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A Arábia Saudita reconheceu, esta segunda-feira, 12 de Outubro, que as infra-estruturas do reino estão a ser “postas à prova” na sequência da série de ataques mortíferos dos hutis do Iémen, nomeadamente contra o aeroporto de Riade, prometendo uma “resposta firme”. Em entrevista à RFI, António Gonçalves Alexandre, professor de Relações Internacionais, considera que a situação poderá agravar-se nos próximos tempos e alerta para os riscos de uma retaliação saudita.
As hostilidades foram retomadas em Julho entre os hutis e as forças governamentais iemenitas, apoiadas militarmente pela Arábia Saudita, e intensificaram-se em Setembro.
No entanto, a dimensão dos ataques contra a Arábia Saudita atingiu, nos últimos dias, níveis sem precedentes, expondo as fragilidades defensivas do país, apesar dos avultados investimentos em equipamento militar de ponta.
Os hutis do Iémen reivindicaram este domingo a realização de “operações de grande envergadura”, nomeadamente um ataque ao aeroporto de Riade “em três fases”. O ataque de sábado, o mais mortífero em território saudita em dez anos, provocou 309 feridos, além dos 13 mortos.
O Irão, que apoia os hutis, manifestou-se, esta segunda-feira, “profundamente preocupado com a evolução da situação”, e diz-se disponível para “facilitar o diálogo entre as partes”, embora sem condenar os ataques.
Perante a escalada dos ataques dos hutis, a Arábia Saudita enfrenta uma escolha que poderá determinar a evolução do conflito no Médio Oriente: responder militarmente e arriscar uma nova espiral de violência ou conter-se para evitar que as hostilidades se alarguem a outros países.
Em entrevista à RFI, António Gonçalves Alexandre, professor de Relações Internacionais na Universidade Lusíada de Lisboa, considera que a situação poderá agravar-se nos próximos tempos e alerta para os riscos de uma retaliação saudita, num contexto em que a capacidade militar dos hutis ameaça a segurança do reino e o controlo de rotas marítimas estratégicas.
RFI: Estamos perante uma escalada pontual ou no início de uma nova fase do conflito entre Arábia Saudita e os hutis?
António Gonçalves Alexandre, professor de Relações Internacionais: Eu creio que temos que analisar isto com alguma distância temporal. De facto, estes ataques são recentes, mas tudo começou - como disse - em 2014, quando o movimento dos hutis se revoltaram com o poder central no Iémen. Capturaram logo depois a capital Sana e aproximaram-se geograficamente dos limites da fronteira com a Arábia Saudita. Isso levou a que a Arábia Saudita no ano seguinte, 2015, desse início a uma campanha de apoio ao governo reconhecido internacionalmente do Iémen, com o intuito de conter o avanço dos hutis. Porquê? Porque se sentiram ameaçados. Portanto, a Arábia sentiu-se ameaçada.
Isto estendeu-se até 2022 e em 2022 o conflito com a Arábia entrou naquela fase de congelamento. É usual nos tempos que correm, vários conflitos não são resolvidos, são congelados. E qual é o problema destes conflitos? É que podem descongelar a qualquer momento. E qual foi o 'trigger' neste caso, neste conflito que estava, digamos, pacificado desde 2022? Foram precisamente os ataques de Israel, primeiro, sofridos pelo Hamas no sul do seu território e depois a resposta musculada que tiveram. Isso levou, de facto, os hutis a reagirem.
Nós sabemos que há uma proximidade dos hutis ao Irão e portanto houve uma reacção dos hutis, tentaram atacar primeiro Israel directamente, apoiando não apenas o Hamas, mas os palestinianos. Não correu bem porque todos os seus mísseis e drones foram interceptados e a opção depois foi começar a atacar a navegação mercante no sul do Mar Vermelho. Isso fez com que recentemente e já estamos agora a falar, obviamente, do conflito que opõe Israel e os Estados Unidos ao Irão, fez com que recentemente a Arábia Saudita, perante esses ataques, voltasse a sentir-se insegura. E quando isso acontece, a reacção foi aquela que Arábia Saudita teve: atacou um avião de transporte estacionado, que teria vindo do Irão para o Iémen, no aeroporto Sana, supostamente com o material de guerra para os hutis, e isso despoletou depois a contra-reacção. E o que temos vindo a viver, desde então, é a acção e a contra-reacção, que está a crescer.
Mas há uma escalda nos últimos dias?
Exactamente. Vamos ver o que é que vai acontecer, porque também à Arábia Saudita chegou a pedir, há muito pouco tempo, o apoio dos Estados Unidos. Os Estados Unidos não lhes deram esse apoio. A Arábia Saudita tem agora esta coligação com a Turquia e o Paquistão. Uma coligação de defesa. Mas, de facto, está a sentir esses ataques dos hutis que estão a tentar de alguma forma - ao fazer o que estão a fazer -com este 'modus operandi' favorecer o seu grande aliado regional que é o Irão e portanto, não há elementos de informação suficientes para perceber como é que isto pode evoluir. Mas as tendências, na minha perspectiva, é que isto possa vir a agravar-se mais ainda no futuro próximo.
A Arábia Saudita denunciou um "crime de guerra" ao qual promete responder com "firmeza". Ao mesmo tempo, Riade está num dilema: vai responder militarmente para preservar a sua credibilidade ou vai evitar a escalada que pode significar uma nova guerra?
No auge do conflito, que aqui ainda se mantém embora a intensidade tenha diminuído, entre Estados Unidos e Israel e o Irão, a resposta do Irão foi atacar tudo o que eram interesses norte-americanos na região e, também, na Arábia Saudita. A Arábia Saudita, perante estes ataques e alguns foram ataques fortes, não reagiu. Optou por não o fazer, não reagir precisamente para evitar uma escalada do conflito. Agora é diferente, porque não é um estado, é o movimento que controla uma parte do Iémen.
A análise que eu faço é que, de facto, que a Arábia Saudita possa vir a intensificar a resposta. Não o fez, ainda estará a pensar qual será a melhor resposta. Repare que o Presidente [norte-americano, Donald] Trump disse que estava a pensar se os Estados Unidos desta vez poderiam ou não auxiliar Arábia Saudita nessa resposta.
Até agora, Washington não deu seguimento à nenhum pedido de apoio saudita.
Não deu e, creio, que não deixa de ser retórica por parte do Presidente Trump, que nos tem habituado a isto, pelo menos nos últimos meses. E não é bom para os Estados Unidos, que tem esta frente aberta com o Irão, abrir novas frentes, com os úteis hutis e, enfim, com outros movimentos, porque isso pode agravar muito mais a situação na região. E numa altura em que os Estados Unidos querem a todo o custo controlar os preços da energia. Repare neste acordo que fez agora com o 'senhor' Putin [Vladimir Putin, Presidente da Rússia].
Qualquer iniciativa que leve a que os preços possam de alguma forma aumentar é má para ele [Donald Trump] e para o Partido Republicano, que vai ter eleições intercalares. Portanto, eu julgo que dificilmente os Estados Unidos se envolverão, a não ser que seja uma questão absolutamente existencial para a Arábia Saudita, o que não creio que tenhamos chegado a essa situação.
E em relação aos hutis, têm efectivamente a capacidade militar para concretizar estas ameaças? Os hutis ameaçam todos os aeroportos da Arábia Saudita.
Sim, repare que eles têm drones, têm drones com alcance mais curto, na ordem de 250 quilómetros, mas depois têm mísseis de cruzeiro que irão até cerca de mil quilómetros e depois mísseis balísticos que são os mais complicados para as defesas anti-aéreas que podem ir numa versão até aos 1.200 quilómetros e na outra quase até aos 1.400, 1.500. E, portanto, de alguma forma, foi isso que lhes permitiu tentar visar, no início da sua resposta, Israel, quando Israel desencadeou aquela acção na Faixa de Gaza, foi isso que permitiu tentarem atingir solo israelita. E, portanto, é óbvio que a Arábia está dentro do envelope de todas as armas que os hutis possuem e, obviamente, que existem vários alvos passíveis de serem atacados pelas armas que os hutis dispõem de momento.
Portanto, os hutis ao conseguirem esta ameaça efectiva sobre o espaço aéreo saudita e ao também conseguirem influência no Estreito Bab el Mandeb, estão a afectar o equilíbrio estratégico do Médio Oriente.
Completamente. Neste momento, o Estreito de Ormuz está, como eu costumo dizer, duplamente fechado. Portanto, está fechado pelo Irão e depois também pelas forças navais americanas que estão no Golfo de Omã, fora do Estreito. E depois há uma predominância muito grande, um controlo quase efectivo dos hutis que controlam praticamente toda a faixa do Iémen no Mar Vermelho. E, sobretudo, controlam o acesso ao Mar Vermelho, vindo do Índico, vindo do Golfo de Aden. E isso dá-lhes um poder tremendo. Isso significa, no limite, que se houver esse controlo total dos dois estreitos da navegação em trânsito por aqueles dois pontos de estrangulamento, isso dá-lhes um poder enorme em toda a região. É muito significativo. E sobretudo ao Irão, obviamente, porque os hutis são um 'proxy' do Irão na região.
E como é que se sai deste impasse?
Eu diria que essa é a pergunta que toda a gente gostava de responder. Como em qualquer conflito, a negociação e a diplomacia devem prevalecer quando não há uma solução militar para as questões. E, na minha perspectiva, não há uma solução militar, tanto no Golfo de Ormuz quanto na região ocupada pelos hutis e o controlo do estreito de Bab el Mandeb. Não havendo, terá que a diplomacia entrar e terão que haver cedências. As partes terão que ceder, mas para isso é preciso que haja primeiro uma pacificação. Isto vem de encontro à sua pergunta inicial que tem a ver com a reacção da Arábia Saudita. Se a resposta da Arábia Saudita for musculada, isso vai provocar uma contra-reacção dos hutis, seguramente. Portanto, eu julgo que será isso que estará a ser analisado, o tipo de resposta que vai haver, se é que vai haver. Porque se esta espiral de violência não for parada, não há lugar à negociação e à diplomacia.
Para a Arábia Saudita há um problema de segurança, mas há também um problema de imagem, de estabilidade do reino, que acaba por ser deitada por terra, pelo menos internacionalmente. A Arábia Saudita deveria e deverá acolher este mês de Outubro uma série de grandes conferências internacionais. Se esta segurança é posta em causa, estamos a falar num impacto de que escala para a economia saudita?
