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O grupo musical Ayom esteve em Paris a promover o novo trabalho intitulado Sa.Li.Va. Em entrevista à RFI, quatro dos seis elementos do grupo, falaram das linhas gerais deste novo trabalho, dividido em três capítulos distintos - “SA-grado”, “LI-berdade” e “VA-lentia”. O disco conta ainda com a participação de Juliana Linhares, Paulo Flores e Salvador Sobral.
O antropólogo moçambicano Anésio Manhiça está a desenvolver um projecto chamado “Empreender com Orgulho”. Trata-se de uma iniciativa que promove o empoderamento económico de jovens LGBTQIA+ em Moçambique, no intuito de criar abordagens mais inclusivas nos negócios e “ajudar a mudar mentes”. Depois de ter realizado a 1ª Conferência do Empoderamento Económico LGBTQIA+, a iniciativa vai promover, em Novembro, a 1ª competição de ideias de negócios inclusivos.
RFI: O que é este projecto “Empreender com Orgulho”?
Anésio Manhiça, Coordenador do Projecto “Empreender com Orgulho”: “Empreender com orgulho” é um consórcio constituído por três organizações moçambicanas: INCLUSÃO, KUTCHINDJA e a Associação do Sistema de Monitoria Orientada para Gestão que decidiram juntar-se para promover o empoderamento económico de jovens LGBT, mas também influenciar para que haja espaços profissionais que respeitem as diferenças baseadas na identidade de género, assim como na orientação sexual.
Há quanto tempo é que começou o projecto e qual é o conceito?
Este projecto começou em Março através do apoio da Other Foundation, que é uma fundação baseada na África do Sul e que tem apoiado diferentes movimentos ao nível da região Austral. Com este projecto, o que nós queríamos é tentar alterar ou mostrar ao nível de Moçambique que existem outros campos ou outras formas de desenvolvimento e transformação e apoio à mudança social para pessoas LGBT, que não sejam questões ligadas ao HIV, à prostituição, à doença. Então, é mais sobre economia porque nós acreditamos que um apoio baseado na economia pode, de alguma forma, reforçar as outras abordagens de apoio às pessoas LGBT e pensamos que também esta é uma metodologia que pode ajudar a mudar mentes, a mudar a forma como as pessoas olham para pessoas LGBT.
Qual é a forma como as pessoas olham?
O que nós temos visto é que, de alguma forma, uma ênfase em abordagens de saúde, de HIV reforça uma narrativa e um imaginário da pessoa LGBT como alguém que é do risco, como alguém que é da doença, tudo do lado negativo. Este é um imaginário já muito antigo, associado às pessoas LGBT. Então, pensámos que apoiando as pessoas a terem negócios, a terem negócios estáveis, empregos dignos, outras pessoas vão olhar para estas pessoas LGBT como pessoas normais que contribuem para a economia, pessoas que contribuem no sector criativo, no sector de hotelaria. A ideia é pensarmos do económico como essa abordagem que vai ajudar nesta mudança social de forma bem mais abrangente.
O que é que têm feito até agora concretamente? E o que é que vão fazer?
Agora, nós desenvolvemos uma pesquisa para compreender quais são as barreiras económicas que as pessoas LGBT têm na área metropolitana de Maputo e que prácticas económicas têm. Fizemos uma pesquisa, que era qualitativa e quantitativa, em que acabámos concluindo que a maior parte das pessoas LGBT acaba desenvolvendo actividades como intermediários, que em Maputo chama-se “nhonguistas” que é uma forma de estar na práctica económica, mesmo sem ter um produto, mesmo sem ter um recurso para adquirir um produto e comercializar, então ficam sempre entre quem produz e quem comercializa.
Então, muitos são “nhonguistas”, que são intermediários, e outros acabam sendo criativos, ficam neste espaço criativo porque é um espaço socialmente construído como um espaço para a pessoa LGBT, mas também é o espaço onde se sentem com maior liberdade de expressar a sua identidade e orientação sexual porque já assim é percebido. É um espaço que já foi conquistado ao longo do tempo.
Também fizemos a primeira Conferência do Empoderamento Económico em Moçambique, que foi um grande marco até a nível da região Austral, onde juntámos empreendedores moçambicanos, brasileiros e sul-africanos. Vamos fazer anualmente esta grande conferência para criar esta sinergia.
Agora, no mês de Novembro, vamos fazer a primeira competição de ideias de negócios inclusivos, em que a ideia é colocarmos pessoas LGBT e não LGBT a apresentarem aquilo que são as suas ideias de negócio, que são baseadas numa abordagem inclusiva. Elas vão passar por um treino para entenderem o que é isso e, no final, vão apresentar estas ideias com melhor precisão. Vamos premiar duas iniciativas e vamos também tentar dar visibilidade aos negócios dos que participaram e talvez sensibilizar aos que aspiram ser empreendedores a caminharem por este lado e a adoptarem abordagens mais inclusivas.
O objectivo, no fundo, é quebrar barreiras e fazer com que todos os empreendedores, em todas as profissões, sejam mais inclusivos?
O que nós constatamos, primeiro, é que vários movimentos LGBT, ao nível de Maputo e um pouco pelo mundo, acabam caminhando por um espaço que acaba sendo segregacionista, que é um movimento que acaba agindo por si. Nós pensamos que tratando-se de uma abordagem económica, é super importante termos o envolvimento de todos os actores porque quem pode dar emprego é, às vezes, alguém que não é LGBT. E se nós conseguirmos fazer com que este empresário perceba que tendo uma abordagem mais inclusiva, pode trazer ganhos à própria empresa, ele vai abrir-se e vai empregar mais pessoas LGBT. Assumimos que nem todas as pessoas têm capacidade de gerar emprego, então é importante envolvermos, buscarmos vários aliados para que realmente criemos este equilíbrio.
Falou em barreiras económicas. Eu suponho que também haja barreiras sociais e culturais. Moçambique está preparado para ser realmente inclusivo também no mundo profissional?
Eu penso que sim, que Moçambique está preparado. Pelo menos, temos a Lei do Trabalho que já prevê a não discriminação contra a orientação sexual. Mas também podemo-nos reforçar muito a partir da legislação que foi feita para a questão do empoderamento da mulher, que prevê questões de género. A questão da Lei do Trabalho é bem categórica em não haver discriminação. Uma das coisas que também prevemos fazer é divulgar massivamente esta lei e tentar trabalhar com as empresas para ver se realmente garantem que dentro do seu espaço profissional não há esta discriminação. Eu acho que está super preparado. O que precisa realmente é de pessoas que estão interessados na causa e que mostrem aos empreendedores e aos empresários a potencialidade de termos espaços de trabalhos mais inclusivos.
