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A imigração é hoje um dos temas centrais da política portuguesa, mas continua quase ausente da campanha presidencial. Para João Carvalho, investigador do ISCTE, este silêncio “não é neutro” e acaba por favorecer “a hegemonia de discursos que apresentam a imigração como um problema”. O especialista questiona o mito de Portugal como país aberto, alerta para a normalização da hostilidade política e lembra que sectores como a agricultura ou as pescas dependem estruturalmente do trabalho dos imigrantes.
A imigração ocupa hoje um lugar central no debate público em Portugal. Surge associada a preocupações económicas, tensões sociais e disputas políticas, atravessa as redes sociais e infiltra-se no dia-a-dia, mas permanece discreta na campanha para as eleições presidenciais. Entre discursos de controlo, simplificações identitárias e silêncios prolongados, o tema é pouco tratado com profundidade, num momento em que o país enfrenta restrições migratórias, escassez de mão-de-obra e desafios crescentes de integração.
João Carvalho, investigador do ISCTE e especialista em imigrações e dinâmicas políticas contemporâneas, considera que essa ausência não é acidental. “A imigração é hoje o tema central da actualidade política portuguesa, mas não está verdadeiramente transposto para a campanha presidencial”, afirma. Desde logo, explica, porque “a gestão dos fluxos migratórios não é uma prerrogativa directa do Presidente da República, mas sim uma área de supervisão da acção governativa”.
Mas o enquadramento institucional não explica tudo. Para o investigador, há também um cálculo político evidente. “Só um dos candidatos retira vantagens claras da politização da imigração”, observa, referindo-se a André Ventura, o candidato de extrema-direita. “Esse candidato procura mobilizar os portugueses contra a imigração e, sobretudo, contra formas particulares de imigração, projectando determinados grupos como indesejáveis ou subsídio-dependentes.”
Em contraste, os restantes candidatos revelam desconforto. “Existe uma grande dificuldade em lidar com a transformação demográfica recente”, sublinha João Carvalho. “Há hesitação em enfatizar quer os benefícios, quer os desafios do crescimento da população estrangeira.” O resultado é, segundo o investigador, um silêncio estratégico que empobrece o debate democrático. “Perde-se uma oportunidade de discutir a imigração de forma racional, sustentada por factos, e não por mitos.”
A ideia recorrente de Portugal como país historicamente aberto é, para João Carvalho, profundamente ilusória. “Essa narrativa é em grande medida fictícia”, afirma. “Resulta do facto de Portugal nunca se ter confrontado seriamente com o seu legado colonial nem com os seus próprios níveis de racismo.” Durante décadas, acrescenta, a imigração foi pouco expressiva e, por isso, pouco debatida, criando uma falsa percepção de abertura estrutural.
O investigador recorda que reacções de desconfiança acompanham quase todos os ciclos migratórios. “Em 2002, com a chegada de cidadãos ucranianos e moldavos, a reacção política foi de grande suspeição”, lembra. “Eram vistos como culturalmente distantes, sem ligação histórica ao país.” Hoje, observa, “assistimos a reacções muito semelhantes face a imigrantes da Índia, do Bangladesh ou do Paquistão”.
Apesar disso, os receios não encontram confirmação empírica. “Não há registo de aumento da criminalidade nem de maior conflitualidade social associada a estes fluxos”, sublinha. “Tal como aconteceu com os ucranianos, muitos destes cidadãos acabam por se integrar plenamente.” Para João Carvalho, a persistência da desconfiança revela menos sobre os imigrantes e mais sobre “a incapacidade do país em lidar com a diferença”.
O crescimento dos discursos populistas, defende o investigador, não criou tensões novas, apenas tornou visíveis clivagens antigas. “A politização da imigração antecede o Chega”, afirma, situando uma ruptura decisiva em 2017, quando se quebrou o consenso histórico entre PS e PSD de não associar imigração a insegurança. “Esse momento abriu espaço político para uma radicalização do discurso à direita.”
Embora o cargo presidencial seja sobretudo simbólico, João Carvalho sublinha o poder performativo da palavra presidencial. “O Presidente é, ou deveria ser, o Presidente de todos os portugueses”, afirma. “A sua intervenção pode moldar a forma como o país olha para os migrantes.” O silêncio, alerta, “não é neutro: permite que um discurso hostil se torne dominante”.
Esse enquadramento selectivo manifesta-se também no foco excessivo sobre determinados grupos. “O debate público concentra-se quase exclusivamente nos imigrantes do Sudoeste Asiático”, observa. “Enquanto isso, permanece praticamente ausente qualquer discussão sobre o impacto dos imigrantes europeus, dos expatriados ou dos regimes fiscais favoráveis a cidadãos estrangeiros.”
Os dados ajudam a relativizar os alarmismos; os imigrantes representam cerca de 13% da população. Ainda assim, são fundamentais para sectores estratégicos. “Quatro em cada dez trabalhadores na agricultura portuguesa são oriundos do Sudoeste Asiático. Sem eles, a agricultura simplesmente não funciona.” O mesmo sucede, acrescenta, nas pescas, um fenómeno menos visível fora dos centros urbanos.
Sobre a estratégia do Chega, João Carvalho é claro: “A provocação é deliberada”. Episódios como os cartazes considerados racistas pelos tribunais “servem para dominar a agenda mediática”. Mesmo quando são retirados, “o discurso permanece e a visibilidade aumenta”. Trata-se, diz, “de uma estratégia eficaz de captura das audiências”.
Essa dinâmica coloca desafios sérios aos meios de comunicação social. “A exposição televisiva normaliza estes discursos”, alerta. Estudos mostram, segundo o investigador, que “as pessoas tendem a aceitar mais facilmente ideias extremistas quando estas são veiculadas na televisão do que quando são apenas lidas”. Quando a cobertura passa a ser guiada por cliques e audiências, conclui, “as consequências para a democracia liberal tornam-se inevitáveis”.
Quanto ao futuro do Chega, João Carvalho não tem dúvidas: “É um partido profundamente personalizado”. O seu destino político está “indissociavelmente ligado à figura de André Ventura”. Mesmo uma eventual passagem à segunda volta presidencial seria, para o investigador, “mais uma confirmação do eleitorado já fidelizado do que um sinal de expansão”. O verdadeiro risco, conclui, “não está na criação de novas clivagens, mas na activação sistemática de preconceitos antigos que nunca foram verdadeiramente enfrentados”.
Neste fim-de-semana, esteve em Bissau uma delegação da CEDEAO composta pelo Presidente da Comissão da CEDEAO, Omar Alieu Touray, pelo Presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, e pelo Presidente em exercício do bloco, o Chefe de Estado da Serra Leoa, Julius Maada Bio. Sobre o teor dos contactos com as autoridades militares guineenses, este último disse que as conversações tinham sido "construtivas" e que tinha "reiterado o apelo para uma transição breve, liderada por um Governo inclusivo".
