Falando com Ciência

Falando com Ciência

By Jose Carlos PintoScience
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Falando com Ciência episodes

  • Numa trajetória milenar, a universidade produtivista de hoje é produto da bomba sobre o Japão

    Pode ser muito interessante para pesquisadores e pessoas envolvidas com os temas da ciência e da educação estudar a história milenar das universidades, para entendermos de onde viemos e para onde vamos.

    A história milenar das universidades começa na Antiguidade, com o florescimento dos centros de estudos no Egito, Mesopotâmia, Grécia, Roma, Índia, China e outros países do Oriente. Esses centros, no entanto, não tinham exatamente a função de ensinar ofícios e formar profissionais, mas se organizavam em torno de sábios, em geral patrocinados por reis, pessoas ricas ou instituições religiosas para aprofundar os conhecimentos em áreas particulares de interesse.

    A universidade institucionalizada e organizada com o objetivo de ensinar ofícios em diferentes áreas do conhecimento surgiu na Idade Média, na Europa, e é consensual que a primeira universidade formada com esses moldes foi a Universidade de Bolonha, no ano de 1088. Esse tipo de universidade surgiu com o crescimento das cidades e se espalhou pela Europa, sendo um dos motores do Renascimento que ocorreria alguns séculos depois, por conta do interesse despertado pelo conhecimento, em particular pelos clássicos.

    No entanto, foi no século XIX que ocorreu uma verdadeira revolução na instituição universitária, por conta do trabalho realizado por Wilhelm von Humboldt à frente do Ministério da Educação do então Reino da Prússia, hoje Alemanha. Humboldt instituiu parâmetros para a educação ainda adotados em boa parte do mundo hoje, como a separação entre o Estado e a religião, a fundamentação do ensino em três níveis (ensinos fundamental, médio e universitário) e a compreensão de que o ensino e a pesquisa são indissociáveis. Por conta de sua formação e curiosidade científicas, Humboldt compreendeu que o estudante deveria não apenas ser informado sobre os conhecimentos existentes pelo professor, mas também ensinado a gerar o próprio conhecimento de que pudesse necessitar. Humboldt acreditava que saber era poder e que o aprendizado libertava, de forma que a pesquisa de Humboldt era uma atividade que libertava o indivíduo.

    A universidade produtivista que conhecemos hoje, no entanto, surgiu na década de 1950 nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo. Não é exagero afirmar que essa universidade moderna é produto da bomba lançada sobre o Japão, quando os estados nacionais compreenderam a corrida tecnológica como uma corrida de poder geopolítico e econômico. Por isso, começaram a surgir sistemas de premiações dos pesquisadores mais produtivos, transformando os professores em operários da corrida tecnológica. Posteriormente o modelo foi ainda aperfeiçoado, transformando o pesquisador também em responsável pela captação dos recursos que ele mesmo deve usar para se manter produtivo nessa cadeia, sob pena de ser expelido do mecanismo gerado para produção do conhecimento.

    Como vemos, os modelos de universidade mudaram ao longo dos milênios e continuarão mudando nos próximos anos. Por exemplo, a crise pandêmica mostra que o mundo virtual será mais importante para conduzir as atividades de ensino e pesquisa no futuro próximo. No entanto, o modelo produtivista de hoje é relativamente recente na história da humanidade e precisa ser questionado profundamente, pois retirou o lado humano do trabalho do pesquisador, transformando-o numa simples engrenagem em um jogo de poder.

    Por tudo isso, os jovens pesquisadores devem procurar estudar a história das universidades, para que compreendam melhor seus papéis no mundo e possam construir carreiras mais saudáveis e profícuas.