Com este projecto, “Empreender com Orgulho”, pensa que alguma coisa pode mudar, que já está a mudar? Que vão quebrar alguns silêncios?
Sim, muitas coisas vão mudar e estão a mudar. Primeiro, esta perspectiva de projectos LGBT que sejam mais de comunidade, agora, estamos a optar por uma dimensão mais nacional, uma voz que é bem mais ouvida. Participamos em diferentes eventos de cariz nacional e que são espaços que convidam outras pessoas a uma participação que sai do nível de bairro, de comunidade, e participamos em discussões mais globais.
Também o facto de termos esta conferência, a Conferência de Empoderamento Económico, em que tivemos uma audiência de mais de cem pessoas, em que tivemos diferentes actores políticos – falo tanto da cooperação internacional, como de alguns membros do governo - mesmo que não se queiram presentar como tal - mas que foi visível e estavam lá.
Há este interesse visível, sim, e há uma outra coisa. Notámos que os outros movimentos também estão a começar a olhar esta abordagem económica como importante e como algo que realmente merece uma super atenção. Estamos a ter este resultado, estamos a influenciar pessoas a optarem por esta abordagem económica e estamos a mostrar aos outros que são decisores políticos que a abordagem económica é super importante e estamos a conseguir também interagir com algumas instituições que se apresentavam como instituições que diziam que não podiam se associar a este grupo alvo.
Houve eleições gerais em Moçambique. Até que ponto é que os candidatos incluíram as reivindicações do eleitorado LGBTQIA+? Foram suficientemente ouvidos?
A questão dos manifestos dos candidatos em relação à causa LGBT, parece-me que ainda é uma continuidade do que vimos em termos históricos, que é uma ambiguidade em termos de identificar-se ou de se prever a questão do público LGBT nos seus manifestos. O que notámos é um silêncio. Eu estava inclusive em dois eventos de debate com os candidatos e com os membros de partidos e, uma das vezes, alguém que estava na audiência de forma muito clara questionou e notámos que o candidato passou pela pergunta como se a pergunta não tivesse sido feita. Era “como é que olha para a questão das minorias sexuais? O que o seu manifesto prevê?”. E simplesmente o candidato não disse nada.
Também estivemos num outro debate que era com os representantes da camada jovem de cada partido, em que também uma pessoa questionou e também houve um total silêncio. Há um receio dos políticos em olhar com maior clareza para a questão das minorias no geral porque são assuntos que ainda são totalmente ambíguos. Há um receio de perda de eleitorado, mas também não sabem se vão ganhar, então preferem um silêncio.
Mas este é um silêncio que já vem desde há muito tempo. No geral, as pessoas podem ser LGBT desde que não digam, que não mostrem. Não haverá nenhuma violência física, não haverá nenhuma sanção, é simplesmente não demonstrar publicamente. Ninguém te vai criminalizar por isso, ninguém te vai violentar por isso, simplesmente não podes viver em espaços públicos e demonstrar em espaços públicos. Então, a ideia dos políticos também vem vincando esta perspectiva. Foi um total silêncio.
Mas também não é só por esta questão, eu acho que isso denuncia uma fraqueza dos próprios partidos em conhecerem temáticas específicas, em conhecerem o seu eleitorado no geral. Então, acho que não é só pelo tema, mas também pela fraqueza do perfil dos candidatos e dos próprios partidos em termos de investimento, em conhecer, de facto, a realidade do país e das pessoas que vão governar.
O pugilista Bruno Fernandes nasceu em Portugal, cresceu em França e representa Cabo Verde. Falhou por pouco o apuramento para os Jogos Olímpicos de 2024, mas tem esperança de uma qualificação para Los Angeles 2028 agora que conta com o apoio do Comité Olímpico de Cabo Verde nesta disciplina que este ano deu ao país a primeira medalha olímpica da sua história.
Bruno Fernandes cresceu nos arredores de Paris e por ser "um rapazinho um bocadinho agitado" começou cedo a praticar o boxe, disciplina que o seu irmão mais velho já praticava, acabando por desenvolver uma carreira profissional. Após vários anos de combates amadores, em 2023 foi identificado pelo Comité Olímpico de Cabo Verde após um terceiro lugar numa competição internacional, começando aí a sua relação com a equipa olímpica cabo-verdiana.
Este foi um apoio que mudou a trajectória deste atleta luso-cabo-verdiano.
"Tive apoio da parte de pessoas que não conhecia mesmo e que hoje em dia sem eles é difícil seria difícil continuar, porque já hoje estou a sentir mesmo o apoio que Cabo Verde com o Comité Olímpico atrás de mim. Então é uma força a mais que antigamente eu não tinha força", descreveu Bruno Fernandes em entrevista à RFI.
Mesmo fazendo já uma carreira profissional no boxe e tendo uma rotina de treino intensa, Bruno Fernandes mantém um outro trabalho que lhe permite manter-se financeiramente. No início de 2024, Bruno Fernandes abriu mesmo uma recolha de fundos para ajudar a custear as despesas ligadas à sua participação em torneios internacionais, tendo tido um retorno da diáspora cabo-verdiana e de franceses que o surpreendeu.
"Para mim foi um bocadinho estranho pedir ajuda às pessoas porque eu sou uma pessoa que gosta de fazer as coisas por mim mesmo. Não gosto de pedir ajudas porque eu penso que as pessoas também têm os seus próprios problemas, então acho que as pessoas não vão me ajudar, mas estava totalmente errado porque eu pedi uma ajuda e tantas pessoas me deram um apoio. Nunca imaginei isso. Então, isso é uma força, mas também que me dá determinação para ir mais para frente", indicou.
Tendo falhado por pouco o apuramento para os Jogos Olímpicos de Paris 2024, Bruno Fernandes, que se situa na categoria dos 71 quilos, prepara-se agora para Los Angeles 2028 e mesmo se há quem diga que o boxe pode não vir a ser modalidade olímpica daqui a quatro anos, este atleta não acredita nessa possibilidade.
