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O filme "Idiocracia: Terra dos Idiotas" apresenta uma crítica ácida à sociedade de consumo movida pela propagando, mostrando um momento futuro em que a Terra é dominada por idiotas e estúpidos de todos os matizes, que detestam a cultura, a ciência, a pesquisa e o meio ambiente. O filme é de 2005, mas soa premonitório.
Pois bem, na semana passada o Brasil viveu dias de “Idiocracia” pura. No dia 30/06, o presidente na sua “live” semanal mostrou grande orgulho do número de clubes de tiro ter aumentado na sua gestão. No entanto, avisou em tom de ameaça que, se a oposição ganhar as eleições, pode transformar alguns desses clubes de tiro em ... bibliotecas. Seria cômico, se a situação não refletisse um estado de espírito e estupidez, em que parte da sociedade brasileira vê os livros como ameaças às armas, o que de fato são. Só nos resta torcer para que o temor do presidente se realize.
Mas para não deixar dúvidas sobre o estado de “Idiocracia” vigente, já no dia seguinte um deputado bolsonarista, cujo único mérito foi quebrar placas de rua em homenagem a Marielle Franco e ofender juízes do Supremo Tribunal Federal, foi agraciado com a Medalha da Ordem do Livro pela Biblioteca Nacional. Para confirmar a estupidez do ato, o agraciado confessou que não sabia por que havia sido merecedor da dita medalha.
Não se tratam de miudezas ou fatos isolados, mas de um estado de espírito que atenta de forma violenta contra a cultura, a ciência, a pesquisa e o meio ambiente todos os dias no Brasil. Esses mesmos idiocratas reduzem verbas para instituições de ensino e pesquisa todos os dias, a ponto de várias instituições informarem que terão que paralisar suas atividades e de já não ligarmos para essas notícias, como se fossem notícias velhas.
Nesse cenário, nos enchem de alegria e esperança o retorno e o sucesso da Bienal Internacional do Livro, de 02 a 10 de julho em São Paulo. Participe, visite a Bienal, compre livros e leia. Mas prepare-se para ser denunciado e fichado como ameaça à pátria idiocrata.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Idiocracy
https://www.brasil247.com/brasil/bolsonaro-diz-que-lula-quer-acabar-com-clubes-de-tiro-vai-virar-biblioteca
https://www.cartacapital.com.br/politica/daniel-silveira-sobre-a-razao-de-receber-medalha-da-biblioteca-nacional-nao-sei/
https://www.bienaldolivrosp.com.br/
https://educacao.uol.com.br/noticias/2022/06/09/mec-corta-verba-institutos-universidades-federais.htm
https://www.sinditest.org.br/reitor-da-utfpr-se-pronuncia-sobre-cortes-e-impactos-na-assistencia-estudantil/
É muito comum ouvir expressões como "A Ciência também erra", repetidas à exaustão em particular nesse momento em que se promove o negacionismo e o obscurantismo. Frases como essa têm o objetivo de desmerecer o processo científico de construção do pensamento, em favor de outras formas, como o pensamento religioso ou o achismo puro e simples. Mas essas frases podem estar mais equivocadas do que parecem, porque não existe essa senhora chamada "Ciência", que derrama verdades sobre o mundo.
Poucas pessoas parecem perceber que a Ciência é o resultado de um processo dinâmico de debates em torno de ideias e que, nesse sentido, não erra, mas se aprimora. Quando o debate científico se estabelece, normalmente ideias antagônicas ou distintas são colocadas sobre a mesa, e são os fatos e evidências gerados durante o debate que fazem a discussão pender para um lado ou para o outro. Esse processo é chamado de discriminação de modelos, sendo que os modelos sugerem os experimentos que devem ser feitos para confirmá-los ou negá-los, em um processo chamado de planejamento experimental.
Assim, a Ciência não erra, embora os cientistas possam escolher o lado que o processo revele como equivocado ao longo do tempo. A ideia de uma Ciência errada é a contradição de admitir que um debate se encerrou e que as pessoas escolheram as interpretações incapazes de explicar o funcionamento do mundo, o que não faz qualquer sentido. Durante o processo, algumas ideias se cristalizam (como a ideia de que a Terra é redonda e que não está aberta para discussões), enquanto outras estão abertas para aprimoramento (como as ferramentas precisas para avaliar o impacto ambiental de produtos e processos) e que um dia cristalizarão. Nesse processo, é preciso ter inclusive respeito pelos modelos que se mostram equivocados, pois em geral permitem o planejamento dos experimentos que mostram que estão equivocados, em favor de um outro conjunto de ideias mais competentes para explicar o mundo.
