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É curioso que o brasileiro goste de se ver como um sujeito sociável, amigo e camarada, quando em verdade o cidadão brasileiro é dos que mais desconfia do próximo no mundo. Várias pesquisas que abordam o tema da confiança no próximo colocam o brasileiro sistematicamente na última posição dentre as nações avaliadas. E não estamos falando de confiança nas instituições ou em políticos, mas na confiança no vizinho, no amigo e no colega de trabalho.
Esse comportamento contamina todos os aspectos da vida nacional e ajuda a explicar o excesso de regras e burocracia com que convivemos. Por isso, não surpreende que também contamine a vida acadêmica. É a desconfiança que justifica o excesso de regras e procedimentos durante as prestações de contas do uso de recursos de projetos científicos; é a desconfiança que justifica o número infindável de documentos sem importância que têm que ser apresentados em processos simples de progressão de nível; é a desconfiança que explica as muitas limitações importas às atividades e iniciativas de pesquisadores, em particular dos que trabalham no serviço público; e é a desconfiança que justifica a atmosfera policialesca que muitas vezes se estabelece no relacionamento com estudantes (como no caso em que se impede um estudante de ir ao sanitário durante uma prova). Diga-se de passagem, é comum a interpretação no país de que tudo o que não está explicitamente aprovado no marco lega não pode ser realizado, embora em muitos países do mundo a interpretação seja exatamente a contrária: se não está explicitamente proibido na constituição, é porque pode ser realizado.
Algumas pessoas acreditam que essas regras e limitações são necessárias para que um indivíduo mal-intencionado não use as instituições em benefício próprio. No entanto, essa interpretação é polêmica, pois o país também é campeão da impunidade. Assim, faz-se de tudo para que a burla seja evitada, mas, uma vez que tenha sido cometida, dá-se de ombros e tudo bem. Faz sentido isso ? Não deveria ser exatamente o contrário ?
O problema adicional é que há fortíssima correlação entre confiança e desenvolvimento, inovação, iniciativa e atividade empreendedora. Portanto, parece correto afirmar que as travas burocráticas e a impunidade são mecanismos que impedem o desenvolvimento pleno da sociedade, da economia e da atividade acadêmica.
Por todas essas razões, procure praticar a confiança no próximo nas pequenas atividades do dia-a-dia. Enquanto um indivíduo de boa índole estiver sendo impedido de ir ao sanitário numa prova ou de tomar uma iniciativa importante de trabalho, enquanto o sujeito de mau caráter que burlou o sistema continua impune, o país continuará travado e preso no lodaçal burocrático que não nos leva a lugar algum.
https://blog.idwall.co/indice-de-confianca-brasil/
https://www.cnnbrasil.com.br/business/falta-de-confianca-de-brasileiros-nas-pessoas-afeta-economia-diz-estudo-do-bid/
Uma das atividades que menos aprecio na vida acadêmica é dar prova. Eu certamente compreendo a necessidade de avaliar o processo de aprendizado de alguma forma, seja por conta da necessidade de avaliar a eficiência do ensino, seja por conta da necessidade de avaliar o processo de aprendizado, ou seja por conta da necessidade formal de assegurar a aptidão para a execução de uma certa tarefa, como a condução de uma atividade profissional. Por isso, no final das contas, a prova é apenas um documento que dá suporte a um certo parecer: apto ou inapto, aprovado ou reprovado. Por isso, em um concurso talvez a prova faça sentido, mas tenho minhas dúvidas sobre o uso da prova em processos de avaliação do aprendizado.
Deve ser ressaltado que, além de tudo, a aplicação de uma prova é muito chata, porque essa tarefa tem tom policialesco (para garantir que não há burla no processo) e impõe a correção de um mesmo exercício dezenas (frequentemente, mais de uma centena) de vezes. Para piorar, a prova avalia apenas um momento, ao invés de um processo, que pode ser já diferente imediatamente após a prova, pois a prova não mede o aprendizado decorrente da própria prova. Finalmente, a prova usualmente não consegue avaliar o todo, mas um fragmento do conhecimento transmitido e que o docente considera por alguma razão mais importante.
