A empresa QS divulgou a nova versão do seu ranking de melhores universidades do mundo. Esse ranking tem sido muito prestigiado por alguns, mas será que ele merece esse suposto prestígio ?
Para começar, a empresa QS atua no ramo de consultoria acadêmica e vende rankings, que são usados como peça publicitária para que a empresa convença o mercado de que conhece as universidades do mundo. A empresa vende inclusive serviços de formação e desenvolvimento de carreiras acadêmicas e conselhos sobre ações que devem ser tomadas pelas instituições para subirem em seus próprios rankings, o que pode ser contestado eticamente.
Além disso, vale a pena dissecar a metodologia usada pela empresa para definir a qualidade das universidades. Como visto a seguir, a metodologia usada é muito estranha.
O primeiro item da avaliação, concentrando 40% da nota, é um índice de reputação. Funciona mais ou menos assim: um entrevistador pergunta a um entrevistado o que ele acha da universidade XYZ. Você acha isso sério ? Inicialmente, esse critério é autorrealizável, pois uma instituição bem avaliada por um entrevistado se posiciona bem no ranking e passa a ser bem avaliada pelos demais por estar bem no ranking. Não há fundamento científico algum nesse procedimento. Além disso, a empresa diz que entrevistou 130 mil pessoas, o que parece bastante. Mas, considerando que 1300 universidades são avaliadas e que cerca de 50 cursos são ranqueados, chega-se à conclusão de que há na média cerca de duas entrevistas por cada curso de cada universidade, o que não é estatisticamente significativo. Além disso, por conta da dispersão dos dados, é provável que alguns cursos não tenham sido avaliados por ninguém, embora a empresa não se manifeste sobre o que acontece nesses casos. Nesse cenário, é provável que um mesmo entrevistado fale por diferentes cursos de diferentes universidades, o que é um absurdo, pois não é possível que alguém conheça bem cursos distintos de instituições diferentes. Finalmente, não há qualquer transparência sobre quem são os entrevistados e a existência de viés nessas avaliações.
O segundo item da avaliação, concentrando 10% da nota, é ... reputação de novo !!!! Agora por meio de entrevistas a empregadores de estudantes oriundos de diferentes instituições. Além de todos os problemas já apontados, o número de entrevistas é ainda menor (cerca da metade), tornando ainda mais grave o problema da significância estatística. E quem fala pelo empregador: o presidente, o gerente de RH ou o chefe do funcionário ? Não há qualquer transparência a esse respeito.
O terceiro item da avaliação, concentrando 20% da nota, é a razão professor / estudante; ou seja, para a empresa, quanto maior é o número de professores, melhor é a qualidade do ensino. Não há qualquer evidência científica de que isso seja verdade e a empresa ensina que para melhorar no ranking é suficiente contratar mais professores.
O quarto item da avaliação, concentrando 20% da nota, é o número de citações de docentes da instituição. O critério é absurdo, pois esse é um índice polêmico de qualidade da pesquisa que nada fala sobre a qualidade do ensino. Pense entre seus botões quem são os melhores professores do seu curso de graduação - são necessariamente aqueles com maiores números de citações ?
Finalmente, o quinto item da avaliação, concentrando 10% da nota, é o percentual de estrangeiros entre professores e alunos da instituição. Embora a internacionalização deva ser incentivada, esse índice nada tem de científico ou significativo. Segundo essa lógica, uma universidade chinesa no Brasil é melhor que a mesma universidade chinesa na China.
Enfim, vê-se que o tal prestigiado ranking QS nada mais é que um amontoado de abobrinhas, sem qualquer ...
[Para a descrição completa, bem como as referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube https://youtu.be/__ZsAMexiqw]