É por isso que a Ciência não erra e que o cientista pode mudar de opinião, à medida que fatos novos e novas evidências são gerados. O que não é possível é negar ou modificar os fatos em favor de um conjunto particular de ideias. Isso não é erro, mas fanatismo e má fé.
https://www.youtube.com/watch?v=YbG2FFpV9Ow
https://www.youtube.com/watch?v=OjpWqTt0G0E
Uma das deformações mais absurdas do produtivismo nos cursos de graduação é o incentivo à cultura de gestão do CR. O CR, ou coeficiente de rendimento, é uma espécie de média do desempenho de um estudante ao longo das disciplinas de graduação. Foi discutido aqui em vídeo anterior do canal como é equivocada a avaliação do interesse pelo estudo com base no CR, sem que seja avaliada a história do estudante. Ainda mais equivocado é rotular um estudante com base no CR e vincular oportunidades profissionais e o futuro do estudante com base nesse número, como discutido a seguir.
Infelizmente, a cultura de gestão do CR tem sido estimulada pelas próprias universidades, que divulgam em suas páginas da internet algoritmos por vezes complicados sobre como o cálculo é feito. Além disso, preparam rankings com base no CR que estimulam a competição entre os estudantes e vinculam oportunidades de pós-graduação e bolsas de pesquisa a essa média.
Para vermos como o CR deforma a avaliação dos estudantes, basta olharmos alguns exemplos muito simples. Por exemplo, se um indivíduo tirou zero em uma disciplina, foi reprovado, fez a disciplina de novo e foi aprovado com dez, o CR é igual a 5. Mas o indivíduo sabe ou não o conteúdo da matéria ? Além disso, se um indivíduo tirou 7 em Química e 7 em Física (e tem, portanto, CR igual a 7) e outro indivíduo tirou 9 em Química e 5 em Física (portanto, tem o mesmo CR igual a 7), quem estaria melhor preparado para executar uma certa atividade de pesquisa ? Faz sentido desvincular o CR das habilidades específicas do estudante ? Considerando ainda o caso de um estudante que tirou 10 em Física I e 5 em Física II, uma continuidade mais complexa do curso de Física, e de outro estudante que tirou 5 em Física I e 10 em Física II, quem saberia mais Física, tendo em vista que o CR dos dois estudantes é igual a 7.5 ?
Essa cultura do CR transforma a vida acadêmica em um jogo e a prova disso é que algumas universidades permitem que o estudante tranque a disciplina depois das notas da primeira prova, para que o estudante possa desistir do curso sem prejudicar o seu CR, ao invés de estudar mais para a segunda prova. Assim, para a universidade, alongar o período de estudo e abandonar os cursos em que os estudantes foram matriculados parece ser menos grave do que tirar uma nota baixa em uma prova.
Por todas essas razões, na minha opinião a cultura do CR deveria ser abolida e até mesmo proibida em editais públicos, pois o que importa são as habilidades que o indivíduo apresenta no momento em que a oportunidade se apresenta, e não a avaliação média de desempenho em um período passado que pode até mesmo esconder turbulências que o estudante tenha enfrentado na sua vida pessoal. Mas a questão é tão grave, que essa discussão tem ido parar na justiça com frequência, por conta da divulgação de CRs equivocados e falta de transparência na divulgação de CRs por instituições de ensino. Apesar disso, vários estudos têm mostrado que não parece haver correlação entre sucesso profissional e CR, que não mede a habilidade do indivíduo para executar uma função, mas reflete uma trajetória do estudante em algum momento passado de sua vida acadêmica.