Por todas essas razões e certamente por causa da influência da pós-graduação, eu sempre preferi as avaliações baseadas em trabalhos. Os trabalhos são em geral mais envolventes (obrigando o estudante a pensar no tema trabalhado por mais tempo e mais profundamente), mais abrangentes (envolvendo múltiplos aspectos do problema abordado), permitem avaliação do processo de aprendizado de forma mais continuada (por meio das trocas com os estudantes) e podem inclusive envolver aspectos originais (estimulando o aprendizado de estudantes e docentes). Curiosamente, exatamente por ser mais envolvente e abrangente, os trabalhos são frequentemente dispensados por estudantes, que com frequência preferem as provas.
Visitei certa vez uma universidade estrangeira em que as avaliações eram sempre feitas com base em tarefas, que os estudantes deveriam executar ao longo de um período (tipicamente, um semestre). As tarefas envolviam questões práticas e teóricas, como montar um equipamento, realizar experimentos de reações químicas, medir os resultados e explicar os resultados obtidos com auxílio de ferramentas teóricas e matemáticas. Muito legal !!!! Devo admitir que a maior parte das instituições brasileiras não teria condições de implementar um processo de avaliação e aprendizado como esse, tendo em vista que essa metodologia demanda infraestrutura e preparo que não estão usualmente disponíveis.
Enquanto isso, vamos hoje aplicar mais uma prova. Chaaaaatoooooo ...
O ambiente acadêmico e a universidade devem ser tolerantes e acolhedores, pois são locais em que o trabalho deve ser realizado para que as conquistas e transformações aconteçam, não para imposição de barreiras e limites ao desenvolvimento pessoal. Isso não significa de forma alguma que não existam regras e que essas regras não sejam aplicadas de forma isonômica, mas que a academia deve estar pronta para ouvir demandas, avaliar essas demandas e eventualmente decidir de forma discricionária, quando as demandas se mostrarem justas e justificáveis. Para isso, a universidade conta com autonomia e órgãos colegiados que podem analisar esses casos especiais. Caso contrário, a universidade se transforma apenas em um jogo, em que produz ganhadores e perdedores. Por isso, um estudante que perde uma prova, perde um prazo, solicita uma vaga em um curso ou vai mal em uma prova deve ser ouvido.
Digo isso porque no diz 31 de Maio de 2022 tomei ciência do caso da pós-graduanda Ambar Cordoba, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia de Biomas Tropicais da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Ambar ficou grávida no último ano de mestrado e, como a data da defesa se aproximava, solicitou licença maternidade, que lhe foi negada pela UFOP. O caso já é um equívoco, pois boa parte das agências de fomento e dos programas de pós-graduação reconhece o direito à licença maternidade de pesquisadoras grávidas. Ambar então fez a defesa e foi aprovada. (Parabéns, Ambar !!!!) No entanto, o filho de Ambar nasceu alguns dias depois e, por conta de atribulações pós-parto comuns e frequentes, Ambar perdeu o prazo para a entrega da versão corrigida da tese e do artigo a ser submetido a publicação. Por conta disso, Ambar for formalmente considerada negligente pela universidade e teve seu direito de acesso ao diploma e ao grau de mestre negado. O caso foi parar na Justiça.
Em função da repercussão que o caso está tendo, a UFOP se manifestou por meio de nota oficial dizendo que as coisas são assim mesmo e que não há muito o que fazer. Trata-se de equívoco óbvio, que a UFOP deve corrigir para evitar a vergonha para sua história e todo o ambiente universitário brasileiro de ter que seguir a ordem expressa de um juiz que mandará a universidade expedir o diploma de Ambar. Como ela foi aprovada na defesa, o caso pode ser considerado inclusive abusivo.
