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Pode ser muito interessante para pesquisadores e pessoas envolvidas com os temas da ciência e da educação estudar a história milenar das universidades, para entendermos de onde viemos e para onde vamos.
A história milenar das universidades começa na Antiguidade, com o florescimento dos centros de estudos no Egito, Mesopotâmia, Grécia, Roma, Índia, China e outros países do Oriente. Esses centros, no entanto, não tinham exatamente a função de ensinar ofícios e formar profissionais, mas se organizavam em torno de sábios, em geral patrocinados por reis, pessoas ricas ou instituições religiosas para aprofundar os conhecimentos em áreas particulares de interesse.
A universidade institucionalizada e organizada com o objetivo de ensinar ofícios em diferentes áreas do conhecimento surgiu na Idade Média, na Europa, e é consensual que a primeira universidade formada com esses moldes foi a Universidade de Bolonha, no ano de 1088. Esse tipo de universidade surgiu com o crescimento das cidades e se espalhou pela Europa, sendo um dos motores do Renascimento que ocorreria alguns séculos depois, por conta do interesse despertado pelo conhecimento, em particular pelos clássicos.
No entanto, foi no século XIX que ocorreu uma verdadeira revolução na instituição universitária, por conta do trabalho realizado por Wilhelm von Humboldt à frente do Ministério da Educação do então Reino da Prússia, hoje Alemanha. Humboldt instituiu parâmetros para a educação ainda adotados em boa parte do mundo hoje, como a separação entre o Estado e a religião, a fundamentação do ensino em três níveis (ensinos fundamental, médio e universitário) e a compreensão de que o ensino e a pesquisa são indissociáveis. Por conta de sua formação e curiosidade científicas, Humboldt compreendeu que o estudante deveria não apenas ser informado sobre os conhecimentos existentes pelo professor, mas também ensinado a gerar o próprio conhecimento de que pudesse necessitar. Humboldt acreditava que saber era poder e que o aprendizado libertava, de forma que a pesquisa de Humboldt era uma atividade que libertava o indivíduo.
A universidade produtivista que conhecemos hoje, no entanto, surgiu na década de 1950 nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo. Não é exagero afirmar que essa universidade moderna é produto da bomba lançada sobre o Japão, quando os estados nacionais compreenderam a corrida tecnológica como uma corrida de poder geopolítico e econômico. Por isso, começaram a surgir sistemas de premiações dos pesquisadores mais produtivos, transformando os professores em operários da corrida tecnológica. Posteriormente o modelo foi ainda aperfeiçoado, transformando o pesquisador também em responsável pela captação dos recursos que ele mesmo deve usar para se manter produtivo nessa cadeia, sob pena de ser expelido do mecanismo gerado para produção do conhecimento.
Como vemos, os modelos de universidade mudaram ao longo dos milênios e continuarão mudando nos próximos anos. Por exemplo, a crise pandêmica mostra que o mundo virtual será mais importante para conduzir as atividades de ensino e pesquisa no futuro próximo. No entanto, o modelo produtivista de hoje é relativamente recente na história da humanidade e precisa ser questionado profundamente, pois retirou o lado humano do trabalho do pesquisador, transformando-o numa simples engrenagem em um jogo de poder.
Por tudo isso, os jovens pesquisadores devem procurar estudar a história das universidades, para que compreendam melhor seus papéis no mundo e possam construir carreiras mais saudáveis e profícuas.
Referências:
Vivemos realmente tempos surreais na educação e na ciência brasileiras. Em função da confusão em que se meteu a pós-graduação no Brasil, e por conta da gestão caótica que se faz na educação e na CAPES em particular, cerca de 80 coordenadores e conselheiros de áreas temáticas de avaliação pediram renúncia coletiva nas últimas semanas. Primeiramente foi a área de Física e Astronomia, depois a área de Matemática, Probabilidade e Estatística e por último a área de Química. Os argumentos que suportam as renúncias são a falta de comprometimento da CAPES com o processo de avaliação quadrienal, a pressão para a aprovação dos cursos de pós-graduação a distância (que interessam principalmente às universidades privadas) e aos muitos desmandos com os quais temos convivido nos últimos tempos.
