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Não cabe muita polêmica nem discussão: o inglês é a língua oficial adotada em todo o mundo para desenvolver atividades de pesquisa e investigação científica. Por isso, se você pretende desenvolver uma carreira de pesquisa, é preciso dominar o inglês técnico e instrumental. O inglês é a língua oficial dos artigos científicos publicados em periódicos de circulação internacional; das patentes depositadas em países estrangeiros; dos congressos e workshops internacionais; das reuniões técnicas, atividades de consultoria e parcerias conduzidas com instituições estrangeiras e mesmo no Brasil; e é fundamental para dar acesso a boas oportunidades de emprego. Por isso, para alavancar a carreira é necessário enfrentar o desafio de estudar e aprender inglês.
É verdade que o aprendizado de outras línguas, como francês, alemão, mandarim e, particularmente na América Latina, espanhol, pode ser muito útil para uma carreira científica. Mas também é verdade que nenhuma dessas línguas vai afetar tanto a sua carreira como a língua inglesa.
Infelizmente nós brasileiros em geral falamos muito mal as línguas estrangeiras. Isso ocorre porque o país é muito grande, muito uniforme (falamos português do Oiapoque ao Chuí), não há muitos estrangeiros vivendo e trabalhando no Brasil e o ensino de línguas no ensino fundamental é muito ruim. Por essas razões, precisamos de esforço e estímulo extras para nos dedicarmos a esse aprendizado e ao uso das línguas estrangeiras no país. Por exemplo, algumas universidades brasileiras (em consonância com a prática de outros países) permitem a redação de teses de mestrado e doutorado em língua inglesa e você deve considerar essa possibilidade como oportunidade para treinar o uso da língua. Além disso, alguns grupos costumam manter atividades periódicas em língua inglesa para treinar os estudantes e acostumá-los à rotina de ouvir e falar línguas estrangeiras. Participe ativamente e ajude a organizar essas atividades.
Algumas dicas podem ser também muito úteis para o desenvolvimento de habilidades em inglês no dia-a-dia, como discutido a seguir.
1- Procure escrever diretamente em inglês, ao invés de escrever em português primeiro e traduzir depois. O inglês não é falado exatamente da mesma forma que o português, de maneira que o hábito da tradução transporta vícios da língua portuguesa para o inglês de forma equivocada.
2- Procure ouvir a pronúncia dos textos que você escreve com o auxílio de aplicativos, como os disponíveis no Google. Isso pode ser muito importante para que você se acostume com a sonoridade da língua.
3- Use corretores de inglês, como o Grammarly, No entanto, não aceite simplesmente as sugestões propostas. Procure estudar as sugestões e entender por que as sugestões foram feitas, adotando-as no uso habitual que você faz da língua.
4- Reserve cerca de 30 minutos diários para ouvir vídeos e reportagens em inglês, veiculados por órgãos de imprensa ou por divulgadores de ciência, para aprender palavras novas e manter o cérebro lubrificado com o uso da língua.
5- Procure fazer um intercâmbio de 6 meses em uma instituição estrangeira, para que possa fazer uma imersão na língua inglesa sem o apoio do português.
Procure naturalizar o uso diário da língua inglesa para alavancar a sua carreira de pesquisa. E enfrente o fantasma da língua estrangeira com alegria.
Apesar de ter sido pouco comentada, o Governo Federal publicou no dia 09 de fevereiro de 2022 a Portaria 667/2022 com as prioridades legislativas para o ano de 2022. Como pode ser imaginado, na lista encontra-se mais do mesmo: pauta de costumes, impostos, lei do veneno no campo, desregulamentação ambiental, mineração em terras indígenas e, claro, a obsessão desse governo, que é a posse de armas e os pseudo-direitos de CACs (caçadores, atiradores esportivos e colecionadores), como aqueles que estão vendendo armas a rodo para milicianos e traficantes no Brasil, como todos já podiam imaginar. Nessa lista não há uma linha sequer dedicada aos temas da ciência, tecnologia e inovação; ou seja, a pauta urgente é o atraso.
