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Muito frequente é a presença de antigos e esquecidos amores: mães, esposas, filhos, ou amigos muito chegados ao coração. Se fosse realizada uma pesquisa estatística sobre tais manifestações, estou certo de que as mães ocupariam o primeiro lugar, destacadamente. A pureza do amor materno permanece inalterável, ao longo dos séculos e das vicissitudes, arrosta as ingratidões, suporta as humilhações, vence o ódio, vence tudo. Lembramse das cenas finais de LIBERTAÇÃO? É a mãe que vai buscar o filho amado, nas profundezas de seus tenebrosos domínios. Ela alcançara, já há muito, as regiões da felicidade; mas, e a dor de ter o seu amado preso ainda às paixões do mundo? Vai ao seu encontro, numa descida sacrificial às difíceis regiões em que ele vive e sobre as quais reina, incontestado.
Vários recursos são empregados, pelos mentores espirituais dos grupos de desobsessão, para obter dos companheiros desarvorados o mergulho necessário nas lembranças recalcadas. Um dos mais comuns é o da projeção dos chamados “quadros fluídicos”. O Espírito vê, diante de si, incoercivelmente, cenas vivas de seu passado, especialmente aquelas que constituem o núcleo de sua problemática, que precisa ser dispersado, para desatar os laços que o prendem às suas angústias e ao seu alheamento. É evidente que as cenas não são criadas com a substância evanescente da fantasia; a matéria prima, indispensável a essas montagens, encontra-se nos arquivos perispirituais do ser ali presente. Os técnicos desencarnados limitam-se a manipular, com respeito e dignidade, os recursos necessários para desencadear o processo terapêutico, como o médico que ministra um remédio amargo, justificado pela expectativa da cura de seu doente.
Somos o nosso próprio passado. Dormem soterradas nos tenebrosos porões do inconsciente as razões das nossas angústias de hoje, tanto quanto estão em nós as conquistas positivas, que lutam por consolidar-se na complexidade da nossa psicologia, tentando suplantar os apelos negativos que insistem em infelicitar-nos. Estamos a caminho da redenção quando damos apoio consciente às tendências do bem em nós, quando estimulamos, com as nossas lágrimas, e cultivamos, com amor e sofrimento, as sementeiras da paz.
Precisamos estar sempre protegidos pela prece e pelas boas intenções, sempre que nos levantamos para dar passes num irmão desencarnado incorporado.
Mas, para que dar passes?
A técnica do passe magnético, nas sessões de desobsessão, merece algumas observações específicas. Tão difundida está hoje, pelo menos no Brasil, a ideia do passe, que até os dicionários comuns contêm definições aceitáveis dele, como, por exemplo, o de Caldas Aulete e o da Academia Brasileira de Letras, organizado pelo Professor Antenor Nascentes, que dizem basicamente a mesma coisa:
A fé e o amor são os dois grandes instrumentos de trabalho do doutrinador.
Ainda voltaremos a falar sobre o amor, esse tema inesgotável, fonte de belezas eternas, de reservas inexauríveis de energia criadora, de harmonias insuspeitadas, sempre a nos surpreender
com o seu infinito potencial. A fé e o amor causam impactos espantosos em nossos irmãos infelizes. Quantas vezes tenho ouvido depoimentos, de comovedora sinceridade, de Espíritos aturdidos ante a evidência desses sentimentos:
— Que fé absurda tem você! — disse-me um deles. Ele não queria dizer que a minha fé era falsa, extravagante, ilógica ou irracional; ele se surpreendia em achá-la tão legítima, tão viva, tão firme. E acrescentou, estupefato:
— O mundo pode desabar em cima de você, que você não se importa. (...)
Sem dúvida alguma, a tônica do nosso diálogo com os irmãos desnorteados é a paciência, apoiada na compreensão e na tolerância. Nada de precipitações e ansiedades. Bastam as ansiedades do irmão que nos visita e, se pretendemos minorá-las, temos que contrapor, às suas aflições, a nossa tranquilidade. Se o companheiro é agressivo e violento, o esforço deve ser redobrado, da nossa parte, em não nos deixarmos envolver pela sua “faixa”. A voz precisa continuar calma, em tom afável, sem precisar ser melosa; mas é imprescindível que seja sustentada pela mais absoluta sinceridade e por um legitimo sentimento de amor fraterno, sem pieguice.
Mas o diálogo prossegue. Suponhamos já ter sido possível identificar o núcleo principal do problema. Já descobrimos as razões fundamentais do seu drama. Não obstante, muito falta ainda para dissolver e dispersar aquele núcleo doloroso.
Mesmo com tudo isso presente à sua consciência, ele ainda insiste em racionalizar a seu jeito, o quadro que se lhe apresenta. Continua a submetê-lo ao seu próprio juízo e a invocar o seu direito à cobrança.
Fora desses casos, que insistimos em qualificar de excepcionais, deve prevalecer a regra geral do silêncio e da sustentação psicológica aos médiuns e ao doutrinador. Outra norma subsidiária: os circunstantes, como componentes encarnados do grupo, vigiem bem seus pensamentos. Mantenham-se atentos ao diálogo, mas não se envolvam nele, nem mesmo por palavras inarticuladas, ou seja, apenas pensadas.
Pouco a pouco, o diálogo vai se desenvolvendo, a partir de uma espécie de monólogo, pois, no princípio, como vimos, é necessário deixar o Espírito falar, para que informe sobre si mesmo, o que acaba acontecendo. Muitos o fazem logo de início, dizendo prontamente a que vieram e o que pretendem. Mesmo a estes, porém, é preciso deixar falar, a fim de nos aproximarmos do âmago de seus problemas. Outros são bem mais artificiosos. Usam da ironia, fogem às perguntas, respondendo-nos com outras perguntas ou com sutis evasivas, que nada dizem. É comum tentarem envolver o grupo todo na conversa. Várias artimanhas são empregadas para esse fim. Dirigem perguntas aos demais circunstantes; dizem gracejos, para provocar o riso; tentam captar a atenção por meio de gestos e toques, nos braços ou nas mãos dos que lhes ficam mais próximos; ensaiam a indução hipnótica ou o passe magnético. Muita atenção com estes artifícios. Eles trazem em si uma sutileza perigosa e envolvente, pois constituem uma técnica de penetrar o psiquismo alheio.
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