Um impacto tremendo, porque a estabilidade tem sido fundamental para que o reino saudita tenha conseguido atingir os objectivos a que se tem vindo a propor. E um deles estende-se no tempo até 2030. Portanto, precisam de estabilidade para atingir esses objectivos. É evidente que tudo o que está a acontecer e o que poderá ainda vir a acontecer no futuro vai trazer à região tudo menos essa estabilidade que é necessária. Portanto, quando os próprios aeroportos estão sujeitos a ataques dos hutis, quando os próprios hutis já frisaram que poderão visar outros aeroportos para além do aeroporto de Riade que foi atacado e já foi atacado mais de uma vez - é bom nos lembrarmos disso - isso é uma imagem de instabilidade permanente. As organizações que têm na agenda a presença na Arábia é tudo o que não querem. Não querem, obviamente, estar num local que seja instável e inseguro. E isso deve estar a pesar na decisão que a Arábia vai tomar, mas para um bem maior, isso se calhar deve no mínimo ser equacionado e julgo que o terá de ser neste momento.
A 07 de Agosto deste ano, a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia assinaram o Acordo de Defesa Conjunta de Meca, que prevê, grosso modo, que um ataque armado contra um destes países seja considerado como um ataque contra todos. Este acordo assinado entre estes três países, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, pode transformar este conflito com os hutis num confronto regional mais amplo ou é que instrumento de dissuasão?
Pode efectivamente. Nós não sabemos exactamente tudo sobre esse acordo. Se for parecido com o famoso artigo cinco do Tratado de Washington, da NATO, a Aliança Atlântica pressupõe que um Estado, neste caso a Arábia Saudita, terá que invocar essa alínea ou esse artigo para que os demais Estados, a Turquia e o Paquistão, possam actuar de uma forma concertada. Portanto, eu creio que a Arábia Saudita ainda não activou esse artigo. Também não sei em que circunstâncias é que pode ser activado, porque, como digo, uma coisa é o que nós sabemos grosso modo. Esse acordo é muito recente. Portanto, temos que perceber de que forma é que essas duas potências, que são próximas, mas exteriores àquela região, podem intervir em apoio da Arábia Saudita. E também temos que ver se a Arábia Saudita quer que esse apoio se manifeste na prática. Em todo o caso, se de facto esse apoio vier a ser solicitado e vier a ser concedido pelas outras duas potências, isso vai alargar claramente o âmbito do conflito que está muito confinado àquela região do Médio Oriente, mas muito centrado na Península Arábica, e vai extravasar os limites geográficos da Península Arábica vai progredir para além das fronteiras, o que não é nada bom para todos e para a comunidade internacional também não é.
O Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, FESTin, decorre em Lisboa até este domingo, 11 de Outubro, com cerca de 60 filmes e uma programação que procura afirmar a diversidade dentro do espaço lusófono. Na 17.ª edição, que coincide com os 30 anos da CPLP, sete realizadores de países africanos de língua portuguesa levam ao festival histórias sobre memória, migração, identidade, tradição e condição feminina.
Para a directora artística do FESTin, Adriana Niemeyer, a presença dos PALOP não serve para construir uma imagem única do cinema africano de língua portuguesa. O objectivo é mostrar cinematografias que partilham uma língua, mas nascem de sociedades, histórias e referências distintas. “A língua portuguesa tem vários sotaques, representa várias culturas. Somos muitos, somos irmãos, mas também temos as nossas singularidades”, afirma.
O festival reúne este ano sete filmes de sete realizadores de diferentes países africanos, embora a presença das curtas-metragens continue a ser superior à das longas. Adriana Niemeyer associa essa diferença às próprias condições de produção. “Existe uma grande dificuldade de meios para produzir longas-metragens”, explica. A escassez de financiamento, estruturas técnicas e incentivos continua, segundo a directora artística, a limitar a capacidade de muitos cineastas de transformar projectos mais ambiciosos em filmes.
Um filme produzido em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe não é escolhido para representar uma suposta experiência africana comum, da mesma forma que Portugal, Brasil ou Timor-Leste não são tratados como variações de uma única cultura. “Respeitamos a singularidade, as características, a cultura e o modo de pensar de cada país”, sublinha Adriana Niemeyer. “Um filme que pode ter sucesso em Timor-Leste não é necessariamente o mesmo que pode ter sucesso no Brasil.”
Memória, migração, condição feminina, tradição ou precariedade surgem repetidamente na programação, mas assumem significados diferentes consoante o lugar de onde as histórias são contadas. “Tentamos procurar em cada país uma questão que apresente a sua realidade”, explica a directora artística. O cinema funciona, assim, menos como ilustração da CPLP do que como instrumento para perceber aquilo que uma língua comum, por si só, não consegue revelar.
Adriana Niemeyer defende também que essa diversidade só pode existir plenamente se os próprios países tiverem condições para produzir as suas imagens. “Quando realizam, são criativos e mostram realmente o que é a realidade”, afirma. A directora do FESTin lamenta que muitos realizadores continuem sem apoio financeiro, material ou institucional e considera que os governos deveriam incentivar mais a produção audiovisual local. Não se trata apenas de produzir filmes, mas de garantir que cada sociedade dispõe de meios para contar as suas próprias histórias e construir as suas referências.
A questão torna-se mais importante num mercado audiovisual dominado por grandes produções internacionais e plataformas. “Estamos a ver séries americanas, Netflix, e acabamos por não ver as nossas realidades”, observa. O risco, acrescenta, é que os espectadores passem a tomar como modelo experiências que pouco têm que ver com as sociedades em que vivem. “O cinema regional tem um papel muito importante”, defende, justamente porque permite que um país se veja a si próprio antes de ser visto através de imagens produzidas por outros.
Para os realizadores africanos, Lisboa pode também funcionar como ponto de passagem para outros circuitos. Segundo Adriana Niemeyer, o FESTin recebe hoje um número significativo de candidaturas provenientes dos PALOP e conquistou reconhecimento entre cineastas desses países. “O FESTin é uma montra internacional para os filmes africanos”, afirma. A presença no festival pode abrir contactos na Europa, criar possibilidades de co-produção e levar as obras a outros públicos. “Um dos nossos grandes objectivos era ser uma montra para novos talentos.”
Parte dos filmes segue depois para exibições noutros países, permitindo que obras com circuitos comerciais reduzidos encontrem novos espectadores. Para Adriana Niemeyer, essa circulação dá conteúdo concreto à ideia de intercâmbio dentro da lusofonia, não basta afirmar que existe uma língua comum é necessário criar espaços onde os diferentes países possam conhecer aquilo que os outros produzem e a forma como se representam.
No ano em que a CPLP completa 30 anos, Adriana Niemeyer coloca o conhecimento mútuo no centro do papel do cinema. “Quando se cria conhecimento, criam-se relações”, afirma. E resume essa função através de uma imagem “se não se viaja, o cinema é uma viagem sem estar lá.” Durante estes dias em Lisboa, o FESTin propõe essa viagem por uma comunidade que partilha uma língua, mas cuja riqueza está também nas diferenças que essa língua transporta.
O Governo de Transição e a Comissão Nacional de Eleições anunciaram, esta quinta-feira, 8 de Outubro, que não estão reunidas as condições legais nem operacionais para a realização das eleições gerais, previstas para 6 de Dezembro, na Guiné-Bissau. A decisão não surpreendeu os partidos políticos nem a sociedade civil, que se mostram favoráveis a esta posição. O analista político Rui Jorge Semedo responsabiliza as actuais autoridades por não terem feito o necessário para garantir a realização do escrutínio. O analista insta ainda as autoridades militares a promoverem um diálogo com a comunidade internacional e todas as forças políticas, incluindo o ex-Presidente Umaro Sissoco Embaló. Defende igualmente a reabertura das sedes dos partidos políticos e do Parlamento, com o regresso do presidente da Assembleia Nacional, Domingos Simões Pereira, e dos deputados eleitos.
O Governo de Transição e a Comissão Nacional de Eleições anunciaram, esta quinta-feira, 8 de Outubro, que não estão reunidas as condições legais nem operacionais para a realização das eleições gerais, previstas para 6 de Dezembro. A que se deve esse adiamento?
Governo é o responsável por criar as condições que permitam à Comissão [Nacional de Eleições] trabalhar. A própria configuração da CNE é ilegal, porque não cumpriu os preceitos que constam das leis do país para, por exemplo, nomear o seu presidente. Assim, o presidente que ali se encontra foi imposto devido às circunstâncias que todos nós conhecemos, quer do ponto de vista técnico, em termos do cumprimento de determinados trabalhos por parte da Comissão, quer do ponto de vista legal, não estão reunidas as condições para que as eleições se realizem no dia 6 de Dezembro.
E, a não se realizarem as eleições, que cenários se desenham para o país?
Tudo depende da vontade do comando militar, uma vez que os próprios militares anunciaram a ruptura com a arquitectura idealizada a partir do golpe de Estado e o anúncio do desmantelamento, entre aspas, da milícia que controlava o Palácio da República. Isso já é um bom sinal. Todos nós sabíamos que não havia condições para a realização de eleições no dia 6 de Dezembro.
As actuais autoridades têm legitimidade para se manter no poder?
Infelizmente, estamos a falar de um contexto de golpe de Estado. Não é isso que a Constituição da República prevê, mas houve uma usurpação do poder. É necessário regressar à normalidade constitucional, construir um espaço para o diálogo político. É necessário que os militares se retirem do cenário político e permitam que os legítimos representantes possam fazer o seu trabalho.
Havendo essa compreensão e essa disponibilidade, acho que poderíamos, certamente, optar por fazer o país regressar à normalidade constitucional e continuar também a ter espaço nos fóruns internacionais.
O antigo primeiro-ministro guineense, Nuno Gomes Nabiam, defendeu que as eleições fossem adiadas. Apelou à criação de um Governo de “ampla base” e a um período de transição alargado por um ou dois anos. Esta proposta parece-lhe possível? Quem poderia integrar esse Governo de ampla base?
Não sei se Nuno [Gomes Nabiam] é a pessoa mais indicada para falar sobre isso, mas, já que o fez, temos também de respeitar a sua posição.
É necessário estabelecer um diálogo com os actores relevantes. Nuno pertence ao APU- PDGB que, salvo erro, tem um ou dois deputados no Parlamento. Existem outros actores com relevância, tendo em conta o seu peso político no Parlamento -PAIGC, MADEM G-15.