Além disso, pouco mais se sabe, não tendo filtrado qualquer declaração sobre as conclusões resultantes desta missão, nem tão-pouco dos contactos que mantiveram tanto com Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC mantido em detenção desde o dia da desestabilização militar há quase dois meses ou com Fernando Dias, candidato presidencial que se encontra refugiado na embaixada da Nigéria em Bissau.
Esta tentativa de mediação da CEDEAO junto do poder militar guineense, acontece num contexto em que ele acaba de proibir qualquer comunicação pública sem autorização prévia e em que, por outro lado, acaba de libertar os responsáveis políticos que estavam detidos desde 26 de Novembro, com excepção de Domingos Simões Pereira.
Um dado que analisamos com Iaia Barri Djassi, membro da diáspora guineense ligado ao PAIGC radicado aqui em França, para quem o principal líder de oposição está a ser usado como moeda de troca nas negociações entre o poder militar e a comunidade internacional.
RFI: Como reage à recente libertação dos responsáveis políticos Octávio Lopes, Marciano Indi e Roberto Mbesba?
Iaia Barri Djassi: Acho que é muito bom. Isso é um bom sinal a libertação de alguns dos nossos camaradas que estiveram presos durante esse tempo todo. Mas é essencial, realmente, a libertação de todos os prisioneiros políticos e também o fim de perseguições políticas que estão a decorrer com alguns camaradas que infelizmente ainda estão escondidos. Porque não existe nenhuma necessidade, não existe nenhum crime que eles cometeram além de ter ganhado as eleições.
RFI: Como é que interpreta o facto desses responsáveis políticos terem sido libertados pouco antes da chegada da missão da CEDEAO ao país?
Iaia Barri Djassi: Pelas informações que nós temos, antes mesmo da vinda da CEDEAO para a Guiné-Bissau, a CEDEAO já tinha acordado juntamente com o Comando Militar a libertação de todos os prisioneiros políticos que estão sequestrados nesse momento. Até o engenheiro Domingos Simões Pereira também estava incluído nessa lista de pessoas que tinham que ser libertadas, mas decidiram, infelizmente, manter o engenheiro Domingos Pereira ainda preso, para utilizá-lo como moeda de troca nas negociações.
RFI: E precisamente, como é que explica que se opte por libertar todos os presos, exceptuando Domingos Simões Pereira?
Iaia Barri Djassi: É nada mais do que porque pelo que ele realmente representa, eles sabem que estão a ser rejeitado pelo povo, estão a ser rejeitado pela comunidade internacional e eles sabem muito bem do peso do Dr. Domingos Simões Pereira. Uma vez que o Dr. Domingos Pereira estiver em liberdade, ia ser mais complicado em negociações com organismos internacionais, uma vez que já não teriam uma pessoa para por em cima da mesa em termos de negociações, porque Domingos Pereira não está preso, está simplesmente sequestrado. Estamos a lidar com uma quadrilha, não é um nenhum organismo legítimo de Estado.
RFI: Entretanto, durante este fim-de-semana esteve a missão da CEDEAO na Guiné-Bissau. Quais são as suas expectativas relativamente a esta missão, sobre a qual pouco se sabe em termos de contactos?
Iaia Barri Djassi: Pelo que eu sei, tanto Fernando Dias e também Domingos Simões Pereira tiveram praticamente uma posição simultânea de que só podemos passar a negociar e a ter diálogo a partir do momento em que todo o mundo estiver em liberdade, em que cesse essa perseguição aos políticos que está a decorrer nesse momento. Aí podíamos passar a uma etapa já de negociações e de conversações para o bem-estar e para que possamos sair dessa situação. Temos muita esperança neles, mas ao mesmo tempo, sabemos que para sairmos dessa situação, vai passar realmente por nós mesmos, os cidadãos e filhos da Guiné-Bissau.
RFI: As poucas palavras que saíram destes contactos deste fim-de-semana, vieram do Presidente em exercício da CEDEAO, que exigiu uma transição rápida com um governo inclusivo e que sejam cumpridos todos os preceitos definidos na última cimeira extraordinária da CEDEAO. Julga que, tendo em conta tudo o que tem acontecido nestes últimos dias, é um objectivo realista?
Iaia Barri Djassi: Sim, acredito que realmente é um objectivo realista. Não estamos a ver que realmente esse actual regime no poder consiga manter-se no poder porque uma vez que todos os políticos estiverem libertos e que acabe essa perseguição que está em curso nesse exacto momento, eles colocaram Domingos Pereira, sequestraram-no mais para poder atrasar as negociações e utilizá-lo como moeda de troca. E uma vez que passarmos dessa etapa e todos os líderes políticos forem libertos e poderem exercer a política normalmente, claramente que a situação vai mudar porque esse regime está a ser rejeitado pelo povo guineense e eles sabem disso. Isso vê-se no nervosismo e vê-se na comunicação e vê-se nas falhas que eles têm estado a cometer, que mostra uma precipitação e falta de preparação para dirigir o país.
RFI: Como é que interpreta os últimos gestos políticos da Junta no poder? Com, por um lado, a libertação desses responsáveis políticos, mas, por outro, a proibição de qualquer comunicação pública por parte de movimentos da sociedade civil ou movimentos políticos?
Iaia Barri Djassi: Isso para mim, não passa de falta de preparação deles. E também mostra, mais uma vez, a fragilidade deles lidarem com a democracia e com liberdade de expressão. E nós sabemos que temos vários organismos a nível internacional que estão a colaborar connosco. Estamos colectivamente a trabalhar de uma forma serena para que com tudo isto, possamos sair sem nenhum incidente. Estamos a lidar com pessoas impreparadas e não sabemos do que são capazes.
RFI: Como é que a diáspora age relativamente à Guiné-Bissau neste momento?
Iaia Barri Djassi: A diáspora está unida e está cada vez mais determinada a intensificar essa luta. E pelas informações que eu tenho, nas semanas que vêm, vamos intensificar a luta e vamos ter manifestações de toda a diáspora. Vamos também, dessa vez, ser acompanhado por organismos internacionais. Isso mostra, mais uma vez, de que esse regime está a ficar cada vez mais isolado. Intensificamos essas pressões que vão vir a nível de da diáspora e do organismos internacionais. Acredito serenamente de que vamos sair dessa situação porque estamos a lidar com pessoas impreparadas que não têm capacidade de continuar a sequestrar o Estado da Guiné-Bissau.
RFI: Tem alguma data ou algum evento já em mente de que possa falar?
Iaia Barri Djassi: Estamos nos preparativos de uma manifestação da dimensão da que fizemos em 2020 em Bruxelas. E também temos outra pretensão de fazer manifestações aqui em Paris, em Lisboa e no Brasil também. Outras delegações estão com a mesma pretensão em Senegal, em Angola, nos Estados Unidos. Temos essas agendas.