Como contraponto, nessa mesma semana foram veiculadas várias notícias importantes relacionadas ao desmonte das áreas de ciência, tecnologia e inovação em marcha no Brasil. Por exemplo, o INPI (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual) anunciou que terá que fechar as portas até maio se o seu orçamento não for recomposto, tendo em vista que foi cortado pela metade no ano de 2022, a despeito do discurso de apoio à inovação, que sabemos todos que é uma balela. Além disso, foi anunciado que o Brasil corre o risco de ficar fora do consórcio do CERN (Conselho Europeu de Pesquisas Nucleares), que desenvolve pesquisas multilaterais com vários países do mundo, por falta de pagamento. Se não bastasse, começaram a circular números que mostram uma queda de 20% no número de teses de mestrado e doutorado defendidas no Brasil em 2020, fato inédito desde a criação do sistema de pós-graduação brasileiro. Esperam-se números desoladores para 2021.
Como vemos, a pauta é o atraso e os resultados já estão sendo colhidos, até porque é muito fácil destruir as áreas de ciência, tecnologia e inovação: basta deixar estudantes e pesquisadores irem embora e deixar os laboratórios ficarem obsoletos, que é exatamente o que faz o atual Governo Federal.
Vemos assim que precisamos virar essa página da história do Brasil com urgência. Ou então tratarmos de cumprir de forma profética o que escreveu Chico Buarque de Holanda em 1973 na obra "Fado Tropical":
"Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial"
Referências:
https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-667-de-9-de-fevereiro-de-2022-379226707
https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/02/13/exclusivo-armas-compradas-legalmente-vao-parar-nas-maos-de-criminosos-aponta-levantamento.ghtml
https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2022/01/25/operacao-apreende-26-fuzis-enviados-por-colecionador-para-o-trafico-no-rj.htm
https://www.portalintelectual.com.br/corte-de-verbas-do-inpi-pode-provocar-colapso-no-registro-de-marcas-e-patentes/
https://oglobo.globo.com/economia/corte-de-verbas-do-inpi-pode-provocar-colapso-no-registro-de-marcas-patentes-25386261
https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/02/11/um-boleto-nao-pago-pode-levar-o-brasil-a-um-vexame-internacional.ghtml
https://geocapes.capes.gov.br/geocapes/
https://www.youtube.com/watch?v=NfjaFMah7sE
Um aspecto que pode ser muito prejudicial ao processo de construção de uma argumentação técnica e ao desenvolvimento do trabalho de investigação científica é o chamado viés de positividade. O viés de positividade pode ser definido de forma simplificada como a expectativa de que uma determinada solução técnica, abordagem analítica ou construção teórica é necessariamente melhor que as demais, independentemente do contexto que esteja sendo analisado.
Por exemplo, a ideia de que um evento ou produto natural é bom e faz bem ao ser humano e à sociedade é equivocada e constitui mero viés de positividade. Veja que a cicuta é natural e mata. Da mesma forma, muitos microrganismos causam doenças graves, epidemias e matam, causando prejuízos e sofrimento, a despeito de serem naturais. Em outro contexto, as enchentes na Bahia e Minas Gerais no final do ano e a explosão do vulcão em Tonga causaram grandes prejuízos, sofrimento e mortes, embora sejam também eventos naturais. A verdade é que a natureza nos ameaça todo o tempo e não há qualquer garantia de que algo seja bom ou faça bem apenas porque é natural. Essa ideia é apenas resultado de viés de positividade, embora seja prevalente em discussões técnicas e em reportagens e textos veiculados pela imprensa.