Depois, há que incluir nesse diálogo todos os actores. Desse processo resultarão, certamente, consensos que permitirão definir a duração do período de transição e quem deverá também participar no Governo.
O Presidente deposto Umaro Sissoco Embaló, que já manifestou vontade de regressar ao país e de se apresentar às eleições, pode participar nesse diálogo?
Na minha perspectiva, esse diálogo não deve ser abordado do ponto de vista pessoal, centrado nas diferentes personalidades. Estamos a falar de um país. O princípio deve ser o da institucionalização.
Assim, o diálogo deve realizar-se sobretudo a partir dos partidos políticos, em particular daqueles com assento parlamentar, que têm um mandato da população para se pronunciarem e tomarem decisões. Umaro Sissoco Embaló pertencia, e ainda pertence, a um partido -MADEM G-15- é a partir desse partido que também poderá participar no diálogo.
Recentemente, o Presidente deposto manifestou interesse em regressar ao país e em apresentar-se às eleições de 6 de Dezembro. Entretanto, um comunicado do Conselho Nacional de Transição referiu que não estavam reunidas as condições para o seu regresso. O adiamento das eleições poderá estar, de alguma forma, relacionado com esta questão e com a dissolução da Guarda Presidencial?
Ainda não está nada claro sobre o momento que estamos a atravessar. Tudo está confuso, até mesmo no que diz respeito aos comunicados.
Num primeiro momento, o porta-voz do Conselho Nacional de Transição disse que Umaro Sissoco Embaló poderia regressar ao país logo no dia seguinte. Depois, surgiu um comunicado a indicar que não poderia regressar, porque as condições de segurança ainda não estavam reunidas.
Posteriormente, foi anunciado o afastamento de alguns elementos pertencentes à Guarda Presidencial. Mas acho que, para romper com o regime de Sissoco Embaló, não podemos olhar apenas para as forças de defesa e segurança que o acompanhavam. Há ainda, nas estruturas do poder, actores políticos com alguma influência que não foram afastados.
Mesmo depois da remodelação ministerial?
Na verdade, não houve uma remodelação efectiva, até porque já tinha ocorrido uma alteração há alguns meses. Por exemplo, João Bernardo Vieira saiu dos Negócios Estrangeiros e passou para a Justiça, enquanto Carlos Pinto Pereira saiu da Justiça e passou para o Ambiente.
Acho que o que aconteceu foi, na verdade, uma engenharia destinada apenas a adaptar o que, neste momento, constitui a estratégia do Comando Militar. Na minha leitura, essa engenharia ainda não teve qualquer impacto que indique uma vontade expressa de contribuir, efectivamente, para uma ruptura com o regime de Embaló.
Por outro lado, também não permite que as pessoas acreditem que estamos realmente numa nova fase deste processo. Enquanto isso não acontecer, acho que continuamos no mesmo lugar: um lugar dominado pelo poder militar, onde não há espaço para a participação de outros actores, sobretudo políticos e da sociedade civil.
É isso que é urgente fazer agora. Se os militares querem realmente criar uma linha de entendimento com a sociedade guineense, precisam de começar a dar sinais concretos. O diálogo é urgente.
Acho que, por exemplo, o referendo que foi agora realizado conseguiu transmitir uma mensagem forte sobre a vontade e a expressão dos guineenses, porque não houve participação efectiva. Na minha leitura, isso também contribuiu para esta tentativa de mudança, embora ainda não corresponda àquilo que a população guineense realmente ambiciona.
Não se estará, mais uma vez, a adiar a democracia na Guiné-Bissau? Ou há consciência de que o país não está, de facto, preparado e não reúne as condições necessárias para realizar estas eleições?
Estamos a falar de uma situação em que as sedes dos partidos foram encerradas. Como é que se pode pensar em realizar eleições num contexto em que a actividade política foi proibida?
Acho que há um conjunto de aspectos que todos reconhecemos. Por isso, penso que o adiamento será consensual.
Agora, o importante é que o poder consiga realmente abrir-se, permitir o exercício da actividade política e criar condições para que a Comissão Nacional de Eleições possa trabalhar. É urgente retomar os trabalhos na Assembleia Nacional Popular.
Mas isso exigiria, por exemplo, o regresso do presidente desposto da Assembleia Nacional Popular.
A bola está do lado do Comité Militar. Se os militares querem realmente fazer o país regressar à democracia, têm de respeitar as instituições, a começar precisamente pelo Parlamento.
A estrutura eleita pelo povo da Guiné-Bissau tem de retomar o seu trabalho. É indispensável que o presidente deposto da assembleia Nacional, Domingos Simões Pereira regresse, porque não cometeu nenhum crime, pelo menos até ao momento. Não foi provado que tenha cometido qualquer crime, nem que venha a ser responsabilizado por isso. Acho que, se tal vier a ser comprovado, deverá também ser responsabilizado. Mas, até ao momento, não há nada que o demonstre.
Portanto, a Assembleia tem de funcionar com o seu presidente e com todos os deputados eleitos para esta legislatura, que foi interrompida.
Quando é que considera que o país estará preparado para realizar eleições?
É urgente abrir um diálogo inclusivo entre os actores políticos e a sociedade civil. Acho que será a partir desse diálogo que se definirá o calendário deste processo.
“Por Jade”, do realizador angolano Baruch Tadisi, cruza Angola e Mali para falar de poligamia, consentimento, família e poder dentro de uma relação marcada por códigos culturais diferentes. O filme vai ser exibido esta quinta-feira 8 de Outubro, pelas 21h00, no FESTin, em Lisboa.
A história começa com uma revelação que altera tudo o que Suzana julgava saber sobre o casamento. Até então, a protagonista acredita estar a construir uma vida a dois com Bakary. No Mali, percebe que essa relação assentava numa informação decisiva escondida. Para Baruch Tadisi, é nessa ocultação, e não apenas na existência da poligamia, que nasce o verdadeiro conflito. “A poligamia é ocultada dentro da história e isso faz com que se crie o choque de culturas”, explica o realizador.
“Por Jade” usa a poligamia como porta de entrada para uma discussão ampla sobre confiança, consentimento e diferença cultural. Baruch Tadisi insiste que o filme não pretende condenar relações entre pessoas de países ou tradições diferentes. O que procura questionar é a ideia de que partilhar o mesmo continente significa partilhar os mesmos códigos familiares, sociais ou religiosos. “Pode-se ter uma relação com pessoas de culturas diferentes, mas primeiro é preciso tentar entender a cultura do parceiro”, afirma.
Essa reflexão nasceu de uma história que chegou ao realizador ainda durante os anos de universidade. Baruch Tadisi ouviu falar de uma jovem que teria desaparecido depois de se envolver com um homem maliano e começou, a partir daí, a prestar atenção a situações semelhantes. “Há muitas mulheres, muitas meninas, muitas jovens que passaram pela situação que a Suzana passou e ninguém conta, ninguém fala”, conta. Para o cineasta, o silêncio em torno destas experiências acabou por transformar o tema numa espécie de tabu.
A fronteira entre Angola e o Mali torna-se, por isso, mais do que uma deslocação geográfica. É também a passagem entre duas formas de entender o casamento, a família e o lugar de cada pessoa dentro dessas estruturas. Baruch Tadisi vê aí um dos pontos essenciais do filme. A diferença existe, mas pode permanecer invisível até ao momento em que duas pessoas são obrigadas a viver segundo as mesmas regras. É precisamente quando Suzana chega ao Mali que aquilo que parecia apenas uma relação afectiva passa a ser também um confronto com uma tradição que desconhecia.
Ao levar este tema para o ecrã, o realizador entrou num terreno sensível. Baruch Tadisi conta que recebeu críticas de membros da comunidade maliana e chegou a ser atacado nas redes sociais pela forma como abordou a questão. Ainda assim, rejeita a ideia de que o filme seja uma acusação contra um povo ou uma cultura. O seu alvo, explica, é a falta de transparência dentro da relação. “A única arma que nós temos, como cineastas, para denunciar certas coisas é o cinema”, afirma.
O título do filme desloca o centro moral da história. Não se chama “Por Suzana” nem “Por Bakary”. Chama-se “Por Jade”. A filha do casal é a personagem sobre a qual acabam por pesar decisões tomadas pelos adultos, num conflito em que amor, tradição e pertença familiar deixam de ser questões abstractas. “Às vezes, as escolhas que nós, mais velhos, fazemos, ou as escolhas que os casais fazem, quem sofre é a criança”, explica Baruch Tadisi.
É através de Jade que o filme expõe uma relação de poder, quem decide sobre a criança, quem tem legitimidade para impor uma escolha e quem é obrigado a adaptar-se. Baruch Tadisi descreve a relação entre Suzana e Bakary como tendo apenas “um equilíbrio de fachada”. A diferença cultural deixa então de ser apenas uma questão de costumes e passa a envolver autoridade, género e capacidade de decisão dentro da família.
O próprio processo de produção acabou por reproduzir, de outra forma, essa travessia entre os dois países. As sequências previstas para o Mali deveriam inicialmente ser filmadas em território maliano, onde a produção já tinha estabelecido contactos com actores e técnicos. O agravamento dos conflitos armados obrigou a equipa a abandonar o plano. “Não poderia colocar a vida dos actores e dos técnicos em risco”, recorda Tadisi. O deserto do Tômbwa, na província angolana do Namibe, acabou por servir de cenário às sequências passadas no Mali.
Depois de circular por festivais internacionais, “Por Jade” é exibido esta quinta-feira, 8 de Outubro, às 21h00, no FESTin, no Auditório Camões, em Lisboa. O filme segue depois para Angola, onde foi seleccionado para o Festival Internacional de Cinema de Luanda e deve competir na categoria de longa-metragem. Baruch Tadisi vê nesse regresso um momento importante para mostrar em casa o trabalho que já circulou fora. “O FIC é o espelho do cinema angolano”, afirma. A pergunta que se levanta é a do lugar que o Festival Internacional de Cinema de Luanda pode ocupar na afirmação de uma nova geração do cinema angolano?
O Presidente da República de Angola João Lourenço fará no próximo dia 15 de Outubro, o último discurso sobre o Estado da Nação. João Lourenço está prestes a deixar o poder depois dos dois mandatos autorizados pela Constituição. Acerca do MPLA, partido que governa o país desde a independência, foi publicada uma tese, em Lisboa, sobre a evolução da sua legitimidade. O seu autor, o sociólogo e investigador David Boio obteve a classificação máxima de 20 valores.