No Sudão, a guerra civil já dura há mil dias e as duas facções que se confrontam, as Forças Armadas do Sudão e as forças de Apoio Rápido, constituídas por paramilitares que integravam as antigas milícias janjaweed, já dividiram o país em duas partes, tendo até já nomeado diferentes governos. O fim desta guerra só pode acontecer com ajuda de países como os Estados Unidos.
No Sudão, há mil dias que as duas facções adversas, as Forças Armadas do Sudão e as Forças de Apoio Rápido, constituídas por paramilitares que integravam as antigas milícias janjaweed, se batem pelo controlo das terras e acesso aos recursos naturais do país.
O conflito ganhou uma dimensão internacional, já que se sabe que ambas as partes recebem apoio externo e que esta é uma guerra onde é usado material bélico de ponta que tem vindo a dilacerar a população civil.
Estima-se que o conflito já tenha feito mais de 12 milhões de deslocados, pelo menos 150 mil mortos e que neste momento mais de metade da população do Sudão, cerca de 26 milhões de pessoas, estejam a passar fome.
Ana Cascão, consultora e investigadora especializada em conflitos africanos, disse que a resolução deste conflito depende agora das negociações levadas a cabo pelos Estados Unidos e outros actores da região.
"Em Janeiro do ano passado, quando o presidente Trump assumiu o seu segundo mandato, houve de alguma forma uma importância dada ao Sudão, que não existiaexactamente porque há tantos conflitos a decorrer ao mesmo tempo. Mas, como sabemos, o presidente Trump não se envolve em conflitos só porque sim. E quando há recursos, há maior motivação e juntamente com a Arábia Saudita, tentou-se algum tipo de negociações. Mas basicamente, todas estas negociações foram negadas pelo ataque ao El-Fasher, que neste momento é só a maior atrocidade que se fez durante esta guerra e houve muitas. E neste momento há aquilo que se chama o Quad, ou seja, o quarteto constituído pelos Estados Unidos, o Egipto, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. O facto é que os Emirados estão a ser vistos como mediadores, quando de facto são um actor activo no conflito", indicou a investigadora.
Os Emirados Árabes Unidos têm apoiado as Forças de Apoio Rápido com armas e com drones, permitindo que estas forças progridam no Oeste do país enquanto as Forças Armadas do Sudão, apoiadas pelo Egipto, Qatar e Turquia, dominam o Leste, tendo retomado recentemente a capital do país, Cartum.
Os dois lados do conflito têm actualmente governos sombra e sabe-se que as Forças de Apoio Rápido estão mesmo a tentar constituir um banco central, aproveitando a exploração dos recursos naturais do Sudão, como o ouro - o Sudão é um dos países do Mundo com maiores reservas de ouro, muitas delas inexploradas - e o petróleo.
"O país está separado em duas partes. Eu diria que há mesmo uma terceira parte, que é a sociedade civil que é esquecida no meio desta história, porque ou foi aniquilada ou porque estão fora do país. Portanto, temos duas facções a levar a cabo uma guerra, durante os tais 1000 dias de guerra. Neste momento, claro, a situação é ainda mais complicada, porque há uma separação territorial pelas duas forças. Com o exército sudanês a perder território, reconquistou Cartum, a capital, mas foi perdendo território, nomeadamente no Darfur. [...] Cada um já tem o seu governo sombra", explicou.
Este é actualmente o conflito mundial que mais deslocados faz no Mundo e originou a maior crise humanitária à escala global, já que a ajuda humanitária chega muito dificilmente à população sudanesa, com mais de um quinto da população a ter de abandonar as suas casas - com muitos a procurarem refúgio noutros países.
"O Sudão é grande, mas a população do Sudão, antes do início da guerra, era de cerca de 50 milhões. Ora bem, isto significa que 12 de 50 milhões estão deslocados. Ora, isto é uma grande percentagem da população. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, desde o início, declarou isto como a maior crise humanitária dos tempos modernos. Não é só pelas pessoas deslocadas, mas também pelos níveis de fome. As forças das Nações Unidas entraram pela primeira vez esta semana em El-Fasher, onde houve a matança e diz-se que agora temos vídeos sobre todos os conflitos, mas não temos do Darfur porque simplesmente não sabemos a escala do que aconteceu. E, portanto, se nem missões especiais conseguem lá chegar para a investigação, imaginemos ajuda humanitária", concluiu Ana Cascão.
A Gronelândia voltou ao centro do debate internacional após o recente ataque norte-americano à Venezuela. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem insistido na ideia de que o território é vital para a segurança norte-americana, reacendendo uma discussão antiga sobre a importância estratégica da maior ilha do mundo. Território autónomo sob soberania da Dinamarca, a Gronelândia assume, actualmente, um papel central num tabuleiro geopolítico cada vez mais complexo.
Em entrevista à RFI, Céline Rodrigues, investigadora em Relações Internacionais no Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa (IPRI-NOVA), sublinha que o interesse norte-americano pela ilha não é novo. “A Gronelândia, ao longo da história tem tido altos e baixos na sua importância e relevância para os Estados Unidos”. No final do século XIX, Washington chegou mesmo a ponderar a aquisição da Gronelândia e da Islândia, tentativa que voltou a repetir-se em 1910, quando os Estados Unidos propuseram à Dinamarca uma troca territorial envolvendo uma das ilhas das Filipinas, proposta recusada por Copenhaga.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a região voltou a ganhar relevância estratégica. Segundo a investigadora, “o Presidente Truman acabou por fazer uma oferta de um valor muito elevado que a Dinamarca também rejeitou”. A lógica geoestratégica mantém-se, agora reforçada pelas alterações climáticas e pelo degelo do Árctico.
“O que nós verificamos é que esse glaciar irá permitir o acesso a um grande número de recursos naturais”, explica Céline Rodrigues, apontando para a existência de terras raras, diamantes, ferro, urânio, petróleo e gás. Recursos que despertam o interesse não apenas dos Estados Unidos, mas também da China e da Rússia, num contexto em que as novas rotas marítimas do Árctico podem encurtar significativamente as ligações comerciais globais.
No entanto, a investigadora alerta para as limitações práticas dessa exploração. “Não é certo que a região seja economicamente viável, até porque o terreno tem muito pouco de infraestruturas, de estradas, de ferrovia. É um terreno muito difícil.” Mesmo quando são identificados locais com potencial, “até o momento da produção, consideram que podem passar cerca de dez anos”.
A questão da soberania dinamarquesa surge como um dos pontos mais sensíveis. “No caso de se verificar a perda de território da Gronelândia, a Dinamarca deixa de ser um país considerado ártico”, o que teria consequências profundas no seu posicionamento europeu e no seio da NATO. A própria Dinamarca, recorda Céline Rodrigues, passou a considerar os Estados Unidos “como uma ameaça à sua soberania”.
A investigadora questiona ainda a narrativa da segurança nacional invocada por Trump. “Se essa segurança nacional fosse uma questão primária, deveria reforçar também, então, no próprio Alasca”, tendo em conta a proximidade com a Rússia e os exercícios militares conjuntos russo-chineses na região.