O viés de positividade pode estar associado a várias razões. Por exemplo, pode resultar de interesses políticos e econômicos, como no caso do bordão da Globo "Agro é tech, agro é pop, agro é tudo", quando agro não é tudo e quando a atividade agrícola pode ser muito prejudicial ao desmatar a Amazônia e espalhar agrotóxicos no ambiente para plantar soja. Pode resultar também de posicionamento ideológico, como na ideia de que o ser humano se afastou da natureza e precisa voltar a viver como seus antepassados, esquecendo que o desenvolvimento tecnológico é responsável pelo aumento da expectativa de vida e pela melhora do bem-estar das populações. Pode ainda resultar da superficialidade técnica e do desconhecimento dos aspectos técnicos e científicos que fundamentam uma aplicação. Em todos esses casos, no entanto, o viés de positividade pode induzir o desenvolvimento de um processo de tomada de decisões que pode eventualmente ser inclusive prejudicial ao ser humano e à sociedade em que vivemos.
Um exemplo clássico desse processo está relacionado à suposta vantagem dos carros elétricos em relação aos carros movidos por combustíveis fósseis. Contudo, a maior parte das pessoas ignora que a eletricidade não nasce na tomada e que a energia elétrica é gerada na maior parte do mundo pela queima de gás, de óleo combustível e de carvão, ou por meio da geração de reações nucleares. E aí ? Além disso, a maior parte das baterias faz uso da tecnologia do lítio, que é um metal em extinção e cuja mineração é muito agressiva social e ambientalmente. E aí ? Se a gasolina for então substituída pelo álcool, será necessário plantas cana, destruir ecossistemas e espalhar agrotóxicos no ambiente. E aí ?
Meu objetivo aqui não é tomar partido de uma tecnologia em particular, mas mostrar que o viés de positividade pode não resistir à formulação de algumas boas perguntas, que precisam ser avaliadas e respondidas de forma tecnicamente bem embasada. Por isso, não se deixe aprisionar pelo viés de positividade. Dessa forma, procure comparar sempre a solução que você está propondo com outras soluções alternativas, para que eventuais diferenças e desvantagens possam ser identificadas e constituam motivos para o desenvolvimento de trabalhos de investigação que visem ao aprimoramento dessas mesmas ideias e tecnologias a elas relacionadas.
Referências:
https://www.youtube.com/watch?v=r3hcgr8gQiM
https://www.infomet.com.br/site/noticias-mobile-ler.php?org=&rs=&cod=65182
https://www.greenme.com.br/locomover-se/carro/89511-extracao-de-litio/
Como já discutido em vídeo anterior do canal, o filme "Não Olhe para Cima", de Adam McKay, é um filmaço que trata do relacionamento entre o mundo da ciência e da pesquisa com a sociedade moderna. Se você faz ou gosta de ciência e pesquisa, você precisa ver esse filme. Confesso que já vi o filme algumas vezes, para fazer o exercício de identificar as críticas bem humoradas e pertinentes, na maior parte das vezes desfavoráveis aos pesquisadores, que são feitas à vida acadêmica. Fui capaz de identificar mais de 30 questões relevantes para discussão (ou uma questão a cada 4 minutos) e sugiro que outros colegas façam o mesmo, para identificarem os respectivos graus de envolvimento crítico com polêmicas relacionadas ao mundo acadêmico em que vivemos.
De forma nada surpreendente, no dia 08 de fevereiro de 2022 o filme "Não Olhe para Cima" foi anunciado como um dos candidatos ao Oscar de melhor filme de 2022, suscitando enorme debate na internet e nos sites especializados em filmes e cinema. A razão para esse debate é simples: o filme denuncia de forma bem humorada e crítica a estupidez do negacionismo e da transformação do debate científico em debate político e ideológico. Nesse sentido, o filme é inclusive profético, pois provoca no mundo real o mesmo debate que analisa ao longo das duas horas da história.
A argumentação usada mais frequentemente pelos que criticam a indicação do filme para o Oscar está baseada no número de "likes" que o filme tem recebido em redes sociais e sites de cinema, quando comparado a seus competidores. Na verdade, essa crítica reforça outro ponto debatido pelo filme, que é a relevância da opinião pública para o debate técnico e científico. Cabe dizer que o filme foi objeto de campanhas de grupos negacionistas, para que usuários de sites de internet avaliassem mal o filme, por conta das críticas levantadas em relação ao comportamento desses mesmos grupos.
