Éric Monteiro considera "saudável" que os jovens se interessem pelo futuro e entende que os candidatos deveriam escutar as reivindicações que emergem das ruas. O perigo, sublinha, é que os confrontos acabem por ocultar as razões que levaram centenas de milhares de franceses a manifestarem-se e abram espaço à recuperação política da instabilidade.
"A França está em crise de regime, sem dúvida", afirma Éric Monteiro. A Quinta República foi concebida em torno de um poder presidencial forte e de maiorias parlamentares relativamente estáveis, hoje, o Parlamento está fragmentado em vários blocos e nenhuma eleição garante uma maioria capaz de governar. As presidenciais de 2027 podem mudar os protagonistas, mas não necessariamente resolver essa fragmentação. Para o docente universitário, essa combinação entre mal-estar social, perda de confiança e dificuldade em formar maiorias políticas poderá prolongar a instabilidade muito para além do actual ciclo eleitoral.
Os Continuadores da Revolução é o documentário sobre Moçambique onde o realizador Pedro Neves funde imagens de arquivo, do período da presidência de Samora Machel, com imagens do presente para nos oferecer um olhar sobre o pais.
Com estreia mundial no festival de cinema DocLisboa, Os Continuadores da Revolução surge a partir da observação que o realizador Pedro Neves fez do trabalho que o fotógrafo Manuel Roberto desenvolveu em Moçambique.
O filme Os Continuadores da Revolução incide, pois, no período do governo de Samora Machel, o primeiro Presidente pós-independência.
Em Os Continuadores da Revolução, a ideia do que poderia ser a melhor República Popular do mundo ou a ideia do continuar, ou terminar, uma revolução são elementos de um trabalho sobre a memória, os fantasmas e a distorção.
A RFI falou com Pedro Neves antes da estreia mundial do filme na capital portuguesa. O realizador começa por revelar como surgiu a ideia de fazer a longa-metragem Os Continuadores da Revolução.
Pedro Neves, realizador :
Surge a partir de uma série de fotografias de um amigo meu, que se chama Manuel Roberto, que é fotógrafo no Público, feitas na altura do período de pós-independência moçambicano, mais ou menos naquela altura do período revolucionário moçambicano, às quais ele chamava os Continuadores da Revolução. Aquilo, primeiro, foi um nome que me soou sempre muito bem, porque me deixava muito a pensar, como é que se continua uma revolução e quem são os Continuadores da Revolução?
Mas, de facto, os Continuadores da Revolução existiam, ainda existem os Continuadores, que é um grupo formado pela primeira mulher do Samora Machel, antes da Graça Machel, que são uma espécie de pioneiros. Digo pioneiros para se ter uma comparação com os pioneiros da União Soviética, não é?
Mas a ideia eram as crianças, que eram as flores que nunca murcham, era a juventude que era a seiva da nação, e eram as crianças que iam construir a melhor República Popular do mundo.
E ele era um deles, porque naquela altura eles eram praticamente todos os Continuadores da Revolução. Curiosamente, ainda existem em Moçambique os Continuadores, mas já caiu a Revolução da frase, ficaram só Continuadores.
Quem for ver este filme, o que é que pode encontrar, o que é que o Pedro, enquanto realizador, procurou trazer para este filme?
Procurei, primeiro, entender não só essa ideia do que eram os Continuadores da Revolução, mas talvez não de uma maneira tão concreta, porque isso era fácil de perceber, os tais miúdos que tinham por missão construir a melhor República Popular do mundo, mas interessava-me talvez mais a ideia de abstracção e de perceber o que é isso, como é que afinal se continua uma revolução, quando é que ela acaba, quando é que ela termina, se é que alguma vez ela pode terminar, qualquer tipo de revolução.
E, obviamente, aplicava um bocado essa ideia também à nossa. Das revoluções em geral, o que é isto das revoluções e como é que elas acabam, como é que elas continuam. E foi tentar pegar nos negativos dele, digitalizar grande parte daquelas imagens, eu acho que digitalizei mil oitocentas e tal fotografias, negativos, com as próprias perfurações da imagem e transportar ao mesmo tempo também aquilo para este presente.
Foram muitas idas a Moçambique. Eu acho que ao todo foram mais ou menos seis meses de rodagem lá, divididos por alguns anos, à procura desses espaços e dessas conversas. Havia muitas coisas que eu lhe perguntava no início, como é que é isto? Como é que é aquilo?