Estamos todos com Ambar Cordoba e as pesquisadoras grávidas pelo reconhecimento ao direito à licença maternidade. Ambar já é um modelo que mostra a necessidade de um ambiente acadêmico mais tolerante e acolhedor no Brasil.
https://www.youtube.com/watch?v=61W09Uf0b_8
https://ufop.br/noticias/institucional/nota-sobre-questionamento-respeito-da-perda-de-titulo
Infelizmente o governo iniciou no dia 27/05/2022 mais uma batalha na sua guerra longa, permanente e incessante contra a educação, a cultura e a ciência no Brasil. Para você compreender essa história, é importante dizer que os servidores públicos federais estão sem correção salarial desde o ano de 2017 (com exceção de alguns grupos privilegiados), sendo que que nos últimos 5 anos a inflação já corroeu mais de 30% do poder de compra dos salários dos servidores. Se considerarmos que desde 2011 as correções têm sido feitas abaixo da inflação, as perdas já são equivalentes a cerca de 50% dos valores dos salários.
Abrimos aqui um parêntese para dizer que infelizmente a sociedade brasileira não parece perceber que mais da metade dos servidores públicos do Brasil recebe menos de R$ 3000,00 por mês e que precisa desse salário para sobreviver. Os supersalários e benesses injustificáveis estão concentrados no Poder Judiciário, no Poder Legislativo e na cúpula dirigente do Poder Executivo, enquanto a massa do serviço público está concentrada nos baixos escalões do Poder Executivo. Infelizmente e por razões ideológicas a grande mídia põe todo mundo no mesmo saco, quando os privilégios que precisam certamente ser combatidos ocorrem em castas muito bem determinadas e que raramente são denunciadas.
Por conta da corrosão salarial e temendo enfrentar uma greve geral por motivos eleitoreiros, o governo federal estuda conceder um aumento irrisório de 5% aos servidores públicos de forma linear, que inclui grupos já privilegiados por aumentos recentes. O Ministério da Economia considera que essas correções representarão gastos adicionais de 6 a 7 bilhões de reais no ano de 2022 e é aqui que chegamos ao ponto fundamental dessa conversa.
Alegando problemas de caixa, o governo federal pretende que metade dos recursos necessários sejam oriundos de cortes do orçamento do Ministério da Educação, e das universidades públicas federais em particular, e que a outra metade venha de cortes orçamentários oriundos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Os cortes dos orçamentos das universidades vão levar essas instituições à asfixia, depois de cortes de mais de 60% em seus orçamentos ao longo do atual governo. Os cortes do orçamento da ciência são inclusive ilegais, pois lei aprovada em 2021 proíbe o contingenciamento ou corte dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e certamente levará a questão ao Supremo Tribunal Federal. O governo federal pretende usar o servidor como arma na sua guerra incessante contra a educação e a ciência.
Os que ainda emprestam a esse governo algum apoio dirão que os recursos precisam vir de algum lugar e esquecem que o orçamento secreto praticado por esse governo federal envolve mais de 20 bilhões de reais em 2022, suficientes para pagar de 3 a 4 vezes o aumento irrisório dos salários dos servidores.
O governo não conseguirá usar os servidores na guerra que trava contra a cultura, a educação e a ciência. Participe das muitas manifestações que ocorrerão em todo o Brasil essa semana contra mais esse abuso do governo federal. Esses tristes tempos vão passar.
Referências:
https://g1.globo.com/economia/noticia/2022/05/04/em-5-anos-real-perdeu-quase-30percent-de-seu-poder-de-compra.ghtml
https://www.assufrgs.org.br/2022/05/03/reajuste-dos-servidores-dados-do-banco-central-contrariam-narrativa-de-que-o-governo-nao-tem-dinheiro-veja-os-calculos/#:~:text=O%20valor%20que%20os%20servidores,menos%2C%2049%2C28%25.