"É verdade há uma polémica e que estão a dizer que se calhar já não vai haver boxe nos Jogos Olímpicos de 2028. Mas eu não acho. Porquê? Porque vai ser nos Estados Unidos e é o país onde há mais atletas de boxe e não acho mesmo que isso vai ser possível. Mas tudo é possível no mundo. Eu acredito que o boxe vai estar ainda nos jogos de 2028 e que vamos ainda ter mais espectáculo", concluiu.
Bruno Fernandes já tem agendado o seu próximo combate, no fim de mês de Novembro, em Villepinte, nos arredores de Paris.
O antigo Presidente de São Tomé e Príncipe, Fradique de Menezes, defende que o presidencialismo é uma solução para o país. A questão foi recentemente colocado pelo primeiro-ministro, Patrice Trovoada, admitindo propor a mudança para um regime presidencialista antes das eleições gerais de 2026. Fradique de Menezes considera que o presidencialismo pode clarificar alguns conflitos, quando a instabilidade política e a elevada dívida externa continuam a adiar o desenvolvimento do país.
RFI: O senhor mostra-se preocupado com aquilo que considera ser a " dívida externa terrível" de São Tomé e Príncipe e diz que o país, após a independência, não soube fazer as escolhas certas. O que o leva a fazer estas afirmações?
Fradique de Menezes, ex-chefe de Estado de São Tomé e Príncipe: Os países que tinham meios para sobreviverem tiveram a sua independência e conseguiram singrar . São Tomé e Príncipe quis fazer o mesmo, mas não nos preocupamos muito com o sector económico para a sustentabilidade da soberania, da independência do país.
Quando assumi [o cargo de chefe de Estado], em 2001, o país já tinha uma dívida de quase 400 milhões. Negociamos essa dívida e conseguimos o perdão. Hoje, estamos outra vez mergulhados numa dívida que ronda os 400 milhões de dólares.
Mas como é que se explica esse endividamento?
O país não produz, não exporta, não tem os mecanismos para procurar meios financeiros adequados. Não soubemos desenvolver outros sectores que nos pudessem ajudar economicamente.
Mas refere-se a que sectores?
Poderíamos tentar -como falamos tanto sobre as possibilidades deste país- transformar São Tomé e Príncipe num "Hub" para acolher os grupos económicos. Grupos esses que pudessem implemetar uma série de políticas destinadas ao comércio aqui da zona geográfica onde nos encontramos. Esta é uma das possibilidades de um país insular como o nosso, porque o consumo interno é muito fraco.
Mesmo se tivéssemos um poder de compra elevado, não seria suficiente para poder fazer funcionar as indústrias locais. Porém não nos preocupamos muito com isso e nem fizemos os devidos investimentos no sector agrícola, nas chamadas roças.
O país continua a comprar comida, a comprar medicamentos...
Compramos quase tudo. Produzimos, evidentemente, aqueles produtos agrícolas tradicionais como a banana, a fruta-pão, a mandioca e o milho. Mas muito pouco, até porque muitas vezes não encontramos esses produtos no mercado.
Isto tudo faz com que hoje, com uma população que não cessa de crescer, uma juventude ávida em ter acesso à educação - como é normal- não consegue ter bolsas de estudo. Ainda continuamos a receber uma ou outra bolsa de estudos, em alguns países, mas tem sido muito difícil.
Faltam medicamentos no mercado, peças para fazerem funcionar o aparelho produtivo. Hoje podemos dizer que não adoptamos uma política económica ao mesmo nível da política social e política de discussão [diplomacia]. Porque aí somos bons.
Desde a entrada em funções, em Dezembro de 2022, que o Governo são-tomense tem estado a negociar um programa de crédito alargado com o Fundo Monetário Internacional- FMI- num entendimento difícil. Em Setembro, o primeiro-ministro Patrice Trovoada disse que esperava que as negociações evoluíssem. O que espera destas negociações?
Segundo as informações que o senhor primeiro-ministro nos trouxe, no seu regresso há dias ao país, parece que as negociações estão a seguir bem e que há uma solução para a assinatura de um acordo. É evidente que esse acordo é importante para São Tomé e Príncipe, um acordo para continuar a ter acesso ao mercado financeiro e para que os possíveis investidores possam continuar a vir ao país.
Defende ser necessário um apoio das Nações Unidas para a definição de um programa para transformar o país. Que programa seria esse? Um programa que acabasse com a dependência do país?
Exactamente. Penso na ilha das Seicheles, um pequeno Estado, em termos de tamanho São Tomé e Príncipe vem logo a seguir. As coisas que eles fazem. É extraordinário. Se nós próprios não conseguimos, com todos os estudos que fizemos [fazer avançar o país] temos que pedir apoio às instituições. Eu pensei nas Nações Unidas, ou outras instituições que possam ajudar bilateralmente.
No passado, Portugal também já tentou, fez vários estudos sobre vários sectores. A França também fez e os Estados Unidos. O problema é aceitar aplicar [aquilo que os países nos aconselham].
Mas o problema também não é muitas vezes que o Estado seja o maior empregador num país tão pequeno?
Aí está o âmago da questão. O facto de o Estado estar envolvido na gestão económica do país faz com que isto aconteça. O Governo está repleto de funcionários e cada um centraliza também o poder.
Por exemplo, o código de investimentos. O investidor chega ao país e ele lê o código de investimentos e vai assinar um acordo com o Governo para investir num sector qualquer. Quando chega o primeiro navio com mercadoria, começa logo a ter problemas na alfândega porque o funcionário diz que desconhece completamente esse código. O próprio investidor vai ter de arranjar as cópias exemplares para ir discutir com o director das alfândegas...
Está a dizer que há demasiada burocracia?
Muita burocracia e a falta de abertura da pessoa para ter mentalidade que de facto o país precisa que as coisas avancem.
O primeiro- ministro de São Tomé e Príncipe, Patrice Trovoada, afirmou querer alterar a Constituição e adoptar o presidencialismo. Acha que o presidencialismo é a solução para São Tomé e Príncipe?
Eu acho que é uma solução para São Tomé e Príncipe, pelo menos no que diz respeito [à gestão] dos conflitos.
Neste momento, por exemplo, está aí no ar a hipótese de um conflito entre o senhor Presidente da República, Carlos Vila Nova, e o senhor primeiro-ministro, Patrice Trovoada. Isto porque o senhor Presidente da República acaba de vetar cinco leis para o sector judiciário que foram aprovados pela Assembleia Nacional e propostas pelo Governo. O senhor primeiro-ministro, ao chegar ao país, fez uma declaração que não foi lá muito abonatória em relação à pessoa do senhor Presidente da República.