Ele estava-me sempre a dizer, tu tens que ir para entender. E, de facto, eu tinha que ir para entender e tinha que viajar muito por ali, tinha que ir a muitos sítios, tinha que perceber uma série de histórias e de vivências e de sentir o calor e de sentir a ideia ou essa coisa mais etérea daquilo que ainda anda no ar, do que é que já se desvaneceu e do que é que ainda existe e de conhecer, na verdade, os fantasmas que também habitam este filme, que anda à volta não só dessas imagens dele, como também de algumas imagens do próprio Arquivo Cinematográfico Moçambicano, mas com alguma contemporaneidade no modo.
Não é só no modo de abordagem, é no modo como as conversas iam surgindo ao longo do caminho com uma série de protagonistas que me iam fazendo criar uma série de textos e de ideias que também fui maturando ao longo destes quase nove anos e que fui desenvolvendo ao longo destes anos todos e mudando muitas vezes de caminho e falando uma vez mais com muitos fantasmas também que por ali andavam, para tentar perceber qual era este caminho, se calhar para onde é que todos nós caminhamos, para além dos próprios moçambicanos.
Para concluir o filme houve nove anos de idas e vindas de Moçambique. Como é que o Pedro Neves, enquanto realizador, sentiu evoluir, quer as pessoas com quem falava, quer o discurso, quer a percepção daquilo que é uma revolução?
Para além da revolução era o próprio pulsar das coisas. No cinema documental o que mais me interessa eu acho que é mesmo o trabalho sobre a memória. E sobre a memória interessa-me aquilo que ela distorce, porque, na verdade, a memória toda é uma distorção, é uma coisa que é tudo menos um teorema matemático. Aquilo que nós achamos hoje não achamos amanhã ou muito mais.
Amanhã, nós, ainda conseguimos ir lá, mas daqui a trinta anos se calhar já distorcemos isto ainda mais. E isto é muito humano. Ao mesmo tempo, não tem que ser uma distorção deliberada, propagandista ou com alguma má intenção, faz um bocado parte da vida.
Faz-me lembrar muitas vezes, isso é uma coisa muito portuguesa, daquele “dantes é que era bom”. Depois uma pessoa pergunta: "Dantes, mas era bom o quê? Quando iam ao hospital, como é que era? Mas que hospital? Ah, mas não havia. E quando se calçavam? Mas calçávamos o quê se não havia sapatos?"
Mas há uma efabulação da memória que diz que “dantes é que era bom”. O que se entende, porque dantes não havia dores de costas, dantes os pais eram vivos, os primos eram vivos, o contexto familiar, apesar de tudo, estavam todos vivos mesmo que miseráveis.
E de repente cria-se uma ideia de uma memória que corresponde a uma expectativa de memória e de realidade que nem sempre é correspondida com a realidade e com a verdade. Interessa-me esse trabalho da memória, esse trabalho de percebermos o tempo passado para podermos chegar ao presente e inclusivamente até pensarmos no futuro.
E Moçambique, para além de muitas particularidades, teve os tempos da guerra. Uma guerra muito violenta, 16 anos, com mais de um milhão de mortos, portanto esta guerra civil. Fora a guerra de libertação nacional contra os portugueses, que foram mais uma carrada de anos com mais não sei quantos milhares de mortos e massacres e desaparecidos, etc.
Mas fizeram com que houvesse um país a pensar muito pouco no futuro e a pensar muito só no presente, o presente agora, não é o presente amanhã. Há uma coisa muito comum, que é perguntar-se às pessoas como é que elas estão, e é o hoje estou bem.
Hoje é o hoje, não é, porque há ali uma ideia muito de o amanhã não se sabe, o amanhã é uma incógnita. Agora, enquanto realizador, enquanto alguém que trabalha no cinema documental, porque é isso que eu faço, a permanência ajuda-nos depois a ir entendendo cada vez melhor os espaços. O entender, às vezes, é nós depararmos e refutarmos inclusivamente muito daquilo que pensamos, porque a realidade vai mudando também.
É um pouco esta ideia de quando chegamos ou falamos com alguém, aquilo que nos dizem muitas vezes é aquilo que acham que nós queremos ouvir, ou há uma determinada desconfiança porque não há conhecimento.
Depois com a permanência as conversas abrem-se e aparece uma parte muito mais sincera, mais honesta e, essencialmente, uma parte em que, de repente, nós estamos todos a pensar em conjunto e estamos todos a refletir em conjunto.
Isso acontece muitíssimas vezes durante as próprias viagens, durante as viagens de carro, durante o jantar, muito daquilo que acontece numa viagem destas ou numa permanência destas acontece quando as câmaras não estão ligadas e isso era uma coisa que eu ia percebendo sem saber exactamente como é que ia resolver esse problema, porque ninguém filma 24 horas por dia.