Em evento patrocinado pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) no dia 29/11/2021 em defesa da pós-graduação, a presidente da CAPES reafirmou seu compromisso com a pós-graduação brasileira e o processo de avaliação quadrienal, e solicitou de forma um tanto patética que os colegas não abandonassem o barco. Lembrou muito a frase do Collor em 1992, pedido que não o deixassem só. De certa forma, a presidente da CAPES solicita a cumplicidade da comunidade acadêmica com a gestão incompetente que está sendo feita na educação e na CAPES em particular.
A renúncia coletiva dos colegas dos comitês de avaliação provocou muita discussão na comunidade acadêmica, o que pode ser considerado bom, por tirar a comunidade do torpor em que tem vivido. Vários argumentos foram apresentados contra e a favor do processo de renúncia coletiva. Dentre os argumentos contrários, colegas acreditam que o afastamento dos comitês da CAPES pode tornar mais difícil a defesa da pós-graduação brasileira, causar ruptura no processo de avaliação e resultar no preenchimento dos comitês com base em critérios políticos e ideológicos. Dentre os argumentos favoráveis (e me incluo nesse grupo) está o reconhecimento de que se trata de um posicionamento político e de que é necessário em algum momento traçar uma linha no chão e informar aos gestores que os desmandos foram longe demais.
No último dia 02/12/2021, no entanto, circulou a informação de que a Justiça determinou que a CAPES pode retomar o processo de avaliação, desde que não divulgue o resultado até a solução do imbroglio jurídico. Trata-se de decisão inusitada que lembra a música de Bezerra da Silva que diz que "Vou apertar / Mas não vou acender agora". A decisão joga a pós-graduação brasileira em tremenda insegurança jurídica e gera muitas perguntas:
1- O que acontece se a avaliação for feita e desautorizada posteriormente ?
Enquanto isso, está na mesa uma proposta de mudança do processo de avaliação, chamada de avaliação multidimensional, cujos detalhes não foram discutidos de forma aprofundada para implementação. E continuamos sem um Plano Nacional de Pós-Graduação para o decênio 2021-2030.
Como já manifestado em vídeo anterior, acredito que desse mato não sai coelho. Por isso, a comunidade deveria se unir em torno da SBPC e da ABC (Academia Brasileira de Ciências) para tratar do período de avaliação que começará em 2025 e cuidar da reconstrução do setor a partir de 2023. Como a Justiça determinou, a CAPES pode apertar, mas não pode acender agora.
Para a lista completa das referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube (youtu.be/mfVGY3_IcVQ).
Enquanto preparo uma apresentação científica para um evento internacional amanhã, achei apropriado compartilhar algumas dicas sobre como preparar uma boa apresentação científica em português e em língua estrangeira. Espero que seja útil.
Depois dos ataques às professoras em Salvador, ao longo da semana compreendida entre 22/11/2021 e 21/11/2021 surgiram várias outras denúncias a respeito de ataques a professores e colégios no Distrito Federal.
Primeiramente, pais de alunos invadiram os espaços virtuais das salas de aula com xingamentos e ameaças a professores que ousaram defender o uso das vacinas e das medidas tomadas contra o espalhamento da COVID-19 no Brasil. Os xingamentos e ameaças levaram os episódios para as delegacias de polícia e mostram como estão fragilizadas as crianças que são submetidas ao pensamento exclusivo de pais fanatizados.
Depois, a Celebração do Dia da Consciência Negra, no dia 20/11/2021, resultou em ataques e ameaças a uma diretora de um colégio cívico-militar do Distrito Federal, a CED01 da Cidade Estrutural. A história começou porque políticos locais e policiais envolvidos com o sistema disciplinar da escola não gostaram das muitas referências feitas pelos estudantes às abordagens preconceituosas da Polícia (e do Estado brasileiro) em relação a negros e pobres nos cartazes espalhados na escola. A diretora foi então instada a filtrar (leia-se, censurar) as referências negativas feitas em relação à Polícia Militar, sob pena de ser denunciada às autoridades superiores e afastada da direção da escola.