    Referências:

    • https://en.wikipedia.org/wiki/Ancient_higher-learning_institutions
    • https://pt.wikipedia.org/wiki/Universidade_de_Bolonha
    • https://bit.ly/3rC4263
    • https://pt.wikipedia.org/wiki/Wilhelm_von_Humboldt
    • https://bit.ly/3oqogxB
    • https://bit.ly/3DqEnPZ
    • 8 min
    • Justiça determina que a CAPES pode apertar, só não pode acender agora

      Vivemos realmente tempos surreais na educação e na ciência brasileiras. Em função da confusão em que se meteu a pós-graduação no Brasil, e por conta da gestão caótica que se faz na educação e na CAPES em particular, cerca de 80 coordenadores e conselheiros de áreas temáticas de avaliação pediram renúncia coletiva nas últimas semanas. Primeiramente foi a área de Física e Astronomia, depois a área de Matemática, Probabilidade e Estatística e por último a área de Química. Os argumentos que suportam as renúncias são a falta de comprometimento da CAPES com o processo de avaliação quadrienal, a pressão para a aprovação dos cursos de pós-graduação a distância (que interessam principalmente às universidades privadas) e aos muitos desmandos com os quais temos convivido nos últimos tempos.

      Em evento patrocinado pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) no dia 29/11/2021 em defesa da pós-graduação, a presidente da CAPES reafirmou seu compromisso com a pós-graduação brasileira e o processo de avaliação quadrienal, e solicitou de forma um tanto patética que os colegas não abandonassem o barco. Lembrou muito a frase do Collor em 1992, pedido que não o deixassem só. De certa forma, a presidente da CAPES solicita a cumplicidade da comunidade acadêmica com a gestão incompetente que está sendo feita na educação e na CAPES em particular.

      A renúncia coletiva dos colegas dos comitês de avaliação provocou muita discussão na comunidade acadêmica, o que pode ser considerado bom, por tirar a comunidade do torpor em que tem vivido. Vários argumentos foram apresentados contra e a favor do processo de renúncia coletiva. Dentre os argumentos contrários, colegas acreditam que o afastamento dos comitês da CAPES pode tornar mais difícil a defesa da pós-graduação brasileira, causar ruptura no processo de avaliação e resultar no preenchimento dos comitês com base em critérios políticos e ideológicos. Dentre os argumentos favoráveis (e me incluo nesse grupo) está o reconhecimento de que se trata de um posicionamento político e de que é necessário em algum momento traçar uma linha no chão e informar aos gestores que os desmandos foram longe demais.

      No último dia 02/12/2021, no entanto, circulou a informação de que a Justiça determinou que a CAPES pode retomar o processo de avaliação, desde que não divulgue o resultado até a solução do imbroglio jurídico. Trata-se de decisão inusitada que lembra a música de Bezerra da Silva que diz que "Vou apertar / Mas não vou acender agora". A decisão joga a pós-graduação brasileira em tremenda insegurança jurídica e gera muitas perguntas:

      1- O que acontece se a avaliação for feita e desautorizada posteriormente ?

      2- Como será possível evitar o vazamento da informação ? Se alguém contar o resultado será punido ? A avaliação será feita na sala secreta do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) no INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) ?
      3- Tendo em vista que os programas de pós-graduação foram informados de que é necessário iniciar o preenchimento da plataforma Sucupira para o início do processo de avaliação quadrienal 2021-2024, que processo de avaliação está vigente no momento ?

      Enquanto isso, está na mesa uma proposta de mudança do processo de avaliação, chamada de avaliação multidimensional, cujos detalhes não foram discutidos de forma aprofundada para implementação. E continuamos sem um Plano Nacional de Pós-Graduação para o decênio 2021-2030.

      Como já manifestado em vídeo anterior, acredito que desse mato não sai coelho. Por isso, a comunidade deveria se unir em torno da SBPC e da ABC (Academia Brasileira de Ciências) para tratar do período de avaliação que começará em 2025 e cuidar da reconstrução do setor a partir de 2023. Como a Justiça determinou, a CAPES pode apertar, mas não pode acender agora.

      Para a lista completa das referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube (youtu.be/mfVGY3_IcVQ).