Enfim, deveríamos trabalhar para eliminar essa cultura do CR e os estudantes deveriam se ocupar mais de estudar e aprender, ao invés de gerir o CR.
https://youtu.be/SDwn56TH0gw
https://www.reclameaqui.com.br/unopar-universidade-norte-do-parana/coeficiente-de-rendimento-caiu-do-nada_1Jxgh3rKjuX6Nl-e/
https://www.redalyc.org/journal/3193/319356599001/html/
http://revista.educacao.ws/revista/index.php/abenge/article/view/96
https://www.justicaemfoco.com.br/desc-noticia.php?id=141418&nome=justica_federal_determina_ufba_realize_calculo_do_coeficiente_de_rendimento_conforme_resolucao
[Para a lista completa de referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube https://youtu.be/RG4KvdofQjw]
Como discutido em vídeo anterior do canal, o ato da defesa é também um rito de passagem, cheio de significados emocionais e pessoais. Por isso, é comum que pais, parentes e amigos estejam presentes e participem da defesa. Dessa forma, se você pretende convidar familiares e amigos para a defesa, deixo aqui algumas dicas relevantes.
Em primeiro lugar, é preciso informar os convidados de que a defesa é um evento técnico, não uma celebração. A banca está ali presente para avaliar e revisar o seu trabalho, não para encher você de elogios. Os membros da banca costumam iniciar suas falas dizendo que gostaram da leitura, para em seguida desfiar um rol de pequenas críticas e correções ao trabalho. Isso pode causar algum desconforto nas pessoas presentes se elas estiverem esperando um festival de elogios e precisam estar preparadas para a natureza do evento que vão testemunhar.
Em segundo lugar, como a defesa fica eventualmente monótona para alguns, isso acaba estimulando o estabelecimento de conversas paralelas. No entanto, aquele burburinho característico acaba atrapalhando a defesa e tirando a concentração do debate que se estabelece. Por isso, é importante informar os convidados sobre a importância de manter o silêncio e a relevância de permanecerem quietos na medida do possível, para que não atrapalhem a discussão.
Em terceiro lugar, o enfado com o debate estimula os convidados a levantarem com frequência para beberem água, pegarem café, irem ao banheiro, gerando um entre-e-sai do recinto onde ocorre a defesa que atrapalha o debate e tira a concentração. Se os convidados estiverem enfadados, é melhor que deixem o recinto e retornem apenas ao final da defesa, para inclusive preservarem o espírito técnico do pós-graduando.
Em quarto lugar, e lembrando que a defesa não é uma celebração, nada de fotos. Alguns convidados ficam tirando fotos todo o tempo, o que é constrangedor e tira a concentração da conversa técnica. Haverá tempo para as fotos depois da defesa. Por isso mesmo, nada de fotos durante o debate, por favor.
Em quinto lugar, quando ao final se abre a palavra ao público, espera-se alguma intervenção técnica, não discursos emocionados ou relatos pessoais. A abertura do debate ao público é o sinal de respeito técnico a alguma observação que a audiência queira apresentar sobre o trabalho. Os discursos pessoais e agradecimentos podem ocorrer depois de finda a defesa, após o anúncio do resultado final. E certamente podem também ser feitos nas conversas posteriormente estabelecidas com os membros da banca e os orientadores.
Enfim, os seus convidados são muito bem-vindos e é sempre emocionante ver os pais presentes, pois isso atesta a relevância e apoio que os familiares dão ao pós-graduando e àquela conquista educacional e acadêmica que todos testemunham. Mas é preciso que os convidados sejam alertados para a natureza técnica do evento, que não é de forma alguma uma celebração. A celebração pode ficar para depois.
https://www.youtube.com/watch?v=YGeGheYOXWA
Uma das consequências mais óbvias da crise pandêmica é que o regime de trabalho em modo remoto se estabeleceu de vez. Mudanças que vinham ocorrendo lentamente, em função principalmente do desenvolvimento dos recursos de informática, se aceleraram nesse período e se estabeleceram de forma clara. Por isso, não parece ser muito efetivo nem inteligente ficar brigando contra mudanças que são de fato inevitáveis.
Na área de pesquisa, em particular, o trabalho pode se beneficiar muito do regime remoto, pois: instituições podem economizar insumos e manter infraestrutura mais enxuta e mais adequada para o trabalho; os trabalhadores podem trabalhar de forma mais confortável, adaptando as atividades a seu ritmo pessoal de vida; ganha-se tempo, evitando os longos deslocamentos nas grandes cidades brasileiras, usualmente congestionadas; e ganha-se qualidade de vida, se o indivíduo não ficar 100% do tempo grudado na tela do computador. Por isso tudo, muitas empresas estão oficializando o regime de trabalho remoto, em que o trabalhador precisa ir uma ou duas vezes por semana à sede da empresa, muitas vezes apenas para manter o espírito de corpo e o espírito do trabalho coletivo em equipe.