Era pegar nessas frases, nesse conhecimento, nessas reflexões, pegar também nos livros todos que fui lendo, foram dezenas de livros, nomeadamente romances, porque me interessam. Claro que me interessa a parte histórica e de contexto histórico, mas depois também me interessa muito esta ideia da ficção sobre a própria realidade moçambicana escrita por moçambicanos.
Eu li muitos dos poetas da mata, da guerrilha, a Paulina Chiziane, o Mia Couto, o João Paulo Borges Coelho, que, inclusivamente, me ajudaram muito a pensar nestas coisas. Era esta ideia de frases e contextos e textos, pegar neles e quase transformá-los nesta ideia destas fantasmagorias que, na realidade, não são muito mais do que evocações de memória, do modo como nós podemos caminhar com visões distintas. É aquela ideia de tu vês um campo verdejante e eu vejo um campo minado. Isso é uma coisa que me ficou sempre muito na cabeça porque isso aconteceu-me lá, uma vez, com o Manuel Roberto, eu estava de facto a ver um campo verdejante e ele estava a ver um sítio que tinha sido povoado de minas.
O que encontro depois, mais tarde, num livro do João Paulo Borges Coelho, exactamente com esta frase, que é uma coisa que acaba por estar no filme. Isto, para mim, são os tais fantasmas, é o modo como duas pessoas conseguem ver exatamente a mesma coisa de uma maneira tão diferente e tão distinta e como conseguem senti-la de uma maneira distinta.
Quando falo um bocado nesta ideia da abstracção e da subjectividade tem muito a ver com tudo isto, que é sermos muito pouco objectivos. É talvez através da subjectividade que nós chegamos a algum lado, parece-me.
Podemos dizer que este filme é uma porta aberta sobre Moçambique, a história de Moçambique e o futuro que será amanhã?
Pelo menos é uma pequenina porta ou é uma porta de um olhar. Eu acho que os filmes são todos um olhar de um realizador sobre as coisas. Eu tento abrir várias portas e tento não fechar nenhuma e tento também que os filmes sejam suficientemente abertos para que as pessoas coloquem questões e procurem elas próprias as respostas.
Não dou grandes respostas a coisíssima nenhuma, porque isso, na verdade, também não me interessa, nem acho que seja o meu papel, nem acho que seja o papel do documentarista ou do realizador dar respostas. Acho que é essencialmente abrir essas portas e abrir essas questões.
Neste caso, de um certo olhar sobre um país, e um país com o qual eu não tinha a mais pequena relação, não havia qualquer tipo de relação colonial ou de algum avô ou pai que estivesse lá na guerra, não havia rigorosamente nada. É uma relação que se torna muito forte pela amizade e também pelas ideias e até pelas próprias ideologias. Aquilo que me junta a estas pessoas e aquilo que me junta ao Manuel Roberto é muito o modo como nós vemos o mundo ou como nós conseguimos ir interpretando o mundo de alguma maneira.
Não há aqui nenhum tipo de relação de poder ou do poder de um sobre o outro ou dessa ideia da pessoa que vem da antiga potência colonial para o país colonizado, não há nada disso. É uma relação completamente horizontal e é isso que me leva ali. E esse olhar, nessa perspectiva, interessa-me. É um olhar entre iguais e de gente com quem eu fiquei a ter uma relação fantástica, quase de família, e de quem sinto falta todos os dias porque nós conseguimos todos juntos criar isto. Aliás, no filme, quando aparecem os créditos, eu estou lá como realizador, mas o filme é nosso, não é meu.
Os chefes de Estado e de Governo dos 27 países da União Europeia reúnem-se hoje e amanhã, 15 e 16 de Outubro, em Bruxelas, para mais um Conselho Europeu. Em cima da mesa estão grandes dossiês geopolíticos, como a Ucrânia, o Médio Oriente, a imigração e a concorrência com a China. A reunião será também muito centrada na economia, nomeadamente no orçamento europeu para os próximos anos. Carlos Gaspar, investigador sénior do Instituto Português de Relações Internacionais, reconhece que é prioritário que a União Europeia acelere a integração da Ucrânia no bloco europeu e alerta para as divisões entre alguns países, nomeadamente quanto ao impacto das regras climáticas nas políticas de reindustrialização do Velho Continente.
Os líderes europeus reúnem-se em Bruxelas para debater novas medidas para conter o preço da energia. No entanto, há divergências entre os Estados-Membros sobre o papel das regras climáticas e do mercado europeu do carbono. Os países serão capazes de ultrapassar essas divisões?