[ Patrice Trovoada defendeu que "tecnicamente, é um veto político, porque se há um problema de constitucionalidade existem prazos para que se possa fazer uma fiscalização preventiva para que o Tribunal Constitucional, que é o único que julga questões de constitucionalidade, pudesse dizer se é constitucional ou não é constitucional"].
O senhor considera que um regime presidencialista iria esclarecer este tipo de situações?
Ao menos neste aspecto, porque nesse regime o Presidente da República seria também o chefe do Governo. Também seria importante que conseguíssemos, de facto, que o sector judiciário desempenhasse o seu papel verdadeiro. O regime presidencial é importantíssimo, porque os países têm esse regime presidencial não têm esses problemas.
O advogado de são-tomense, Mike João, apresentou uma denúncia no Ministério Público contra o primeiro-ministro Patrice Trovoada, assegurando que tem provas "muito contundentes e claras" de que este participou na execução de quatro cidadãos no quartel militar em 2022. O primeiro- ministro são-tomense já veio dizer que espera que o advogado seja condenado por difamação. O senhor já foi Chefe de Estado de São Tomé e Príncipe Que comentário lhe merece esta situação?
É mais um dos nossos problemas. O advogado de defesa faz o seu papel e o primeiro-ministro nega as acusações, dizendo que não tem nada a ver com isso.Tentei evitar fazer comentários sobre esta polémica. Dizer que o senhor primeiro-ministro está envolvido nisto ou não? Francamente, não sei. Não tenho informações claras, nem precisas sobre isso.
Mas está preocupado com esta situação?
Sim, preocupo-me. Alguns políticos querem tirar algum dividendo desta situação, não há dúvida nenhuma que isto continua a ser um dos assuntos muito falados no país. Ao mesmo tempo, esta situação não vem beneficiar a imagem de São Tomé e Príncipe, sobretudo se pensarmos no sector económico e nos investimentos. O investidor nem quer ouvir falar destas coisas.
São Tomé e Príncipe preside actualmente à presidência rotativa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa-CPLP. Recentemente, o secretário-executivo, Zacarias da Costa- mostrou-se preocupado com aquilo que está a acontecer na Guiné-Bissau. Acredita que neste momento São Tomé e Príncipe se devia posicionar?
Com certeza. Não se compreende aquilo que está se a passar na Guiné-Bissau. Quando eu era Presidente da República dizia-se, na altura, que existiam dois países na CPLP -Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe- onde havia instabilidade política constante.
Em São Tomé e Príncipe tentou-se tudo para evitar as situações de instabilidade, mas a Guiné-Bissau continua instável. O actual Presidente, Umaro Sissoco Emabaló, tem um feitio, cada um tem o seu feitio, mas o problema é a falta de respeito pela Constituição.
O Bairro da Mafalala é uma zona histórica, berço de resistências políticas e culturais. Daqui saíram os antigos presidentes moçambicanos Samora Machel e Joaquim Chissano, o futebolista Eusébio, os escritores José Craveirinha e Noémia de Sousa, e tantas outras personalidades, algumas das quais retratadas em murais pelo bairro. Em 2019, nasceu o Museu Mafalala que tem promovido actividades para continuar a dinamizar a história deste bairro. Fomos à descoberta deste “caldeirão cultural” com Ivan Laranjeira, o director do museu.
Bem-vindos ao Museu Mafalala, no coração de Maputo. Um labirinto vibrante de vozes, pessoas e cores que sobressaem das ruelas e becos, barracas e bancas, casas precárias com chapas de zinco e alguns murais a homenagearem personalidades locais. Aqui vivem cerca de 20 mil pessoas de diferentes etnias e religiões.
Estamos no Bairro da Mafalala, uma zona histórica que foi - e é - berço de resistências políticas e culturais. Daqui saíram, por exemplo, os antigos presidentes moçambicanos Samora Machel e Joaquim Chissano, o futebolista Eusébio, os escritores José Craveirinha e Noémia de Sousa.
Ainda hoje, o bairro continua a ser um caldeirão cultural que cozinha páginas de história e, para as concentrar, nasceu, em 2019, o Museu Mafalala, dirigido por Ivan Laranjeira, um filho do bairro, que nos levou por caminhos inesperados até aos murais de homenagem às persononalidades históricas.
Ivan Laranjeira resume que o bairro é que é o museu e o museu que ele dirige é simplesmente o guardião da memória que acolhe exposições, actividades culturais e uma biblioteca. É neste edifício que conversámos sobre a importância da Mafalala para o país.
RFI: O que é o Museu Mafalala?
Ivan Laranjeira, Director do Museu Mafalala: O Museu Mafalala é um centro de interpretação, é um lugar onde as pessoas podem interagir com a história do bairro da Mafalala e podem, sobretudo, ter um contacto nas várias épocas em que o bairro e a cidade foram evoluindo. Ter uma noção mais concreta daquilo que é a história da Mafalala e das pessoas e das personalidades que daqui saíram.
Quais foram essas personalidades que daqui saíram? Há muitas importantes para a história de Moçambique e algumas estão representadas em murais aqui no bairro...
A Mafalala é orgulhosa em dizer que produziu dois presidentes de Moçambique, Samora Machel e Joaquim Chissano, um primeiro-ministro Pascoal Mucumbi, o maior jogador de futebol de todos os tempos, Eusébio da Silva Ferreira, os maiores músicos e poetas de Moçambique, casos de Fany Mpfumo, de José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui de Noronha e o toureiro Ricardo Chibanga. Todos da Mafalala para mencionar alguns porque é uma lista interminável e até hoje o bairro continua a produzir grandes personalidades do país, gente que cria tendência e que ajuda a criar este orgulho da moçambicanidade.
Como é que se explica que haja esta efervescência que faz com que daqui saiam estas personalidades que vão marcar a história de Moçambique?
Penso que tem muito a ver com a característica do próprio bairro. É um autêntico caldeirão cultural. Temos aqui gente de toda a parte de Moçambique, da região austral, da costa suaíli, pessoal de Zanzibar, das Comores. Isto contribui imenso para a forma de ser, de estar do bairro da Mafalala e para a capacidade inventiva e criativa dos que aqui vivem. Tudo isto foi sempre assim ao longo dos anos e dos tempos e continua a ser sempre uma referência, a Mafalala, por ser também o único bairro na periferia que dialoga com o centro e com o resto. Portanto, a sua localização também é estratégica e faz com que toda a gente queira cá estar. Isto contribui para a miscigenação e dessa miscigenação cria-se este sentido de nação e criam-se também grandes homens.