Por outro lado, a imprensa analisa e estimula esse suporto debate com finalidade apenas de entreter o público, sem qualquer compromisso com qualquer tipo de verdade que o filme possa discutir, de forma também analisada na história de forma crítica e mordaz.
Enfim, o fato é que a vida acadêmica vai para a cerimônia do Oscar de 2022 e suscita no mundo real grande discussão. Contudo, como um bom trabalho científico, o filme não precisa do prêmio para nada, porque já é antológico. Aliás, como uma boa proposta teórica, o filme acaba provocando no mundo real acontecimentos que confirmam as teses formuladas ao longo da história. Assim, "Não Olhe para Cima" continua ensinando muito sobre a vida acadêmica e você deve continuar acompanhando essa história.
Referências:
https://www.youtube.com/watch?v=d6XQLD4WOWI
https://observatoriodocinema.uol.com.br/filmes/2022/02/fas-nao-entendem-indicacao-de-filme-da-netflix-ao-oscar-2022
https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/12/27/nao-olhe-para-cima.htm
Preparamo-nos para o início do ano acadêmico de 2022 na pós-graduação, quando se completam incríveis 9 anos de congelamento dos valores das bolsas oferecidas pelas agências federais de fomento, em particular a CAPES e o CNPq. Nesse período, a inflação acumulada foi igual a 115%, segundo o IGP-M, e 70%, segundo o IPCA. Portanto, é correto dizer que o valor das bolsas caiu à metade durante esse período.
É preciso lembrar que a bolsa não é um benefício oferecido a alguém que só estuda. Em verdade, a pesquisa de ponta é feita de forma praticamente integral pelos pós-graduandos, que fazem praticamente toda a pesquisa que se realiza no Brasil. Portanto, além de muito bem formados, os bolsistas trabalham de fato. Os professores em geral são os coordenadores das pesquisas, mas não são responsáveis pela execução dos trabalhos do dia-a-dia, embora sejam as pessoas que recebam os louros pelos trabalhos executados e sejam os entrevistados nos programas de televisão, como magistralmente abordado no recente filme "Não Olhe para Cima".
A situação é crítica e faz parte do processo de esvaziamento da pós-graduação brasileira, já que a redução do número e do valor das bolsas torna a pós-graduação pouco atraente para o jovem que deixa a graduação. Além disso, os valores das bolsas praticados atualmente tornam praticamente inviável que um jovem deixe o suporte da família e de dirija a uma metrópole brasileira para fazer pós-graduação, onde terá que pagar aluguel, transporte, alimentação e manter as atividades de ensino. Por isso, não surpreende que as inscrições para cursos de pós-graduação estejam despencando em todo o país e que comecem a faltar pesquisadores para executar os projetos de pesquisa que o país demanda.
Como forma de combater esse processo, algumas fundações estaduais de apoio têm prometido aumentar os valores das bolsas por conta própria, como em Minas Gerais, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Contundo, o aumento prometido de 20 a 25%, embora bem vindo, é muito pequeno diante do quadro inflacionário apresentado anteriormente.
Até por conta disso, algumas agências de estados mais ricos, como a FAPESP em São Paulo, têm procurado manter valores de bolsas sistematicamente acima dos valores praticados por CAPES e CNPq. O mesmo ocorre com agências reguladoras nos projetos que apoiam, como no caso da ANP. No entanto, esse movimento é ruim para o país, porque aumenta as diferenças regionais, aumentando o fluxo de pesquisadores para o estado de São Paulo, e porque reduz a diversidade temática da pesquisa brasileira, incentivando a concentração da pesquisa em torno do tema do petróleo, por exemplo.
É preciso que a comunidade acadêmica se una em torno desse tema, como forma de evitar o desarranjo completo da pesquisa brasileira e valorizar o importante trabalho feito pelos pós-graduandos para a ciência do Brasil.