Há uma divisão entre aqueles que continuam a entender que as regras tradicionais da política ambiental e a tentativa de responder às alterações climáticas devem ser prioritárias e aqueles que defendem uma posição cada vez mais forte, quer na Alemanha, quer em França. Estes últimos entendem que existe um excesso de zelo nas medidas destinadas a tentar reduzir os efeitos das alterações climáticas, medidas que consideram prejudiciais para as políticas de reindustrialização, essenciais para recuperar a competitividade internacional da economia europeia.
A subida dos preços do gás e dos combustíveis está a pressionar os governos, as famílias e as empresas…
Exactamente. Não apenas as empresas, mas também uma parte importante das famílias e da população. Tudo indica que o aumento dos preços da energia se vai prolongar durante algum tempo. Restaurar a estabilidade nos mercados energéticos só será possível quando se conseguirem recuperar essas reservas energéticas. Esse processo vai demorar alguns meses, independentemente da situação da guerra no Golfo.
A União Europeia quer responder ao aumento das importações chinesas para proteger a indústria europeia. No entanto, não quer fechar a porta ao diálogo com Pequim. Até onde está a Europa disposta a ir nesta negociação, sem colocar também em risco a indústria europeia?
A União Europeia e a China estão à beira de uma guerra comercial. Aliás, julgo que, nos últimos meses, as relações entre a China e a União Europeia se alteraram. Passou a haver uma consciência política clara, entre as elites alemãs, de que não se trata apenas de limitar e condicionar as exportações chinesas para a União Europeia e de controlar o défice colossal, que continua a crescer sem cessar há mais de 30 anos e que atingiu recentemente os mil milhões de euros por dia.
A questão mais importante é reconhecer que existe, por parte da República Popular da China, uma estratégia de desindustrialização da Alemanha e da União Europeia, com consequências não apenas económicas e sociais, mas também políticas.
Há uma viragem na política alemã, que se aproximou da posição francesa. Essa aproximação está na origem de um memorando assinado pelo Presidente francês e pelo chanceler alemão, que será certamente discutido neste Conselho Europeu. O objectivo é dotar a União Europeia de instrumentos que lhe permitam responder rapidamente à penetração chinesa, à concorrência desleal e à pressão coerciva da China, que está a ameaçar sectores avançados da economia.
O orçamento europeu para o período de 2028 a 2034, o quadro financeiro plurianual, será igualmente discutido. Está em causa um valor de 1,62 mil milhões de euros. Mais uma vez, existem divergências entre os Estados-Membros quanto ao montante que devem pagar, à distribuição das verbas e aos sectores que devem ser prioritários, nomeadamente a agricultura, a investigação, a defesa, a transição energética e a competitividade. Na sua opinião, os países vão chegar a uma solução?
Não há condições para uma decisão neste Conselho Europeu e, eventualmente, também não haverá condições para isso no Conselho Europeu de Dezembro. As divisões são muito profundas.
É possível que o impasse se prolongue até às eleições presidenciais francesas, por razões que, aliás, ontem se tornaram óbvias com as tomadas de posição da candidata do Rassemblement National ,durante a sua conferência de imprensa em Bruxelas. [Marine Le Pen disse que se ganhar a eleição presidencial a França vai deixar de financiar a Ucrânia].
Isso complica ainda mais a situação neste momento, assim como a posição dos Estados-Membros ditos frugais, que trava a possibilidade de uma decisão. O impasse poderá, por isso, prolongar-se durante os próximos meses.
Os líderes europeus vão abordar o apoio financeiro e militar à Ucrânia, numa altura em que se intensificam os bombardeamentos russos contra as infra-estruturas energéticas ucranianas e tendo também em conta o recente acordo entre os Estados Unidos e Moscovo. Que compromissos de apoio poderão ser assumidos para os próximos meses?
É indispensável que haja uma resposta à viragem dos Estados Unidos. Essa resposta deve traduzir-se não apenas no reforço do apoio financeiro da União Europeia à Ucrânia, mas também no reforço do apoio militar da Alemanha, da França e da Grã-Bretanha.
É necessário disponibilizar à Ucrânia novas capacidades militares que lhe permitam atingir alvos industriais, designadamente no sector da defesa, incluindo instalações de produção de mísseis e drones russos. Essas capacidades existem na Alemanha, em França e na Grã-Bretanha.