Este trabalho elaborado pelo sociólogo David Boio, intitulado "O processo do declínio da legitimidade política do poder autoritário do MPLA em Angola", foi distinguido com 20 valores pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.
Neste documento, o investigador analisa, através de dados oficiais e entrevistas, a forma como o poder do MPLA tem vindo a ser percecionado pelas diferentes gerações angolanas. Os eleitores que viveram a luta pela independência, os que conheceram a guerra e o que nasceram em período de paz têm comportamentos políticos e expectativas diferentes.
RFI: Quando fala em declínio da legitimidade do MPLA, o que está exactamente a declinar?
David Boio: No caso de Angola, estamos a falar de um regime que tem 50 anos desde a proclamação da independência. Durante um tempo, a questão da independência foi apresentada pelo regime como justificação da sua existência e legitimidade. No fundo, o regime dizia que eles deviam governar porque são eles os responsáveis pela independência.
Após a independência, veio a questão do conflito e da guerra civil. Houve uma mutação dessa legitimidade para o argumento sgeundo o qual o regime é garante da paz e da prosperidade. "Paz e desenvolvimento", era o slogan. A partir de 2013 e 2014, o país entrou em graves dificuldades económicas e o regime passou a ter dificuldade de se justificar.
RFI: A legitimidade política do MPLA passou por várias fases. Durante a guerra civil, por exemplo, não era a mesma que agora.
David Boio: Houve alterações profundas na sociedade angolana e por isso é que a tese introduz a variável de gerações. A tese tenta ver se existem encontros ou desencontros entre os argumentos de legitimidade do regime. Analisamos a maneira como as diferentes gerações encaram essas fontes de legitimidade.
Criámos três categorias de gerações. A primeira, é a geração da independência. Depois vem a geração da guerra, socializada em contexto de conflito. A terceira geração, aquela que a tese analisa com maior profundidade, é a geração da paz. Essa geração tem pouca memória deste passado, da luta pela independência e da guerra. Cada uma dessas gerações adere a diferentes fontes de legitimidade. E o comportamento político de cada uma dessas gerações é influenciado por isso.
RFI: Então, por exemplo, qual é a legitimidade do MPLA para um jovem que hoje tem 20, 25 anos?
David Boio: Para um jovem que tenha 20 anos, neste momento, o MPLA não tem legitimidade. Primeiro, porque tem sido incapaz de ir ao encontro das expectativas mais materiais, da empregabilidade, etc. Em segundo lugar, e este é o ponto mais importante, para essa geração o Estado, curiosamente, não existe.
Há uma rejeição que se cria. Essa geração ambiciona ser mais cidadã, quer que haja democracia, etc. De certa forma, a geração da guerra lida melhor com o facto de o país não ser uma democracia. Porquê? Porque tem a memória. Pensa: "Não somos uma democracia, mas somos independentes", ou "Não somos uma democracia, mas não temos guerra, estamos em paz".
RFI: O declínio da hegemonia do MPLA deve ser interpretado como o crescimento da UNITA e dos outros partidos da oposição ou nem por isso?
David Boio: Os dados oficiais da CNE mostram o MPLA a decrescer e a UNITA a crescer. Mas ao mesmo tempo, parece que não existe uma adesão dessa geração com a UNITA. A inclinação para UNITA é uma questão meramente instrumental. No fundo, esta geração sanciona o MPLA votando UNITA.
RFI: Com base nos dados recolhidos na sua tese, considera ser possível que haja uma alternância política com as eleições em 2027?
David Boio: Penso que será muito difícil. Tal como disse, acho que não há grande expectativa relativamente à oposição. A Frente Patriótica Unida, em 2022, teve um grande impacto. Mas desta vez, parece que os partidos na oposição não vão formar aliança. Penso que, para chegar ao poder, é necessário funcionar em bloco. Se estivéssemos num contexto de democracia, acho que nem em 2022 o MPLA teria ganho as eleições. Porquê? Porque os níveis de reprovação das pessoas são enormes. Mais de 80% da população angolana considera que o MPLA governa mal. Os níveis de desconfiança são muito elevados. Em contexto autoritário, que é o nosso caso, o MPLA ganha as eleições porque basta dizer que ganhou. Julgo eu que em 2027 o MPLA voltará a dizer que ganhou. A possibilidade de não ganhar é a oposição demonstrar que o MPLA não ganhou as eleições.
Três anos depois do ataque do Hamas de 7 de Outubro de 2023, Gaza continua devastada, a violência agrava-se na Cisjordânia e uma solução política continua distante. O jornalista e analista de política internacional Miguel Szymanski analisa as responsabilidades de Israel e do Hamas, o papel dos Estados Unidos e da Europa, a erosão do direito internacional e a forma como os media europeus têm coberto o conflito.
RFI: Três anos depois do 7 de Outubro, como devemos falar simultaneamente do crime cometido pelo Hamas e da devastação infligida depois à população de Gaza?
Miguel Szymanski: Em primeiro lugar, nesta data em que passam três anos sobre os atentados do Hamas, devemos pensar nas vítimas. Devemos pensar nas 1139 vítimas que o Hamas fez no seu ataque contra Israel. Devemos pensar nos mais de 200 jornalistas assassinados pelo exército israelita desde então, nas 20 mil crianças mortas pelo exército israelita e no total de mais de 70 mil palestinianos assassinados.
Ou seja, as vítimas não podem ser somadas umas contra as outras, nem subtraídas. Mas a desproporção é flagrante. É a desproporção que distingue um atentado terrorista, o massacre de civis que foram os atentados do Hamas, de um genocídio e de uma subsequente limpeza étnica que se está a verificar na Cisjordânia, na Palestina.
As esperanças foram por água abaixo, temos ainda uma guerra no Médio Oriente em curso. Depois dos ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão, que são uma consequência directa desse fatídico 7 de Outubro de 2023. Isso é uma consequência directa porque, imediatamente após estes atentados, os Estados Unidos começaram a colocar o seu porta-aviões no local em que se tornava previsível um ataque contra o Irão, que era algo que Israel, sobretudo Netanyahu, já desejava há muito tempo.
E, por falar em Netanyahu, é talvez bom lembrar que Israel vai ter eleições brevemente, agora em Outubro, e que o partido de Netanyahu, o Likud, tem a sua origem no Irgun, que era um movimento terrorista nos anos 40, que matou centenas de civis árabes, britânicos, crianças, mulheres, civis.
Portanto, isto de olhar para os agrupamentos terroristas tem sempre uma perspectiva histórica. No momento, são movimentos terroristas. Assim era classificado aquilo que deu origem ao actual partido de Netanyahu. Era considerado terrorista pelos britânicos e por muitas organizações internacionais. E, na retrospectiva histórica, para os israelitas é um movimento de libertação, tal como na Palestina não se olha para o Hamas como um movimento terrorista.
Os mortos são, no entanto, aquilo que mais nos tem de chocar, bem como os deslocados e a tentativa actual de Israel de fazer, assumidamente, uma limpeza étnica e de ter varrido da mesa sequer a ideia de reconhecer o Estado da Palestina. Nem o actual primeiro-ministro, nem o seu principal opositor em Israel têm sequer a ideia de aplicar o direito internacional que reconhece o Estado.
Enquanto a tensão internacional permanece centrada em Gaza, continuam, na Cisjordânia, a expansão dos colonatos, as demolições, a violência dos colonos e a fragmentação territorial. Ainda existem condições materiais para um Estado palestiniano viável ou a solução de dois Estados tornou-se sobretudo uma fórmula diplomática para evitar discutir a realidade política que já existe entre o Mediterrâneo e o Jordão?
Ambos os cenários são possíveis e dependem sobretudo da comunidade internacional, porque a comunidade internacional, a começar pela Europa e pelos Estados Unidos, teria, se quisesse, os meios necessários para forçar Israel a cumprir a solução de dois Estados.
Israel não quer essa solução, claramente. Nem o principal partido no Governo, nem o principal partido da oposição querem esta solução. Mas Israel poderia ser obrigado a cumprir o direito internacional, como, por exemplo, se tenta fazer com a Rússia. Tenta-se que a Rússia cumpra o direito internacional e se retraia do território que invadiu na Ucrânia e, para isso, a União Europeia recorreu a mais de 20 pacotes de sanções. Outros tantos os Estados Unidos.
Portanto, há meios de pressionar os países, com maior ou menor eficácia. Menor eficácia no caso da Rússia, porque é uma potência grande de mais e demasiado apoiada pela China, pela Índia, por vários outros países, pelo Brasil, pelos BRICS, pelo Sul Global.
No caso de Israel, não. Israel está isolado e bastava que os Estados Unidos e a União Europeia quisessem obrigar Israel a cumprir o direito internacional para isso acontecer de imediato.
De maneira que, se não acontece, ficamos pelo credo de boca de países como a França, o Reino Unido, a Irlanda, países que entretanto reconhecem a Palestina, incluindo Portugal. Ficamos com o credo na boca porque não se seguem as acções necessárias para impor esta solução. Israel, voluntariamente, não o fará.
O direito internacional foi constantemente evocado pelas Nações Unidas, tribunais, governos, como dizia, e organizações humanitárias, mas revelou uma capacidade muito limitada para proteger civis. O que nos dizem estes três anos sobre a chamada ordem internacional baseada em regras?
Poder-se-ia pensar que foi suspensa. Eu sou menos optimista e acho que está a ser activamente desmantelada, sobretudo por Israel. Mas, numa meta-análise, obviamente graças ao peso dos Estados Unidos.
Os Estados Unidos estão a perseguir os juízes do Tribunal Penal Internacional, que é um tribunal penal que resultou de um acordo assinado pela totalidade dos países da União Europeia, mas que os Estados Unidos não reconhecem. Não só não reconhecem, como não assinaram o Tratado de Roma que o instituiu, como estão activamente a perseguir os juízes, a aplicar-lhes sanções e a dizer que não querem que aquele tribunal funcione.
Foi esse tribunal que declarou que tanto Netanyahu como o seu ministro da Defesa na altura, Gallant, têm de responder por crimes de guerra perante o Tribunal Penal Internacional.
Os Estados Unidos não o querem, como os Estados Unidos não querem que funcionem as outras organizações, como as próprias Nações Unidas. E, por isso, o Presidente dos Estados Unidos criou aquele Board of Peace, um conselho de paz que foi uma tentativa caricata de Donald Trump para criar uma estrutura paralela às Nações Unidas. Não funcionou, não irá funcionar.