Na universidade, os próprios estudantes têm demandado atividades de aula em modo remoto, já que essas atividades permitem o compartilhamento mais efetivo dos insumos computacionais dos estudantes com as atividades de ensino. Diga-se de passagem, isso pode ser muito importante, pois a infraestrutura de informática da maior parte das cidades brasileiras é precária. Até por isso, muitas atividades em modo presencial apenas replicam as técnicas de comunicação usadas no modo remoto, o que não parece fazer sentido.
No entanto, muitas universidades têm obrigado que atividades acadêmicas sejam conduzidas de forma obrigatória em modo presencial Será que isso faz sentido ? Ou seria apenas uma intolerância tacanha a uma mudança inevitável ? Faz sentido obrigar um membro de banca ou palestrante se deslocar de um outro estado, enfrentando deslocamentos de muitas horas para ir e vir, para realizar uma atividade de uma ou duas horas ? Faz sentido obrigar que todas as aulas teóricas sejam dadas em modo presencial ? Faz sentido que todas as reuniões colegiadas sejam realizadas em modo presencial ?
É certo que muitas atividades demandam a presença física, como por exemplo as atividades de laboratório. Além disso, na área de inovação lembra-se sempre que as grandes ideias e parcerias começam no cafezinho, e não em uma reunião de trabalho. Mas isso não significa que essas atividades tenham que ocorrer todos os dias. Talvez as aulas experimentais possam ser concentradas em certos dias da semana (por exemplo, terças e quintas), enquanto os estudantes escolhem a melhor forma de assistirem as aulas teóricas nos outros dias.
Enfim, não me parece que seja a hora de obrigar nem vetar nada, mas de coletar dados e evidências que permitam que nós encontremos um novo ponto de equilíbrio. Afinal, o mundo mudou e não adianta simplesmente oferecer resistência a essa mudança para retomar um passado que já não existe mais.
Um dos momentos mais controversos da vida acadêmica é o momento da aposentadoria. Esse momento é controverso não por conta de aspectos legais ou trabalhistas, mas por conta da forma com que cada pessoa vê a chegada da aposentadoria em sua vida. Embora a aposentadoria seja importante na vida de qualquer pessoa, na vida acadêmica esse momento costuma chegar quando o indivíduo se encontra no ápice da vida profissional.
Numa trajetória comum, o acadêmico é contratado por volta dos 30 anos, depois da graduação, mestrado, doutorado e frequentemente um período de pós-doutoramento, quando se prepara para o ingresso formal na carreira. Assim, a opção da aposentadoria costuma chegar entre 60 e 65 anos, quando o pesquisador goza de perfeitas condições físicas e mentais para exercer o trabalho, exerce cargos de representação e uma certa liderança em sua área de atuação. Além disso, o trabalho acadêmico se beneficia muito do acúmulo de conhecimento e do aprimoramento das ideias, de maneira que nessa idade o pesquisador costuma ser muito produtivo, embora vários estudos mostrem que o período mais criativo da vida do pesquisador costume ocorrer por volta dos 30 anos, quando o pesquisador está na outra ponta e inicia a trajetória acadêmica formal.
Deve ser também dito que a aposentadoria costuma acabar também com muitas prerrogativas formais do pesquisador, como solicitar fomento, exercer cargos de representação e participar de atividades acadêmicas formais (como dar aulas). Por isso, toda essa combinação de fatores faz com que muitos adiem o momento da aposentadoria o máximo que podem, até a chegada da aposentadoria compulsória, aos 75 anos de idade. Mesmo assim, esse momento costuma chegar com algum sofrimento para muitos, em particular se não cultivam outros interesses, pois as instituições acadêmicas usualmente não preparam os docentes e pesquisadores para esse momento importante de suas vidas. Dessa forma, é comum que os acadêmicos continuem atuando profissionalmente após esse momento, como participantes de projetos de pesquisa, redação de livros e artigos científicos, dentre outras atividades.
