
Sign up to save your podcasts
Or


Por princípio, todo campus universitário deveria ser vibrante, movimentado e convidativo, para que estudantes, servidores e pesquisadores possam permanecer longos períodos de tempo nesses espaços. Também por princípio, todo campus universitário deveria funcionar 24 horas por dia, 7 dias por semana, porque há muitos estudantes de fora e pressionados por prazos, que precisam tocar suas atividades; porque há muitos eventos acadêmicos que ocorrem durante a noite e nos finais de semana; e também porque estudantes que trabalham costumam dedicar noites e finais de semana aos estudos. Por isso, instituições estrangeiras procuram manter os ambientes universitários vibrantes e cheios de gente todo o tempo. Infelizmente, não é essa a realidade brasileira, já que a maior parte dos campi universitários do Brasil é erma, maltratada, disfuncional e funciona apenas no horário comercial.
Parte da explicação usual para esse estado de coisas é a violência e a má qualidade dos serviços de transporte disponíveis na grande maioria das grandes cidades brasileiras. No entanto, deve ser observado que essa é uma das muitas escolhas equivocadas da sociedade brasileira, pois a segurança e os serviços de transporte são usualmente muito melhores nas áreas turísticas dessas mesmas cidades. Portanto, é legítimo perguntar por que motivo deveria ser diferente nas áreas universitárias.
Contudo, parte importante da explicação é a visão tacanha que se tem da vida universitária, em que comumente se admite que não há espaço para outras atividades nos campi que não sejam as atividades de ensino, pesquisa e extensão. Essa visão, contudo, é equivocada, pois obviamente há. Por exemplo, há necessidade de:
a) restaurantes para que as pessoas permaneçam por longos períodos de tempo nesses ambientes, inclusive restaurantes mais reservados, para a condução de reuniões de trabalho e pequenos eventos;
b) instalações esportivas, para a condução de atividades internas da universidade e integração com a sociedade;
c) instalações hoteleiras, para acomodar as dezenas (frequentemente centenas) de professores, técnicos, estudantes e pesquisadores que visitam a universidade todos os dias;
d) instalações comerciais que ofereçam serviços de papelaria, informática, equipamentos eletrônicos, livrarias, farmácia, bancos, dentre outros serviços necessários para a fixação de pessoas;
e) instalações culturais, como teatros e cinemas, para a condução de atividades internas da universidade e integração com a vida cultural do país;
f) centros de convenções, para abrigar ao menos parte das dezenas (frequentemente centenas) de workshops, seminários, congressos e simpósios conduzidos pela universidade.
Como vemos, há óbvio espaço para a condução de muitas atividades distintas no ambiente universitário, para benefício da própria universidade, inclusive financeiramente, se essas atividades forem geridas pela instituição. Portanto, essas atividades não são invasoras, mas atividades de apoio que viabilizam a permanência de servidores, estudantes e pesquisadores nesses espaços por mais tempo, para benefício da comunidade e do trabalho acadêmico. Não é normal que um campus universitário feche às 6:00 da tarde, feche aos sábados e domingos ou que faça a comunidade temer o horário da saída para casa. Isso precisa mudar com urgência no Brasil, para benefício da vida acadêmica e desenvolvimento do país.
Uma das questões mais importantes no universo acadêmico público é o processo de alocação de vagas e o consequente concurso para admissão na carreira. É por meio do concurso público que as universidades e instituições públicas de pesquisa contratam seus profissionais. Por isso mesmo, há grande interesse pelo tema nessas instituições, tendo em vista que ele afeta os projetos de renovação e crescimento institucional. Infelizmente, contudo, o tema tem sido tratado de forma frequente de forma mais política do que técnica dentro e fora dessas instituições.