Referências:
https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/exibirFormCorrecaoValores.do?method=exibirFormCorrecaoValores
https://educacao.uol.com.br/noticias/agencia-estado/2022/01/04/sem-reajuste-em-bolsa-de-pesquisa-federal-fundacoes-estaduais-aumentam-auxilio.htm
A notícia mais impactante e reveladora da semana na área de educação foi o anúncio de cortes de 35% no orçamento do FIES para 2022. O FIES é o fundo de financiamento estudantil usado por jovens carentes para que possam pagar as mensalidades dos cursos universitários que frequentam em universidades privadas. Devemos lembrar que 85% dos estudantes brasileiros matriculados em cursos universitários estudam em universidades privadas, ao contrário do que o senso comum parece acreditar.
O corte é revelador porque mostra que o processo de inclusão de jovens carentes nas universidades brasileiras está sendo interrompido, impedindo esses jovens de ingressarem nos mercados de trabalho que pagam os melhores salários e perenizando os baixos salários, a pobreza e a carência da sociedade brasileira. Se tomarmos o ano de 2018 como referência, os cortes do orçamento do FIES já atingem 70% nesse governo federal, equivalentes a cerca de 50% dos contratos. Se tomarmos o ano do pico (2014) como referência, os cortes já atingem a inacreditável marca de 95% dos contratos do FIES, o que dá uma medida da tragédia que ocorre na educação brasileira.
Alguns cínicos dizem que esses cortes decorrem do desinteresse pelo financiamento e pela educação, embora o aparente desinteresse seja oriundo da eterna crise econômica brasileira, que força jovens a abandonarem os estudos para poderem contribuir com o sustento das famílias, e do trabalho continuado de desvalorização da educação feito por esse governo federal.
Vale lembrar que hoje há 12 milhões de jovens com menos de 29 anos no Brasil que não estudam nem trabalham, e passam os dias a perambular por aí. Para podermos relativizar esse número, é conveniente dizer que os tamanhos das populações da Suíça, Portugal, Grécia e Bélgica são iguais a 9, 10, 11 e 12 milhões de pessoas. É como se uma Suíça inteira, um Portugal inteiro, uma Grécia inteira e uma Bélgica inteira estivessem em casa sem estudar ou trabalhar. É uma tragédia.
Nesse cenário pavoroso, o Ministro da Educação vem à televisão de forma eleitoreira e mentirosa para se gabar do aumento dado pelo governo federal aos professores. O ministro mente descaradamente porque foi autorizado o aumento de 33% do piso salarial, que incide apenas sobre os salários dos profissionais que ganham muito pouco, o que, embora seja importante, não é o mesmo que dizer que os salários dos professores foram aumentados. Além disso, o Ministro não informou que a correção é imposta por lei, vinculada à arrecadação do FUNDEB e do ICMS nos estados, nada tendo a ver com alguma decisão magnânima do governo federal. Finalmente, o Ministro escondeu que o governo federal pensou emitir Medida Provisória para barrar o aumento do piso e lutou até o último minuto contra o FUNDEB. Portanto, a fala do Ministro foi exercício de mau-caratismo puro, gabando-se do que combateram e ainda não conseguiram destruir.
O que ocorre na educação brasileira é uma grande tragédia. Infelizmente, o Brasil vai pagar a conta, comprometendo o seu futuro.