https://www.condsef.org.br/noticias/bolsonaro-planeja-5-servidores-2022-mas-perdas-salariais-ultrapassam-48-1
https://www.cut.org.br/noticias/metade-do-funcionalismo-publico-do-pais-ganha-menos-de-r-3-mil-revela-estudo-15f4
[Para a lista completa de referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube https://youtu.be/NDAGoyCM1h4]
Impossível ignorar que no dia 24 de maio de 2022 o governo federal iniciou mais dois rounds de sua luta permanente contra a educação no Brasil. No primeiro round, tentou emplacar na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara a votação da proposta de emenda à constituição (PEC 206/2019) que institui a obrigatoriedade da cobrança de mensalidades em universidades públicas federais. A proposta está sendo encampada por um militar bolsonarista. No mesmo dia, institutos conservadores dirigidos por militares bolsonaristas ligados à ditadura e à história da tortura no Brasil propuseram um plano de governo e que estabelecem a cobrança de mensalidades nas universidades públicas federais e no Sistema Único de Saúde (SUS).
Não foi coincidência que ambas as propostas sejam encampadas por militares bolsonaristas e divulgadas no mesmo dia. Aliás, essas propostas feitas por maus militares são hipócritas, porque esses indivíduos estudam de graça, têm acesso à saúde de graça, em hospitais que são só deles e não são compartilhados com a população, e têm pensões e benesses que a maior parte da população brasileira não tem. Dessa forma, esses indivíduos tentam negar aos demais os direitos que eles pretendem manter.
Infelizmente pessoas bem intencionadas repetem o argumento de que é justo que as mensalidades sejam pagas pelos que podem pagar, mas o dito popular diz que o inferno está cheio de boas intenções. O fato é que esse argumento é falacioso, por poder ser aplicado a tudo. Assim, parece justo que os que podem pagar paguem por andar nas calçadas, construídas pelos diferentes níveis de governo. Além disso, essa proposta não diz quem pode pagar, em um país em que 90% da população ganha menos de R$ 3000,00 por mês, enquanto cursos de Engenharia e Medicina de universidades privadas podem chegar a R$ 3000,00 e R$ 9000, 00 por mês, respectivamente. Tudo isso em um país injusto, em que um assalariado que ganha R$ 3000,00 por mês paga 10% de imposto de renda, enquanto o lucro não é taxado. Mesmo admitindo que 10% possam pagar R$ 1000,00 por mês, esses recursos arrecadados não representam nem 20% do orçamento das universidades e representam em alguns casos 10% do que já foi tomado do sistema pelo governo federal. Finalmente, dizem que só o Brasil adota esse modelo, o que é uma mentira, pois o ensino superior é grátis em Cuba, na Alemanha, na Áustria, na Suécia, na Finlândia, na Noruega e outros países mais justos que o Brasil.
O pagamento de mensalidades em universidades públicas federais apenas tenta escravizar a maior parte da população brasileira à ignorância e à pobreza, mantendo os de sempre no comando. Lute contra essa aberração.
https://g1.globo.com/educacao/noticia/2022/05/24/entenda-o-que-diz-a-pec-que-propoe-cobrar-mensalidade-em-universidades-publicas.ghtml
https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/ccj-vai-discutir-projeto-de-militar-que-propoe-mensalidade-em-universidades-publicas/
https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/noticia/2022/05/grupo-de-militares-apresenta-projeto-para-o-brasil-com-fim-da-gratuidade-no-sus-e-em-universidades-publicas-cl3k21a4k006v01ghv1wusk1f.html
https://www.viveenbuenosaires.com/noticias/estudar-medicina-em-cuba/
https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/06/01/por-que-a-alemanha-decidiu-investir-mais-42-bilhoes-de-euros-em-universidades.ghtml
https://www.estudarfora.org.br/paises-em-que-e-possivel-estudar-de-graca-ou-quase/
https://canaldoensino.com.br/blog/como-fazer-graduacao-no-exterior-de-forma-gratuita
https://piaui.folha.uol.com.br/gastos-com-pensoes-militares-sao-o-dobro-das-despesas-previstas-com-educacao-superior/
https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/515647/noticia.html?sequence=1
[Para a lista completa de referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube https://youtu.be/-LJySHbRsDQ]
Como conversado no último vídeo do canal, tenho ouvido com muita frequência questionamentos de jovens pesquisadores sobre suas vocações para a vida de pesquisa, e mais especificamente sobre se a vida de pesquisador é mesmo para eles. Contudo percebo que muitas vezes os questionamentos não dizem respeito exatamente a vocações pessoais, mas à conjuntura e ao momento por que passa o Brasil e a sociedade brasileira.