      7 min
    • Novos ataques a professores no DF demandam defesa entusiasmada da liberdade de cátedra e expressão

      Depois dos ataques às professoras em Salvador, ao longo da semana compreendida entre 22/11/2021 e 21/11/2021 surgiram várias outras denúncias a respeito de ataques a professores e colégios no Distrito Federal.

      Primeiramente, pais de alunos invadiram os espaços virtuais das salas de aula com xingamentos e ameaças a professores que ousaram defender o uso das vacinas e das medidas tomadas contra o espalhamento da COVID-19 no Brasil. Os xingamentos e ameaças levaram os episódios para as delegacias de polícia e mostram como estão fragilizadas as crianças que são submetidas ao pensamento exclusivo de pais fanatizados.

      Depois, a Celebração do Dia da Consciência Negra, no dia 20/11/2021, resultou em ataques e ameaças a uma diretora de um colégio cívico-militar do Distrito Federal, a CED01 da Cidade Estrutural. A história começou porque políticos locais e policiais envolvidos com o sistema disciplinar da escola não gostaram das muitas referências feitas pelos estudantes às abordagens preconceituosas da Polícia (e do Estado brasileiro) em relação a negros e pobres nos cartazes espalhados na escola. A diretora foi então instada a filtrar (leia-se, censurar) as referências negativas feitas em relação à Polícia Militar, sob pena de ser denunciada às autoridades superiores e afastada da direção da escola.

      O episódio é gravíssimo, porque mostra a tentativa de subjugar a liberdade de expressão, a liberdade de cátedra e a discussão dos problemas brasileiros a uma hierarquia militar, que supostamente ocupa posição superior à da diretora da escola e dos professores das disciplinas. Além disso, dizer que a Polícia trata negros e pobres de forma diferenciada é falar de uma obviedade descrita em dezenas de estudos sobre a violência no Brasil, tema que precisa ser intensamente debatido pela sociedade brasileira. O episódio ilustra também as muitas denúncias que vêm sendo feitas a essa praga que vem se disseminando no Brasil, que são as escolas cívico-militares, que constituem um projeto de revisão da história do Brasil, de silenciamento das discussões sociais nos ambientes escolares e de apologia às estruturas militares e à violência. Não surpreende, por isso, o acúmulo de denúncias de favorecimento político e financeiro e de violações da liberdade de expressão e de cátedra nesses colégios.

      Por conta do recrudescimento da violência nos ambientes escolares, a SBPC, com apoio de outras instituições, está promovendo uma pesquisa sobre o tema e incentivando as denúncias contra tentativas de supressão da liberdade de expressão e de cátedra. Participe. Não aceite restrições à liberdade de cátedra e de discussão dos problemas sociais brasileiros. Como a diretora do CED01 da Cidade Estrutural, denuncie e leve para a internet.

      Referências:

      • https://youtu.be/watch?v=y39I7KErRhk
      • https://www.metropoles.com/distrito-federal/escola-militarizada-denuncia-censura-em-trabalho-de-consciencia-negra
      • https://www.sinprodf.org.br/cala-a-boca-seu-velho-safado-ataque-a-liberdade-de-catedra-cresce-nas-escolas-do-df/
      • https://www.anped.org.br/news/pesquisa-nacional-liberdade-academica-esta-em-risco-no-brasil
      • https://revistaforum.com.br/rede/autoritarismo-do-escola-sem-partido-e-a-doutrinacao-dos-outros-por-elika-takimoto/
      • https://www.seculodiario.com.br/educacao/escolas-civicos-militares-sao-pautadas-no-autoritarismo
      • https://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2021/10/escolas-civico-militares-privilegios/
      • https://www.brasildefato.com.br/2020/12/09/violencia-tem-cor-86-dos-1-814-mortos-pela-policia-do-rj-em-2019-eram-negros
      • 5 min
      • Como escolher as disciplinas do seu plano de pesquisas e de doutorado ?