Em primeiro lugar, é preciso considerar que há grande carência de pesquisadores e docentes de nível superior no Brasil. Segundo o Banco Mundial, a média de pesquisadores no Brasil é de cerca de 900 pesquisadores por milhão de habitantes, enquanto esse índice é igual a 1500 no mundo e superior a 4000 nos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), clube de países desenvolvidos do qual o país quer fazer parte. Segundo o mesmo Banco Mundial, cerca de 14% da população tem algum tipo de curso superior no Brasil, contra mais de 30% na média dos países da OCDE. Portanto, visto sob esse prisma, não há dúvidas de que precisamos de mais profissionais e instituições de pesquisa e ensino superior no Brasil.
Apesar do que foi discutido, infelizmente parte da sociedade brasileira vê os desembolsos em ensino e pesquisa como custeio, ao invés de investimento, havendo no momento drenagem de recursos e vagas para esses setores. Falta, portanto, visão estratégica de país e planos que lancem o país para o futuro. Até por isso, as vagas eventualmente distribuídas entre instituições e dentro delas atendem a critérios políticos que usualmente privilegiam a história e o tamanho das instituições e grupos de pesquisa, ao invés de planos estratégicos e de futuro.
Deve ficar claro que o uso de critérios meritocráticos e de proporcionalidade pode não fazer qualquer sentido para distribuir vagas em um ambiente que se renova permanentemente, como no setor de pesquisa. Por exemplo, no país pode fazer mais sentido distribuir vagas preferencialmente onde há maior carência e não necessariamente onde as instituições são maiores e mais tradicionais. Da mesma forma, um grupo de pesquisas forte e grande não precisa necessariamente crescer mais. Do ponto de vista estratégico, pode ser mais relevante investir em um grupo novo e ainda pequeno. De maneira similar, um grupo produtivo não precisa necessariamente de outra vaga, até porque a vaga não deveria ser encarada como um prêmio de produtividade. Finalmente, um grupo não precisa necessariamente se perpetuar em um ambiente que é dinâmico e muda com velocidade, como eventualmente discutido em um plano estratégico institucional.
Enfim, há carência de vagas e instituições de pesquisa no Brasil, mas é necessário discutir esse tema espinhoso que trata dos processos de alocação de vagas nessas instituições. Os processos deveriam privilegiar as visões estratégicas de futuro do país e das instituições, ao invés de estarem baseadas no acompanhamento histórico e tamanho das instituições, olhando essencialmente pelo retrovisor.
Referências
https://data.worldbank.org/indicator/SP.POP.SCIE.RD.P6
https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_tertiary_education_attainment
https://oglobo.globo.com/economia/macroeconomia/entenda-que-ocde-por-que-brasil-quer-entrar-no-clube-dos-ricos-1-25367948
https://folhabv.com.br/coluna/Os-numeros-preocupantes-da-queda-brusca-do-investimento-na-educacao/13092#:~:text=Os%20n%C3%BAmeros%20revelam%20queda%20or%C3%A7ament%C3%A1ria,R%246%20bi%20em%202021.
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2022/02/13/orcamentos-para-investir-em-educacao-e-ciencia-voltam-a-niveis-dos-anos-2000.htm
Durante a minha tese de mestrado, em 1986, trabalhava em um desafio numérico importante para a solução do problema que enfrentava. Por isso, havia escrito um código computacional grande, complexo e cheio de operações. No entanto, depois de muitos dias de dedicação à limpeza e correção do programa, o danado continuava incapaz de prover as soluções que eu esperava. Assim, certo dia em uma sala de computação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, convidei um colega a dar uma olhada comigo no código, para ver se ele identificava algum erro que até aquele momento eu havia sido incapaz de detectar. O colega foi um pouco reticente, porque o programa era muito longo e ele não conhecia os detalhes do problema que eu estava resolvendo, mas topou revisar o código comigo. Fomos olhando as linhas do programa e, de repente, ele perguntou se um sinal negativo não deveria ser positivo em uma linha de programação - ele estava absolutamente correto e havia observado um erro que eu havia negligenciado de forma quase sistemática. Quando troquei o sinal da operação matemática, tudo começou a funcionar de forma esperada e a tese de mestrado deslanchou.