É preciso inicialmente admitir que o Brasil vive momento muito ruim de sua história, governado por um governo federal obscurantista, negacionista, que valoriza a ignorância e a burrice mesmo, atentando dia sim dia também contra as áreas de educação, cultura e ciência. Ontem mesmo foi adiada a discussão sobre uma emenda constitucional que propõe a instituição do ensino pago nas universidades brasileiras. Mas é preciso ter calma e ser resiliente.
Deve ficar claro para os jovens pesquisadores que a trajetória da área de pesquisa é muito oscilatória e tende a magnificar os movimentos da economia. Quando as coisas vão mal, as empresas e instituições tendem a desfazer pesquisa, demitir pesquisadores e concentrar as atividades na produção. Por outro lado, quando as coisas vão bem, as empresas e instituições tendem a investir grandes somas em novos projetos e na renovação de produtos e serviços. Por isso, as oscilações na área de pesquisa tendem a ser maiores que na média da economia.
Apesar disso, ao longo dos meus 35 anos de carreira vi o crescimento e consolidação da pós-graduação no Brasil, o crescimento do sistema universitário e do número de universidades públicas brasileiras e o crescimento da ciência nacional. Portanto, não há dúvidas de que a derivada líquida é positiva. No entanto, o crescimento não foi contínuo, tendo também vivenciado a crise do governo Collor (que dizimou a nascente atividade de pesquisa tecnológica no Brasil), as crises geradas pelo ministro Paulo Renato Souza no governo FHC (desrespeitando a autonomia universitária e reduzindo o financiamento à educação superior), a crise da Petrobras (arrastando pesquisadores e laboratórios que dependem das verbas da ANP) e mais recentemente a crise provocada por esse monstruoso governo federal. por isso, calma, porque essa conjuntura vai passar, talvez a partir de outubro.
No entanto, é necessário viver e sobreviver. Se você é bolsista de mestrado e doutorado, sabe que o poder de compra das bolsas foi corroído pelos 9 anos de congelamento, que atenta contra a pós-graduação e a pesquisa brasileiras. Por isso, procure participar de projetos, converse com seu orientador ou coordenador do seu curso a respeito sobre oportunidades de complementação, dê aulas na sua universidade ou em outras (o que é valorizado pela CAPES e pode ajudá-lo em um concurso futuro). Se você está terminando o doutorado, envolva-se com projetos de pós-doc, procure participar de projetos, pense em passar um tempo no exterior (há abundância de bolsas de pós-doc disponíveis na Europa e nos Estados Unidos), dê aulas e prepare o seu CV para um concurso.
O momento é ruim, mas vai passar. Lembre-se que você tem entre 35 e 40 anos de carreira pela frente. Tenha calma e seja resiliente. Se você tem o sonho de trabalhar na pesquisa, não deixe esse governo catastrófico destruir seu sonho. Vamos derrotá-lo em outubro.
https://www.youtube.com/watch?v=8fwg5cHbrRY
https://www.camara.leg.br/noticias/879212-votacao-de-proposta-que-permite-cobranca-de-mensalidade-em-universidades-publicas-e-adiada-na-ccj/
Uma pergunta que tenho recebido com muita frequência de jovens pesquisadores diz respeito à vocação para a vida de pesquisador. Embora essa pergunta com frequência diga respeito a problemas conjunturais que o país vive (e eu deixo essa questão para um próximo vídeo), vale a pena refletirmos sobre ao menos dez pontos que caracterizam a vida do pesquisador.