Mas o que funcionou foi o desmantelamento, e está a ser o desmantelamento, dessa ordem internacional baseada em regras, que os Estados Unidos querem absolutamente impedir.
Talvez só voltarmos ao início da conversa, quando falámos no atentado do Hamas. Neste momento, temos familiares das vítimas deste atentado, israelitas, cidadãos israelitas, a acusar Netanyahu de não ter protegido os reféns, de ter sabido de antemão dos ataques do Hamas e de nada ter feito.
Temos a imprensa israelita a dizer que Netanyahu não só foi informado de antemão, como foi, durante muitos anos, cúmplice do Hamas, que era indirectamente financiado para evitar sequer que tivessem de negociar uma solução para a Palestina. Porque, enquanto existia o Hamas, Netanyahu tinha um pretexto para dizer: eles são terroristas, portanto, nós não negociamos com terroristas. É por isso que não avançámos com a solução de um Estado palestiniano.
Têm sido truques. E os truques vão mais longe. Como soubemos agora recentemente, por uma entrevista dada até pelo próprio ministro da Defesa, procurado por crimes de guerra, que disse que, no 7 de Outubro, foi aplicado o protocolo Hannibal.
O protocolo Hannibal é um protocolo do exército israelita que diz que, para evitar que se façam reféns ou que sejam retidos militares israelitas, se dispara a matar contra palestinianos, aceitando que também serão mortos israelitas.
Por isso, não se sabe quantos dos 1139 mortos na sequência do ataque do Hamas foram assassinados pelo Hamas. E quantos é que não foram assassinados por Israel? Que percentagem, ao abrigo deste protocolo assumido pelo próprio ex-ministro?
Quem tem hoje legitimidade para decidir o futuro político dos palestinianos? Pode existir uma solução legítima, concebida principalmente por Israel, pelos Estados Unidos, pelos países árabes e pelas potências europeias, sem soberania palestiniana e sem uma representação política palestiniana democraticamente renovada?
Nós sabemos, e ouvimos a explicação por parte da Ucrânia, que não é possível organizar eleições num clima de guerra. Com o clima de guerra na Ucrânia e, no caso da Palestina, com o grau de destruição na Faixa de Gaza e a situação em que vivem as pessoas na Cisjordânia, é praticamente impossível.
Face às agressões permanentes, à terraplanagem, com milhares de pessoas ainda soterradas sob o entulho e os escombros em Gaza, e praticamente sem condições de vida minimamente dignas, é impossível organizar-se qualquer tipo de eleições neste momento na Palestina.
E a comunidade internacional não está a cumprir o seu papel, que seria forçar, mais uma vez, repito, forçar Israel a cumprir as regras elementares do direito humanitário.
Israel não o está a fazer. Assume que quer correr com os palestinianos do seu território. E eu não vejo, enquanto não houver pressão substancial, pelo menos da União Europeia, essa poderia mudar alguma coisa , uma solução.
Tivemos, sim, este Verão passado, a China a cortar praticamente relações com Israel por outras razões. Relações comerciais na área tecnológica, porque Israel estava a exportar equipamentos para a China, que eram equipamentos de espionagem, que estavam camuflados, como os pagers, como os equipamentos electrónicos que distribuíram por centenas de famílias e que mataram centenas de civis porque explodiam nas mãos de quem os usava.
Essas atitudes de Israel, de facto, têm isolado muito Israel na comunidade internacional. Mas continua a ser apoiado pela União Europeia e pelos Estados Unidos e, até que isso mude, a situação dos palestinianos permanecerá periclitante e num nível de condições de vida que são sub-humanas, e não poderá sequer pensar-se na constituição de um Estado.
Por isso, os governantes europeus limitam-se a ter um discurso, enfim, correcto dentro do direito humanitário, mas sem tirarem minimamente as consequências necessárias.
Existe uma ordem política que possa permitir hoje a israelitas e palestinianos viverem com iguais direitos e segurança? Quem, concretamente, está a impedir que isso seja possível?
Em primeiro lugar, quem o está a impedir é o partido que está no Governo de Israel, o Likud, com os partidos com quem tem coligação, estes radicais extremistas, assumidamente genocidas, como Bezalel, o ministro das Finanças que também é ministro dos colonatos, Itamar Ben-Gvir, que é o ministro que também tem estado a proclamar a necessidade de se arranjar uma solução para correr com os palestinianos dos seus territórios.
E depois prossegue, em Israel, para os partidos da oposição, que também não querem esta solução. Internamente, em Israel, ninguém quer uma solução de dois Estados.
Se tirarmos, enfim, os jornalistas do Haaretz que é um jornal israelita com grande projecção internacional, mas que em Israel tem uma faixa de mercado de cerca de 3% a 4%, temos uma ínfima minoria dentro de Israel que reconhece os crimes de terrorismo de Estado de Israel e que os denuncia activamente. Mas é uma minoria ínfima dentro de Israel.
E enquanto os EUA apoiarem Israel, e vemos o que estão a fazer, com interesses próprios no Irão, percebe-se que a continuação da guerra no Irão dá lucros fabulosos a Wall Street e às petrolíferas. Portanto, aquilo que começou como um erro continua como um negócio.
E, enquanto essa for a bússola da geopolítica das grandes potências, como os Estados Unidos, não há uma solução que se possa prever para a Palestina, a não ser que nós, na Europa, que temos muita influência sobre Israel, façamos pressão.
Mas aquilo que observamos é o contrário: é serem declarados como organizações terroristas, no Reino Unido, por exemplo, aqueles que querem defender os direitos dos palestinianos. Foram presos centenas e centenas de britânicos porque se manifestaram pela organização Acção Palestina, considerada terrorista.
E, mais uma vez, temos esta classificação: quem é que é terrorista? Quem é que quer liberdade e quem é que luta pelos direitos humanos das suas populações, sejam elas na Palestina ou no Reino Unido?
Criticou publicamente a cobertura mediática deste conflito. O que revelou a cobertura europeia do pós-7 de Outubro sobre o estado do jornalismo?
É uma pergunta que se tornou pessoal para mim, porque eu era correspondente do jornal Welt, que é do maior grupo de imprensa europeu, o grupo Axel Springer. E a Welt é a maior televisão privada na Alemanha.
Eu fui durante dez anos correspondente em Lisboa e demiti-me numa carta que enviei também publicamente a vários jornais na Alemanha, por causa do branqueamento sistemático que faziam dos crimes de Israel. E achei que não poderia continuar.
Mas isto é só o meu caso pessoal, porque, se olharmos para todo este grupo, que é dono da televisão da qual eu me demiti, o grupo Axel Springer, que é também dono do Politico, o presidente deste grupo disse claramente que os jornalistas que quisessem criticar Israel podiam ir procurar empregos noutras publicações.
Ou seja, quando me demiti, simplesmente antecipei por alguns meses aquilo que o presidente do grupo Axel Springer viria a dizer: que não se admitem críticas substanciais a Israel.
Eu penso que isso diz bastante sobre o jornalismo. Tendo em conta que este grupo é actualmente o maior grupo de imprensa na União Europeia, diz bastante sobre o jornalismo.
África poderá alcançar a auto-suficiência em combustíveis até 2030, segundo o empresário nigeriano Aliko Dangote. O empresário, que inaugurou, no final de Setembro, uma nova unidade de processamento de petróleo no Quénia, defende que o continente tem condições para reduzir significativamente a dependência das importações de combustíveis. Para o economista angolano Carlos Rosado, a meta é ambiciosa, mas pode ser alcançada. O especialista considera que, com investimentos em infra-estruturas e logística, o continente africano poderá tornar-se praticamente autónomo na produção de combustíveis.
África conseguirá tornar-se auto-suficiente em combustíveis até 2030 ou a falta de capacidade de refinação continuará a obrigar o continente a depender das importações?
Com estas refinarias da Nigéria, já temos 700.000 barris e, para expandir a do Quénia, também são mais 700.000 barris. Em Angola temos em perspectiva mais três refinarias. Angola será auto-suficiente e a Nigéria também já será auto-suficiente. Agora vamos ver, relativamente aos outros países, como é que vai acontecer. Mas eu diria que, de facto, 2030 é uma meta bastante ambiciosa.
Mas ainda há vários desafios, e refiro-me às questões logísticas e à falta de infra-estruturas?
Pois, justamente. A própria construção da refinaria é um desafio, embora tenha corrido relativamente bem Aliko Dangote. Angola, por exemplo, tem a refinaria do Lobito, a maior delas, com 200.000 barris de petróleo, que há muitos anos está em construção. Em Angola, pelo menos em projecto, tem havido avanços e recuos. Portanto, construir uma refinaria leva sempre algum tempo.
Temos uma refinaria que está a ser construída em duas fases, de 100.000 barris, e temos 30.000 em Cabinda, que estamos a construir. Também temos enfrentado vários problemas com as infra-estruturas e a falta de financiamento.
Mas, repito, temos que ser ambiciosos quanto ao petróleo, seja em produção, sejam descobertas para satisfazer as necessidades. A África também está empenhada em transformar as matérias-primas no continente e, portanto, [isso aplica-se também ao petróleo].
Vários especialistas defendem a necessidade de produzir combustíveis mais competitivos face aos produtos importados. O grande problema é que o continente vende o petróleo bruto a um baixo preço e depois vai comprá-lo a um preço superior, quando é transformado…
O baixo preço também não existe, porque o preço do petróleo é internacional. Agora, o que está aqui em causa, efectivamente, é que nós exportamos o petróleo sem qualquer valor acrescentado. E, portanto, se nós, se África, refinar o petróleo, o valor acrescentado que fica no país, em África, fará com que o balanço das divisas também seja positivo, porque, se se refina aqui, a margem que ia para o estrangeiro, para as refinarias estrangeiras, fica em África.
É o caso concreto de Angola. Angola precisa de mais ou menos 150.000 barris por dia, com o nível de desenvolvimento actual. Nós só refinamos 50.000, um bocadinho menos, mas à volta de um terço do que Angola precisa.
E, portanto, isto já acontece há anos. Temos essa capacidade de refinar para satisfazer a procura interna, mas também para exportar para outros países vizinhos. Naturalmente que as infra-estruturas são um desafio, mas essa, creio eu, que deve ser a ambição e que, finalmente, as lideranças africanas estão a perceber: efectivamente, precisamos de transformar as matérias-primas em África. E o petróleo será, naturalmente, a primeira delas.