Uma eventual intervenção militar norte-americana na Gronelândia colocaria a União Europeia perante um cenário para o qual, segundo Céline Rodrigues, não está preparada. “Como é que a Europa, União Europeia poderá defender a Dinamarca e a Gronelândia?”, questiona, sublinhando a distância geográfica e a limitada capacidade militar europeia. Um conflito deste tipo poderia representar “uma alteração completa da ordem mundial à qual nós estávamos habituados a viver”.
A investigadora admite que este cenário colocaria em causa não só o projecto europeu, mas também a própria NATO. “Se falamos no fim da União Europeia também devemos falar no fim da NATO”, afirma, lembrando a contradição de os Estados Unidos poderem atacar um aliado que, simultaneamente, contribui para a indústria militar norte-americana, como acontece com a aquisição de aviões F-35 pela Dinamarca.
Quanto à Rússia, a investigadora considera que uma agressão à Gronelândia apenas reforçaria ambições já existentes: “Eu acho que eles já estão bem claros”, referindo-se aos apetites expansionistas de Moscovo, visíveis noutras regiões do Árctico e do norte da Europa.
No pano de fundo surge também o interesse económico de Donald Trump, já evidente no discurso sobre a Venezuela. “Neste momento, o facto de fazer referência à segurança interna, tal como o fez inicialmente com a Venezuela, replica-se aqui”, afirma a pesquisadora, sublinhando o peso das reservas de petróleo e gás na definição da política externa norte-americana.
Para Céline Rodrigues, o mundo atravessa um período de profunda incerteza. “A ordem mundial, tal como a conhecemos até agora, já não existe. E coloca em causa o direito internacional.”
A Venezuela decretou sete dias de luto nacional após uma operação dos Estados Unidos realizada no fim-de-semana que levou à captura do Presidente Nicolás Maduro e provocou a morte de dezenas de militares. Delcy Rodríguez, que assumiu a presidência interina após a detenção de Maduro, anunciou a nomeação de um ex-director do Banco Central como vice-presidente responsável pela economia, uma das áreas consideradas prioritárias pelo novo Governo. Em paralelo, o Executivo publicou um decreto de estado de emergência que amplia os poderes das autoridades e gerou receios quanto a possíveis restrições à liberdade de expressão. Em entrevista à RFI, Fernando Campos Topa, conselheiro das Comunidades Portuguesas para a área consular em Caracas, afirma que, apesar de uma aparente calma nas ruas, muitos venezuelanos continuam a viver com medo de se expressar, classificando a escolha de Delcy Rodríguez como “um mal necessário”.
Actualmente, em que estado está o país?
Está numa calma aparente, uma calma tensa. As pessoas já voltaram ao seu trabalho desde o dia de ontem. Os comércios já estão a funcionar. É importante ressalvar que, neste momento, as pessoas na Venezuela estão muito condicionadas a um hermetismo muito grande. As pessoas não querem falar. Saiu um decreto, inclusive, para controlar, digamos, a opinião pública, onde, de alguma maneira, vai haver um controlo até sobre as redes sociais. Estar atento ao que a pessoa escreve ou ao que as pessoas publicaram. As pessoas, com certeza, estão muito preocupadas com essa situação e realmente não falam.
Agora, uma situação como esta é inédita. A Venezuela nunca tinha sido bombardeada dessa maneira. O acesso às divisas, aos dólares, também está muito difícil. As pessoas não estavam preparadas para esta situação, ainda que muita gente estivesse à espera que pudesse acontecer alguma coisa. O certo é que as pessoas tiveram agora de sair para comprar, adquirir os bens essenciais, com muita dificuldade.
O país declarou estado de emergência. A presidente interina diz que a economia representa a prioridade desta administração. Considera que Delcy Rodríguez tem condições para se manter à frente do poder na Venezuela?
Bom, eu acredito que, neste momento, era um mal necessário. Vamos lá ver. Nicolás Maduro saiu. Levaram-no. Mas o regime não caiu. Não era um mal necessário no sentido de apoiar o regime, mas no sentido de que, para evitar talvez uma situação de algum confronto nacional, era preciso ter à frente do poder alguém que, de alguma forma, controlasse as Forças Armadas, as milícias armadas, porque realmente havia um perigo sério de poder acontecer alguma situação. Não vou dizer uma guerra civil, mas uma situação de confrontação.
Delcy Rodríguez controla as armas?
Eu não sei até que ponto controla as armas, mas tem, de alguma maneira, o apoio dos militares e, inclusive, ela já fez algumas mexidas no Alto Comando Militar. Eu não sei se o controlo será total e absoluto, mas, pelo menos, tem alguma ascendência sobre a cúpula militar, o que permite que não se apresentem confrontos, porque a sociedade venezuelana continua muito dividida e fracturada. Não podia ser uma situação de “sai para entrar eu”. Ou seja, isso seria catastrófico para o país.
Na ausência do Presidente, a vice-presidente assume o poder, mas depois o país tem de realizar eleições no prazo de 30 dias…
Isso é o que se está a escrever. Eu considero que se deve passar por um processo eleitoral com garantias que permitam realmente que o voto das pessoas seja respeitado. É uma situação em que deve haver uma participação política de todos os actores, incluindo os que estão agora. Tem de haver um processo de cura de feridas, de união do país e com participação política de todos.
Todavia, não se pode ir a umas eleições com o actual Conselho Nacional Eleitoral -CNE. Tem de haver um processo de consenso e de participação internacional que permita que o Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela seja realmente apolítico e, a partir disto, que realmente se faça respeitar a opinião dos venezuelanos.
Mas as autoridades que estão no poder actualmente serão capazes de fazer essa transformação ou será feita com a ajuda da comunidade internacional?
Não, isso tem de ser feito com a ajuda da comunidade internacional. Ou seja, se deixarmos isso tudo nas mãos dos actuais responsáveis do país, corremos o sério risco de que as eleições não tenham a expressão que têm de ter e que o voto das pessoas possa não ser respeitado novamente. Nós temos de estar seguros de que realmente as coisas são reais, ou seja, que há realmente uma vontade de o fazer.
A administração de Trump veio exigir que Caracas corte relações com a China, Rússia, Irão e Cuba como condição para poder explorar e vender o petróleo. Relativamente ao petróleo venezuelano, têm sido claras as ambições de Donald Trump. As novas autoridades vão acatar esta exigência?
Acho que o Trump diz umas coisas e depois a gente não sabe se aquilo é só falar e não passa disso. Os EUA têm interesse no petróleo. Mas então e os outros? O que queriam? Ou seja, todos os demais que estavam lá, o que queriam? Não era o bem-estar dos venezuelanos, queriam apenas o petróleo.
