Falando com Ciência

Falando com Ciência

By Jose Carlos PintoScience
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Falando com Ciência episodes

  • Histórias de um Pesquisador (Ep 12) - Você conhece o índice de similaridade do seu trabalho ?

    No final do ano 2020, o nosso grupo de pesquisa teve a oportunidade de  preparar um belo trabalho para submissão a uma revista científica,  abordando vários aspectos inovadores sobre a implementação de um  determinado procedimento numérico em um ambiente industrial. O trabalho  inclusive continha extensa apresentação de dados que validavam o uso do  procedimento em ambiente real. Estávamos orgulhosos do trabalho  desenvolvido e executado. Por isso, escolhemos uma boa revista e  submetemos o trabalho para publicação.


    Alguns dias depois, chegou  uma resposta padrão da revista, dizendo que ela recebia mais  manuscritos do que poderia publicar e recusando a submissão. Ficamos  todos muito frustrados e, como não havia feedback, ressubmetemos o  trabalho a uma segunda revista, mas a resposta obtida foi a mesma. A  história se repetiu uma terceira vez e, após a quarta submissão,  recebemos uma mensagem muito gentil da secretária da revista dizendo que  não era possível aceitar um manuscrito com índice tão alto de  similaridade (no caso avaliado, 15%), de maneira que deveríamos explicar  isso ou corrigir o que fosse relevante antes do novo envio. Ficamos  todos estupefatos, mas pelo menos contentes por ter um feedback sobre o  problema enfrentado.

    Na mensagem enviada, a secretária  recomendava o uso de um pacote de identificação de similaridades  (plágio) de textos particulares com outras publicações disponíveis na  literatura, que suponho deva ser o pacote usado pela revista. Há vários  desses pacotes disponíveis hoje comercialmente e de graça na internet,  de forma que é provável que a sua instituição seja assinante de algum  (ou alguns) desses pacotes. Esses programas são usados hoje como filtro  por várias revistas especializadas, para evitar casos de plágio, sendo  usados também por algumas universidades para avaliação de teses e  documentos acadêmicos.

    No nosso caso, ao rodarmos o software,  identificamos três problemas: a lista de referências bibliográficas (!),  a seção em que descrevíamos um procedimento numérico padrão a que  fazíamos referência no trabalho e uma figura usada para ilustrar esse  procedimento. No caso das referências bibliográficas, tratava-se de  óbvio equívoco do pacote computacional, pois não é possível apresentar a  referência de uma forma alternativa. No caso dos procedimentos padrões e  da figura, há um debate corrente sobre como fazer referência a esses  procedimentos de forma padronizada, sem que isso se constitua em plágio,  tendo em vista que não há como representar uma reta sem desenhar um  eixo horizontal, um eixo vertical e uma linha que atravessa o gráfico.  No caso considerado, explicamos obviamente que não havia como mudar a  apresentação das referências bibliográficas e removemos a seção e a  figura que descreviam o procedimento numérico de referência, fazendo  apenas menção a outros trabalhos da literatura que faziam uso de  procedimentos similares. Feitas as correções e apresentadas as  explicações, a submissão foi aceita, enviada para os revisores, elogiada  (como esperado) e aceita para publicação, tendo sido publicada  recentemente.

    O episódio ensina alguns pontos importantes. Em  primeiro lugar, que você deve sempre procurar feedback sobre a sua  submissão, caso você esteja enfrentando dificuldades com a tramitação  daquele bom trabalho realizado por seu grupo de pesquisa. Em segundo  lugar, que você deve se acostumar e incorporar o hábito de usar esses  pacotes computacionais que avaliam índices de similaridade, para evitar  constrangimentos e ... [para ler o texto completo, por favor, consulte a descrição do vídeo no YouTube].

    6 min
  • Danem-se medalhas e comendas - como pode um acadêmico aceitar homenagem desse Governo Federal ?

    Nas últimas semanas foi muito discutida a sequência de eventos relacionada com a indicação de homenageados da Ordem do Mérito Científico do Brasil. Apesar do tema vir sendo debatido com intensidade nas redes sociais e nos grupos de zap, vale a pena revisitar a sequência de eventos para compreendermos melhor a natureza dos atos do Governo Federal e da comunidade acadêmica.