A crise no Médio Oriente veio mostrar esta urgência?
Claro que sim. Veio criar essa urgência e veio criar a oportunidade. Nós estávamos, enfim, ainda antes, talvez, da crise do Médio Oriente, com a subida de Trump ao poder, perante uma questão da transição energética que foi, de alguma maneira, repensada.
A guerra na Ucrânia e as sanções à Rússia, digamos, puseram um bocadinho em causa a transição energética, quando já se falava de acabar com os carros a gasolina e a diesel. E, portanto, a transição energética sofreu um forte revés.
África vai precisar de combustíveis durante muito, muito tempo. E, portanto, além da urgência para África por causa da guerra no Irão, há também uma oportunidade para África no negócio da refinação.
Agora, é preciso dizer também que a refinação é um negócio complicado. Portanto, construir refinarias por construir refinarias não me parece que deva ser esse o objectivo, porque elas têm, naturalmente, que ser eficientes, têm que respeitar o ambiente. A qualidade dos produtos refinados também tem que ser boa e cumprir as melhores práticas internacionais.
Mas, sem dúvida nenhuma, a guerra no Médio Oriente abriu uma oportunidade para África, não apenas para a auto-suficiência, mas também para a exportação. O que é, naturalmente, por exemplo, o caso de Angola.
Como disse, nós produzimos 1 milhão de barris por dia. E as refinarias, todas as existentes e em projecto, são 450.000 barris. Portanto, nós só precisamos de um terço da capacidade de refinação e vamos seguramente exportar para os países vizinhos.
Há projectos de pipeline, inclusivamente a possibilidade de os países vizinhos serem eles próprios accionistas de, pelo menos, uma refinaria em Angola. E, portanto, há essa possibilidade. A meta é ambiciosa, mas o mundo é feito de ambição.
Mas isso também mostra que os combustíveis fósseis, como o petróleo, ainda têm um papel importante no sistema energético de muitos países africanos. Isto mostra que África ainda não está preparada para abrir mão dos combustíveis fósseis?
Eu acho que nem África, nem o mundo inteiro. O anúncio da morte do petróleo creio que foi um bocado precipitado. A divisa de Trump é “drill, baby, drill”, não é? Portanto, a transição energética foi posta em “espera”.
Mas África claramente não está [preparada]. África está mais atrasada, embora nós vamos adoptar as melhores práticas. Toda a gente concorda com isso, mas também África está muito longe de preencher a sua quota de poluição.
A poluição não é o problema dos combustíveis fósseis em África. São outros países: os Estados Unidos, a Europa e a China. Nós ainda não preenchemos a nossa quota de poluição e, portanto, eu acredito mesmo que, mesmo que corra bem, a transição energética vai durar ainda algum tempo. Portanto, temos, enfim, muito tempo ainda pela frente para rentabilizar as refinarias que vêm aí.
Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais deste domingo no Brasil deixam tudo em aberto para a segunda volta a 25 de Outubro. Flávio Bolsonaro venceu com 47% dos votos, à frente do actual Presidente Lula da Silva, que obteve 45%. Este é “um cenário de alta polarização” e de duas visões do Brasil, explica Giuliano Braga, professor de Relações Internacionais. De um lado, o “bolsonarismo”, representado por uma família que quer consolidar “uma dinastia política” no país e, do outro, o “lulismo”, incarnado por Lula da Silva, “uma das figuras mais emblemáticas dos últimos 40 anos” no Brasil. “O futuro do Brasil está em jogo” e decide-se daqui a três semanas. Oiça a análise neste programa.
O Brasil avança para a segunda volta das presidenciais a 25 de Outubro. Flávio Bolsonaro venceu a primeira volta este domingo com 47% dos votos, à frente do actual Presidente Lula da Silva que obteve 45%. Em reacção aos resultados da primeira volta, Flávio Bolsonaro anunciou “o fim da era do PT”. Lula da Silva admitiu ter estado convencido que ia ganhar as eleições na primeira volta, mas mostrou-se optimista para a segunda volta, que definiu como um "prolongamento".
Para falarmos sobre estas eleições, convidámos Giuliano Braga, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense e na Universidade do Minho, em Portugal. Para o cientista político, confirmou-se “um cenário de alta polarização” e há duas visões do Brasil em jogo. De um lado, o “bolsonarismo”, representado por uma família que quer consolidar “uma dinastia política no Brasil” e, do outro, o “lulismo”, incarnado por Lula da Silva, “uma das figuras mais emblemáticas dos últimos 40 anos” no Brasil, mas que ainda não tem uma figura para a “sucessão”.
Olhando para os candidatos que foram eliminados nesta primeira volta, politicamente no espectro da direita, à partida poderiam dar vantagem para Flávio Bolsonaro, ainda que Lula da Silva possa tentar atrair eleitores que prefeririam “uma terceira via”. Há, ainda, um factor que pode ser decisivo: a abstenção. “A abstenção pode ser uma surpresa que poderia dar um tempero a mais para essa corrida eleitoral da segunda volta”, resume Giuliano Braga. “O futuro do Brasil está em jogo” e é impossível fazer apostas sobre quem ganha a segunda volta.
RFI: O que é que explica esta vitória de Flávio Bolsonaro na primeira volta, ao contrário do que previam as sondagens?
Giuliano Braga, Professor de Relações Internacionais: “Olhando os números tanto do Flávio Bolsonaro quanto do Lula [da Silva] e dos outros, a gente consegue ver um cenário de alta polarização, com a maioria de um lado, a maioria do outro, e os outros com uma margem muito distante nos 2%. O que explicaria Flávio Bolsonaro? Uma certa avaliação do governo Lula por parte da população brasileira tem um certo peso nessa votação maior. É interessante porque nós vemos uma expressão muito grande do Flávio Bolsonaro no Sul, isso já era mais esperado, mas no Norte foi um dos pontos de grande diferença - era uma zona historicamente mais voltada para o PT, para o Lula.”
As sondagens não apontavam para estes resultados. Foram as sondagens que falharam ou a mobilização eleitoral da direita foi superior ao esperado?
“Uma situação que aconteceu nestas eleições de 2026, ontem, foi uma abstenção acima do normal também. Então teve, além da questão política - claro, da mobilização tanto de um lado quanto do outro, mas aparentemente a mobilização do lado do Flávio Bolsonaro foi mais eficaz do que a mobilização do lado do Lula - nós tivemos uma abstenção de mais de 20%. Mais de 20% para o Brasil é muita coisa, dado que a gente está numa eleição que é obrigatória e o não voto confere multa. Foi uma característica muito própria, mais uma mobilização muito concentrada e coordenada da direita, principalmente ao nível dos estados.”
Essa abstenção pode definir alguma coisa em termos da segunda volta?
“A abstenção, na verdade, a tendência que a gente observa – embora a eleição de 2022 tenha sido uma excepção - mas a tendência que a gente observa é que geralmente a abstenção aumenta da primeira volta para segunda volta. A abstenção poderia vir a calhar a algum dos lados, mas a abstenção é um factor incontrolável, é uma surpresa tanto para um lado quanto para o outro. A abstenção é um factor que poderia vir a calhar, mas é um factor que ninguém consegue controlar, até porque ninguém deveria controlar a abstenção dado o princípio da democracia. Por isso, a abstenção pode ser uma surpresa que poderia dar aí um tempero a mais para essa corrida eleitoral da segunda volta.”
E a reserva de votos dos candidatos agora eliminados? Como são mais à direita, mais do campo conservador, vão automaticamente para Bolsonaro? Ou é possível Lula recuperar terreno, inclusivamente tendo em conta esta abstenção?
“A segunda volta traz um aspecto muito interessante a nível de análise política porque o período entre a primeira e a segunda volta é um período de intensas negociações. Na verdade, é o período em que os candidatos que vão disputar a segunda volta tentam trazer para os seus lados os outros candidatos. Neste caso, nesta eleição específica, do jeito que aconteceu, nós temos um período de negociação muito interessante, porque nós estamos negociando 2%, então são de dois em dois por cento. Os candidatos que ficaram abaixo são ali mais do espectro da direita. Agora, o convencimento de Lula deveria também ser para atrair eleitores desse eleitorado que quis ficar fora dos pólos da polarização, apostar em uma possível terceira via para reconhecerem na continuidade do governo o projecto de país.
No caso, Bolsonaro tem uma vantagem, dado que dois dos menos votados, o Renan Santos e o candidato próximo dele, já têm uma aliança declarada. Lula deveria negociar com o Augusto Cury nesse cenário, que é um candidato que não se colocou muito em lados, ele quis-se mostrar mesmo como uma terceira via. Por isso, o desafio de negociação de Lula vai ser muito intenso, porque Bolsonaro, de certa forma, com esses candidatos de baixo, tem uma vantagem já.”
Os dois candidatos representam visões totalmente opostas para o Brasil. Desde 2018 que os brasileiros se dividem entre o "bolsonarismo" e o "lulismo". Que duas visões são estas para o Brasil?
“Do lado do Flávio Bolsonaro, nós teríamos uma continuidade da sua visão de Brasil vinda ou demonstrada através do governo do seu pai, como uma priorização, por exemplo, do mercado financeiro, do agro-negócio, que é uma base política deles, políticas mais conservadoras, dado que também é uma outra base política muito importante para o Flávio Bolsonaro. A nível internacional, uma aproximação muito directa e muito declarada com os Estados Unidos de Donald Trump, por isso, uma aproximação mais clara, fazendo uma ode à chamada “onda laranja” na América Latina, com o Milei na Argentina, com o novo presidente do Equador, entre outros que se vêm unindo cada vez mais nesse espectro. O Flávio Bolsonaro já declarou abertamente unir-se a esse espectro também.
Olhando para o outro lado, o lado do Lula da Silva, nós temos as políticas sociais mais fortes como sendo um dos principais pilares de campanha dele. A questão do mercado financeiro e da exteriorização do comércio do Brasil, ou seja, a abertura de parceiros comerciais. No plano internacional, uma continuidade do pragmatismo: o Brasil, sob Lula, buscou ter um pragmatismo para surfar as relações Estados Unidos e China principalmente, que são dois parceiros muito importantes para o Brasil. Por causa disso, nós temos aí um outro espectro, principalmente a nível internacional, mas a nível doméstico, com políticas mais progressistas e outras medidas que fazem uma certa ode à sua base política e ideológica também.”