Não o choca as declarações de Donald Trump? Não estamos aqui a falar de ingerência…
Com certeza que é uma ingerência. Certamente. Mas vamos lá ver: será que, actualmente, as autoridades venezuelanas podem dizer que anteriormente não havia ingerência? Nós temos 25 anos com uma indústria petrolífera a cair todos estes anos. Realmente, quem levava petróleo e pagava eram os americanos, porque os russos, os chineses, os iranianos… tudo era por convénios de que realmente o povo venezuelano não beneficiava, absolutamente nada disso. A compra de petróleo pelos americanos é importante para a economia da Venezuela.
É o regresso da política de Monroe? Os Estados Unidos já vieram avisar a Colômbia e até Cuba…
Não me parece que esse seja o caminho. Têm de ser os povos a resolver a situação de cada um. Não me parece que essa seja a solução. E mesmo no caso de as pessoas falarem, houve, sem dúvida, uma ingerência de um país. Eu estou claríssimo nisso.
Também não estou de acordo com isso. É preciso ver que a situação ainda não está muito clara. É preciso continuar a negociar, a falar. Tem de haver abertura, tem de haver reconciliação, tem de haver a participação de todos.
Nicolás Maduro foi capturado e levado para os Estados Unidos para ser julgado, acusado de facilitar o narcoterrorismo. Qual será o destino de Nicolás Maduro?
Adivinhar não posso. Não estou a dizer com isto que esteja de acordo com o facto de terem levado Nicolás Maduro. Agora, o que eu acredito é que Nicolás Maduro não vai voltar e, enquanto Trump estiver no poder, menos ainda. Ou seja, eu acredito que Trump agora fez o que fez, bem ou mal, mas agora não pode andar para trás.
Não é que Nicolás Maduro, para a semana, volte à Venezuela, porque isso seria deitar tudo ao chão, como se não tivesse passado nada, e a coisa seria pior. O julgamento vai continuar e será julgado e, lamentavelmente, será detido.
Donald Trump diz que quer combater o tráfico de droga. Porém, o Presidente das Honduras, condenado pelos EUA a 45 anos de prisão, recebeu o perdão do homólogo norte-americano em Dezembro passado. Estamos aqui perante dois pesos e duas medidas?
Com certeza. Tem sido sempre assim. E não são só os americanos. Somos todos nós. Vamos ver: as grandes potências fazem isso. O que é que a Rússia tem feito? Agora critica por um lado, mas então e na Ucrânia? Ou seja, isto é tudo assim.
Neste momento, era mais fácil, para os EUA, “atacarem” a Venezuela?
Foi a solução que eles encontraram. Eles falam muito no hemisfério ocidental e eu penso que o que fizeram foi talvez o mais fácil para eles. No meu entender, não era realmente a solução, porque foi uma solução que trouxe outros problemas.
Mas isso, no fundo, é a geopolítica internacional e são os interesses de cada uma das potências, que falam muito mais alto do que qualquer outra coisa. Ou seja, não há ninguém que possa atirar pedras para o ar quando tem telhados de vidro.
A detenção de Nicolás Maduro por forças norte-americanas deixou a Venezuela num clima de incerteza. Em Caracas, a população vive numa “calma tensa”, receiam novos episódios de instabilidade, saques e repressão. Milú Almeida, dirigente associativa luso-venezuelana, descreve medo, forte presença policial e muitas incógnitas políticas, alertando que o regime mantém o controlo e prudência diplomática.
A captura de Nicolás Maduro por forças especiais norte-americanas, no sábado, 3 de Janeiro, abriu um período de incerteza na Venezuela. Desde então, o país encontra-se politicamente suspenso, com repercussões imediatas no dia-a-dia da população. A antiga conselheira das comunidades portuguesas na Venezuela e actual presidente da Associação Mulher Migrante, Milú Almeida, descreve um ambiente de “calma tensa ” e um povo que “não sabe o que vai acontecer no futuro”.
Segundo Milú Almeida, os portugueses em Caracas mantêm-se “em casa, só saem se é estritamente necessário”, embora procurem manter a normalidade possível. “Estão apreensivos, há muita incerteza e assim estamos todos”, confessa, afirmando que desde sábado fala diariamente com familiares e amigos. A detenção de Nicolás Maduro, que se declarou inocente perante um tribunal federal em Nova Iorque, divide a comunidade internacional, enquanto no terreno prevalece a sensação de instabilidade iminente.
O impacto sente-se no dia-a-dia, “a população não sabe do que é que pode acontecer e obviamente apreensiva, porque temos uma situação que não está resolvida”, afirma. Milú Almeida lembra que, apesar de Maduro ter sido capturado, “o regime continua”, e isso alimenta dúvidas sobre a posição dos Estados Unidos e sobre uma real mudança. Ao mesmo tempo, alerta para a presença dos chamados colectivos: “civis armados, afectos ao regime”, cuja actuação nas ruas aumenta o receio de confrontos.
O sector comercial, onde se concentra grande parte da comunidade portuguesa, padarias, supermercados, restauração, está particularmente vulnerável. “O pessoal pode desesperar se não conseguir os bens alimentares necessários. Isto pode provocar saques, já não é a primeira vez que acontecem”, sublinha, lembrando episódios passados de violência e desordem.
Quanto à liderança do país, Milú Almeida explica que a presidência interina está, por agora, nas mãos de Delcy Rodríguez, antiga vice-presidente. “Conforme a Constituição, quem deveria assumir seria o presidente da Assembleia, Jorge Rodríguez, mas como existe agora uma vice-presidente, é ela quem ocupa a função interina.” O futuro político permanece indefinido: “Convocarão novas eleições? Não sabemos. Tudo depende do que ela e o governo dos Estados Unidos decidam.”
Sobre o papel da oposição, é peremptória: “Edmundo Gonçalves é o presidente legitimamente eleito, conforme as sondagens e os resultados.” Para Milú Almeida, seria ele quem deveria assumir uma presidência de transição antes de convocar novas eleições. Já Maria Corina Machado, embora com apoio popular, “não foi eleita” e só um novo sufrágio poderia legitimá-la. Até lá, insiste, “não é esse o papel dela”.
Nos últimos dias, organizações de direitos humanos denunciaram a existência de cerca de 1.000 presos políticos. Milú Almeida confirma o cenário: “É esta a descrição que me chega.” Relata ainda um episódio ocorrido esta madrugada no Palácio de Miraflores [a sede da Presidência da Venezuela], que inicialmente gerou rumores de uma segunda intervenção dos EUA. “Foi uma confusão dos próprios militares, que dispararam contra drones detectados pela defesa aérea”, esclarece, antes de reforçar que “há muita insegurança e um forte aparato policial na rua”.
Sobre a detenção de Nicolás Maduro, a dirigente associativa admite que a população está dividida, mas unida na perplexidade. “Se o que eles querem é acabar com o regime, não estão a acabar com o regime. Levaram a cabeça, mas ficou tudo o resto.” A oposição, diz, “não tem armas, não tem o controlo”, e permanece à margem das decisões. “O controlo está nas mãos do regime”, insiste.