O que esse episódio mostra é que o pesquisador precisa sempre reconhecer o momento em que precisa compartilhar o seu problema com outras pessoas. Essas pessoas podem incluir a referência óbvia do orientador, mas podem também incluir colegas de laboratório e de pesquisa e até familiares e amigos que, mesmo que não entendam o problema abordado com profundidade, podem prover pontos de vista originais e relevantes para o avanço do trabalho do pesquisador. Isso não significa obviamente que o pesquisador tem que jogar a toalha diante da primeira dificuldade, mas que também não deve ficar de forma teimosa dando murro em ponta de faca.
Compartilhar pontos de vista e alternativas é fundamental para o trabalho de pesquisa. O pesquisador nunca deve ser vaidoso (do tipo, eu resolvo tudo sozinho) nem egoísta (do tipo, eu não compartilho meus problemas e trabalhos com ninguém). O pesquisador que trabalha em equipe e compartilha problemas e soluções com colegas vai mais longe e mais rapidamente. E desafiar velhos problemas com novas alternativas faz sempre enorme bem para o trabalho de investigação.
Uma das atividades mais corriqueiras da vida profissional de um pesquisador é a atuação como anfitrião em visitas guiadas a laboratórios e ambientes acadêmicos. Esse tipo de visita costuma fazer parte de eventos acadêmicos e agendas cerimoniais (como no caso da visita de políticos e comitivas governamentais), mas também como parte da rede de contatos estabelecida pelo pesquisador com colegas e parceiros eventualmente interessados em estabelecer colaborações técnicas e científicas. Dessa forma, como tudo mais na vida, procure desenvolver uma técnica que torne essas visitas mais proveitosas para você e o visitante que você recebe. Por isso, seguem abaixo algumas dicas para sua consideração:
i) Em primeiro lugar, procure contar uma história, para contextualizar o que você faz e para que o visitante entenda minimamente a natureza do trabalho executado naquele ambiente que ele visita;
ii) Prepare um roteiro para a visita, de forma que os equipamentos e ambientes que o visitante vai ver se encaixem na história que você contou. Se for possível, visite ambientes e equipamentos de forma sequencial, de acordo com o fluxo usual da atividade de pesquisa conduzida naquele ambiente;
iii) Seja gentil e bem humorado, pois o visitante não tem responsabilidade pelas eventuais dificuldades que você está passando e pode também estar sendo gentil com você ao aceitar participar daquela visita;
iv) Seja pontual e respeite o cronograma agendado, lembrando que há compromissos a serem cumpridos antes e depois dessa visita, tanto por você quanto pelo visitante. É muito chato e egoísta quando anfitriões tentam monopolizar o tempo da vida, em particular quando há uma agenda longa a ser cumprida. A pontualidade evita tensões e desavenças com outros colegas que eventualmente participem da programação;
v) Encontre o ponto adequado da fala, de forma a não ser demasiadamente econômico (sugerindo a falta de interesse) ou prolixo (a ponto de ser enfadonho e cansar o visitante);
vi) Procure conversar com o visitante, estimulando-o a fazer perguntas e apresentar seus interesses e curiosidades, em particular quando a visita não for protocolar;
vii) Estimule a troca de experiências, ouvindo o visitante e trocando contatos, pois muitas parcerias importantes se iniciam exatamente no momento dessas visitas;
viii) Se a visita for longa, pense em organizar pit stops, pois é muito desconfortável executar essas atividades com sede, fome ou vontade de ir ao banheiro. Pense um uma parada rápida a cada hora ou hora e meia da visita;
ix) Se a visita envolver uma caravana de estudantes, procure atuar com interesse e responsabilidade, pois a visita pode mudar as vidas de alguns desses visitantes.
Enfim, participe desses eventos com alegria, motivação e certeza de que se trata de uma atividade relevante e comum da vida do pesquisador.
De que forma pode ser caracterizado o interesse do estudante pelo estudo ? O senso comum provavelmente dirá que o estudante interessado e dedicado é o que tem boas notas. Mas será isso mesmo ? Esse senso comum inclusive constitui paradigma para vários processos de seleção, que usam o coeficiente de rendimento (ou média das notas de um curso) como principal fator para estabelecimento da classificação e seleção dos estudantes.