Enfim, para alguns acadêmicos, o momento da aposentadoria nunca chega. E isso não é necessariamente bom para o indivíduo, para a família do indivíduo ou para o grupo em que trabalha, se essa ação prejudicar a necessária renovação de pessoas e ideias do grupo. Por tudo, pense nesse momento, por mais longe que pareça estar, porque a opção da aposentadoria chegará para todos e você precisa lidar de forma saudável com essa escolha.
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/revista/2019/04/29/interna_revista_correio,752190/em-que-fase-da-vida-somos-mais-criativos.shtml
https://www.uai.com.br/app/noticia/saude/2019/06/08/noticias-saude,247226/estudo-mostra-que-e-possivel-atingir-auge-criativo-depois-dos-50-anos.shtml
https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/30/picos-de-criatividade-acontecem-aos-20-e-aos-50-anos-diz-estudo.ghtml
https://propessoas.ufg.br/p/26504-aposentadoria-compulsoria#:~:text=Defini%C3%A7%C3%A3o%3A,para%20perman%C3%AAncia%20no%20servi%C3%A7o%20p%C3%BAblico.
Um dos aspectos mais pavorosos do bolsonarismo é o discurso, em particular o caráter religioso e cristão do discurso. É pavoroso porque é falso e inconsistente, apesar de aparentemente ser efetivo para uma parcela da sociedade brasileira. Nesse sentido, a semana passada (período compreendido entre 10 e 20 de junho de 2022) foi repleta de exemplos desse descalabro.
Em primeiro lugar, impossível deixar de falar nos dois profissionais, Bruno e Dom Phillips, assassinados, esquartejados e queimados por defenderem a Amazônia e os índios, sem que sequer uma única palavra empática e de apoio tenha sido dada pelo governo federal. Muito pelo contrário !!!! Os dois foram inicialmente responsabilizados por não terem autorização para desenvolverem o trabalho com os indígenas, embora tivessem a autorização e não tenham sido assassinados na reserva indígena. Os dois foram também responsabilizados por se lançarem em uma aventura, embora os dois profissionais tivessem enorme experiência no desenvolvimento dessas atividades na Amazônia. E finalmente o presidente disse que os dois eram "malvistos" no local, embora tenha se esquecido de dizer "malvisto" por quem: bandidos, pescadores e caçadores ilegais e desmatadores ilegais da Amazônia. Portanto, o presidente se colocou ao lado da bandidagem, ao invés de quem defendia a humanidade e o ambiente.
Se já não fosse suficiente, o presidente apareceu também ao lado de apoiadores dizendo que, se Cristo vivesse hoje, Cristo compraria armas. Além de ser absolutamente estúpido, o pronunciamento propõe uma deturpação grosseira do espírito cristão, que prega o amor e a tolerância ao próximo. Nessa mesma toada, pastores de uma igreja evangélica apareceram na internet para anunciar e mostrar orgulho com rifa de fuzil e escopeta, mostrando com clareza o tipo de atividade que se realiza em alguns desses ambientes no Brasil, com isenção fiscal.
Para terminar, apoiadores bolsonaristas derramaram veneno com um drone sobre o público que pretendia assistir a um comício da oposição em Minas Gerais.
Os exemplos são tantos que é impressionante que uma pessoa bem informada e esclarecida se deixe levar por um discurso tão pobre, inconsistente e violento. Supondo que não haja engodo, trata-se da pura celebração do autoritarismo, do banditismo e da violência, sob o manto falso da religião, dos costumes e do liberalismo econômico que quer controlar preços. Tudo falso como nota de três reais. E não é necessário muito esforço intelectual para perceber isso, o que torna a eventual adesão ao discurso ainda mais surpreendente.
Enfim, não há bolsonarismo cristão, até porque o bolsonarismo é perverso !!!!