Milú Almeida teme que qualquer faísca desencadeie o caos. “A dinamite está aí e, se se acender um fósforo, isto descontrola-se”, acrescentando que qualquer transição política terá de ser “muito diplomática”, sob pena de desencadear confrontos imprevisíveis.
Horas depois da operação norte-americana na Venezuela e da "extracção" do Presidente Nicolás Maduro para os Estados Unidos, acusado de narcotráfico, Donald Trump afirmou querer “gerir” a Venezuela nos próximos tempos e avisou que as empresas norte-americanas vão explorar as reservas de petróleo do país. Neste programa, conversamos com a investigadora Diana Soller que considera que o que aconteceu no sábado “não foi propriamente uma surpresa” e que aponta como “receio legítimo” a possiblidade de outras acções militares norte-americanas noutros países.
Esta segunda-feira, o Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, comparece em tribunal em Nova Iorque, acusado de narcoterrorismo, dois dias depois de ter sido capturado pelas tropas especiais norte-americanas. Entretanto, e perante nova ameaça do Presidente norte-americano de novo ataque à Venezuela caso o novo Governo não colabore, a Presidente interina, Delcy Rodriguez, adoptou um tom conciliatório e falou em “programa de cooperação”.
A investigadora Diana Soller, coautora do livro “Donald Trump: O Método no Caos”, começa por lembrar que o que aconteceu “não foi uma surpresa”, nem um “novo precedente”, antes foi “só mais um precedente”. O que talvez seja “mais surpreendente foi a extracção do líder da Venezuela, não por razões políticas, mas por razões criminais que redundam aparentemente numa mudança não de regime, mas de liderança”, explica a investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais.
Sobre a legalidade de tudo isto, Diana Soller sublinha que há teses a defender os dois lados e destaca que “o que choca é uma transformação tão profunda de um actor internacional que até há muito pouco tempo se regia por determinadas regras e agora se rege por outras”. Por isso, no seu entender, o que mais a preocupa “não é o precedente relativamente ao Direito internacional” porque a História é feita disso, mas sim “o precedente que se pode ter aberto relativamente a outras acções militares noutros países que não a Venezuela”. Oiça a entrevista neste programa.
RFI: Como olha para a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela?
Diana Soller, Investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais: “Em primeiro lugar, eu acho que não foi propriamente uma surpresa porque se juntarmos a quantidade de meios militares que estavam no terreno com aquilo que foi declarado na estratégia de segurança nacional, nomeadamente a ideia de que haveria um novo domínio norte-americano do hemisfério ocidental, bem como as ameaças que tinham sido feitas retoricamente por [Donald] Trump e por [Marco] Rubio, seria de alguma maneira de esperar que alguma coisa que implicasse a força militar acontecesse em tempos próximos e, portanto, foi no sábado.
Talvez o mais surpreendente foi a extracção do líder da Venezuela, não por razões políticas, mas por razões criminais que redundam, aparentemente numa mudança - não de regime, mas de liderança - para uma liderança que provavelmente será mais amiga dos Estados Unidos. Darcy Rodriguez já disse hoje que está disposta a cooperar com os norte-americanos de forma a que os Estados Unidos tenham maior controlo sobre a Venezuela e sobre os seus recursos naturais.”
Sobre a questão dos recursos naturais, é surpreendente que, de forma aberta, Donald Trump tenha assumido que o que está em jogo é o petróleo, é o passarem a ser os Estados Unidos a gerirem as maiores reservas conhecidas de petróleo no mundo?
“No fundo, isto representa a parte ou a vertente transacional da política externa norte-americana, principalmente desta administração. Os Estados Unidos nunca fizeram segredo que a extracção de recursos naturais de diversas partes do mundo - a Ucrânia também faz parte desse grupo, digamos assim - que era considerado interesse nacional norte-americano. Portanto, mais uma vez, não me parece surpreendente.
Agora, o que eu acho que está a acontecer, e que faz com que muitas destas questões sejam chocantes, é a grande mudança ideológica na política externa norte-americana, acompanhada de uma retórica, por um lado, muito barulhenta e muito confusa, mas por outro lado também muitas vezes muito franca relativamente aos objectivos norte-americanos. Nós sabemos que todas as grandes potências competem e procuram a extracção de recursos naturais de outros Estados. Nunca tivemos foi uma grande potência a dizer isso abertamente, já há muito tempo que não temos uma grande potência a dizer isso abertamente. Nós estamos - ainda estamos ou estamos a deixar de estar - numa ordem internacional em que este tipo de afirmações não era suposto fazer isso, mas como também há da administração Trump uma tentativa de transformar a ordem internacional numa ordem gerida pelas grandes potências, é natural que este tipo de coisas também se vão transformando.”
Como é que vê a resposta europeia de não apontar o direito internacional e limitar-se a dizer que a Venezuela se livrou de um ditador, como fizeram alguns dirigentes, como o francês, quando o Secretário-Geral da ONU disse abertamente que há aqui um precedente perigoso?
“Pedro Sanchez, [primeiro-ministro] da Espanha, também disse a mesma coisa. Quer dizer, o que é que a Europa pode fazer? Eu tenho uma grande desconfiança. Parece que, de repente, as pessoas se lembraram da ideia do precedente, quando toda a História está cheia de precedentes, enfim, de quebra do direito internacional por grandes potências, nomeadamente pelos Estados Unidos. Portanto, isto não é um novo precedente, é só mais um precedente. Isso é importante, evidentemente, mas a Europa, na realidade, pouco pode fazer relativamente à criação ou não criação de precedentes por grandes potências. Pode, isso sim, congratular-se, como se congratulou, ontem - hoje, provavelmente o discurso vai ter que ser um bocadinho diferente - pelo desaparecimento de um ditador que efectivamente coarctou os direitos humanos da população de um país - ele e o seu predecessor - durante 14 anos. Há presos políticos, há mortos políticos, há uma grande escassez na Venezuela, há uma falta de liberdade.”
Até que ponto é que isso dá o direito a um outro país de extrair, de raptar, de sequestrar, de capturar - não sei qual é a palavra diplomaticamente correcta para usarmos - um Presidente?
“Não há palavra diplomaticamente correcta porque isto não é bem diplomacia, é mesmo uma questão de intervenção militar. É uma extracção, é um rapto, se quiser, acho que são as palavras certas. Mas é isso que eu lhe estava a dizer: não há propriamente uma novidade numa grande potência fazer uma coisa dessas. Eu acho que o que nos está a chocar verdadeiramente, é que nós olhávamos para os Estados Unidos - e esta expressão foi usada por uma série de autores ao longo das últimas décadas - como uma potência benigna, uma hegemonia benigna que se autocontinha. Está-se a ver agora que, de facto, era uma potência autocontida porque queria proteger uma ordem internacional construída por si e pelos seus aliados do pós-Segunda Guerra Mundial, que ditava que havia um conjunto de coisas que não se poderiam fazer porque eram considerados, por essa mesma ordem, como uma espécie de linhas vermelhas que as potências de bom comportamento internacional nunca ultrapassariam.