Esses grandes homens marcaram a resistência. Este bairro é conhecido por ter sido também um foco de resistência contra o colonialismo e eu queria que fôssemos à história do bairro…
Nós temos dois grandes momentos políticos na história de Moçambique: um que é a queda do Império de Gaza, no final do século XIX, e outro que é a criação da Frente de Libertação de Moçambique em 1962. Entre uma coisa e outra, há um hiato de perto de 70, 80 anos que é preenchido precisamente por estes movimentos que têm lugar na Mafalala, que são movimentos de consciência política, são movimentos nacionalistas, diria até proto-nacionalistas, que começam a discutir a ideia de Moçambique independente e de Moçambique como nação, que trabalham na questão da cidadania e dos direitos civis e influenciam uma geração mais nova que mais tarde cria a Frente de Libertação de Moçambique.
Esse é que é o grande contributo da Malala para este processo independentista. Anos depois, quando começa a luta armada, o bairro também albergou aqui várias bases clandestinas do movimento de libertação e tem lugares que são históricos, que desempenharam um papel importante, sobretudo no 7 de Setembro [de 1974]. Temos aqui a Base Galo, que é uma base que teve um papel extremamente importante após a assinatura dos Acordos de Lusaka em 1974, em que há um levantamento de alguns colonos portugueses que não concordavam com a passagem do poder para a Frelimo e, nesse processo, há uma tentativa de golpe de Estado e é daqui da Mafalala que sai um grupo de guerrilheiros na clandestinidade, com a missão de apaziguar a situação. Só depois dessa missão é que o Presidente Samora Machel faz a viagem triunfal do Rovuma a Maputo e proclama a independência em Junho de 1975. Portanto, é um espaço que reverbera um pouco de história por todos os poros e que mantém viva essa tradição e esse orgulho. Esse é que é o grande contributo para o processo nacionalista, mas acho que o sentido de identidade, de moçambicanidade, é o grande contributo que a Mafalala faz para o processo anticolonial.
Tantos anos depois, como é que nasce o museu?
Nós, na verdade, achamos que o museu é o bairro, é o museu vivo. Esta instalação que aqui está é um centro de interpretação e de documentação, onde se pode interagir e ter um ponto de referência sobre aquilo que é a história da Mafalala. Nós começámos há 15 anos, a trabalhar no âmbito do património no seu todo. Desenvolvemos uma rota que é o “Mafalala Walking Tour”, onde vamos explicando e passando por vários pontos de interesse histórico e cultural do bairro da Mafalala. Falo das casas onde estas personalidades todas viveram, falo de lugares de convívio social e religioso, como mesquitas, igrejas, o campo de futebol e todos esses lugares que representam a história e a dinâmica social aqui da comunidade.
A partir desse pressuposto, nós embarcámos num compromisso de preservar a história da Mafalala e de garantir o restauro, de certa forma, desse passado e legado histórico. Isso contemplou acções para o reconhecimento do bairro como sendo um conjunto patrimonial histórico e protegido da cidade de Maputo - fizemos isso em 2016 - e mais tarde, a própria construção do museu que iniciou em 2018 e concluímos em 2019. Portanto, o museu já tem cinco anos de vida, é uma criança que já fala, que está para entrar para a escola primária e que tem muitos sonhos e ambições e que vê cada vez mais um futuro risonho a partir do trabalho que a gente desenvolve.
Desenvolvem também actividades no próprio museu, não é?
Sim, sim, claramente. O museu é uma infra-estrutura ecléctica, tem aqui vários serviços disponíveis para a comunidade e não só. Tem a componente de museu, temos uma galeria de arte onde recebemos vários artistas. Temos um espaço para concertos, música, teatro, dança. Temos uma biblioteca e temos igualmente um restaurante e um serviço de acomodação. As pessoas podem-se hospedar aqui. Estamos também no booking.com - passo a publicidade - e estamos no mundo, não é?
Há muitos grupos de turistas, de pessoas interessadas em conhecer a Mafalala e ter uma experiência no bairro, que vêm e hospedam-se aqui no museu. Temos também muitos pesquisadores que vêm cá com interesse de estudar a Mafalala e outros temas que também vêm e se hospedam cá. Há muitos artistas que vêm em residência e ficam cá também para se inspirar. Nós, como museu, também damos alguma orientação nesse sentido. É um espaço que é transversal naquilo que é a sua missão e naquilo que é a possibilidade de acolhimento que a gente dá.
Além de ser um bairro muito vivo pelas pessoas, pelas crianças, pelos ruídos, pelos cheiros, também é muito apelativo pelas cores e pelos murais. Como foi o processo de criação dos murais?
Nós temos um projecto que é o Mafalala Artivismo e é um projecto que surge no âmbito da ideia de garantir e manter viva a memória do bairro da Mafalala. A Mafalala é este lugar com muita história, é um lugar culturalmente rico, com heróis moçambicanos que por aqui passaram, mas ao andar pelo bairro, nós não temos nenhuma referência, nenhum símbolo, nenhum monumento que personifique essa história, esse passado cultural importante.
Como museu, como associação Iverca, nós iniciámos um trabalho com a comunidade, que era precisamente o Mafalala Artivismo em que convidávamos artistas plásticos para dialogar com a comunidade sobre o que é que a Mafalala representava para esta comunidade. As pessoas diziam que a Mafalala é um lugar de craques da bola, é um lugar da marrabenta, é um lugar de diversidade cultural, é um lugar de poetas, de revolucionários e por aí fora. Com cada uma destas respostas nós assumimos um compromisso de fazer intervenções artísticas em espaços públicos que pudessem reflectir este sentimento da comunidade. Estas intervenções seriam, então, os nossos monumentos informais. Nós fizemos até ao momento três murais.
Temos o Mural dos Poetas, que tem lá representados José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui de Noronha e João Albasini, e que muito recentemente, em 2022, foi restaurado por ocasião dos 100 anos de José Craveirinha. E depois fizemos um mural que é o mural do desporto, em que temos representado o Eusébio, o Hilário da Conceição, o Arsénio Esculudes e o Ricardo Chibanga. Este mural está localizado precisamente no campinho da Mafalala e também reflecte esta heroicidade do desporto e dos desportistas aqui da Mafalala que é uma cultura que se mantém bastante viva. Finalmente, fizemos uma ode às mulheres e, sobretudo, a esta diversidade cultural que está presente no bairro e que se reflecte muito na cultura macua da ilha de Moçambique. Este mural é uma pintura do Tufo da Mafalala.