Lula da Silva falou da questão também da soberania do Brasil em relação aos Estados Unidos.
“Pois é. Isso foi um ponto-chave, principalmente na Assembleia Geral das Nações Unidas, foi um dos pontos-chave do seu discurso, o discurso de abertura, que foi aquela questão de o Brasil não ser quintal de ninguém. Por isso, faz uma ode a esse reforço da soberania nacional. E também, de certa forma, fez uma referência à corrida política com Bolsonaro, fazendo uma crítica directa a Flávio Bolsonaro, dada a sua fala de aproximação automática com os Estados Unidos.”
O que é que este resultado da primeira volta diz sobre o mérito de Flávio Bolsonaro, ele que foi empurrado pelo pai para esta candidatura? O que é que também nos diz sobre o pai dele? Em caso de hipotética vitória, será que podemos antever um Presidente por procuração, visto que o pai está condenado e a cumprir 27 anos de prisão? Flávio Bolsonaro também disse que uma das primeiras medidas seria libertar o pai da prisão domiciliária. Que é que isto antevê para a própria família Bolsonaro?
“Isso acaba sendo uma criação, uma consolidação de uma próxima dinastia política no Brasil. O sobrenome Bolsonaro foi o principal chamariz do candidato Flávio Bolsonaro, além de ter tido uma história como senador e tal, mas o nome da família Bolsonaro falou mais alto nessas eleições, principalmente nas sondagens. Essa questão do nome, da dinastia, acabou sendo importante. Presidente por procuração é uma questão um pouco mais difícil até porque o Bolsonaro pai, além de preso, ele também tem um certo estado mais debilitado de saúde, então, não o vejo muito como um Presidente por procuração.
Flávio tem uma base sólida de apoio, uma negociação ali muito consolidada para este pleito eleitoral, mas existem os processos correntes e agora nós temos mais uma polémica que estourou próximo das eleições, que é o caso do Banco Master e que ele estaria relacionado. Isso ainda não foi provado, mas claro que gerou um sismo porque o nome de um dos candidatos estava envolvido em algo, mas, aparentemente, de acordo com as eleições, esse sismo que se previa não teve tanto impacto dado que o candidato Flávio Bolsonaro conseguiu manter-se em liderança no primeiro turno. Então, o nome da dinastia Bolsonaro, a gente já consegue identificar a força dele. Para o eleitorado tradicional bolsonarista e outros também que querem, de certa forma, uma mudança de governo, o nome acabou falando mais forte do que essas polémicas e isso é muito ilustrativo, muito interessante para analisar essa questão da força do nome em relação à reputação, em relação a notícias e tal.”
Só para acrescentar, houve outras pessoas da família, a Michelle Bolsonaro, mulher de Jair Bolsonaro e madrasta de Flávio, foi eleita senadora, Carlos Bolsonaro, irmão de Flávio, também foi eleito senador, Jair Renan, outro irmão, foi eleito deputado federal. Mas queria agora que olhássemos agora para Lula da Silva, candidato a um quarto mandato não consecutivo, com 80 anos, e uma das figuras políticas mais importantes dos últimos 40 anos no Brasil. Porém, parece que houve um desgaste e ele está em risco de não ser reeleito...
“Pois é, o Lula é uma das figuras mais emblemáticas da política brasileira nos últimos 40 anos e agora, ao disputar um quarto mandato, busca continuar esse legado na política. Mas o Lula da Silva acaba enfrentando um desafio que a gente falava, o da dinastia Bolsonaro, que é que uma dinastia tem intrínseca o conceito de sucessão. E a sucessão é justamente um dos pontos mais fracos do Lula porque o Lula concentra muito o poder político em si, na sua figura. Uma das principais críticas dos eleitores de esquerda é que é uma figura que não tem uma sucessão clara.
O Lula tem 80 e poucos anos, vai disputar um mandato de quatro anos e se a vitória vier para Lula, provavelmente seria um último mandato. Esse mandato também, caso o Presidente Lula continue o seu governo, deveria ser um mandato visando a sucessão, ou seja, visando a ascensão de uma nova liderança dentro do seu espectro, para garantir uma permanência política desse espectro político. Como essa figura de sucessão ainda não existe, ainda não é clara, foi também um dos pontos que os eleitores acabaram se questionando. Ou seja: ‘Eu vou votar em um Presidente, mas qual é a garantia que esse Presidente vai permanecer o mandato todo?’ ou ‘O que vem depois?’ pode ter sido um factor de dissuasão de votos por causa dessa questão. Ou seja, é uma figura emblemática, é uma figura que centraliza muito o poder e é uma figura também que centraliza muito a imagem do espectro mais centro-esquerda no Brasil. Então, tem os seus desafios, tem as suas questões e, principalmente, a sucessão acaba sendo um dos principais factores de fraqueza desse espectro.”
Como é que olha para o futuro do Brasil daqui a três semanas? Consegue antever alguma coisa? Está preocupado?
“O futuro do Brasil, claro, está em jogo entre um e outro, entre um lado e o outro. Foi uma primeira volta muito apertada, então, prever acaba ficando muito difícil com isso. Se fosse uma minha primeira volta um pouco mais alargada, seria um pouco mais fácil de prever, mas tão apertado do jeito que foi, é muito difícil cravar um dos dois nomes. Vejo sim com certa preocupação, tanto de um lado quanto do outro. Acho que uma continuidade do governo Lula teria essa questão da sucessão como um dos principais pontos críticos. E o lado de Flávio Bolsonaro nós já tivemos essa ode a uma participação muito próxima dos Estados Unidos, algo que poderia colocar a soberania do Brasil em questão. Ou seja, tanto de um lado, quanto do outro, tem preocupações, mas cravar um nome específico, dizer um nome específico para um vitorioso, eu não vou arriscar porque a primeira volta foi tão apertada que acho que ninguém deveria arriscar nessa questão porque vai ser bem difícil.”
Ou seja, está tudo em aberto?
“Exacto. Ou seja, está tudo numa questão de ver o que vai acontecer porque 47% e 45% é muito próximo dado que os outros estão na mão ali com três ou dois por cento, ou seja, vai ser uma uma rodada de negociação muito intensa, muito forte, e que vai depender bastante do talento dos dois candidatos, de nomes, de interesses, entre outras coisas. Ou seja, as negociações vão ser bem intensas nesse período de três semanas.”
Em Cabo Verde, os preços dos combustíveis subiram mais de 56 por cento no espaço de apenas 12 meses. Com o litro da gasolina e do gasóleo cada vez mais próximo da fasquia dos duzentos escudos cabo-verdianos -cerca de dois euros- a pressão sobre a economia nacional continua a aumentar.
As novas tabelas entraram em vigor no início deste mês de Outubro. A escalada dos preços nos mercados internacionais explica grande parte deste agravamento, mas há também um factor interno determinante: a protecção governamental que cobria o sistema de preços deixou de ser generalizada. Este mês, a medida de mitigação do executivo abrange exclusivamente o gás butano, que registou um encargo adicional de cinco por cento.
Um aumento que não apanhou de surpresa o sector das pescas. Suzano Vicente, Presidente da Associação dos Armadores de Pesca de Cabo Verde, sublinha que o cenário já era previsível diante da conjuntura actual.
"Já era esperado na actual conjuntura. É expectável que, no fim de cada mês, haja este aumento do preço do combustível, uma vez que existe um mecanismo automático de fixação de preços. Enquanto este mecanismo não for alterado ou suspenso, a situação vai continuar exactamente da mesma forma”, afirmou Suzano Vicente.
Perante este cenário, os armadores não exigem a eliminação das competências do Governo na gestão dos preços, mas reclamam medidas urgentes para proteger o sector, tanto na pesca artesanal como na industrial.
A Associação dos Armadores já tinha proposto formalmente a reactivação de um fundo autónomo ou de um mecanismo de compensação semelhante ao regime social aplicado à electricidade. No entanto, a complexidade burocrática inviabilizou a resposta no imediato.
"Enviámos uma proposta baseada no modelo de tarifa social de electricidade para famílias de baixo rendimento. Mas, pelo diálogo com a administração, percebemos que esse caminho seria mais moroso. Exigiria uma deliberação em Conselho de Ministros e uma série de pareceres técnicos prévios. Tempo é algo que os armadores não têm, e o próprio Governo reconhece essa urgência.
Por isso, estamos a trabalhar numa alternativa mais rápida. Vamos apresentar uma proposta directamente à ministra da tutela para que a medida seja implementada através de uma portaria ministerial, accionando directamente o Fundo Autónomo de Pesca. É uma via juridicamente mais simples e muito mais célere”, disse.
Sem uma intervenção directa do Estado, o sector alerta para o risco iminente de paragem das embarcações. Os combustíveis representam um dos maiores custos operacionais na actividade extractiva e a escalada contínua torna a navegação insustentável.
Para além do gasóleo dos barcos, há um efeito em cadeia que fragiliza ainda mais a cadeia de frio: a produção de gelo, indispensável para a conservação do pescado a bordo.
"Se este aumento continuar de forma exponencial mês após mês, vai chegar um momento em que a actividade se torna inviável. Se a situação já é crítica agora, nos próximos meses será praticamente impossível continuar a ir ao mar.
O combustível afecta também a produção de gelo. Em São Vicente, por exemplo, um 'grau' de gelo já custa cerca de vinte mil escudos. A exploração já é extremamente onerosa e o aumento dos combustíveis encarece a electricidade e, por arrastamento, a aquisição do gelo. Não temos como fugir a estes custos encadeados, a menos que o Governo decida subsidiar directamente às fábricas de gelo para conter o impacto”, avança.
Ao contrário de outros sectores económicos, os armadores e pescadores afirmam estar impossibilitados de reflectir a subida dos custos operacionais no preço final do peixe vendido ao consumidor.
"Não existe um preço fixo para o pescado. O mercado funciona exclusivamente com base na lei da oferta e da procura. Se houver muito peixe no mercado, o preço baixa; se houver pouca captura, o preço sobe. Sem um preço de referência, os armadores não conseguem repassar o aumento dos custos do combustível e do gelo para o consumidor final”, afirmou.
Como solução estrutural para este problema de comercialização, a Associação dos Armadores voltou a insistir na urgência de colocar em funcionamento o sistema nacional de lotas. Embora o regime jurídico e o regulamento já estejam aprovados em decreto-lei, a infra-estrutura e a operação prática continuam por concretizar.