A grande transformação que houve é que os próprios Estados Unidos mudaram profundamente ideologicamente e têm um desprezo evidente por tudo o que é liberal, nomeadamente a ordem liberal que eles próprios construíram. Estão a agir em conformidade não com o Direito internacional e provavelmente continuarão a não agir em conformidade com o direito internacional, mas em conformidade com uma determinada ordem que existiu, nomeadamente no século XIX, a seguir ao concerto da Europa, em que as grandes potências tinham direitos e deveres excepcionais e predomínio sobre os Estados que não fossem potências. E é isso que nós estamos a ver agora. Aquilo que nos choca é uma transformação tão profunda de um aliado, de um actor internacional que até há muito pouco tempo se regia por determinadas regras e agora se rege por outras. E é isto que nos custa a aceitar.”
Hoje, Nicolás Maduro comparece perante de um juiz federal em Nova Iorque. É acusado por Washington de narcoterrorismo, de ser o cabecilha de um grupo de narcotráfico. Qual é a legalidade da detenção e a legitimidade dos Estados Unidos para julgarem um Presidente de outro país?
“Não sei dizer-lhe isso de uma forma muito contundente porque eu não sou especialista nem em Direito internacional, nem em Direito interno dos Estados Unidos. Tenho lido vários artigos, uns que dizem que é legal porque, no fundo, a vítima do narcotráfico são os Estados Unidos e podem efectivamente extrapolar a sua jurisdição para ir buscar um criminoso que está a violar as leis do país com dano para os cidadãos americanos. E tenho lido artigos que dizem que é completamente ilegal. Portanto, depende da escola de Direito internacional que está a apreciar esta situação.”
Já houve ameaças a Cuba, à Colombia, a Nicarágua, também à Gronelândia. O que é que se espera? E há receios?
“Eu tenho receio, sim. Eu tenho receio, porque toda a política externa norte-americana se está a voltar para esta posição de poder usar a força para chegar a objectivos políticos que transformem determinados países ou determinadas regiões em regiões mais amigas, digamos assim, dos Estados Unidos ou mais controláveis pelos Estados Unidos. Portanto, eu acho que sim, que relativamente ao precedente, preocupa-me menos o precedente relativamente ao Direito internacional, porque durante toda a História se abriram variadíssimos precedentes relativamente ao Direito internacional. O que me preocupa é o precedente que se pode ter aberto relativamente a outro tipo de acções militares ou outras acções militares noutros países que não a Venezuela. E sim, isso acho que é um receio legítimo.”
Entre memórias de infância no Dundo e a experiência da prisão política em Portugal, Diana Andringa revisita uma relação com Angola, país onde nasceu e cuja história marcou o seu percurso pessoal e profissional. A jornalista e documentarista, fala do colonialismo, da independência e do pós-independência, reflectindo sobre identidade, liberdade e desigualdade num país rico em recursos, mas ainda atravessado por contradições sociais.
Quando pensa em Angola como território, e não com objectivo jornalístico, as primeiras imagens que evoca são pessoais. Distingue duas memórias centrais: a primeira é o Dundo, local onde nasceu, na então Linha do Norte, que identifica como uma referência fundadora da sua identidade. A segunda é política: o julgamento no Tribunal Plenário, durante o Estado Novo, por apoiar a independência de Angola. Recorda esse momento como decisivo, sublinhando o impacto de ter afirmado publicamente, perante juízes, o seu apoio à luta de libertação.
O 11 de novembro de 1975, data da independência, não foi vivido em Luanda. Diana Andringa encontrava-se em Portugal, mas afirma que o acontecimento ficou gravado com nitidez. O gesto simbólico que mais a marcou foi a substituição da bandeira portuguesa pela angolana, um momento que, segundo diz, sintetizou a ruptura histórica. Apesar da distância física, acompanhou o processo através do trabalho jornalístico e recorda textos e descrições que lhe deram a sensação de estar no local.
Para Diana Andringa, a independência representa uma experiência comum a muitos países africanos: um momento de libertação carregado de expectativas, mesmo quando os desenvolvimentos posteriores não correspondem ao projecto inicial. No entanto, considera que a independência não elimina todas as formas de dependência. Angola deixou de ser colónia, mas, na sua análise, continua sujeita a pressões de grandes interesses económicos e empresariais internacionais. Ainda assim, sublinha um ganho essencial: a afirmação da identidade nacional.
A jornalista não esconde a frustração com o percurso seguido após a independência. Resume esse sentimento numa frase recorrente: “não foi isto que nós combinámos”. O ideal que identifica passava por uma Angola mais igualitária, com justiça social e sem corrupção. Reconhece, contudo, que o contexto colonial deixou marcas profundas, nomeadamente uma formação académica e política limitada, e que muitos dos comportamentos actuais têm raízes nesse passado. Para ela, a análise crítica deve ter em conta a memória histórica.
As experiências que mais a marcaram na infância não foram apenas os grandes acontecimentos, mas situações do dia-a-dia que revelaram a complexidade cultural e social do país. Recorda histórias contadas por trabalhadores da casa, como a do cozinheiro que afirmava poder pescar em zonas perigosas por pertencer simbolicamente à “etnia dos crocodilos”, ou a reacção de surpresa de um empregado doméstico ao provar camarão pela primeira vez. Esses episódios, diz, ensinaram-lhe cedo a relativizar diferenças culturais sem as transformar em exotismo.
Outras memórias tiveram um impacto mais directo na sua consciência social. Lembra-se de ouvir, ainda criança, um comentário sobre um bife destinado a um gato, seguido da observação de que havia crianças que nunca tinham comido carne. Esse contraste revelou-lhe de forma imediata a desigualdade social existente. Também a percepção do racismo surgiu a partir de situações concretas, como os códigos de comportamento impostos à população negra no espaço público ou a existência de práticas religiosas segregadas, que lhe pareceram incoerentes desde muito cedo.
No presente, Diana Andringa manifesta preocupação com formas contemporâneas de censura, sobretudo aquelas que não são impostas de forma explícita. Destaca a auto-censura como um dos maiores riscos para a liberdade de expressão e associa-a directamente à precariedade laboral no jornalismo. Um jornalista em situação precária, defende, dificilmente consegue exercer o seu trabalho com independência, o que tem consequências directas para a qualidade da democracia.
O balanço que faz de Angola é marcado por uma dificuldade em aceitar a persistência de desigualdades extremas num país com muitos recursos naturais. A coexistência de elites muito ricas com populações em situação de pobreza continua a preocupá-la. A nível pessoal, mantém o desejo de ver reconhecida formalmente a sua ligação ao país, expresso na vontade de ser considerada angolana também do ponto de vista legal.
Entre Portugal e Angola, Diana Andringa defende a ideia de pertença múltipla e rejeita a noção de identidade exclusiva. Considera natural que uma pessoa possa ter mais do que uma pátria. A questão da independência, para si, mantém-se actual e universal: mais do que um episódio histórico, representa um desejo humano fundamental de autonomia e auto-determinação.