Referências:
https://g1.globo.com/educacao/noticia/2022/02/03/diante-de-vagas-ociosas-fies-tera-orcamento-35percent-menor-para-2022.ghtml
https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/01/27/mec-oficializa-piso-de-r-3845-para-professores-da-educacao-basica.ghtml
https://www.cartacapital.com.br/educacao/especialistas-acusam-bolsonaro-de-politizar-o-piso-salarial-de-professores-reajuste-esta-previsto-em-lei/
https://exame.com/brasil/no-brasil-12-milhoes-de-jovens-nao-estudam-nem-trabalham/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_pa%C3%ADses_por_popula%C3%A7%C3%A3o
https://www.youtube.com/watch?v=s64I4X1C2tA
https://www.youtube.com/watch?v=O9kdTNjMx_U
No dia 01/02/2022 ocorreu um acidente na linha em construção do metrô de São Paulo que resultou na abertura de uma cratera na Marginal Tietê e no colapso de uma linha de coleta e distribuição de esgoto, o que está causando muitos transtornos para os paulistanos, felizmente sem ter causado vítimas fatais. Ainda é cedo para apontar as causas do acidente, mas tudo indica que o tatuzão usado para abrir os túneis do metrô não respeitou a distância mínima de segurança de 20 m para linhas de coleta e distribuição de águas e calhas de rios subterrâneos.
Independentemente do que tenha ocorrido, a Teoria dos Acidentes indica que um acidente quase sempre resulta de uma sequência de falhas operacionais e más decisões que ocorrem em cadeia e levam ao evento indesejado, frequentemente desobedecendo normas de segurança. Aliás, trabalhadores da área de segurança são normalmente muito contestados e desrespeitados porque suas recomendações em geral aumentam os custos das operações, estendem o tempo de execução dos projetos e frequentemente contestam propostas de indivíduos situados em posições hierarquicamente superiores das instituições para as quais trabalham.
É bom enfatizar que um bom trabalho de segurança é aquele em que nada acontece para relatar, o que causa a falsa impressão de que o trabalho é desnecessário. Por exemplo, um extintor é comprado e instalado para não ser usado. O uso do extintor indica a ocorrência de um evento indesejado, que pode deixar prejuízos muito maiores que os da compra do extintor e demandar tempo de paralização e reconstrução muito maior que o do processo de compra e instalação do extintor.
Estranhamente, a sociedade prefere em geral investir na remediação de problemas, ao invés da prevenção de problemas. Essa é a lógica, por exemplo, da saúde pública, que investe principalmente na cura (certamente necessária) de doenças, ao invés da prevenção de doenças em indivíduos saudáveis, o que pode resultar em significativa redução dos casos de tratamento hospitalar.
Enfim, no laboratório, identifique o tatuzão presente e não pague para ver. Estude e respeite as normas de segurança. Como diz o ditado popular, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém.
Referências:
https://www.seesp.org.br/site/index.php/comunicacao/noticias/item/20880-fiscalizacao-e-solucoes-de-engenharia-poderiam-evitar-acidente-em-obra-do-metro
https://trabalhoepsicologia.com.br/2019/09/11/modelo-de-cadeia-de-eventos-para-gerenciamento-de-seguranca-abordagem-de-analise-de-dados/
https://saude.abril.com.br/medicina/o-mundo-esta-focado-em-curar-doencas-em-vez-de-preveni-las/
Reportagem veiculada pela CNN no dia 27/01/2022 revela que o número de depósitos de patentes no Brasil em 2021 foi menor do que no ano anterior, o que vem sendo repetido de forma sistemática desde o ano de 2013. O dado é relevante porque reforça o caráter pouco inovador da economia brasileira e mostra que a situação vem se agravando para aqueles que trabalham com produtos, processos e serviços baseados no conhecimento no Brasil.
As razões que explicam a queda sistemática do número de depósitos de patentes no Brasil são várias. Em primeiro lugar, o número resulta do processo de simplificação e desindustrialização da economia brasileira, o que precisa ser combatido com urgência. Em segundo lugar, o número reflete a redução expressiva dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no Brasil, em particular por esse Governo Federal. Em terceiro lugar, o número resulta de deformações da área de CT&I no Brasil, como a concentração excessiva dos depósitos de patentes nas universidades públicas e a baixíssima participação do setor privado no esforço de modernização da economia brasileira.