"A implementação da lota é uma reivindicação antiga. É o sistema que vai regular e disciplinar a primeira venda do pescado, permitindo ter um preço de referência na lota. O enquadramento legal já existe, mas falta pôr o sistema a funcionar no terreno. É uma das prioridades que vamos levar à reunião com a tutela”, afirmou.
Existe também uma diferenciação histórica que o sector das pescas pretende ver corrigida: a equiparação da pesca à marinha comercial no consumo de combustíveis. Os armadores argumentam que a marinha de comércio tem receitas previsíveis e rotas fixas, ao passo que a pesca é uma actividade sazonal e dependente das condições meteorológicas.
A longo prazo, a transição para energias alternativas ou motores eléctricos é vista com prudência, dada a insularidade e a dependência de tecnologia importada. A resposta mais imediata para a eficiência energética passa pela modernização da frota nacional.
"As soluções tecnológicas alternativas, como os motores eléctricos, ainda não oferecem garantias de autonomia e eficiência para as deslocações das nossas embarcações. Dependemos do mercado internacional e do custo dos equipamentos.
O caminho mais viável passa pela renovação da frota. Por exemplo, a aquisição de navios atuneiros de maior capacidade — uma embarcação de trezentas toneladas com um motor de mil cavalos de potência consegue capturar muito mais pescado do que dez barcos pequenos de duzentos e cinquenta cavalos. Aumenta-se a eficiência no consumo de combustível, reduz-se o número de embarcações em operação e optimiza-se a rentabilidade e a segurança dos marinheiros”, afirmou.
A urgência das medidas pedidas pelos armadores ganha dimensão quando se olha para o peso do sector no país. De acordo com os dados oficiais mais recentes, a pesca representa cerca de 20,1 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) de Cabo Verde e é responsável por 19,5 por cento do emprego nacional.
Sem um acordo rápido entre o executivo e os operadores económicos sobre a compensação dos combustíveis e o apoio à produção de gelo, o sector alerta para o risco de paralisia numa das principais alavancas económicas e sociais do arquipélago.
Na Guiné-Bissau, o Alto Comando Militar, que levou a cabo o golpe de Estado de Novembro do ano passado, em comunicado, anunciou esta quinta-feira que não estão reunidas as condições de segurança para garantir o regresso ao país do ex-presidente Umaro Sissoco Embaló. Um regresso que estava anunciado para o dia 04 de Outubro e depois do porta-voz do Conselho Nacional de Transição, Fernando Vaz, ter garantido que qualquer cidadão nacional poderia regressar ao país. Em entrevista à RFI, o analista político guineense Fodé Mané admite que a decisão de impedir o regresso do ex-presidente pode fazer parte de uma estratégia de vitimização de forma a reforçar a solidariedade em torno de Sissoco Embaló.
RFI : Como analisa esta reviravolta?
Fodé Mané, analista político guineense: Primeiro, esta situação não é clara para qualquer pessoa atenta. Sobre os órgãos que estão a gerir a transição, ora aparece o Governo, ora aparece o Estado-Maior General das Forças Armadas, ora aparece o Conselho Nacional de Transição, ora o Alto Comando, que tinha surgido em Novembro a anunciar golpe de Estado, e desapareceu até há duas semanas, a tomar alguma decisão.
Isso cria alguma confusão em termos de quem é que manda realmente, qual é a personalidade. E tudo indicava que todos eram submetidos às orientações do comando, mas depois vimos situações que nos criam outras dúvidas.
Por exemplo, na terça-feira, dia 29 de Setembro, houve movimentações um pouco anormais, que levaram com que as pessoas ficassem com um certo susto.
As movimentações de que está a falar têm a ver com o desmantelamento da unidade anti-golpe, que é uma força especial que foi criada durante o mandato do Sissoco Embaló?
Aquilo não está claro se é a unidade anti-golpe, porque depois viram-se movimentações que não eram normais, pessoas a saírem de um sítio para outros em viaturas, outros a pé...
Não se sabe o que é que se está a passar. Depois de criar aquele pânico, veio o Ministério do Interior dar uma conferência de imprensa a dizer que se tratavam de movimentações normais nos quartéis.
Então, não se falou de desmantelamento, mas circularam notícias de que algumas pessoas estariam retidas junto ao Estado Maior das Forças Armadas. Tudo isto torna a situação um pouco confusa.
No meio de tudo isso surgiu o porta-voz, não é só do Conselho Nacional de Transição, mas de todo este regime que é o "Nando Vaz".
O Fernando Vaz?
Sim, a garantir que Umaro Sissoco vem e tem condições. E, surpreendentemente, vimos o comunicado à imprensa com aqueles pontos onde podemos destacar a situação a dizer que não foram reunidas as condições, a retomada da proibição de concentrações e manifestações.
Isso nos levou a pensar nas movimentações que houve nas duas últimas semanas: recolha de nomes, organizações de eventos para irem receber Sissoco. Com a sua declaração, alguns órgãos de comunicação social a dizer que vem no dia 04 [de Outubro]. Então, houve este comunicado que até no início, no meu caso, pensei que era fake news. Só depois de ouvir o porta-voz do Alto Comando confirmar aqueles pontos essenciais do comunicado, e ainda alargando, mas com alguns pormenores.
A situação não é clara, mas pode Umaro Sissoco Embaló estar a perder aliados na Guiné-Bissau?
Eu não consigo afirmar que se trata de perda de aliados. Eu estou a ver isso noutra perspectiva: de que pode ser uma estratégia de tentar controlar a situação e também ter o apoio de alguns parceiros.
Não consigo ver isso na perspectiva de que Umaro está a perder aliados, porque são pessoas colocadas, indicadas, que até hoje - há sinais - de que recebem orientações de Umaro Sissoco Embaló. As pessoas muito próximas do Umaro continuaram a ser nomeadas, os que eram adversários continuam a ser restringidos no sistema e continuamos a ver maior liberdade de actuação por parte dos apoiantes.
Mas quando o Sissoco Embaló anunciou o regresso dele à Guiné-Bissau, tinha que ter a certeza absoluta de que esse regresso era viável ou não?
Será que realmente tinha a intenção de regressar? Nós sabemos que, por vezes, na política, uma das formas de obter a solidariedade é vitimizar-se. Vimos isso no passado, com Nino Vieira, com Carlos Domingos Gomes... Aí, esta vitimização provoca solidariedade, porque nesta situação do Umaro, o que é que vai no pensamento dos seus apoiantes? Que o actual poder é ingrato para com o Umaro. Foram instalados, apoiados, promovidos pelo Umaro, mas agora não estão dispostos a protegê-lo. Vai provocar uma solidariedade para com ele. Pode ser essa estratégia.
Eu duvido que haja realmente uma intenção de voltar naquela circunstância, pode haver intenção de voltar, porque onde qualquer pessoa se sente melhor é no seu país, mas naquela circunstância, daquela forma, organizando uma recepção apoteótica, eu duvido se é a intenção dele.
Ou seja, essa estratégia da vitimização pode corroborar a encenação deste regresso abortado de Sissoco Embaló à Guiné-Bissau, simplesmente para que ganhe mais solidariedade e possa voltar posteriormente?
Pode ter esta dimensão de tentar granjear a solidariedade e criar um certo desgosto para com o regime instalado, que sabe que é um regime de pessoas muito fiéis. Mas também pode ser uma forma de distrair, das pessoas se concentrarem noutros assuntos que não da própria situação que está a ser vivida neste momento.
Mas esse regresso de Umaro Sissoco Embaló também não podia confirmar a seguir o regresso do Domingos Simões Pereira?
Não abre portas. Porquê? Porque o Domingos Simões Pereira foi na base de um despacho judicial e inclusive esse despacho pode-se inventar. Pode-se continuar a dizer que deve voltar, como se fez no passado, com a ameaça de detenção. Logo, está condicionado. Esta é a forma de impedir o seu regresso.
É diferente da forma de impedir Umaro, que é dizer que não temos segurança. Mas para o regime, o regresso de Domingos é mais incómodo que o regresso de Embaló.
Este desmantelamento da unidade anti-golpe foi, segundo uma fonte do Estado Maior General das Forças Armadas, uma intervenção que procurou reforçar o controlo sobre a segurança presidencial. Estamos a falar aqui da segurança de Horta Inta-a. Também houve uma reunião dos régulos de Biombo, portanto cidade natal de Ilídio Vieira Té, primeiro-ministro de Transição, onde os líderes tradicionais manifestaram a sua preocupação para com a segurança e a integridade física de Ilídio Vieira Té. O que é que isto quer dizer?
O Ilídio já está a ter alguma pretensão de se enraizar e a única base étnica que ele podia invocar é na região de Biombo. Mas onde os resultados das eleições de 2025 e do referendo mostram que não tem o grosso dos apoiantes e o único meio que ele tem utilizado é injectar meios económicos, aliciar algumas pessoas. Há uma pretensão dele emergir como um líder diferente daquela que podia ser a indicação do Sissoco.
Eu acho que também pode ser uma estratégia de, mais tarde, em nome de uma conciliação, dizer que a situação já está controlada.
E depois há pessoas também que estão a sentir-se no processo de partilha de acesso aos recursos, não é por acaso que o Alto Comando apareceu em Novembro de 2025 e voltou em Setembro de 2026. Quantos meses? Porquê do seu surgimento? Isso dá algum sinal de que há pessoas que entendem que estão a perder o protagonismo dentro dessa estrutura, principalmente alguns militares. Porque desmantelamento e desarmamento não são confirmados. Não há atitudes que mostram que essas pessoas foram hostilizadas, é uma forma de trabalhar com contra-informação.
Pode Ilídio Videira Té estar, neste caminho, a preparar terreno para apresentar a candidatura à Presidência da República?
Isso, sem dúvida, é a sua pretensão. Foi anunciado, criou o seu partido e está a tentar aliciar as pessoas dos outros partidos para irem juntar-se com ele, utilizando os postos na administração pública. Então, é uma forma de aproveitar esta sua posição de primeiro-ministro e ministro das Finanças - quem gere os recursos - para poder enraizar-se melhor.
A concretizar-se esta candidatura de Ilídio Vieira Té, é fazer face a Umaro Sissoco Embaló?
É fazer face a Umaro Sissoco Embaló se ele realmente não estiver atrás da sua candidatura. Eu coloco sempre esta dúvida: se não é uma candidatura alternativa, se ele [Umaro Sissoco Embaló] não conseguir.
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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.