“Expectativas sempre altas” e frustrações persistentes marcam os 50 anos de Angola independente, segundo Eugénio Costa Almeida. O investigador luso-angolano aponta a lentidão das mudanças e o uso selectivo do passado, mas destaca uma juventude pós-guerra “mais consciente e crítica”, que pode anunciar novos ciclos de contestação e a necessidade de um governo focado no desenvolvimento social.
Eugénio Costa Almeida, luso-angolano, investigador e professor universitário com uma longa ligação académica a Angola e aos Estudos Africanos, acompanha há décadas a evolução política, social e estratégica do país. Ao observar a Angola de hoje, sublinha que “as expectativas continuam sempre altas”, porque existe, pelo menos ao nível do discurso, a vontade de melhorar as condições de vida da população. O problema, diz, é que “cinquenta anos ficaram muito aquém daquilo que eram as nossas expectativas desde o início”.
Sem ignorar o peso da história, recorda que Angola viveu “problemas políticos muito graves” e uma longa guerra civil, factores que marcaram o Estado e a sociedade. Ainda assim, Eugénio Costa Almeida considera que isso não explica tudo. Nota, por exemplo, que o país “nunca passou por um golpe de Estado”, ao contrário de outros países, o que torna mais evidente a frustração perante o ritmo lento das transformações.
O passado colonial surge no debate político, mas de forma selectiva. “Quando convém, sim, o passado é usado para justificar o presente”, afirma, sublinhando que essa prática não é exclusiva de Angola. “Todos os países fazem isso, mesmo Portugal”, acrescenta, apontando que muitas vezes a população “come e cala”, seja por cansaço, seja por uma memória curta.
Essa lógica, porém, começa a chocar com uma realidade demográfica nova. Mais de metade da população angolana é jovem e já nasceu depois da guerra. “Essa juventude não passou pela guerra civil, é toda pós-2002”, lembra. E isso faz toda a diferença, porque se trata de uma geração que observa o poder com menos reverência e mais espírito crítico.
Questionado sobre o grau de consciência política dessa juventude, Eugénio Costa Almeida é peremptório: “É muito mais consciente, muito mais avançada, muito mais criativa e, acima de tudo, muito mais intelectualizada.” Na sua leitura, Angola ainda não foi plenamente tocada por fenómenos de contestação, mas “não estará muito longe”, à semelhança do que aconteceu noutros países africanos, europeus e asiáticos.
“Não existe um contrato social”, afirma, reconhecendo que pode haver vontades individuais dentro do Estado, mas que o sistema continua marcado pela “predominância do poder”. Essa lógica manifesta-se, inclusive, dentro do próprio partido governante, onde “já se notam sinais de combate político e social”, muito antes das eleições de 2027.
O cenário partidário, aliás, revela contrastes. Enquanto no seio do poder crescem tensões internas, recentes processos na oposição evidenciaram “uma democraticidade que não era muito visível nos partidos políticos nacionais”. Esse factor, acredita, poderá influenciar decisivamente os equilíbrios futuros, sobretudo com a aproximação dos próximos congressos partidários.
As comemorações dos 50 anos da Independência foram vividas com sentimentos ambivalentes. “Não foi com nostalgia do que aconteceu, mas do que queríamos que tivesse acontecido”, confessa. O momento foi marcado mais por “ansiedade futura” do que por celebração, inserido num olhar mais amplo sobre os percursos dos países africanos de língua portuguesa desde as independências.
A memória pessoal do 11 de Novembro permanece viva. “Foi sempre o dia da minha independência”, recorda, evocando a experiência de acompanhar os acontecimentos à distância, pela rádio e pelos jornais, já em Portugal. Uma vivência discreta, mas carregada de significado identitário e político.
Quanto às prioridades para o futuro, “é uma pergunta de um milhão”, admite. Ainda assim, aponta um caminho: “um governo de unidade nacional focado no desenvolvimento social”. Para o investigador luso-angolano, só uma sociedade minimamente desenvolvida pode sustentar uma economia diversificada, uma vida política mais participada e um país menos refém de soluções de curto prazo. O ideal, reconhece, “pode ser um pouco utópico”, mas continua a ser, insiste, “o que faria mais sentido para Angola”.
Duas quedas de governo, dois primeiros-ministros e a recondução surpresa de Sebastien Lecornu, tudo isto no espaço de apenas 12 meses. França viveu novamente um ano de grande instabilidade política, decorrente da grande fragmentação da Assembleia Nacional Francesa, dividida em três grandes blocos: a esquerda, o centro liberal de Emmanuel Macron e a extrema-direita.
O ano começou com um novo primeiro-ministro, François Bayrou, que sucedeu ao negociador Michel Barnier, com a difícil missão de conseguir fazer aprovar orçamento do Estado. A 14 de Janeiro, Bayrou apelava à estabilidade, mas tudo desmoronou quando pediu uma moção de confiança que lhe foi rejeitada.
O governo de Bayrou caiu a 08 de setembro e entrou em cena Sebastien Lecornu, considerado o último trunfo de Emmanuel Macron. Lecornu, que vem tradicionalmente da direita francesa, do partido gaulista "Os Republicanos", sempre foi visto como alguém dialogante, capaz de negociar e encontrar consensos, tanto com a esquerda, como com a direita.
Sebastien Lecornu tentou formar governo e demorou cerca de um mês a anunciar a composição do seu executivo. O aliado fiel de Macron viria a demitir-se, de forma surpresa, a 06 de outubro, um dia depois de anunciar a primeira salva de ministros, que lhe valeu muitas críticas, por parte de quase todos os partidos políticos.
O Presidente francês deu-lhe 48 horas para negociar com as diferentes forças políticas e disse que lhe concederia "carta branca" para governar, acabando por reconduzi-lo no cargo. Até ao momento, Lecornu tem adoptado a "estratégia de pequenos passos", negociando com as diversas forças políticas, à medida que surgem diferendos, tendo conseguido já uma primeira vitória: a aprovação do Orçamento do Estado da segurança social para o próximo ano.
Este foi também um ano repleto de verdadeiras reviravoltas. Marine Le Pen, figura central do Rassemblement National, partido de extrema-direita, foi condenada, pelo Tribunal de Paris, a 5 anos de inelegibilidade, no caso dos Assistentes Parlamentares, ficando, para já, impedida de se candidatar às presidenciais de 2027.
Ainda no decorrer deste ano 2025, Nicolas Sarkozy passou de ex-Presidente a presidiário. O antigo Presidente foi condenado a cinco anos de prisão no caso do financiamento líbio da campanha Presidencial de 2007 e passou 20 dias na prisão de La Santé, em Paris.
Abordámos todos estes temas com Miguel Guedes, ex-conselheiro da Embaixada Portuguesa em Paris, que nos fez o balanço da turbulência política vivida este ano aqui em França.
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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.