É óbvio que existe correlação entre as notas e coeficientes de rendimento de um estudante com seu interesse e dedicação ao estudo, já que estudantes dedicados e interessados têm maiores chances de ir bem nas avaliações. No entanto, o ponto aqui levantado é que essas notas não constituem medidas inequívocas do interesse do estudante pelo estudo, o que deve ser considerado em qualquer processo de avaliação.
De um lado, estudantes interessados e dedicados ao estudo podem apresentar aparentes maus rendimentos por conta de uma série de fatores que não devem ser menosprezados. Por exemplo, problemas eventuais de saúde podem afastar estudantes dos livros em um determinado período de suas trajetórias. Da mesma forma, problemas familiares podem tirar o foco e a atenção dada pelo estudante ao estudo durante algum tempo. Além disso, maus professores podem não conseguir estimular o interesse do estudante pelo estudo de uma disciplina em particular. Finalmente, a carga elevada de disciplinas pode induzir o estudante a fazer escolhas sobre que matérias merecem suas maiores atenção e dedicação.
Por outro lado, estudantes desinteressados no estudo podem apresentar aparentes bons rendimentos por várias razões. Por exemplo, a obtenção de notas altas pode ser necessária para garantir o bom convívio em algumas famílias. Adicionalmente, a competitividade exacerbada do indivíduo pode estimulá-lo a obter notas altas, já que cada avaliação pode ser vista como um desafio pessoal a ser superado. Finalmente, não deve ser desconsiderado que alguns estudantes se dedicam às provas, ao invés dos estudos, como induzem vários cursinhos dedicados a concursos.
Enfim, não há correlação inequívoca entre o interesse de um estudante pelo estudo e as notas obtidas nas disciplinas. Eu mesmo tive orientados que apresentavam maus coeficientes de rendimento e que se revelaram e transformaram em excelentes pesquisadores, demonstrando grande curiosidade e criatividade no estudo. Da mesma forma, conheci vários excelentes estudantes em sala de aula que não conseguiam caminhar e estudar por conta própria. Por isso, tenha sempre cuidado ao avaliar o interesse de estudantes pelo estudo com base exclusivamente em coeficientes de rendimento, pois você pode estar cometendo injustiças e sendo muito superficial.
Suponha que você é dono de um restaurante e precisa contratar um cozinheiro. Para isso, é aberto um processo de seleção. Suponha ainda que aparecem dois candidatos. Um deles é um cozinheiro experiente, com boas referências e que sabe inclusive preparar pratos internacionais. Enquanto isso, o outro candidato é motivado para o aprendizado, mas é inexperiente e mal sabe fritar um ovo. Quem você selecionaria ? Provavelmente o cozinheiro mais experiente.
Suponha agora que você administra um curso de Gastronomia em uma universidade e que há uma vaga disponível. Para preenche essa vaga você abre um processo de seleção e aparecem os mesmos dois candidatos anteriores. Quem você selecionaria ? Não se engane, mas esse pequeno problema desperta dilemas éticos e filosóficos importantes sobre a natureza do trabalho que fazemos na universidade.
Na maior parte dos processos de seleção vigentes nos programas de pós-graduação (e mesmo graduação) do Brasil e do mundo, o candidato selecionado para a vaga do curso de Gastronomia seria o cozinheiro mais experiente, com base em critérios meritocráticos. No entanto, o candidato que mais precisa da universidade e que justifica a própria existência da atividade universitária é o candidato menos experiente, que ainda precisa ser transformado. De forma surpreendente, o melhor estudante para a universidade é justamente o que menos precisa dela.
Isso ocorre porque o produtivismo exacerbado de certa forma igualou o trabalho da universidade ao trabalho do restaurante, que controla os meios de produção e contrata mão-de-obra para produzir os produtos que caracterizam o restaurante, não para transformar o indivíduo. Desta forma, a universidade produtivista trata o estudante como mão-de-obra útil para a produção de bens, sendo melhor que ele já chegue pronto para escrever papers, fazer pesquisa e executar projetos, importando pouco os processos de aprendizado e transformação.