Gostaria também de reforçar dois pontos importantes associados à queda do número de depósitos de patentes, que pode surpreender algumas pessoas por conta do discurso oficial de apoio às atividades de inovação e empreendedorismo por parte de políticos e gestores de CT&I no Brasil. Primeiramente é necessário dizer que esse discurso é usado de forma oportunista por esses indivíduos, para parecerem modernos e antenados com o desenvolvimento, quando não entendem nada do assunto e usam o tema apenas para atender seus objetivos políticos imediatos. Além disso, o discurso é voluntarista, pois não está baseado em um projeto nacional de ciência, tecnologia e inovação e ignora que não é possível fazer inovação ou empreender com base no conhecimento sem que se fomente toda a cadeia do conhecimento, a pós-graduação e a formação de recursos humanos.
Imagine que um indivíduo queira ir do Rio de Janeiro a Salvador, mas que por isso resolva investir apenas nos últimos 100 km da estrada. Será que ele conseguirá sair do lugar ? O processo de inovação e empreendedorismo baseado no conhecimento resulta de um longo processo de transferência e aprimoramento do saber que começa nos laboratórios. Sem isso, faz-se inovação incremental e pouco impactante, que leva a pequenas melhorias de produtos, processos e serviços baseada em conhecimento já disponível, importante, mas incapaz de revolucionar a economia nacional. Além disso, o empreendedor que usa o conhecimento para empreender precisa por óbvio do conhecimento, de maneira que não é possível fomentar negócios baseados no saber sem que se fomente a formação dos indivíduos e a pós-graduação. Caso contrário, o empreendedor desse negócio é investidor e continuará dependendo do inventor para criar o negócio disruptivo.
Como os números da CNN mostram, o discurso oficial de apoio à inovação e ao empreendedorismo no Brasil é raso, inconsequente e oportunista apenas. Precisamos de políticos, gestores e políticas públicas que de fato apoiem a economia baseada no conhecimento do país, para a modernização e desenvolvimento necessários do Brasil.
Referências:
Você já teve a experiência de submeter uma proposta a um edital publicado por uma agência de fomento e obter como resposta que o seu projeto foi aprovado no mérito, mas que não obteve classificação para ser merecedor do financiamento ? Pois é ... Bem comum ... Mas será que isso está certo ?
Suponha que você fez o concurso para uma vaga na Petrobras e obteve como resposta que você foi aprovado, mas não obteve classificação necessária para pleitear a vaga. O que você faria nesse caso ? Aliás, você já viu o tamanho do edital de seleção da Petrobras ? E se você tivesse feito o ENEM e pleiteasse uma vaga em uma universidade e obtivesse como resposta que você foi aprovado, mas que não deu para ser selecionado, sem que você saiba quantos pontos você fez e quantos pontos os aprovados fizeram. O que você faria nesse caso ?
A verdade é que o procedimento adotado por agências de fomento está errado e precisa mudar por uma série de razões. Primeiramente porque se trata de distribuição de dinheiro público, de forma que toda transparência precisa ser dada ao processo e aos critérios usados. Em segundo lugar porque o proponente tem o direito de saber onde foi bem e onde foi mal na avaliação, até para que possa melhorar em uma chamada futura. Em terceiro lugar porque os pareceres deveriam ser públicos. E em quarto lugar porque a apresentação da lista de aprovados não é suficiente, se não for acompanhada dos pontos que permitam que cada proponente não aprovado compare seu desempenho aos dos demais.
Parte do problema é que as agências de fomento temem a burocratização excessiva do processo e a judicialização dos resultados. No entanto, eu fico particularmente surpreso que a judicialização ainda não tenha ocorrido, o que acredito que se deva ao fato de que o questionamento judicial de resultados toma tempo e custa dinheiro. Além disso, parte significativa da comunidade teme que seja perseguida em oportunidades futuras, caso o questionamento judicial seja feito.