A Ucrânia precisa de mísseis europeus de alcance intermédio para compensar a pressão dos Estados Unidos e, sobretudo, o aumento exponencial dos bombardeamentos russos, que se tornaram mais mortíferos desde que surgiram novos condicionamentos na partilha de informações entre a Starlink, a empresa norte-americana, e o Ministério da Defesa ucraniano.
Os líderes europeus terão uma discussão estratégica sobre a gestão das fronteiras externas, a aplicação das regras europeias de asilo e a resposta a eventuais situações de crise. Espera-se um reforço do controlo das fronteiras externas?
Essa é a expectativa. O programa de expansão da Frontex está em cima da mesa há já algum tempo. É possível que a crise em Ceuta seja um sinal suficientemente forte para justificar o aumento do número de guardas da força europeia responsável pela protecção das fronteiras externas.Há a expectativa de que possa haver alguma decisão nesta matéria.
A agenda inclui também a situação no Médio Oriente, a liberdade de navegação e a segurança marítima, com impacto nas cadeias de abastecimento e no sector energético. O que poderão os líderes europeus decidir relativamente à situação no Médio Oriente e ao impacto que esta crise está a ter nos países europeus?
A União Europeia tem ao seu dispor a possibilidade de mobilizar uma missão militar no Mar Vermelho, onde, no passado, teve uma intervenção importante contra a ameaça dos Houthis, em Bab el-Mandeb. Neste momento, essa intervenção poderá voltar a ser necessária.
Não têm surgido informações na imprensa internacional e europeia sobre esta matéria, mas as capacidades estão disponíveis. Além disso, a França parece estar disponível para apoiar a Arábia Saudita, que se revelou vulnerável aos últimos ataques com mísseis dos Hutis. Paris está disposta a apoiar Riade com meios antiaéreos para a defesa de instalações críticas.
Tudo isto representa passos importantes para que a União Europeia e as potências europeias façam a sua parte na defesa da liberdade de navegação e do direito internacional na passagem pelos estreitos de Bab el-Mandeb e de Ormuz.
O alargamento da União Europeia e as reformas necessárias para integrar novos membros, nomeadamente Montenegro e a Ucrânia, também estarão em discussão. Que anúncios se podem esperar relativamente a esta questão?
É uma questão que está na primeira linha da agenda do Conselho Europeu. O alargamento à Ucrânia é crucial, tanto mais quanto a pressão russa e o afastamento dos Estados Unidos se tornam evidentes. É necessário haver flexibilidade para garantir uma aceleração da integração da Ucrânia na União Europeia. Trata-se de uma prioridade absoluta da política europeia, a par do reforço das capacidades convencionais de defesa da própria Ucrânia.
A MansA (Maison des Mondes Africains), em Paris, acolhe, de 16 de Outubro a 13 de Dezembro, a exposição “Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical”, na qual nove artistas contemporâneos dialogam com o pensamento de uma das mais importantes personalidades africanas do século XX. A mostra ilustra a influência, também nas artes, de “um homem africano que pensou o mundo, interveio nele e cujas acções e ideias ainda interessam muita gente 50 anos depois da sua morte”, resume a historiadora Ângela Benoliel Coutinho, uma das comissárias da exposição.
A partir desta sexta-feira, 16 de Outubro, até 13 de Dezembro, a MansA (Maison des Mondes Africains), em Paris, acolhe a exposição “Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical” que coloca em diálogo o pensamento crítico de uma das figuras mais importantes da luta anticolonial e do pensamento humanista, pan-africanista e revolucionário do século XX com a criação artística contemporânea.
A exposição é comissariada pela curadora Armelle Dakouo e pela historiadora Ângela Benoliel Coutinho, com quem conversámos e que começou por nos contar que a ideia surgiu há alguns anos num desafio que lançou à curadora angolana Paula Nascimento.
“Tratava-se de pensar uma exposição dedicada a Amílcar Cabral. Eu achei que seria interessante tentar conjugar ou tentar iniciar um diálogo mais directo, mais intenso, entre o que se faz na academia relativamente a esta figura histórica e o que se faz nas artes visuais. Há vários artistas que se têm inspirado no trabalho de Cabral, no legado de Cabral”, recorda a historiadora, lembrando que foram “envolvendo várias pessoas e artistas” e acabaram por falar do projecto também a Elisabeth [Liz] Gomis, directora da MansA, jornalista, realizadora e produtora francesa e com origens bissau-guineenses.