O espírito produtivista chega a tal ponto que alguns professores estabelecem uma espécie de coeficiente de rendimento mínimo para que estudantes possam ser orientados por eles, criando na prática uma segunda seleção dentro da seleção original. Para mim, esse comportamento é injustificável, pois nega de fato acesso aos estudantes a parte da infraestrutura da universidade, contraria o espírito fundamental da atividade de docência, que é o ensino, e é egoísta e prepotente, estabelecendo por princípio que a tarefa de formar os estudantes supostamente menos preparados a terceiros. Assim, esses professores atuam apenas como donos do restaurante, em interesse próprio.
A lógica da universidade produtivista precisa acabar. Nós precisamos valorizar o processo de transformação do indivíduo por meio do aprendizado. Nossa missão não é a de selecionar mão-de-obra para executar um trabalho, mas formar e ajudar a transformar pessoas.
Um erro comum no processo de educação, ensino e aprendizagem é a confusão que alguns fazem entre rigor e qualidade do ensino com aspereza, brutalidade e falta de educação. Qualidade do ensino nunca foi, não é e nunca será sinônimo de dureza, grosseria e falta de atenção. Apesar disso, muitos estudantes reclamam de falta de acolhimento e assédio moral nos ambientes universitários, o que ajuda a explicar por que muitos desses estudantes procuram minimizar o tempo dispendido nesses ambientes e instituições.
Em primeiro lugar, é preciso que se reconheça que o professor ocupa uma posição de autoridade, hierarquicamente superior e empoderada, tendo em vista que o professor é o responsável por avaliar, aprovar e reprovar o estudante. Isso está claro para todos, de forma que não é necessário reforçar essa posição de autoridade com grosserias e falta de atenção.
É preciso também reconhecer que o professor é um prestador de serviços naquele momento de ensino, de forma que a qualidade do professor pode ser medida pelo aprendizado do aluno. Dessa maneira, o professor que se coloca de forma central e áspera como autoridade a ser temida de certa forma já violou a sua missão, já que o estudante deveria constituir o centro daquele relacionamento e é a transformação do aluno que mostra a qualidade do professor. Assim, o professor inatingível que maltrata e reprova de forma sistemática os seus alunos é apenas um mau professor.
Por isso, não naturalize esse tipo de comportamento como usual ou sinal da qualidade do curso. Muito pelo contrário; exija acolhimento e informe a coordenação do seu curso, por meio dos representantes discentes, sobre a eventual existência de ambientes hostis no ambiente universitário.
A escola e a universidade são ambientes de aprendizado e acolhimento, nunca de aridez, grosserias e falta de educação.
É triste quando se percebe que um estudante tem pressa de passar ou sair da universidade, pois fica a impressão de oportunidade perdida ou de má compreensão do que a universidade pode oferecer. É lógico que alguns estudantes podem precisar obter o diploma rapidamente por razões particulares, mas o período de universidade deveria ser sempre curtido. Isso ocorre não apenas por conta do momento de vida pelo qual passa a ampla maioria dos universitários, em geral jovens e em condições de fazer amizades que podem carregar por toda a vida, mas também por conta das muitas atividades que podem ser realizadas nesse período. Algumas dessas atividades, inclusive, além de contribuir com a formação profissional, podem também ajudar a complementar a renda, tornando mais confortável o período de estudos para o estudante.
Por exemplo, estudantes universitários podem fazer monitoria, para ajudar a tocar atividades didáticas de uma disciplina, ao mesmo tempo em que se estabelecem relacionamentos com colegas e professores e se aprofundam conhecimentos sobre uma disciplina em particular. Estudantes também podem fazer iniciação científica e se envolver com pesquisas, descobrindo áreas do conhecimento pouco discutidas em sala de aula e se aproximando da fronteira do conhecimento em áreas estratégicas. Estudantes podem fazer também estágios remunerados, participando de projetos apoiados por parceiros comerciais e industriais, e ampliando simultaneamente a rede de relacionamentos e aprofundando os conhecimentos específicos sobre temas de interesse comercial, industrial ou tecnológico.