1. O pesquisador precisa gostar de ler e estudar, pois fará isso a vida toda. Aliás, a situação não é muito diferente em outros segmentos da vida profissional, tendo em vista a enorme velocidade com que se desenvolve o conhecimento, como já discutido em vídeos anteriores do canal. (https://youtu.be/wf32KZaka4Q);
2. O pesquisador vive constantemente sob pressão de datas limites e pendências, pois são muitos os prazos acadêmicos que devem ser atendidos, além dos prazos para entregas de artigos, relatórios e projetos, dentre outros. Embora essa característica seja comum também em outras atividades, o pesquisador precisa conviver bem com a pressão.
3. Até por isso, o pesquisador com frequência leva trabalho para casa e com certeza vai trabalhar muitos finais de semana e noites no ambiente familiar. Não adianta dizer que não levará trabalho para casa, porque levará e precisará de um ambiente domiciliar que seja capaz de compreender isso.
4. O pesquisador deve ser empreendedor, pois o dinheiro não estará disponível para a pesquisa nem será simplesmente enviado ao pesquisador pelo governo federal, governo estadual, instituição de fomento ou instituição de pesquisa. Os recursos para a pesquisa deverão ser conquistados, impondo que o pesquisador corra atrás da grana. (https://youtu.be/QLFOzJezPHw)
5. O pesquisador tem que ter curiosidade para fazer perguntas e criatividade para propor respostas. De certa forma, as atividades executadas pelo pesquisador serão aquelas sugeridas pelas perguntas formuladas. Portanto, o pesquisador que se mostra incapaz de fazer perguntas e propor respostas não terá o que fazer. (https://youtu.be/XE-uuRbjGb8 , https://youtu.be/4ceSB0bNZw4 , https://youtu.be/c-nYT2IhKC4)
6. O pesquisador deve ser capaz de lidar bem com as críticas, pois será criticado todo o tempo pelos pares, pelos estudantes, pelos revisores, ... O pesquisador que não souber conviver bem com as críticas vai sofrer. (https://youtu.be/Gw2wt09lYic , https://youtu.be/SGxLTrEoNDE)
7. O pesquisador tem que atuar em rede, pois são raros os pesquisadores que têm acesso a toda a infraestrutura de pesquisa de que necessitam. Portanto, é preciso desenvolver habilidades para trabalhar em grupo. (https://youtu.be/nKgONN9jLJo , https://youtu.be/w5HHZDoWWi8)
8. O pesquisador tem que gostar de escrever e se comunicar, pois a ciência guardada na prateleira tem pouca ou nenhuma serventia. É necessário comunicar os achados na forma escrita, como artigos científicos, mas também na forma oral, por meio de apresentações em seminários, simpósios e congressos. (https://youtu.be/AB9eYfJX44g)
9. O pesquisador tem que gostar de participar do debate e estar pronto para defender de forma saudável as suas ideias, opiniões e pontos de vista em ambientes colegiados. A ciência avança exatamente por conta do debate que se estabelece e é necessário que o pesquisador participe dele. (https://youtu.be/OjpWqTt0G0E , https://youtu.be/SGxLTrEoNDE)
10. O pesquisador precisa ser bom negociador para conduzir atividades conjuntas com parceiros, de forma que não abuse, mas também não seja explorado pelo relacionamento que se desenvolve. Encontrar o ponto certo de equilíbrio para o relacionamento é muito importante.
Enfim, como se vê, para viver da atividade de pesquisa é preciso ser estudioso, mas também bastante ativo e proativo. A ideia do pesquisador que fica numa sala ou laboratório trabalhando até que tenha uma ideia genial é uma caricatura que não existe. Defendida a tese de doutorado, é preciso muita energia para ir à luta.
Uma questão fundamental que se coloca para o bom professor é a compreensão de que a atividade de ensinar é também a atividade (e a oportunidade) de aprender. Essa compreensão é fundamental para que o professor desça do pedestal do indivíduo todo-poderoso, que tudo sabe e ilumina os estudantes, descendo para a arena em que ocorre o aprendizado e o compartilhamento do conhecimento. Aliás, todo professor é apenas um elo em uma longa e velha cadeia de transmissão do conhecimento, já que a maior parte do conhecimento compartilhado não foi gerado pelo professor, mas adquirido de outros estudantes e professores com os quais se relaciona.