        Como já discutido em vídeos anteriores do canal, há grande pressão para a redução dos tempos de titulação e de preparação e defesa das teses de mestrado e de doutorado. Essa pressão nada tem a ver com a qualidade da sua formação acadêmica, mas com argumentos financeiros (redução do número total de bolsas de estudo pagas a pós-graduandos, por exemplo) e produtivistas (aumento da produtividade, medida como número de estudantes formados por professor por ano).

        Uma das formas preferidas e mais simples para diminuir os tempos de titulação é reduzir a carga de disciplinas, seja por meio da redução do número total de disciplinas que o pós-graduando deve fazer ou por meio da redução da carga horária das disciplinas. Nesse sentido, essas discussões sempre lembram cursos de doutorado oferecidos por universidades europeias, em que não há necessidade de fazer disciplinas formais e o estudante vai direto para o laboratório, desenvolvendo o relacionamento de pesquisa direta e essencialmente com o orientador.

        Embora esse modelo possa de fato encurtar a trajetória do pós-graduando até a defesa, eu confesso que não gosto dele por vários motivos. Por exemplo, ele inibe o desenvolvimento do espírito de grupo entre pesquisadores, caracteristicamente construído por meio da convivência em sala de aula. Além disso, ele inibe a cooperação entre diferentes grupos de pesquisa, porque a discussão entre estudantes e professores de diferentes grupos é dificultada e porque os estudantes são os elementos fundamentais para a construção dos trabalhos inter e transdisciplinares. Finalmente, esse modelo força o pesquisador a fazer escolhas muitas vezes imaturas, sendo impossível deixar de reconhecer que planos de pesquisa amadurecem com o trabalho em sala de aula.

        Um outro caminho comum para encurtar a trajetória acadêmica é concentrar as disciplinas em uma área muito específica e especializada, como no caso de fazer quatro disciplinas intituladas Polímeros I, Polímeros II, Polímeros III e Polímeros IV. Além dessa construção soai um tanto falsa, o fato é que o pesquisador terá que estudar com profundidade os temas característicos de sua área de pesquisa, de forma que essa construção é também desnecessária.

        Se eu fosse um pesquisador fazendo um plano de disciplinas de doutorado, eu certamente escolheria disciplinas oferecidas por diferentes docentes, de diferentes grupos de pesquisa e diferentes departamentos, abrindo o meu leque de formação. Eu procuraria conversar com pesquisadores de diferentes áreas e me inspirar em outros temas, antes de mergulhar no tema específico do meu trabalho. Você deve ainda lembrar que essa talvez seja a última vez em que você está fazendo disciplinas formais em sala de aula, de maneira que você deveria aproveitar a oportunidade e apreciar a trajetória.

        No meu caso particular, as disciplinas que fiz no doutorado afetaram muito a minha carreira profissional e a minha vida acadêmica, pois fui muito influenciado e inspirado por professores de outras áreas com os quais tive a oportunidade de conviver. Por isso, na hora de escolher as disciplinas, procure sair da caixa, procurar inspiração em diferentes áreas e apreciar a jornada.

        Referências:

        • https://youtu.be/7HC6wCmvm5g
        • https://youtu.be/xRu59MQSpiI
        • 6 min
        • Justiça confirma suspensão da avaliação periódica da CAPES e pós-graduação brasileira está à deriva

          O fato mais relevante na área de educação nas últimas semanas foi a decisão da Justiça de manter a suspensão da avaliação quadrienal dos programas de pós-graduação vinculados à CAPES. Embora a notícia tenha começado a circular no dia 22/11/2021, o tema tem sido surpreendentemente pouco debatido nas mídias sociais e nas comunidades acadêmicas.