O resultado junta, em Paris, obras dos artistas Nú Barreto, Diogo Bento, Filipa César, Sónia Vaz Borges, Yuran Henrique, Hamedine Kane, Sarah Maldoror, Mónica de Miranda e Bento Oliveira, cruzando, assim, o pensamento de Cabral com pintura, cinema documental, fotografia, instalação e desenho. Estes são também artistas associados aos países que constituíram o ADN da luta de Cabral, ou seja, “artistas dos territórios ou das terras que dizem directamente respeito a Cabral, portanto da Guiné, de Cabo Verde, da África dita lusófona”, mas também “artistas portugueses muito engajados desde há anos com a obra de Cabral” e, ainda, “outras artistas pelo mundo fora” igualmente inspirados pelo pensamento cabralista, acrescenta Ângela Benoliel Coutinho.
“Lidamos, na verdade, com um intelectual, um grande intelectual africano que, em conjunto com o povo da Guiné-Bissau, no contexto do movimento político que ele liderou com cabo-verdianos, na verdade, concretizou muitas das suas ideias e deixou outras que parece que interessam ainda a muita gente. Eu diria que, para mim - cada vez mais tenho essa sensação - há vários Cabrais. Nesta exposição, trata-se deste Cabral, um homem africano que pensou o mundo, que interveio nele e cujas acções e ideias ainda interessam muita gente 50 anos depois da sua morte”, resume a também autora do livro “Os dirigentes do PAIGC: Da Fundação à Ruptura 1956-1980”.
Por outro lado, a exposição abre novas perspectivas para abordar a sua obra a partir do olhar dos filhos e dos netos das independências. Líder das lutas de libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, pensador da descolonização e da “reafricanização dos espíritos”, estratega militar e político, pensador da cultura como instrumento de libertação, defensor da participação política e cívica das mulheres, são muitas as facetas conhecidas de Amílcar Cabral (1924-1973), mas ainda há muitas por conhecer. “Há um Cabral por descobrir”, acrescenta Ângela Benoliel Coutinho, apontando, por exemplo, para a publicação, este ano, de um livro na África do Sul “que se debruça sobre as reflexões de Cabral em torno da questão ambiental”, com alguns especialistas a considerarem o engenheiro agrónomo como “um pai da agricultura regenerativa”.
A exposição é, assim, mais uma etapa na reflexão sobre o vasto legado de Amílcar Cabral, através das obras expostas, mas também da programação paralela com mesas-redondas, filmes e concertos. “Talvez esta exposição seja uma espécie de convite à criação de um fórum internacional daqueles que se interessam pelo legado de Cabral e que estamos a tentar descobrir o que ele pensava e o que ele conseguiu de facto fazer”, espera a historiadora.
“Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical” é também um convite para ver, ouvir e participar na experiência cultural da MansA, em Paris, uma instituição que se apresenta como uma “casa de artistas, um ponto de encontro, um centro de recursos e uma incubadora de talentos aberta ao mundo”, ou seja, “um laboratório vivo em que se cruzam artistas, pensadores, investigadores e activistas, para fomentar novas formas de criação e de análise crítica”.
Oiça a entrevista no programa Convidada desta quarta-feira, 14 de Outubro de 2026.
A Rússia e a Ucrânia voltaram a trocar ataques durante a madrugada desta terça-feira, 13 de Outubro, numa ofensiva que provocou pelo menos três mortos e vários feridos em território ucraniano. A intensificação dos bombardeamentos ocorre dias depois de Washington e Moscovo terem anunciado um acordo que prevê o fornecimento de gasóleo russo aos mercados norte-americano e internacional, com o objectivo de contribuir para a descida dos preços dos combustíveis, a menos de um mês das eleições intercalares midterms nos Estados Unidos. O analista político Germano Almeida considera que este acordo "representa uma traição completa à Ucrânia", sublinhando que o entendimento não deverá ter qualquer impacto significativo nos preços dos combustíveis.
Washington e Moscovo anunciaram, na semana passada, um acordo que prevê o fornecimento de gasóleo russo aos mercados norte-americano e internacional, com o objectivo de reduzir os preços dos combustíveis, a menos de um mês das eleições intercalares nos Estados Unidos. Com este anúncio, Donald Trump quis fazer um cálculo eleitoral?
Enfim, trata-se de uma fantasia de cálculo eleitoral. O objectivo era, de facto, esse, mas nem sequer esse resultado deverá ser alcançado. O impacto será “pífio”, desde logo porque, neste momento, a Rússia não tem grande disponibilidade para colocar petróleo e derivados no mercado, tendo em conta os ataques ucranianos bem-sucedidos, que reduziram em 45% a capacidade de refinação russa.