Todos estes murais têm curadoria do museu Mafalala e foram um processo participativo em que a comunidade também deu a sua opinião, tendo sido colocados estrategicamente em zonas também simbólicas que representam muito para o conteúdo que aí está.
Agora, estes murais, para além deste papel simbólico e cultural, têm igualmente um papel ambiental e urbanístico muito grande porque à volta deles o ambiente muda, transforma-se para o positivo. Escolhemos de propósito os lugares que eram degradados e , a partir do momento em que houve esta intervenção, ganharam vida, temos pequenos negócios à volta, tornaram-se lugares de referência, as pessoas concentram-se, juntam-se aí. Então, é um ganho a dobrar naquilo que é a missão da arte. E a arte cura, não é? Sentimos que, de certa forma, este objectivo foi alcançado.
A cultura Mandjuandadi com Patche Di Rima ocuparam o Coliseu dos Recreios e apresentaram o melhor da Guiné-Bissau num espectáculo que agitou a capital portuguesa.
Mandjuandadi é uma das culturas mais emblemáticas da Guiné-Bissau e são as mulheres que assumem o papel central. Na mítica sala de espectáculos lisboeta, Patche Di Rima esteve ao leme de um barco que, com o apoio do projecto Marimba, juntou no cartaz nomes como Eneida Marta, Iva & Ichi, Ammy Injai, Memu Sunhu, Mamba Negra, Rei Helder, Big Carlos, Andoé Nanque, El Matchonis, Netos di Bandim e Jery Bidan.
Marimba é um projecto inédito, que resulta da candidatura ao PROCULTURA, programa financiado pela União Europeia e Instituto Camões, que procura a valorização internacional da produção musical em Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor-Leste.
O espectáculo deste sábado, 12 de Outubro, em Lisboa, representa apenas uma das faces de uma iniciativa sem precedentes pelo conhecimento, consolidação e divulgação da cultura dos países lusófonos.
A RFI falou com a gestora do Procultura, Mercedes Pinto, e com o músico guineense Patche Di Rima, que nos ajudam a perceber o que é o projecto Marimba, fazendo duras críticas aos políticos guineenses e começando por nos explicar o que é a Mandjuandadi da Guiné-Bissau.
O artista moçambicano Amarildo Rungo está a transformar o bairro periférico da Machava Bunhiça, no município da Matola, num pequeno museu a céu aberto com murais de intervenção social. Algumas fachadas de casas já serviram de tela para representar os problemas que vive o país e o que sente a população mais desfavorecida relativamente aos políticos. O objectivo é despertar consciências através da arte.
Em Moçambique, contam-se votos e esperam-se resultados em 15 dias. Os apuramentos parciais nas mesas de voto, ao longo da noite, começam a desenhar tendências e dois nomes sobressaem: Venâncio Mondlane, candidato apoiado pelo Podemos, e Daniel Chapo, candidato presidencial da Frelimo, partido no poder. Estes são “dois candidatos que vieram alterar a leitura que se tinha da política moçambicana”, explica o cientista político Justino Quina que aponta, ainda, uma possível “reconfiguração do Parlamento”.
RFI: Como é que correu o dia eleitoral?
Justino Quina, cientista político: Foi um dia tranquilo, quando se compara com processos eleitorais anteriores. Nós temos tido eleições muito turbulentas, com muita agitação, mas comparativamente com a eleição que ocorreu ontem, nós tivemos um ambiente tranquilo praticamente em todas regiões do país. Não tivemos registo de tumultos, registos de arbitrariedades… Por exemplo, em eleições anteriores, nós tivemos detenções. Tivemos, por exemplo, eleitores que abrigavam-se nas urnas. Significa que há uma consciência pela parte dos próprios eleitores, de que nada adianta que nós continuemos a ter processos turbulentos. Parece-me também que o próprio processo de educação cívica serviu muito para que esses eleitores compreendessem que é preciso uma mudança de abordagem. Houve alguns incidentes, algumas irregularidades, mas todas elas, no seu conjunto, não podem invalidar ou não podem colocar em causa, de forma geral, aquele ambiente saudável e tranquilo que se verificou ontem.
Já se começa a desenhar alguma tendência a partir do apuramento parcial nas mesas de voto desta noite?
Há já uma tendência, embora sejam dados parciais. Os dados que nos estão a dar a conhecer pelos órgãos oficiais mostram uma clara vantagem do candidato do partido Frelimo, Daniel Francisco Chapo, que está em frente neste processo de votação.
Taco a taco com Venâncio Mondlane…
Sim, seguido pelo candidato independente Venâncio Mondlane, que tem o suporte do partido Podemos.Nas legislativas acontece um cenário semelhante: o partido Frelimo também está em vantagem, mas também está a ser seguido pelo partido Podemos.
Esta tendência é em todo o território ou mais nos centros urbanos?
Primeiro, os dados revelavam que eram nos centros urbanos, mas, até esta manhã, mostra que, mesmo assim, nas zonas rurais a tendência lá permanece. Note que, por exemplo, em círculos eleitorais em que tradicionalmente o partido Frelimo tem disputado a eleição com o maior partido da oposição, que é a Renamo, temos o Podemos agora que está praticamente nesses locais a disputar com o partido Frelimo e a roubar votos à Renamo.
E depois há outra leitura - embora sejam dados preliminares - que se pode avançar. É que, provavelmente, da maneira como os dados estão a ser avançados, pode-se avançar uma hipótese de o candidato independente Venâncio Mondlane estar a roubar votos da oposição e não necessariamente os votos do partido Frelimo porque, se fosse o contrário, teríamos o próprio candidato independente à frente quando se compara com o candidato do partido Frelimo. Mas o que se nota é que o candidato da Frelimo é que está em vantagem e é seguido pelo candidato independente Venâncio Mondlane de forma rápida. O que se pode avançar é que provavelmente os eleitores que estão a ser captados pelo Venâncio Mondlane, mas também pelo partido que o suporta, podem estar a ser roubados dos partidos tradicionais da oposição, nomeadamente a Renamo e o MDM.
Não será antes uma forma de os eleitores concentrarem os votos num candidato da oposição para ter mais peso frente à Frelimo?