          A avaliação periódica dos programas de pós-graduação tem sido feita desde 1976 para:

          1. prover indicadores de desempenho para a pós-graduação brasileira;
          2. definir critérios para a distribuição de verbas e bolsas;
          3. ranquear os cursos de pós-graduação com base no desempenho;
          4. identificar cursos que devam ser cancelados por mau desempenho.
          5. O problema é que o Ministério Público (MP) entrou com uma ação, solicitando a interrupção do processo de avaliação e a apresentação dos critérios utilizados pela CAPES para executar a avaliação. Segundo o MP, os critérios de avaliação devem ser conhecidos a priori, para que os programas possam se adaptar às regras e obter melhores desempenhos. Ainda segundo o MP, o desconhecimento dos critérios construídos ao longo do processo de avaliação prejudica os programas. A CAPES respondeu, solicitando a suspensão da ação com base nos seguintes argumentos:

            1. o processo de avaliação é importante e tradicionalmente realizado dessa forma;
            2. o processo resulta de ampla consulta à comunidade acadêmica, de forma transparente e consensual;
            3. a interrupção do processo pode causar prejuízos acadêmicos e financeiros, por conta dos investimentos já feitos na avaliação do quadriênio 2017-2020. O juiz reconheceu o mérito dos argumentos da CAPES, mas considerou que as questões levantadas pelo MP são pertinentes e solicitou que a CAPES responda ao MP e apresente os critérios.
            4. Nesse momento, é necessário que a comunidade acadêmica reconheça com humildade que a questão levantada pelo MP faz sentido. É difícil compreender que uma avaliação se inicie sem que os critérios da avaliação estejam definidos a priori, sendo possível admitir que alguns programas sejam prejudicados por esse fato. O problema é grave, porque já se passaram 25% do tempo referente ao quadriênio 2021-2024, sem a definição dos critérios da avaliação do período anterior e com contaminação da avaliação do próximo período.

              É preciso também admitir que os argumentos apresentados pela CAPES são frágeis, pois a tradição não justifica o uso eterno de um mesmo procedimento. Além disso, não é possível aferir o argumento da consensualidade, pois há mais de 4500 programas de pós-graduação no Brasil, não havendo qualquer processo de consulta a esses programas para validação dos critérios adotados ou eventual apresentação de objeções.

              Na minha opinião, deveríamos neste momento tratar do futuro da avaliação da pós-graduação brasileira, fixando critérios para as avaliações dos quadriênios 2017-2020 e 2021-2024 e discutindo os critérios e direções a serem adotados a partir de 2025. No entanto, a pós-graduação brasileira está à deriva e sofre de falta de liderança. São muitos os sinais de que estamos à deriva e muitos os temas que podem ser discutidos:

              1. O Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG) 2011-2020 se esgotou, sem que um balanço formal dos resultados tenha sido apresentado e sem que o PNPG 2021-2030 tenha sido formulado, apesar de já ter se encerrado o primeiro ano da década;
              2. O relatório de acompanhamento do PNPG 2011-2020 emitido em 2019 sugeriu várias mudanças do processo de avaliação, como redução do produtivismo e extinção do QUALIS, embora venha sendo ignorado solenemente ... [para a descrição completa, juntamente com a lista de referências, consulte o vídeo no YouTube https://youtu.be/9qVRjKhlYIw]
              3. 10 min
              4. Ataques a professoras de Salvador - BA pretendem impedir a discussão das mazelas do país

                Na semana passada dois episódios acontecidos em Salvador - BA revelam que o ensino e os professores estão sob ataque e precisam ser defendidos com ardor pelas parcelas progressistas e organizadas da sociedade brasileira.


