A notícia mais impactante e reveladora da semana na área de educação foi o anúncio de cortes de 35% no orçamento do FIES para 2022. O FIES é o fundo de financiamento estudantil usado por jovens carentes para que possam pagar as mensalidades dos cursos universitários que frequentam em universidades privadas. Devemos lembrar que 85% dos estudantes brasileiros matriculados em cursos universitários estudam em universidades privadas, ao contrário do que o senso comum parece acreditar.
O corte é revelador porque mostra que o processo de inclusão de jovens carentes nas universidades brasileiras está sendo interrompido, impedindo esses jovens de ingressarem nos mercados de trabalho que pagam os melhores salários e perenizando os baixos salários, a pobreza e a carência da sociedade brasileira. Se tomarmos o ano de 2018 como referência, os cortes do orçamento do FIES já atingem 70% nesse governo federal, equivalentes a cerca de 50% dos contratos. Se tomarmos o ano do pico (2014) como referência, os cortes já atingem a inacreditável marca de 95% dos contratos do FIES, o que dá uma medida da tragédia que ocorre na educação brasileira.
Alguns cínicos dizem que esses cortes decorrem do desinteresse pelo financiamento e pela educação, embora o aparente desinteresse seja oriundo da eterna crise econômica brasileira, que força jovens a abandonarem os estudos para poderem contribuir com o sustento das famílias, e do trabalho continuado de desvalorização da educação feito por esse governo federal.
Vale lembrar que hoje há 12 milhões de jovens com menos de 29 anos no Brasil que não estudam nem trabalham, e passam os dias a perambular por aí. Para podermos relativizar esse número, é conveniente dizer que os tamanhos das populações da Suíça, Portugal, Grécia e Bélgica são iguais a 9, 10, 11 e 12 milhões de pessoas. É como se uma Suíça inteira, um Portugal inteiro, uma Grécia inteira e uma Bélgica inteira estivessem em casa sem estudar ou trabalhar. É uma tragédia.
Nesse cenário pavoroso, o Ministro da Educação vem à televisão de forma eleitoreira e mentirosa para se gabar do aumento dado pelo governo federal aos professores. O ministro mente descaradamente porque foi autorizado o aumento de 33% do piso salarial, que incide apenas sobre os salários dos profissionais que ganham muito pouco, o que, embora seja importante, não é o mesmo que dizer que os salários dos professores foram aumentados. Além disso, o Ministro não informou que a correção é imposta por lei, vinculada à arrecadação do FUNDEB e do ICMS nos estados, nada tendo a ver com alguma decisão magnânima do governo federal. Finalmente, o Ministro escondeu que o governo federal pensou emitir Medida Provisória para barrar o aumento do piso e lutou até o último minuto contra o FUNDEB. Portanto, a fala do Ministro foi exercício de mau-caratismo puro, gabando-se do que combateram e ainda não conseguiram destruir.
O que ocorre na educação brasileira é uma grande tragédia. Infelizmente, o Brasil vai pagar a conta, comprometendo o seu futuro.
https://g1.globo.com/educacao/noticia/2022/02/03/diante-de-vagas-ociosas-fies-tera-orcamento-35percent-menor-para-2022.ghtml
https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/01/27/mec-oficializa-piso-de-r-3845-para-professores-da-educacao-basica.ghtml
https://www.cartacapital.com.br/educacao/especialistas-acusam-bolsonaro-de-politizar-o-piso-salarial-de-professores-reajuste-esta-previsto-em-lei/
https://exame.com/brasil/no-brasil-12-milhoes-de-jovens-nao-estudam-nem-trabalham/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_pa%C3%ADses_por_popula%C3%A7%C3%A3o
https://www.youtube.com/watch?v=s64I4X1C2tA
https://www.youtube.com/watch?v=O9kdTNjMx_U