O aprendizado do professor ocorre em vários níveis e oportunidades:
a) durante a preparação da aula, quando ocorre o aprendizado e fixação de novos e velhos conceitos e o desenvolvimento de uma estratégia de comunicação que torne a transmissão do conhecimento eficiente;
b) durante a resolução de exercícios, quando é dada ao professor a oportunidade de ele mesmo experimentar e fixar a lógica ensinada;
c) ao responder perguntas e curiosidades dos estudantes, que podem trazer questões novas e não dominadas pelo professor, que não deve se envergonhar de não ter uma resposta pronta, mas deve se esforçar para trazer uma resposta ou argumentação em uma próxima aula ou oportunidade;
d) durante o preparo de planos de estudo e investigação sobre questões propostas pelos estudantes ou por ele mesmo, durante a troca de informações;
e) durante o monitoramento do aprendizado dos estudantes, que deve aferir a compreensão da informação compartilhada e propor mudanças de estratégias de comunicação, caso se observe que a eficiência do aprendizado é baixa;
f) por meio do feedback trazido pelos estudantes, que pode ajudar a corrigir eventuais problemas de comunicação e deve ser sempre visto de forma positiva e construtiva;
g) principalmente por conta da troca de experiências que transbordam o conteúdo programático da disciplina, quando o professor é exposto a realidades distintas da sua e a experiências e conhecimentos que não necessariamente tinha.
A citação frequente a Paulo Freire diz que "quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender". O professor que ignora essa aparente obviedade não é professor, mas palestrante. Ou coach.
https://www.scielo.br/j/ea/a/QvgY7SD7XHW9gbW54RKWHcL/?lang=pt
À medida que vão sendo apresentados os dados consolidados da execução orçamentária do governo federal no ano de 2021, vai se confirmando o desastre da gestão das áreas de educação, ciência e pesquisa no Brasil. Por exemplo, os orçamentos do Ministério da Educação e do ensino superior foram os menores dos últimos dez anos. Além disso, a redução no orçamento das universidades federais foi de 60% em relação a 2014, sendo que no mesmo período o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação foi reduzido em 60%, sendo que em várias áreas o investimento em ciência e pesquisa caiu mais de 90%. O cenário só não foi pior porque a Lei Complementar 177/2021 impediu que o governo federal continuasse a contingenciar as verbas do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), constituídos por uma fração do faturamento de alguns setores estratégicos.
Pois bem, como se o cenário já não fosse suficientemente pavoroso, a perseguição continuada que o governo federal promove em relação às áreas de educação, ciência e pesquisa levou à publicação de uma medida provisória que pretende transformar verbas de pesquisa em sucata.
Para que você entenda, a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) instituiu por meio da Lei 9478/1997 a obrigação de que as empresas que operam poços de petróleo no Brasil destinem 1% do faturamento bruto a atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Em particular, metade desses recursos devem ser destinados a ICTs (Instituições de Ciência e Tecnologia). Esses recursos têm sido vitais para manter laboratórios e centros de pesquisa de todo o país em momento tão difícil da ciência nacional, especialmente por meio de parcerias realizadas com a Petrobras.
Pois bem, por meio da Medida Provisória 1112/2022 que tramita no Congresso Nacional, o governo federal instituiu o programa RENOVAR, para renovar a frota de caminhões do Brasil. Segundo essa medida, donos de caminhões com mais de 30 anos de idade (indivíduos ou empresas) podem ter acesso a um financiamento para comprar caminhões novos e destinar os caminhões velhos para o desmanche, para virarem sucata. Para fazer isso, de forma esdrúxula, o Artigo 12 dessa lei autoriza que as verbas de pesquisa da cláusula da ANP sejam usadas para esse fim.