                No primeiro episódio, uma professora de Ciências Humanas do Colégio Estadual Thales de Azevedo foi intimada em sala de aula e instada a prestar depoimentos em delegacia por conta do pretenso cometimento dos crimes de "esquerdismo" e "doutrinação feminista", que não existem no código penal brasileiro. A professora foi ainda acusada de "ferir a liberdade de cátedra", invertendo-se completamente os papeis daquele episódio, já que obviamente era ela a vítima de cerceamento da liberdade de cátedra. O episódio foi extremamente violento porque a direção da escola jamais foi procurada pelos acusadores para discutir o tema, porque os pretensos crimes cometidos não existem no código penal brasileiro e porque a professora foi humilhada diante dos profissionais e estudantes presentes naquele momento no colégio. A direção do Colégio Estadual Thales de Azevedo saiu corretamente em defesa da professora e conclamou a sociedade civil organizada a cerrar fileiras em defesa do ensino e da liberdade de cátedra, atacada pelos acusadores.

                Na mesma semana e na mesma cidade de Salvador - BA, uma professora de Filosofia foi afastada de suas funções no Colégio Vitória Régia por ter recomendado a leitura do livro "Olhos D´Água", de Conceição Evaristo, a alunos do ensino médio. É importante ressaltar que o livro em questão é premiado e recomendado para leitura de estudantes do ensino médio que pretendem fazer o ENEM e prestar o vestibular. Conceição Evaristo é uma autora premiada e muito considerada, que constitui um exemplo de enorme relevância para a sociedade brasileira. Mulher negra e pobre, Conceição Evaristo se formou no curso normal aos 25 anos enquanto trabalhava como empregada doméstica, ingressou no curso de Letras aos 41 anos, defendeu a dissertação de mestrado aos 50 anos e defendeu a tese de doutorado aos 65 anos. Conceição Evaristo suscita discussões, portanto, sobre vários temas relevantes para a sociedade brasileira, como o racismo, a misoginia, a pobreza e o etarismo, sendo inconcebível que a recomendação da leitura de uma autora dessa magnitude possa constituir motivo para que uma professora seja afastada de suas funções.

                Segundo os denunciantes, o livro "Olhos D´Água" trata de temas violentos, como a pobreza e o racismo, não havendo motivo para que os estudantes compartilhem essas dores com a autora. Quanta estupidez !!!! Se esse motivo for acatado, acabam-se os estudos de História, por exemplo, por tratarem das dores das civilizações ao longo dos milênios. Esses indivíduos parecem apenas interessados em discutir as vagas faltantes em estacionamentos de shopping centers e a falta de chope nas baladas.

                O pior no episódio é que a direção do Colégio Vitória Régia deu guarida às denúncias e ainda acusou a professora de levar o tema para a internet, o que nos faz suspeitar que episódios como esses podem estar ocorrendo em vários lugares do Brasil e sendo mantidos em segredo. A professora fez muito bem em denunciar publicamente os fatos, para revelar a mentalidade tacanha que vem sendo imposta ao ensino no país por fração retrógrada da sociedade brasileira.

                Os professores e os setores progressistas que se interessam pela defesa da liberdade de cátedra e de discussão das mazelas da sociedade brasileira devem estar atentos e prontos para a defesa do ensino e dos professores do país. Devem inclusive conhecer os manuais de conduta que ... [Para a descrição completa, juntamente com a lista de referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube https://youtu.be/y39I7KErRhk]

                7 min
              5. Histórias de um Pesquisador (Ep 13) - Teses construídas sem lastro e os temas das redações do ENEM

                No início dos anos 2000, em função de uma colaboração com parceiros industriais, tínhamos muito interesse na previsão do comportamento de uma certa variável ao longo do tempo com auxílio de ferramentas matemáticas. Fazer previsões sobre o comportamento de variáveis pode ser muito importante nos ambientes corporativos, industriais e comerciais, porque permite a antecipação de soluções para problemas que surgirão no futuro e a garantia da qualidade de produtos e serviços que são postos à disposição da sociedade.


