Se você que está ouvindo nossa coluna de hoje, tem a garantia de que fará alimentação regular diariamente, sinta-se privilegiado, pois você faz parte de um grupo 4 a cada 10 brasileiros e 6 a cada 10 dos rondonienses que estão em situação de segurança alimentar.
Se você que nos ouve, precisa ou precisou abrir mão da qualidade de alimentos para não comprometer a quantidade consumida, se sofre com a falta de alimentos, mas não passa fome, integra o grupo de famílias que estão em situação de insegurança alimentar leve a moderada. Agora se você não tem garantias de que irá se alimentar diariamente, está em situação de insegurança alimentar grave, junto a outros 14 milhões de brasileiros que vivem o drama de não ter o que comer.
O número de pessoas em situação de insegurança alimentar grave vem crescendo no país, a pandemia tem agravado ainda mais o número de pessoas com fome. O percentual atual já é similar ao de 2004, quando era de 8%, mas que havia sido reduzido para 3,6% em 2013, quando chegamos ao menor índice.
Apesar da região norte registrar os maiores índices de pessoas com insegurança alimentar grave (10%), Rondônia se destaca com o maior percentual de pessoas em situação de segurança alimentar. 60%. Um dos melhores índices do país. Fato que não impediu que entre 2016 e 2020 em média 34 pessoas morressem por ano, desnutridas.
Quando se fala em fome, devemos considerar outra questão importantíssima, a soberania alimentar... Essa soberania, está relacionado ao direito de todos ao acesso a alimentos saudáveis. Basicamente é a garantia à alimentação para toda a população, principalmente com base na pequena e média produção agrícola, a qual emprega mais de 10 milhões de pessoas no Brasil. A soberania alimentar valoriza a produção e o mercado locais, a autossuficiência, a sustentabilidade e a autonomia das comunidades. Logo, soberania e segurança alimentar andam de mãos dadas, geram emprego, renda, qualidade de vida e obviamente, matam a fome de quem precisa.
Quando se fala em fome, nos referimos também a capacidade que uma nação tem de compartilhar minimamente sua riqueza, ainda mais quando moramos em uma país que tanto produz e gera riquezas a partir da produção de alimentos. Se se acumulam recordes sobre recordes de produção de soja, milho e outros grãos, por que a fome cresce na mesma proporção? Chega a ser absurdo, com tanta riqueza gerada dizer que 14 milhões de pessoas não tem garantia de que vão se alimentar hoje.
A pergunta clássica que sempre perguntam: e o que pode ser feito?
Antes de qualquer atitude, é importante que governos e sociedade reconheçam a fome como uma questão coletiva e real. É fundamental compreender que a extrema pobreza é o ponto de partida dos elementos causadores da fome. E seu enfrentamento deve se dar em frentes simultâneas.
Uma delas, é a priorização de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional e àquelas que propiciem renda para os mais pobres.
A outra é de inserir nessas políticas e compreender que para ter soberania alimentar e o alimento chegar a quem mais precisa, inicialmente ele precisa ser produzido. E que parte significativa dessa soberania, provém da agricultura familiar, que produz 81,2% das hortaliças e frutas do país, 70% da produção de mandioca, além de ser responsável por mais da metade da criação de aves, suínos e caprinos, 30% do rebanho bovino e 60% da produção de leite.
Especialmente em Rondônia, um dos estados com maior índice de pessoas com segurança alimentar. Mais de 85% do feijão, mandioca, café, banana e leite provém das quase 100 mil propriedades da agricultura familiar, além de frutas e hortaliças, importantes alimentos para qualidade nutricional no dia a dia de cada um de nós.