A medida proposta pelo governo federal é absurda e faz proselitismo político com verbas da já combalida área de pesquisa. Se o programa é importante, deve ser financiado com verbas do Ministério da Economia, do Ministério da Infraestrutura, do Ministério das Minas e Energias ou de parte dos impostos pagos por empresas que produzem e vendem caminhões no Brasil, jamais com as verbas da pesquisa. Por isso, denuncie e ajude a derrubar essa medida provisória esdrúxula, que pretende transformar caminhões e laboratórios de pesquisa em sucata, usando para isso as próprias verbas da pesquisa.
Referências
https://globoplay.globo.com/v/10568842/
https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/04/24/gasto-com-educacao-recua-pelo-5o-ano-consecutivo-e-e-o-menor-em-dez-anos-mostra-levantamento.ghtml
https://anpocs.com/images/stories/boletim/anpocs_comunica/A4-CSArticuladas/2022-02-Boletim9-A4.pdf
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/leicom/2021/leicomplementar-177-12-janeiro-2021-790985-norma-pl.html
https://www.gov.br/anp/pt-br/assuntos/pesquisa-desenvolvimento-e-inovacao/investimentos-em-pd-i
https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/medida-provisoria-n-1.112-de-31-de-marco-de-2022-390279818
https://www.congressonacional.leg.br/materias/medidas-provisorias/-/mpv/152560
https://www.coppe.ufrj.br/pt-br/planeta-coppe-noticias/opiniao/mocao-conjunta-coppe/ufrj
Há duas práticas de pessoal e segurança adotadas por grandes empresas que eu aprecio muito. A primeira delas é uma prática de relacionamento e segurança que impõe que visitantes sejam expostos a um filme curto, com usualmente alguns minutos, antes de serem admitidos em instalações industriais e comerciais. O filme normalmente apresenta dados genéricos da empresa e descreve ações de segurança adotados no local visitado. Normalmente, no final do filme é feito um pequeno teste, para ver se o visitante fixou algumas medidas de segurança consideradas importantes pela instituição. A segunda é uma prática de pessoal que impõe que novos contratados façam uma espécie de curso, que pode durar algumas semanas, que apresenta os objetivos e grandes números da empresa, os principais serviços e produtos oferecidos, as estruturas física e organizacional da corporação, a missão e os valores do empreendimento, além de oferecer uma espécie de nivelamento a quem inicia a atividade. Ambas as práticas valorizam a missão institucional, reforçam o sentimento corporativo e estabelecem um canal formal de comunicação da empresa com aqueles indivíduos com os quais a instituição convive.
Dito isso, é preciso reconhecer que essas boas práticas de comunicação raramente são adotadas em instituições acadêmicas. O visitante, mas principalmente o servidor contratado e o estudante, raramente são expostos às informações institucionais de forma abrangente, de maneira que poucos, mesmo aqueles que trabalham na instituição por muitos anos, conhecem a estrutura dessas instituições e o que fazem. Dessa forma, a visão institucional é transmitida quase sempre por um interlocutor particular, que apresenta visão baseada em seu aprendizado pessoal, o que contribui com uma comunicação enviesada e fragmentada do todo. A inexistência de programas formais de treinamento e comunicação contribui com a fragmentação da universidade, em que servidores e estudantes se sentem usualmente apenas partícipes de um microambiente departamental ou laboratorial, ao invés de partícipes da instituição como um todo. Para piorar, esses microambientes departamentais e laboratoriais muitas vezes competem entre si, o que impede a formação de uma visão sinérgica das ações institucionais mais abrangentes.
Por essas razões, na minha opinião todos os visitantes, mas principalmente os novos servidores contratados e estudantes, deveriam ser expostos formalmente aos dados institucionais: grandes números, estruturas física e organizacional, missão e valores, principais linhas de pesquisa, cursos, forças, dentre outras informações relevantes. Servidores deveriam inclusive fazer um pequeno curso, como nas grandes empresas, antes de iniciarem suas atividades nos microambientes departamentais e laboratoriais da instituição. Não se trata de burocracia ou propaganda vazia, mas de apresentação formal da instituição e das formas possíveis de interagir com ela.
Pense aí com os seus botões: você conhece a instituição em que estuda ou trabalha, ou só o laboratório com o qual convive ?
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