                Naquele momento, no entanto, a atividade proposta era muito desencorajada por vários colegas, com base em dois argumentos principais: a) o comportamento da variável seria muito complexo e até um pouco imprevisível; e b) os efeitos se manifestavam ao longo de tempos muito grandes, de forma que a variável seria afetada por muitas perturbações, tornando a previsão com ferramenta matemática muito difícil. Segundo esses colegas, esses argumentos estavam amparados em testes industriais realizados alguns anos antes e documentados em um relatório.

                O problema, nesse caso, é que ninguém conhecia o tal relatório e os tais dados, apenas o relato oral da experiência. Muitos meses depois, finalmente encontramos o tal relatório, que apresentava essencialmente quatro pontos medidos ao longo de um dia, com intervalos de amostragem de 8 horas, após um teste industrial. No documento, o segundo ponto era maior que o primeiro, o terceiro ponto era menor que o segundo e o quarto ponto era maior que o terceiro. Esse comportamento observado no teste era o que amparava o discurso dos colegas na planta industrial. No entanto, o relatório não dizia que as variações observadas estavam no limite na precisão da medida experimental, de forma que o mais correto seria dizer que a variável havia apresentado um padrão de comportamento trivial e constante.

                Em função do achado, recebemos autorização para realizar alguns testes na planta industrial, que mostraram que o comportamento da variável era simples e previsível, permitindo o desenvolvimento de ferramentas matemáticas de previsão também simples, a implementação de técnicas avançadas de controle e a construção de um novo discurso sobre o problema. Os resultados obtidos foram publicados anos depois em uma revista científica.

                O episódio mostra que nós devemos sempre rejeitas as teses sem lastros, em que não temos acesso aos dados ou em que os dados são desconhecidos. Com frequência corporações e indivíduos são pressionados a apresentar conclusões muito rapidamente para resolver problemas, sem que os dados permitam de fato derivar as conclusões apresentadas. Por isso, consulte sempre os dados, antes de tomar uma tese como verdadeira.

                Como exercício, o Presidente da República, que mente muito e frequentemente sobre quase tudo e fala muitas bobagens sem amparo factual dos dados, disse que a prova do ENEM estava ganhando a cara do Governo Federal e que os temas das redações, em particular, não continham mais o ativismo político e exploração de aspectos comportamentais dos anos anteriores. Com base na experiência pregressa, fui checar os temas das redações desde 1998 e observei que os temas foram sempre de caráter geral, versando sobre problemas cuja discussão interessa à sociedade brasileira, de forma particular, e à sociedade mundial, de forma mais ampla. Não vi nem ativismo e nem exploração de aspectos governamentais, como o Governo Federal quer que você acredite. Uma vez mais, a tese não tem lastro factual.

                Fique atento para as teses sem lastro. Sua carreira de pesquisador vai se beneficiar muito se você colocar sob suspeita todas as teses que estão amparadas em dados que são desconhecidos ou a que você não tem acesso. O mundo está cheio de apressados e mentirosos.

                Referências:

                • https://glo.bo/3kQqqV8
                • https://bit.ly/3Cx3uAu

                • 8 min
                • Afinal, o que a Universidade de Oxford vem fazer no Brasil ?

                  No dia 27/10/2021, o Governo Federal anunciou com pompa a assinatura de uma carta de intenções com a Universidade de Oxford, para que seja assinado um convênio futuro em que a universidade inglesa se compromete a formar pesquisadores e fazer pesquisa no Brasil, em particular na área de vacinas. Não encontrei a carta disponível para consultas, mas até o momento não foi estabelecido qualquer local ou data para instalação da universidade no país, não havendo uma programação de atividades tampouco definida.


                  Deve-se ressaltar que cartas de intenções são assinadas por todos os níveis de governo com muita frequência, embora apenas uma fração muito pequena delas se transforme em atos concretos. O principal objetivo dessas cartas é gerar notícias e fotos para a imprensa e as mídias sociais. Por isso, é possível que em alguns meses ninguém mais se lembre dessa carta. A despeito disso, muitas críticas têm circulado nas mídias sociais e alguns órgão de imprensa sobre a internacionalização do ensino superior e desnacionalização da pesquisa no Brasil, sinalizadas pela carta.