O episódio é gravíssimo, porque mostra a tentativa de subjugar a liberdade de expressão, a liberdade de cátedra e a discussão dos problemas brasileiros a uma hierarquia militar, que supostamente ocupa posição superior à da diretora da escola e dos professores das disciplinas. Além disso, dizer que a Polícia trata negros e pobres de forma diferenciada é falar de uma obviedade descrita em dezenas de estudos sobre a violência no Brasil, tema que precisa ser intensamente debatido pela sociedade brasileira. O episódio ilustra também as muitas denúncias que vêm sendo feitas a essa praga que vem se disseminando no Brasil, que são as escolas cívico-militares, que constituem um projeto de revisão da história do Brasil, de silenciamento das discussões sociais nos ambientes escolares e de apologia às estruturas militares e à violência. Não surpreende, por isso, o acúmulo de denúncias de favorecimento político e financeiro e de violações da liberdade de expressão e de cátedra nesses colégios.
Por conta do recrudescimento da violência nos ambientes escolares, a SBPC, com apoio de outras instituições, está promovendo uma pesquisa sobre o tema e incentivando as denúncias contra tentativas de supressão da liberdade de expressão e de cátedra. Participe. Não aceite restrições à liberdade de cátedra e de discussão dos problemas sociais brasileiros. Como a diretora do CED01 da Cidade Estrutural, denuncie e leve para a internet.
Referências:
Como já discutido em vídeos anteriores do canal, há grande pressão para a redução dos tempos de titulação e de preparação e defesa das teses de mestrado e de doutorado. Essa pressão nada tem a ver com a qualidade da sua formação acadêmica, mas com argumentos financeiros (redução do número total de bolsas de estudo pagas a pós-graduandos, por exemplo) e produtivistas (aumento da produtividade, medida como número de estudantes formados por professor por ano).
Uma das formas preferidas e mais simples para diminuir os tempos de titulação é reduzir a carga de disciplinas, seja por meio da redução do número total de disciplinas que o pós-graduando deve fazer ou por meio da redução da carga horária das disciplinas. Nesse sentido, essas discussões sempre lembram cursos de doutorado oferecidos por universidades europeias, em que não há necessidade de fazer disciplinas formais e o estudante vai direto para o laboratório, desenvolvendo o relacionamento de pesquisa direta e essencialmente com o orientador.
Embora esse modelo possa de fato encurtar a trajetória do pós-graduando até a defesa, eu confesso que não gosto dele por vários motivos. Por exemplo, ele inibe o desenvolvimento do espírito de grupo entre pesquisadores, caracteristicamente construído por meio da convivência em sala de aula. Além disso, ele inibe a cooperação entre diferentes grupos de pesquisa, porque a discussão entre estudantes e professores de diferentes grupos é dificultada e porque os estudantes são os elementos fundamentais para a construção dos trabalhos inter e transdisciplinares. Finalmente, esse modelo força o pesquisador a fazer escolhas muitas vezes imaturas, sendo impossível deixar de reconhecer que planos de pesquisa amadurecem com o trabalho em sala de aula.
Um outro caminho comum para encurtar a trajetória acadêmica é concentrar as disciplinas em uma área muito específica e especializada, como no caso de fazer quatro disciplinas intituladas Polímeros I, Polímeros II, Polímeros III e Polímeros IV. Além dessa construção soai um tanto falsa, o fato é que o pesquisador terá que estudar com profundidade os temas característicos de sua área de pesquisa, de forma que essa construção é também desnecessária.
Se eu fosse um pesquisador fazendo um plano de disciplinas de doutorado, eu certamente escolheria disciplinas oferecidas por diferentes docentes, de diferentes grupos de pesquisa e diferentes departamentos, abrindo o meu leque de formação. Eu procuraria conversar com pesquisadores de diferentes áreas e me inspirar em outros temas, antes de mergulhar no tema específico do meu trabalho. Você deve ainda lembrar que essa talvez seja a última vez em que você está fazendo disciplinas formais em sala de aula, de maneira que você deveria aproveitar a oportunidade e apreciar a trajetória.