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2022/06/fim-tragico-de-bruno-pereira-e-dom-phillips-e-um-exito-para-bolsonaro.shtml
https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2022/06/5016441-policia-encontra-barco-de-bruno-pereira-e-dom-phillips-no-amazonas.html
https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2022/06/15/e-fake-que-bruno-e-dom-entraram-em-reserva-sem-nenhuma-autorizacao-da-funai-e-que-jornalista-era-financiado-por-bill-gates.ghtml
https://apublica.org/2022/06/na-ultima-viagem-de-bruno-e-dom-nada-de-aventura/
https://www.brasildefato.com.br/2022/06/15/bolsonaro-ofendeu-bruno-pereira-e-dom-phillips-ao-falar-em-aventura-e-malvisto-relembre
https://www.istoedinheiro.com.br/bolsonaro-diz-que-jesus-cristo-nao-comprou-pistola-porque-nao-tinha-veja-repercussao/
https://g1.globo.com/es/espirito-santo/noticia/2022/05/27/estamos-muito-orgulhosos-disso-diz-pastor-de-igreja-evangelica-que-rifou-espingarda-calibre-12-no-es.ghtml
https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2022/06/17/interna_politica,1374102/lula-e-kalil-advogado-defendera-atingidos-por-drone-em-uberlandia.shtml
Quando brasileiros viajam ao exterior, uma das características que mais saltam aos olhos é o paternalismo exacerbado com que convivemos em muitos ambientes acadêmicos e de pesquisa no Brasil. O paternalismo se manifesta de várias formas, como discutido a seguir.
Por exemplo, esse paternalismo é observado quando o pesquisador ou estudante não se envolve com as atividades burocráticas e administrativas inerentes ao seu próprio trabalho de pesquisa, como no caso da aquisição de insumos. No Brasil, essa atividade costuma ser integralmente delegada a terceiros e os pesquisadores se chateiam quando a atividade não é executada no tempo que acham apropriado. As restrições burocráticas e administrativas costumam ser usadas como justificativas para essa postura, mas essas restrições não impedem que as necessidades sejam identificadas, que as cotações sejam providenciadas e que o processo seja montado para que alguém execute.
O paternalismo também se manifesta quando o pesquisador ou estudante não se envolve com as atividades de manutenção do espaço laboratorial, como no caso da limpeza e da manutenção de equipamentos que eventualmente deixam de funcionar. Uma vez mais, a postura típica de uma parte expressiva dos pesquisadores brasileiros delega a outros prestadores de serviço a responsabilidade por essas atividades, repetindo muitas vezes o ambiente familiar, já que muitos jovens brasileiros não se responsabilizam pela limpeza e manutenção dos espaços em que eles mesmos vivem. Esse tema é relevante porque costuma deteriorar a qualidade do ambiente de trabalho, já que a sujeira e os equipamentos quebrados são deixados como herança para o pesquisador que executará as atividades em seguida.
Esse paternalismo se manifesta também na própria atividade de pesquisa, já que muitos pesquisadores e estudantes acham que têm apenas a missão de definir que atividades deverão ser executadas por um técnico do laboratório, deixando eles mesmos de se envolverem com experimentos, atividades analíticas e atividades de campo. Obviamente, a responsabilidade pela execução dessas atividades é do pesquisador, não de um prestador de serviços.
Finalmente, é comum que a própria interpretação dos dados seja delegada a programas de computador, equipamentos eletrônicos e técnicos de laboratório, transformando o pesquisador em mero usuário desses dados. É comum ouvir em bancas e nos ambientes de laboratório que o pesquisador não sabe como a medida foi feita, mas obviamente o pesquisador deve saber, responsabilizando-se pela qualidade do dado obtido.
Enfim, o pesquisador não deve ter a expectativa de mero ordenador de atividades a serem executadas por terceiros, mas deve se envolver e participar de todas as atividades relacionadas a seu trabalho de pesquisa. Esse envolvimento dá mais confiança ao pesquisador, torna o trabalho mais ágil e eficiente e torna o ambiente de pesquisa saudável e cooperativo, passando a impressão de que todos se preocupam com todos. Por isso, participe e envolva-se com todas as atividades inerentes a sua pesquisa.
https://www.youtube.com/watch?v=OuKq6CWPOTs
A boa notícia de hoje é que a pós-graduanda Ambar Cordoba teve finalmente reconhecido o direito a obter o grau de mestre e o diploma de mestrado pela Universidade Federal de Ouro Preto. Como discutido em vídeo anterior do canal, Ambar teve o direito de obter o diploma de mestrado e o grau de mestre pela Universidade Federal de Ouro Preto por ter entregue com atraso o texto corrigido da tese de mestrado e o artigo para submissão, por conta de atribulações que enfrentou no pós-parto, apesar de ter sido aprovada na defesa da tese e de ter solicitado com antecedência o direito à licença maternidade, que havia sido negado. Assim, a Universidade Federal de Ouro Preto volta atrás e reconhece o direito legítimo da pós-graduanda grávida ao período de licença maternidade. Parabéns a Ambar e parabéns a todos que a apoiaram nessa importante causa acadêmica.