Esse ponto é importante, porque é preciso reconhecer que o processo de avaliação usado pode ser muito justo, mas abre oportunidades para manipulações políticas, para a perseguição de indivíduos por desafetos e dificulta a correção de injustiças, pois é muito difícil recorrer com base no parecer padrão. Vai ser questionado o quê ? Que um aprovado não deveria ser aprovado ou que um não classificado mereceria melhor sorte ? Em que bases, se pontuações e pareceres não são tornados públicos ?
Aliás, como sabe qualquer editor de revistas científicas, é muito difícil obter pareceres técnicos, que frequentemente não são homogêneos nem em quantidade em qualidade. Por exemplo, se um projeto recebe dois pareceres, um de que é excelente e outro de que é péssimo, qual é a avaliação do projeto ? De que é médio ? Podem os dois pareceres estar certos ao mesmo tempo ? E se uma proposta recebe um parecer excelente enquanto outra recebe três pareceres, dois excelentes e um péssimo ? Qual é a melhor proposta nesse caso ? E se não houver parecer algum ?
A verdade é que o sistema de avaliação de propostas por agências de fomento precisa mudar e ter mais transparência. Ou dia desses alguém que não teme perseguições futuras e tem tempo e dinheiro para lidar com o processo vai judicializar o sistema, para prejuízo de todos. É só esperar.
Esse episódio ocorreu no início dos anos 2000. Eu estava um dia trabalhando em minha sala na Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando me dei conta de repente da visita surpresa de meu pai, que se encontrava em pé na porta da minha sala. Naquele momento, meu pai morava e trabalhava na Bahia, prestando serviços como engenheiro eletrônico para uma empresa que fazia projetos e manutenção de sistemas de controle industrial. Meu pai veio ao Rio de Janeiro prestar serviços a uma empresa local e aproveitou para me fazer essa visita surpresa.
Tratava-se de um momento especial, pois meu pai esteve poucas vezes na universidade comigo. Lembro que veio para a minha defesa de tese de doutorado, visitou-me nesse dia que descrevo nesse texto e voltou à universidade muitos anos depois, quando já morava comigo, para umas visitas guiadas ao laboratório. Por isso, levantei-me surpreso, dei um beijo em meu pai e convidei-o a se sentar um pouco, enquanto me aguardava terminar algum documento burocrático que precisava entregar à secretaria naquela manhã.
Alguns minutos depois, meu pai ficou entediado e disse que me aguardaria lá fora, em um dos muitos quiosques que existem nos corredores do Centro de Tecnologia da UFRJ. Assim que terminei o documento, fui ao encontro dele para tomarmos um café. Foi então que ele me perguntou se eu passava assim os meus dias à frente do computador. Expliquei que não, mas que quando eu não estava dando aulas ou em reuniões, de fato eu passava muito tempo no computador redigindo e corrigindo textos e lendo, respondendo e escrevendo e-mails. Aí ele me fez uma das perguntas mais engraçadas da minha carreira, da qual me recordo bem até hoje: "Quer dizer que você não tem oportunidades para colocar um equipamento em funcionamento, consertar uma válvula quebrada nem se sujar de graxa ?". Respondi que de fato esses eventos eram relativamente raros no laboratório e percebi que ele ficou desapontado com a resposta. Fomos então visitar os laboratórios.
Meu pai era um engenheiro brilhante, mas dependia e amava a dinâmica e a adrenalina do ambiente de produção industrial. Ele morreria de tédio se tivesse que executar o trabalho que eu faço e amo. E aí é que eu queria chegar: apesar de muitas vezes sermos aparentemente parecidos, o fato é que somos todos muito diferentes uns dos outros. Por isso, é muito difícil dar conselhos absolutos sobre os caminhos profissionais que alguém deve seguir. As experiências de terceiros são obviamente úteis para construirmos os nossos pontos de vista, mas dificilmente constituem um modelo que devemos seguir, porque somos indivíduos únicos. Dessa forma, pense onde você quer estar daqui a dez anos e em que atividades de fato fazem você feliz. Procure dar passos nessa direção e entenda que sua trajetória profissional, assim como a minha, será única. Viva a diferença e procure ser feliz.
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