a casa já está pronta, amor, já mudei os móveis de lugar, pintei as paredes da tua cor favorita. já coloquei a chaleira para esquentar, te passo um café.
com ou sem açúcar?
adoçante, talvez?
queria também saber começar esta mensagem que quase tenho certeza de que irei desistir de lhe dizer o que tenho guardado em minha garganta. é um choro que engulo todos os dias enquanto que, sem perceber, sirvo duas xícaras para o café, mesmo sabendo que tu não está aqui. e eu ainda espero a tua figura bonita aparecer no batente da porta, com um sorriso de sono, esfregando os olhos e o cabelo, um perfeito ninho.
queria lhe dizer que te amava aqui, ali e acolá. te amava quando caminhava todo devagarinho até mim e me abraçava por trás, beijando meus ombros. te amava quando tu dizia coisas bonitas demais às 07:39 horas da manhã. te amava enquanto eu ria pelas cosquinhas que tu causava em mim, além também de despertar borboletas por todo o meu corpo - são tantas que não cabem no estômago.
ainda te amo inteiramente, querido. ainda te vejo pelos cômodos de casa, ainda sinto teu cheiro em meu travesseiro. eu ainda não tive coragem de encarar tuas caixas prontas para ir embora, e eu tive de segurar forte a imensa vontade de chorar.
meu coração bate na mesma frequência que o teu?
o teu pede para ir ou para ficar?
tento secar as lágrimas, mas é em vão, me inundo outra vez. talvez fossemos destinados a isso. destinados ao fim, como o filme que passa na minha televisão e quase me desespero pela lembrança, pois tu costumava adorar ler o créditos finais.
era lindo imaginar passar os anos de minha vida ao teu lado, mas tu, de repente, desviou o caminho, e eu juro que tentei te encontrar, mas errei a rota, dei meia volta, volta e meia, saí do lugar. então, de repente, parei. nenhum caminho me levaria até ti, por outro lado, deixei sinais de que eu estive pelo caminho caso tu resolvesse voltar para casa.
tu volta?
desculpa se não fui capaz de lhe fazer ficar, e, hoje, sinto que o melhor fosse deixar-te ir. porque eu te amo. e se for para te deixar ser feliz, eu entenderei perfeitamente. por outro lado, ainda dói grande parte de mim ter te perdido de vista.
tu sempre foi de voar alto, amor, e eu nunca consegui nem mesmo tirar meus pés do chão. e, talvez, o maior ato de amor, para mim, foi te ver levantando voo. foi esperar que encontrasse um lar que lhe fosse mais confortável de morar, ao contrário de mim, onde uma bagunça me preenchia por cada canto.
ainda te amo um tanto e um tanto mais, mas isto não o impediu de partir. indaguei se eu poderia lhe acompanhar, mas tu já estava longe demais, distante, irreconhecível. minha visão embaçou como nunca antes. te chamei por horas, todavia, tu continuou indo sem se despedir.
tu me deixou com o coração partido, um aperto no peito, mil pensamentos que te traziam de volta para mim. mil pensamentos que me levavam a lembrar das vezes em que a gente bebia vinho no chão da sala, e logo depois minha cabeça estava deitada em suas pernas, suas mãos acariciando meus pequenos fios de cabelo.
tu tinha aquele olhar brilhante, e antes eu não sabia se eram daquela forma por que tu me amava ou por que pretendia ir embora.
a casa por aqui continua uma bagunça, não olho para as fotos que guardei de nós. não mais. a verdade é que eu continuo uma bagunça e vazia ao mesmo tempo, e não há motivo que me faça rir de verdade sem ser tu acariciando minhas mãos enquanto andávamos pela madrugada rindo de nós mesmos. e eu queria que durasse eternamente; nós dois.
mas a prova mais bonita de amor que eu aprendi depois que eu não o tinha mais, é que devemos deixar o outro que amamos partir.
e esperei que, por alguma obra do destino, meu coração já estivesse todo inteiro novamente depois de eu juntar pedacinho por pedacinho. a verdade é que demorou mais do que eu imaginava.
hoje, eu anseio em ver teu rosto pelo menos mais uma vez antes que tudo acabe de vez.
mas saiba que eu ainda continuo admirando até hoje o teu voo.