Naturalmente, não se pode negar essa hipótese ou essa probabilidade. Os dados que estão a ser avançados neste momento dão esta certa indicação. Se nós formos a olhar para o nosso contexto político, ele foi maioritariamente marcado por um poder, por uma dominação de partidos beligerantes, como é o caso dos partidos Frelimo e Renamo. E se nós formos a ver o que está a acontecer nesta eleição - embora, repito, sejam dados preliminares - demonstra uma erosão do partido Renamo, uma erosão que nunca tivemos ao longo do tempo. Sempre tivemos como resultados eleitorais a Frelimo em frente, seguida pelo partido Renamo, mas os resultados que estão a mostrar neste momento, ainda preliminares, mostram que o partido Frelimo está em disputa com o Podemos.
Taco a taco…
Taco a taco sim.
Isso significa o quê? Que poderia haver uma segunda volta nas presidenciais?
Não necessariamente. Os dados são preliminares, mas tenho dúvidas que se possa aventar a possibilidade de segunda volta, olhando para a própria dimensão do país. O que sucede é que o partido Frelimo tem um eleitorado que não é muito saliente sob o ponto de vista de processos de escolhas. Quando se compara com os outros partidos da oposição já há essa saliência.
Vou-lhe dar alguns exemplos práticos. Nós já tivemos momentos em que, por exemplo, o partido Renamo, quando não participou da eleição, os eleitores do partido Renamo, tendencialmente foram dar o voto ao MDM, que é outro partido da oposição. Então, a saliência nos partidos moçambicanos, sobretudo os tradicionais, tende a acontecer mais nos partidos da oposição, comparativamente com o partido no poder. Por isso é que eu posso ter algum receio em avançar rapidamente uma possibilidade de uma segunda volta. Mas os dados são preliminares. A maneira como os dados estão a ser lançados, mostra que, de facto, o candidato independente Venâncio Mondlane está a avançar, está a ter muita votação, mas precisamos também de ter elementos precisos quando formos escrutinar os resultados que aparecem nas zonas rurais.
Note que o candidato Venâncio Mondlane é um candidato mediático, é um candidato que teve uma grande repercussão por causa da sua própria aparição nas redes sociais. E nós estamos num país em que a componente digital ainda não está muito enquadrada em todo o território nacional. Quando ele já faz a sua digressão na campanha eleitoral é quando se fez mais conhecer. Provavelmente esses resultados que aparecem de zonas rurais a votarem no Venâncio Mondlane não significa necessariamente o efeito das redes sociais, mas podem significar o facto de ele ter feito esta digressão pelo país, se fazer conhecer e apresentar propostas concretas para a governação.
O partido Frelimo é um partido enraizado no território nacional, é um partido que tem a sua representatividade em todo o território nacional. Quando os resultados beneficiam o partido Frelimo nessas zonas, não é uma novidade para quem conhece o processo moçambicano porque é um partido que está lá em todo o território nacional.
Qual o cenário mais plausível em termos das eleições presidenciais e também das legislativas?
Neste momento, se os dados não tiverem alguma alteração, o que se pode esperar para o Parlamento é um partido Frelimo com mais mandatos, mas nós já teremos uma reconfiguração do próprio Parlamento. Provavelmente nós podemos ter um Podemos - um “outsider” no nosso cenário político moçambicano - no Parlamento e podemos também aqui ter a possibilidade de erosão dos mandatos de partidos como Renamo e como o MDM.
No caso do MDM, até tenho dúvidas que possa ter representatividade alargada. Note que o MDM está com seis assentos no Parlamento. Tenho receios se esses seis mandatos conseguem ser mantidos. A Renamo hoje está com 80 assentos, também tenho receios que possa passar dos 50.
Quer dizer, são cenários que estamos a projectar em função dos resultados preliminares que nós estamos a ter. Significa que nós vamos ter uma reconfiguração pela primeira vez do Parlamento, em que nós temos aquilo que aconteceu em 1994, em que nós tivemos a União Democrática que era um partido sem muita expressão em que também pela primeira vez se fez representar com 9 mandatos. Podemos ter agora o “Podemos” –passo a redundância - com mais representatividade no Parlamento, comparativamente com partidos tradicionais da oposição.
Concretamente, como seria essa reconfiguração?
Nós podemos aqui projetar uma provável dificuldade da Renamo de se manter como a maior força política da oposição se, nos próximos tempos, não fizer um estudo profundo sobre a exigência do eleitorado. Parece-me que que depois destas eleições, a Renamo e outros partidos da oposição, como o MDM, devem fazer uma reflexão profunda, compreender que os cenários estão a mudar porque, caso contrário, poderão ter dificuldade nos próximos tempos, em se manter como grandes partidos.
E o cenário para as eleições presidenciais?
Em termos das presidenciais, nós vamos ter uma luta ferrenha até terminar o processo. Nós não temos uma realidade em que aquele que ganha tenha que, por exemplo, coabitar com outro que está em segundo lugar no nosso contexto. O nosso contexto é que aquele que tem mais votos, 50% mais um, é aquele que vai ser eleito. Tenho dúvidas e receios, mas são receios mesmo que Venâncio Mondlane possa levar Daniel Chapo à segunda volta - olhando para os resultados que nós estamos a ter neste momento.
Porque fala em receios? Venâncio Mondlane falou em fraude ontem, falou em vários ilícitos e disse que se juntaria à população se a população se revoltasse, como outros candidatos o fizeram. O que teme exactamente?
Não, quando eu digo receio, não é nesse sentido. Vou-lhe dar dados práticos que estão a acontecer agora nesta eleição. Note que, em eleições anteriores, nós tivemos uma situação em que o povo do partido Frelimo teve dificuldades nas eleições autárquicas na cidade de Maputo, mas para esta eleição o partido Frelimo praticamente altera o cenário, provavelmente por causa da própria união que se criou dentro do próprio partido Frelimo em torno do candidato. Isto pode ter beneficiado o próprio candidato a ter os resultados que tem. Mas também a origem do próprio candidato, a maneira como foi eleito, a sua humildade, a maneira como se expressou, a maneira como ele fez a sua campanha, a maneira como ele vendeu a imagem, isso pode ter beneficiado com que a maior franja da sociedade, incluindo os jovens, possam também ter dado o seu voto.
Temos dois candidatos, Daniel Francisco Chapo e Venâncio Mondlane, que praticamente ganharam a simpatia dos eleitores. Esta realidade é que pode fazer com que, por conta do apoio que o Chapo tem da sua máquina partidária, que é o partido Frelimo, o possa o levar à Presidência da República.