                  Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que 85% das matrículas no ensino superior são feitas em instituições privadas, boa parte delas controladas por grandes corporações com muitos interesses e com ações disponíveis na Bolsa de Valores. Dessa maneira, o ensino superior no Brasil é privado e internacionalizado, embora a sociedade brasileira pense que o ensino superior brasileiro é público. Portanto, essa crítica relacionada à internacionalização do ensino superior no Brasil cabe hoje e agora e não depende da assinatura desse convênio com a Universidade de Oxford.

                  Em segundo lugar, instituições estrangeiras não fazem pesquisa no Brasil: elas desenvolvem seus produtos e tecnologias no exterior e vendem para a sociedade brasileira. É por isso que, cada vez que uma empresa brasileira é vendida para uma corporação estrangeira, empobrecem-se as áreas de pesquisa, ciência e tecnologia no país. Além disso, essas empresas costumam drenar os cérebros brasileiros, levando-os para trabalhar no exterior. Por isso, instalações de centros de pesquisa no Brasil são bem-vindas, para promover o desenvolvimento do conhecimento no país e empregas pesquisadores brasileiros aqui mesmo.

                  Nesse cenário, o que pretende então a Universidade de Oxford com sua vinda para o Brasil ? Essa pergunta é muito pertinente e, para ser respondida, é necessário lembrar que há um mercado bilionário de vacinas que deve se desenvolver amplamente nos próximos anos. Devemos também lembrar que a Universidade de Oxford é responsável pelo desenvolvimento da vacina AstraZeneca, muito popular no país nesse período pandêmico. Se imaginarmos que nos próximos anos a AstraZeneca pode concentrar 25% do total de doses de vacina contra a COVID-19, que duas doses são necessárias e que cada dose custa o equivalente a US$ 10,00, chegaremos à conclusão que apenas esse segmento representa a incrível soma de 1 bilhão de dólares por ano !!!! Para relativizarmos os valores, devemos ainda lembrar que o orçamento discricionário da UFRJ em 2021 foi equivalente a menos de 50 milhões de dólares, de forma que apenas esse segmento do mercado de vacinas é equivalente ao investimento em mais de 20 UFRJs !!!! É atrás desse dinheiro que vem a Universidade de Oxford. O Governo Federal prepara uma mega-operação em que pretende transferir bilhões de dólares para uma única instituição estrangeira, dando um drible na Fundação Oswaldo Cruz (que atualmente coordena as ações relacionadas à produção da vacina AstraZeneca) e dando continuidade a sua estratégia de esvaziamento das instituições públicas brasileiras de ensino e pesquisa.

                  Portanto, o convênio anunciado ... [para a descrição completa, juntamente com a lista de referências, consulte o vídeo no YouTube do canal Falando Com Ciência]

                  9 min
                • Para enfrentar o turbilhão da vida, não despreze a sorte e o coração

                  Essa música fala sobre como somos muitas vezes arrastados ao longo das trajetórias de nossas vidas e sobre como somos incapazes de controlar  todos os aspectos ao nosso redor. Por isso, seguimos sempre contando também com a sorte e com o coração.

                  Turbilhão

                  (José Carlos Pinto)

                  Como se move uma poeira

                  Quando se forma o turbilhão
                  Sigo tragado pela esteira
                  Da sorte e do coração

                  Ondas me jogam na pedreira

                  Ondas me impedem de ir ao chão
                  Sigo na vida igual poeira
                  Vou cavalgando o turbilhão

                  Vou me batendo pelo mundo

                  Tento encontrar o meu amor
                  Uma corrente vem do fundo
                  Mantendo a busca aonde eu for

                  Vejo você a qualquer hora

                  A onda que leva também traz
                  Vamos seguindo vida afora
                  Poeira, poeira, nada mais

                  4 min

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