Por outro lado, basta olhar para os primeiros números associados ao que foi anunciado. O primeiro fornecimento deverá ser de 300 mil litros de gasolina. Estamos a falar de uma quantidade que corresponde, sensivelmente, ao consumo norte-americano de um dia. Não terá um impacto significativo, se é que terá algum.Até agora, não houve qualquer efeito nos preços dos combustíveis nos Estados Unidos. Antes do acordo, o preço por litro era de 6,28 dólares e agora é de 6,29 dólares. Não há, portanto, qualquer efeito relevante.
A subida dos preços resulta da guerra disparatada, errada e imprudente desencadeada por Trump. Antes da guerra, a média era de 3,47 dólares, a 28 de Fevereiro; agora, é de 6,29 dólares. Por conseguinte, a responsabilidade pelos preços elevados dos combustíveis nos Estados Unidos não é dos ataques ucranianos à Rússia: é de Trump.
Donald Trump estará a tentar demonstrar que ainda tem capacidade negocial, depois do que aconteceu no Irão?
Nem sequer isso. Está a tentar projectar essa percepção junto dos mais incautos, daqueles que, apesar de tudo o que aconteceu, ainda acreditam nele. São cada vez menos. A presidência de Trump está no ponto mais baixo de aprovação. Os últimos dias têm sido marcados por algum desespero e pela degradação do próprio comportamento desta administração.
Este acordo, para além de não produzir efeitos, como acabámos de explicar, representa uma traição completa à Ucrânia. Expõe a ausência de uma resposta firme ao agressor, constitui uma traição à Europa e representa também uma traição aos próprios compromissos dos Estados Unidos.
A política da administração Trump era exercer pressão sobre a Rússia para pôr fim à guerra, nomeadamente através de sanções ao petróleo e aos combustíveis fósseis russos. Com este acordo, em troca de basicamente nada, está a promover o regresso do petróleo russo aos mercados internacionais.
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos emitiu uma isenção temporária das sanções contra a Rússia, permitindo determinadas vendas. Moscovo não conseguiu, até agora, alcançar todos os seus objectivos militares, nomeadamente em Donetsk. Este acordo representa um balão de oxigénio para a Rússia? Poderá a compra de gasóleo russo pelos norte-americanos contribuir para financiar a guerra?
Os Estados Unidos estão a financiar a guerra russa contra a Ucrânia. É uma aberração. Aliás, a Rússia está a ajudar o Irão e, com este acordo, os norte-americanos estão a dar à Rússia meios financeiros que lhe permitem continuar a apoiar o Irão. Se levarmos este raciocínio até às últimas consequências, podemos dizer que Trump é tão incompetente que acaba por celebrar um acordo que contribui para financiar uma guerra contra os próprios interesses dos Estados Unidos. Este é o grau de incompetência do Presidente norte-americano.
Donald Trump afirmou também que Volodymyr Zelensky já não tem legitimidade para permanecer no poder e que terá de convocar eleições. Entretanto, sabe-se que os deputados ucranianos estão a trabalhar numa lei eleitoral adaptada a um eventual cessar-fogo, de modo a permitir a realização de eleições nestas condições. Volodymyr Zelensky será obrigado a realizar eleições?
É saudável e exigível respeitar os mandatos numa democracia. O mandato de Zelensky, que teria terminado em Maio de 2024, uma vez que foi eleito em Maio de 2019, está ultrapassado. Mas, tanto quanto sei, ele não pediu para ser invadido pelo maior país do mundo.
E faço uma pergunta: como pode haver eleições na Ucrânia? As pessoas têm de parar para pensar antes de lançarem estes temas.
Quando Trump levanta esta questão, revela uma irresponsabilidade tremenda. Como pode haver eleições na Ucrânia quando as cidades ucranianas são atacadas diariamente pela Rússia? Como pode haver eleições quando uma parte significativa da população masculina, entre os 18 e os 40 e muitos anos, está na linha da frente? Como pode haver eleições quando cerca de 20% do território ucraniano está ocupado? É preciso pensar nestas questões antes de exigir eleições nestas circunstâncias.
Sempre que Trump lança esta provocação, reforça a ideia de que é, efectivamente, um activo russo. O antigo Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa foi criticado por ter afirmado que Donald Trump “era um activo russo” que o seu comportamento favorecia os interesses russos. E é precisamente isso que estamos a observar nos últimos dias.
Zelensky já afirmou que não se opõe à realização de eleições e que estas poderiam ter lugar após um cessar-fogo de 60 dias. Qual foi a reacção do Kremlin? Os russos só garantem um cessar-fogo de um dia. O Kremlin continua, portanto, a responder de forma perversamente provocatória.