Mas também podemos aqui ter uma situação em que Venâncio Mondlane não fique atrás, mas é-me difícil assegurar que ele possa levar esta eleição à segunda volta porque o nosso território é muito vasto. Venâncio Mondlane para poder ganhar esta eleição precisaria ainda de mais tempo, o que não teve. É um candidato que não pode ser menosprezado, que deve ser visto, no futuro, como alguém que pode dar muito à política. Quando digo dar muito à política é no sentido de que ele já mostrou, de forma categórica, que há simpatia nele pela parte dos eleitores, mas o mesmo também se está a verificar pela parte do candidato do partido Frelimo. Eles deram muito mais de si quando se compara com os partidos que o apoiam. São dois candidatos que vieram alterar a leitura que se tinha antes da nossa política moçambicana.
Em termos do calendário eleitoral. Agora, como é que vai ser e quando é que temos resultados?
Há etapas que devem ser seguidas. Agora, segue o apuramento intermédio. Depois, ele passa para o nível provincial, depois eleva para o nível central. São quase 15 dias em que decorre todo este processo e depois são divulgados os resultados.
Os eleitores moçambicanos votam, esta quarta-feira, nas eleições gerais. Muitos madrugaram, outros sonharam com o voto, uns votam pela primeira vez e alguns agradecem ainda poderem votar. “Eu não quis perder isto por nada! Faça sol ou faça chuva! Com ou sem bebé às costas”, resumiu uma jovem mamã.
Ainda as mesas de voto não tinham aberto e já se faziam filas na Escola Secundária Josina Machel. Os eleitores fizeram questão de madrugar para ir exercer o seu direito de voto. Foi o caso de Vasco, de 57 anos, o primeiro a chegar às 4h30 da manhã, ainda a escola estava fechada. Duas horas e meia depois, Vasco leu um bom pedaço do livro que tem nas mãos.
Eu fui o primeiro a chegar. Cheguei às quatro e meia, ainda não estava ninguém, estava tudo fechado, depois apareceu a polícia e apareci eu! Estou aqui a ler para ver se o tempo passa rápido. Estas eleições representam uma viragem, estamos a sair de um determinado ciclo de governação para um novo. Teremos um novo Presidente, seja ele qual for, teremos uma assembleia totalmente diferente e nova. É uma viragem completamente grande.
Na linha da frente de uma das filas, está Jean Claude, de 22 anos, que vai votar pela primeira vez em eleições gerais, num país onde cerca de 80% da população tem menos de 35 anos.
Esta é a primeira vez que voto em eleições gerais. O voto é importante porque ajudará na definição dos próximos cinco anos de governação do nosso país. Espero que o candidato que for eleito seja um candidato que apoie os jovens, dê mais oportunidades e que os próximos cinco anos sejam anos que possam ajudar a defender uma geração inteira para que possamos desenvolver Moçambique.
A afluência à Escola Secundária Josina Machel foi-se acentuando durante a manhã, mas mais vale esperar sentada e foi o que fez Josina Nachaqui, 60 anos. Chegou às cinco da manhã e não pregou olho durante a noite porque só pensava em ir votar.
Quando dormia só sonhava em vir aqui votar ! Eu estou feliz hoje! Estou feliz por votar!
Com tantos eleitores, havia alguma descoordenação para se saber onde votar. De bebé de nove meses nas costas e uma menina de dois anos a passear por entre as dezenas de pessoas, Andreia Cossa, 34 anos, procurava a sua mesa de voto com um ar meio perdido, mas estava mais motivada que nunca. Nem a chuva, que acompanhou a abertura das urnas, fez Andreia esperar para ir votar.
Não quis perder esta oportunidade. Acho que é importante também para mostrar à nossa geração que a decisão do nosso país está nas nossas mãos. Então não quis perder isto por nada! Faça sol, faça chuva, com bebé nas costas ou não, estou aqui!
Também feliz estava a antiga primeira-dama, Graça Machel, que foi esposa do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel, e que votou na Escola Secundária da Polana.
É um sentimento de dever cumprido. Faz parte da nossa escolha. Daquilo que nós queremos que seja o futuro, em particular dos nossos filhos, dos nossos netos e bisnetos. Por isso, eu estou feliz de ter vivido o suficiente para, mais uma vez, exercer este direito.
Para acompanhar estas eleições há 11.516 observadores nacionais e 412 observadores internacionais, incluindo Missões de Observação Eleitoral da União Europeia, da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, da União Africana e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, entre outras organizações.
Há, também organizações da sociedade civil, como o Conselho Nacional da Juventude que tem 500 observadores mobilizados em todo o país neste dia eleitoral. Um deles é Alexandre Mano, que encontrámos na Escola Secundária da Polana e falou em “afluência massiva às urnas”, maior do que nas eleições precedentes.
Também a observar na Escola Secundária da Polana está Sheila Massuque, da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, que nos descreveu uma abertura das urnas "ordeira" .
Há mais de 184.500 membros de mesas de voto, distribuídos pelos 154 distritos do país e fora do país. Em Moçambique, no dia da votação, vão funcionar 8.737 locais de voto e no estrangeiro 334, correspondendo a 25.725 mesas de assembleia de voto em território nacional e 602 assembleias no exterior, cada uma com sete elementos.
Mais de 17 milhões de eleitores são chamados às urnas, incluindo acima de 300 mil recenseados no estrangeiro para escolher o Presidente da República, as assembleias provinciais e respectivos governadores, bem como 250 deputados da Assembleia da República. Na corrida à presidência, estão quatro candidatos: Daniel Chapo, apoiado pela Frelimo, no poder; Ossufo Momade, apoiado pela Renamo, principal partido de oposição; Lutero Simango, apoiado pelo MDM, terceira força parlamentar; e Venâncio Mondlane, apoiado pelo Podemos, sem representação parlamentar.
Como corre o trabalho dos jornalistas em Moçambique em períodos eleitorais? Ernesto Nhanale, director-executivo do MISA Moçambique, contou à RFI que desde as eleições autárquicas de 2023 se nota “uma certa tendência de pressão e, às vezes, de restrições de espaços para o trabalho dos jornalistas”. Ernesto Nanhale sublinha que “em nenhum momento os jornalistas se devem sentir com medo de fazer o seu trabalho”. Oiça a conversa neste programa.
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