O episódio mostra que é muito importante que os estudantes participem ativamente da vida burocrática e processual das universidades e institutos de pesquisa a que estão vinculados. Contudo, embora a maior parte dos fóruns colegiados admita e reconheça a importância da representação estudantil, vários assentos de representação estudantil estão vazios em instituições de todo o Brasil.
Isso ocorre em parte porque muitos estudantes veem a representação com ceticismo, acreditando que não são ouvidos e que docentes e servidores em geral agem com espírito de corpo. Por outro lado, muitos ainda defendem a visão autoritária e retrógrada de que os estudantes não têm que falar nada e apenas estudar. Obviamente os dois lados estão equivocados, pois é certo que os estudantes têm que participar, falar e sugerir mudanças, até porque constituem o centro do processo de ensino e precisam dar feedback sobre as ações e atividades executadas. Além disso, a participação estudantil insere temas importantes nas pautas de discussão e podem sim influenciar e mudar a trajetória acadêmica, como mostra o caso icônico de Ambar.
Por isso, o estudante deve participar e ocupar os assentos de representação estudantil. Para isso, procure o seu diretório acadêmico ou o órgão local de representação dos estudantes de pós-graduação. A participação estudantil pode mudar a vida na universidade e tornar o ambiente acadêmico simultaneamente mais eficiente e acolhedor, para benefício de todos.
https://www.youtube.com/watch?v=-dU4rJa6_BE
https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2022/06/08/interna_gerais,1372128/apos-polemica-ufop-concede-titulo-de-mestrado-a-estudante.shtml
Uma das cenas memoráveis do excelente e clássico filme estrelado por Sidney Poitier, "Ao Mestre com Carinho", é exatamente a cena final. Nessa cena, tocado pelas homenagens recebidas e pela proximidade da despedida da turma com que conviveu intensamente, o professor retorna à sala de aula e se depara com os novos alunos e o desafio da formação continuada, o que o enche de energia e o empurra para o novo ciclo. Essa é a natureza pendular característica do trabalho acadêmico e de ensino, que parece retornar sempre ao mesmo ponto a cada turma e a cada novo ciclo.
No entanto, apesar de oscilatório, o trabalho de ensino e pesquisa nunca volta ao mesmo ponto e não é periódico. Primeiramente, parece óbvio que o professor muda, porque amadurece, porque aprende e porque assume novos compromissos. De forma similar, as instituições mudam, de maneira que muda a infraestrutura e os recursos disponíveis para as atividades do professor e do pesquisador. Além disso, na área de pesquisa muda o interesse pelos temas investigados, mudando com ele as perguntas feitas e as respostas perseguidas. Por isso, muda também o interesse público pela pesquisa e a demanda dos estudantes pelo tema investigado. Não devemos esquecer que as características das diferentes gerações vão também mudando aos poucos, de forma que muda lentamente o comportamento médio dos estudantes, à medida que vão se transformando os interesses da sociedade e o momento histórico. Finalmente, mudam as características dos indivíduos, porque a turma não é uma amostra perfeita da sociedade e as características dos estudantes mudariam mesmo que o mundo continuasse exatamente no mesmo lugar.
Por todas essas razões, o trabalho de ensino e pesquisa muda continuamente e nunca volta ao mesmo ponto, mesmo que apresente esse comportamento oscilatório. A percepção dessa aparente obviedade é muito importante, porque a atividade demanda maleabilidade e capacidade de adaptação às mudanças que são permanentemente necessárias em um ambiente que não controlamos.
Percebo que essa característica deixa algumas pessoas ansiosas e tristes, pois é sempre mais confortável conviver com uma realidade que se repete. Mas esteja preparado para mudar sempre. Portanto, não se assuste nem se surpreenda com a necessidade de mudar frequentemente. Em verdade, você será desafiado a ser diferente a cada nova turma e cada novo ciclo, o que não é ruim de forma alguma, pois esse é o desafio de permanecer vivo.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sidney_Poitier
https://www.adorocinema.com/filmes/filme-82072/
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