No meu caso particular, as disciplinas que fiz no doutorado afetaram muito a minha carreira profissional e a minha vida acadêmica, pois fui muito influenciado e inspirado por professores de outras áreas com os quais tive a oportunidade de conviver. Por isso, na hora de escolher as disciplinas, procure sair da caixa, procurar inspiração em diferentes áreas e apreciar a jornada.
Referências:
O fato mais relevante na área de educação nas últimas semanas foi a decisão da Justiça de manter a suspensão da avaliação quadrienal dos programas de pós-graduação vinculados à CAPES. Embora a notícia tenha começado a circular no dia 22/11/2021, o tema tem sido surpreendentemente pouco debatido nas mídias sociais e nas comunidades acadêmicas.
A avaliação periódica dos programas de pós-graduação tem sido feita desde 1976 para:
O problema é que o Ministério Público (MP) entrou com uma ação, solicitando a interrupção do processo de avaliação e a apresentação dos critérios utilizados pela CAPES para executar a avaliação. Segundo o MP, os critérios de avaliação devem ser conhecidos a priori, para que os programas possam se adaptar às regras e obter melhores desempenhos. Ainda segundo o MP, o desconhecimento dos critérios construídos ao longo do processo de avaliação prejudica os programas. A CAPES respondeu, solicitando a suspensão da ação com base nos seguintes argumentos:
Nesse momento, é necessário que a comunidade acadêmica reconheça com humildade que a questão levantada pelo MP faz sentido. É difícil compreender que uma avaliação se inicie sem que os critérios da avaliação estejam definidos a priori, sendo possível admitir que alguns programas sejam prejudicados por esse fato. O problema é grave, porque já se passaram 25% do tempo referente ao quadriênio 2021-2024, sem a definição dos critérios da avaliação do período anterior e com contaminação da avaliação do próximo período.
É preciso também admitir que os argumentos apresentados pela CAPES são frágeis, pois a tradição não justifica o uso eterno de um mesmo procedimento. Além disso, não é possível aferir o argumento da consensualidade, pois há mais de 4500 programas de pós-graduação no Brasil, não havendo qualquer processo de consulta a esses programas para validação dos critérios adotados ou eventual apresentação de objeções.
Na minha opinião, deveríamos neste momento tratar do futuro da avaliação da pós-graduação brasileira, fixando critérios para as avaliações dos quadriênios 2017-2020 e 2021-2024 e discutindo os critérios e direções a serem adotados a partir de 2025. No entanto, a pós-graduação brasileira está à deriva e sofre de falta de liderança. São muitos os sinais de que estamos à deriva e muitos os temas que podem ser discutidos:
Na semana passada dois episódios acontecidos em Salvador - BA revelam que o ensino e os professores estão sob ataque e precisam ser defendidos com ardor pelas parcelas progressistas e organizadas da sociedade brasileira.
No início dos anos 2000, em função de uma colaboração com parceiros industriais, tínhamos muito interesse na previsão do comportamento de uma certa variável ao longo do tempo com auxílio de ferramentas matemáticas. Fazer previsões sobre o comportamento de variáveis pode ser muito importante nos ambientes corporativos, industriais e comerciais, porque permite a antecipação de soluções para problemas que surgirão no futuro e a garantia da qualidade de produtos e serviços que são postos à disposição da sociedade.
Referências:
No dia 27/10/2021, o Governo Federal anunciou com pompa a assinatura de uma carta de intenções com a Universidade de Oxford, para que seja assinado um convênio futuro em que a universidade inglesa se compromete a formar pesquisadores e fazer pesquisa no Brasil, em particular na área de vacinas. Não encontrei a carta disponível para consultas, mas até o momento não foi estabelecido qualquer local ou data para instalação da universidade no país, não havendo uma programação de atividades tampouco definida.
Essa música fala sobre como somos muitas vezes arrastados ao longo das trajetórias de nossas vidas e sobre como somos incapazes de controlar todos os aspectos ao nosso redor. Por isso, seguimos sempre contando também com a sorte e com o coração.
Turbilhão
Como se move uma poeira
Ondas me jogam na pedreira
Vou me batendo pelo mundo
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