Além disso, são muitas as oportunidades de intercâmbio na universidade. Essas atividades podem incluir períodos de estudo em universidades situadas em outras cidades do país ou do exterior, permitindo que o estudante conheça outras culturas e aprimore as habilidades em língua estrangeira. Estudantes podem também participar de eventos científicos e técnicos realizados dentro e fora do país, inclusive como palestrantes, quando estão envolvidos com atividades de pesquisa. Adicionalmente, algumas disciplinas oferecem viagens de campo, em geral organizadas pelos docentes responsáveis por essas disciplinas, que permitem que outros cenários, lugares e culturas do Brasil sejam conhecidos, à medida em que se aprofundam os estudos sobre uma área específica.
Não podemos esquecer da possibilidade de participar de projetos de extensão, quando conhecimentos são compartilhados e adquiridos por meio do contato com a sociedade. Diga-se de passagem, essa é uma importante missão da universidade.
E nunca é demais dizer que as atividades de representação devem ser incentivadas e que os estudantes deveriam participar das ações dos DAs, ou diretórios acadêmicos, que encorajam a participação no debate político, não apenas sobre os aspectos da vida universitária, mas também da vida nacional de forma mais ampla.
Enfim, não tenha pressa de passar e sair da universidade. Preste atenção nas muitas oportunidades oferecidas ao seu redor e participe. O período na universidade é um período para ser curtido.
O Brasil vive momento absolutamente singular de sua história, em que não parece ser necessário qualquer compromisso do discurso ou das ações (em particular as oficiais) com o conhecimento e o pensamento embasado. Esse descompromisso se transforma em discurso e ações desconexas e carentes de base, amparados exclusivamente em achismo, misticismo, devaneios e idolatria. Os exemplos são tantos, que parece que estamos tirando os pés do chão.
Hoje mesmo, estamos vivendo o início de um segundo carnaval em várias cidades do país. Segundo o discurso oficial, isso é bom para os negócios e a economia. Para isso, suspendem-se aulas, fecham-se negócios e interrompem-se serviços à população. Como isso pode ser bom ? Ainda segundo o discurso oficial, a cidade está cheia de turistas, mas não vemos esses turistas todos por aí não. E se não fosse bastante, o ponto facultativo é justificado pelo movimento do trânsito, de saída da cidade, não de chegada. Nonsense puro !!!!
Na semana passada, surgiu a notícia de que o Governo Federal comprou 35 mil comprimidos de viagra para o tratamento de hipertensão pulmonar, prescrição para lá de polêmica, ainda mais nas doses adquiridas. Como se não fosse suficiente, os comprimidos estão acompanhados de próteses penianas e lubrificantes íntimos. Ou seja, estamos deixando a fase em que tratamentos da COVID são justificados com gráficos do Google e entramos em outra em que não são necessárias mais nem essas evidências.
Aparece em seguida um vídeo em que o secretário de fomento à cultura, aquele do mimimi e do acabou a mamata com recursos da Lei Rouanet, encoraja seus seguidores a usarem a Lei Rouanet para fazer apologia de armas, com recursos de até um bilhão de reais. Segundo o secretário, as armas têm um importante papel no marco civilizatório e serão misses nas futuras produções culturais. Nonsense e oportunismo puros.
Aliás, o presidente é defensor da família (já teve três e apartamento para comer gente), se diz cristão (mas apoia o negócio de armas e a tortura, ridicularizando torturados pelo regime militar) e tem família envolvida em dezenas de acusações de casos de corrupção. Como é possível que alguém compre esse discurso ? Que mix de ideias é esse ?
Enfim, o Brasil parece estar jogando o sentido fora. É como se pudéssemos falar e fazer qualquer coisa, em qualquer base. Esse desapreço pela lógica e o juízo embasado pode a princípio justificar qualquer discussão e nos levar perigosamente a qualquer direção. Pense nisso. Mas pense de forma elaborada, por favor.