As dificuldades na luta contra a corrupção poderão manchar a imagem de Volodymyr Zelensky?
Penso que não. A Ucrânia tem respondido de forma imediata a estas questões. Quando houve manifestações contra as alterações propostas à lei, ficou demonstrado que a Ucrânia é um país democrático, ao contrário da Rússia.
As críticas incidiam sobre a alteração legislativa relativa a duas agências anticorrupção, que passariam a estar sob a alçada de uma Procuradoria dependente do Presidente. Era uma proposta muito discutível do ponto de vista do Estado de direito. Sabemos que a Ucrânia, mesmo antes da guerra, já tinha problemas nesta matéria e continua a enfrentar desafios ao nível da separação de poderes, do Estado de direito e do reforço das instituições.
Ainda assim, na minha opinião, está a fazer um trabalho extraordinário: enquanto é invadida pelo maior país do mundo, procura implementar reformas que lhe permitam, um dia, integrar a União Europeia. Os progressos nesse sentido são evidentes.
Este acordo poderá, de alguma forma, reforçar o apoio da população ucraniana a Volodymyr Zelensky?
Estamos numa fase um pouco contraditória nesse aspecto. Acima de tudo, o povo ucraniano tem demonstrado uma resistência impressionante, muito para além de qualquer antecipação ou previsão feita há quatro anos e meio. E isso é o mais importante. Porquê esta resistência? Não é pelo facto de os ucranianos serem super-homens. São pessoas como nós, mas já conhecem suficientemente bem os russos para perceberem que o pior cenário seria uma submissão à Rússia.
Do ponto de vista político, a Ucrânia, enquanto país democrático, tem de fazer as suas escolhas democraticamente. É natural que, quando a guerra terminar, os ucranianos decidam se querem ou não voltar a eleger Zelensky. É possível que ele próprio considere que não faz sentido recandidatar-se.
Seja qual for o desfecho, ficará para a História como o Presidente que liderou o país durante a guerra e resistiu ao invasor russo. Olhando para outros momentos da História, percebe-se que esta marca poderá ser determinante para o seu legado. Depois de uma guerra, pode não fazer sentido continuar a governar numa lógica de conflito. Compreendo essa perspectiva, mas cabe aos ucranianos decidir.
As sondagens realizadas na Ucrânia apresentam resultados algo contraditórios. Algumas indicam que Volodymyr Zelensky continua a gozar de uma popularidade significativa, mas outras sugerem que uma pequena maioria dos ucranianos considera que não se deveria recandidatar.
O que representa este acordo para as negociações que pretendem colocar um ponto final neste conflito e que papel poderá a Europa desempenhar?
Mais uma vez, temos de tentar abstrair-nos da espuma dos dias e olhar para a situação com clareza, incluindo para a sua dimensão absurda. Tenho ficado muito impressionado, nas últimas 48 horas, com algumas análises que tenho acompanhado nos Estados Unidos. Há sectores republicanos que começam a concluir, com espanto, que nunca houve na História norte-americana um Presidente que assumisse tão claramente o lado russo contra o lado europeu.
Neste momento, isso é muito evidente. Sabemos que há sempre quem esteja disposto a relativizar ou a desculpar Trump, mas torna-se cada vez mais difícil fazê-lo. A política desta administração era a aplicação de sanções à Rússia, mas agora assistimos a um acordo que contraria essa orientação.
A política europeia também tem sido marcada pelas sanções contra Moscovo e houve, naturalmente, reacções por parte de líderes europeus, como Emmanuel Macron, Friedrich Merz e Kaja Kallas, no sentido de reforçar essas medidas. Por muito que se tente disfarçar a situação e afirmar que os Estados Unidos continuam a ser aliados, enquanto Trump estiver na Casa Branca, os norte-americanos não podem ser vistos como aliados fiáveis nesta questão.
Esta aproximação à Rússia já se tinha manifestado no âmbito da Assembleia Geral das Nações Unidas, quando os Estados Unidos se recusaram a votar a favor de resoluções que identificavam a Rússia como agressora. Esta aproximação também contribuiu para o regresso de Putin ao G20. Além disso, o Presidente norte-americano recebeu Putin no Alasca com uma passadeira vermelha.
Podemos tentar não ver o que está a acontecer, mas os factos estão à vista. Não se trata necessariamente de toda a administração norte-americana, mas do próprio Presidente dos Estados Unidos. E, como bem assinalou o antigo Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa, há um ano, Trump é, objectivamente, um activo russo.
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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.