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/04/11/forcas-armadas-aprovam-compra-de-35-mil-comprimidos-de-viagra.htm
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2022/noticia/2022/04/18/rio-tem-ponto-facultativo-na-quarta-e-sexta-do-feriadao-de-tiradentes-e-sao-jorge-que-tera-desfiles-das-escolas-de-samba.ghtml
https://www.istoedinheiro.com.br/viagra-e-militares-medicamento-e-mesmo-usado-contra-hipertensao/
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2022/noticia/2022/04/19/veja-o-que-funciona-no-rio-durante-o-carnaval.ghtml
https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2022/04/19/secretario-de-fomento-a-cultura-incentivou-uso-de-recursos-da-area-para-estimular-compra-de-armas.ghtml
https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2018/01/12/interna_politica,930477/bolsonaro-diz-que-usou-auxilio-moradia-para-comer-gente.shtml
https://www.brasildefato.com.br/2022/04/18/ataque-de-eduardo-bolsonaro-a-miriam-leitao-motivou-divulgacao-de-audios-de-tortura-na-ditadura
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57730263
https://www.diariodecuiaba.com.br/politica/bolsonaro-acumula-casos-sob-suspeita-de-corrupcao-veja/612294
No ano de 1985 eu cursava o último ano da graduação em Engenharia Química na Universidade Federal da Bahia e era estagiário em uma grande empresa localizada no Polo Petroquímico de Camaçari. Naquele momento eu vivia também uma certa angústia, porque teria que decidir em breve o caminho a seguir na carreira: aceitar a proposta de trabalho da empresa em que eu trabalhava ou seguir para a pós-graduação no Rio de Janeiro. Mas certo dia um episódio me ajudou muito a tomar a decisão necessária.
Para que seja possível compreender a história, é necessário dizer que um determinado composto aparecia em um ponto do processo da planta química em que eu estagiava e causava muitos problemas operacionais. Naquele momento, ninguém entendia exatamente por que motivo o composto aparecia naquele ponto. Como eu era muito curioso, aquele problema ia e vinha na minha cabeça de estagiário. Até que um dia, lendo um livro de Química, percebi que o autor relatava uma reação química que produzia exatamente aquele composto em uma condição de processo muito similar à observada na planta. EUREKA !!! Aquele composto estava sendo produzido por aquela reação e era necessário evitar que aquela reação ocorresse.
Como demandado pelos chefes na época, escrevi um pequeno relatório sobre o tema e me dirigi com muita satisfação para o estágio com a intenção de discutir aquele tema com os chefes. Como também demandado pelos chefes, marquei uma reunião e me apresentei na hora combinada para a conversa. Falei rapidamente sobre o achado que tinha feito e entreguei o relatório ao chefe. Lembro-me até hoje do que se seguiu: o chefe pegou o relatório, agradeceu, abriu uma gaveta, colocou o relatório na gaveta e informou que um dia desses leria o texto.
Como é possível imaginar, meu desapontamento foi enorme !!!! Mas acelerou o meu processo de tomada de decisão, pois concluí que ali não era mesmo o meu lugar. No dia seguinte solicitei desligamento do estágio e passei a me concentrar no apoio às pesquisas desenvolvidas pelos docentes do Departamento de Engenharia Química da UFBa e na preparação para a pós-graduação no Rio.
Até hoje acho que o chefe tentou me dar algum tipo de lição que eu ainda hoje não compreendo. No entanto, lembro sempre que é necessário ouvir os estagiários, estudantes de iniciação científica e pós-graduandos com atenção, por mais estapafúrdia que pareça a ideia trazida para discussão. Lembre-se que os estagiários, ICs e pós-graduandos são profissionais em formação e merecem ser ouvidos e ter dúvidas esclarecidas. Além disso, eles constituem as antenas que mantêm o pesquisador conectado com o mundo, de forma que é importante manter esse canal aberto.
Finalmente, se você é estagiário, IC ou pós-graduando e trabalha em um ambiente em que não é ouvido, saia daí correndo !!!!
From the publisher's feed