    Inicialmente, devemos considerar que a Ordem do Mérito Científico foi estabelecida no ano de 1993, no Governo Itamar Franco, para homenagear personalidades que tenham contribuído com as áreas de ciência e tecnologia no Brasil. Desde então, o decreto original foi modificado por cada um dos Presidentes da República que passaram no Palácio do Planalto, mostrando de forma inequívoca a natureza política dessa instituição. Na prática, a Ordem estabelece um Conselho para assessoramento do presidente da república nas áreas de ciência e tecnologia, mas que é irrelevante, porque não tem atribuições definidas e porque opiniões e decisões do Conselho não têm qualquer poder deliberativo. Portanto, o Conselho serve apenas para que o Governo Federal possa fazer proselitismo político e para homenagear acadêmicos, que se sentirão honrados com as medalhas e comendas recebidas. Uma prova da irrelevância é que, apesar do Conselho admitir até 1300 membros, outorgas não são feitas desde o ano de 2013, ainda no Governo Dilma Rousseff, e que poucas pessoas são capazes de lembrar algum nome que faça parte desse Conselho.

    Além disso, a Ordem é organizada de forma estranha, lembrando sociedades secretas, como uma loja maçônica ou aquelas sociedades universitárias americanas, do tipo Kappa-Tau-Sigma-Lambda, com classes de Grã-Cruz e Comendadores e cargos de Grão-Mestre e Chanceler. Deve ser enfatizado que há um Conselho de natureza política que revisa as indicações técnicas feitas em conjunto pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, Academia Brasileira de Ciências e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, atestando de forma inequívoca o caráter político da homenagem.

    Nesse contexto, a indicação muito discutida do presidente da república para que ele mesmo e vários ministros (da Ciência e Tecnologia, da Economia, das Relações Exteriores e da Educação) recebessem a comenda era completamente desnecessária, porque eles já fazem parte do Conselho da Ordem de maneira natural, como estabelecido pelo decreto que a estabelece, queiram eles ou não. O episódio mostra apenas como esse Governo Federal é incompetente e desconhece os meandros da vida acadêmica, reforçando uma vez mais a natureza política da Ordem.

    Em seguida, a remoção de dois nomes da lista de indicados à homenagem foi apenas uma grosseria, novamente mostrando o caráter político da Ordem e o desejo de forma uma academia obediente, já que esses dois indicados revelaram a estupidez e o absurdo dos atos do Governo Federal na gestão da pandemia. Por conta disso, várias cartas de repúdio começaram a circular e vários cientistas indicados pelo atual presidente solicitaram corretamente e de forma coletiva a remoção de seus nomes da lista de homenageados, lembrando as ações negacionistas e obscurantistas desse Governo e o desprestígio das áreas de ciência, tecnologia e educação no momento atual. No entanto, é importante observar que vários nomes permaneceram na lista, o que é uma vergonha !

    Faltou ser dito que... [Para a descrição completa e a lista de referências, confira o vídeo no canal do Youtube].

    9 min
  • Faz sentido usar critérios produtivistas em procedimentos de seleção para cursos de pós-graduação ?

    Uma das muitas consequências ruins do produtivismo é a transformação do processo de ensino e aprendizado em uma corrida competitiva, frequentemente amparada por falsos argumentos meritocráticos. Essa deformação ocorre desde o início da trajetória acadêmica, transformando processos de seleção para cursos de pós-graduação em sistemas de ranqueamento de indivíduos baseados em itens de produção, ao invés de privilegiar aplicações de provas ou outros mecanismos que possam avaliar a aptidão ou bagagem de conhecimento prévio necessário dos candidatos.


    Para cursos de pós-graduação, em particular, o uso de critérios produtivistas para seleção pode não fazer qualquer sentido, tendo em vista que a produção acadêmica deve resultar de um bom trabalho de pesquisa, ao invés de constituir um pré-requisito para que a pesquisa possa ser executada. Além disso, a produção científica de estudantes de graduação costuma falar muito mais sobre o grupo em que o estudante está inserido do que sobre seus méritos individuais, já que esses pesquisadores em geral não têm maturidade para conduzir esses processos sozinhos. Deve ser também ressaltado que as diferenças de produção científica de alunos de graduação são em geral pequenas, de forma que um artigo publicado empurra um candidato muitas posições para cima ou para baixo nesses rankings, embora seja irrelevante para a trajetória acadêmica de longo prazo que se inicia. Logo, a produção científica de estudantes de graduação deveria ser vista como parte desejável de um treinamento, não como um objetivo a ser perseguido e alcançado.

    A situação é ainda mais bizarra quando esses critérios de seleção são usados por docentes internamente, em departamentos e programas de pós-graduação. Nesse caso, o docente se coloca numa posição superior as dos demais colegas, além de simultaneamente estabelecer que uma parte dos pesquisadores em formação não merece a sua orientação. Dessa maneira, de forma egoísta o docente foca na sua própria produção ao invés do processo de transformação do estudante, deixando de ser instrumento da formação do pesquisador para colocar-se como objeto do trabalho da coletividade. Por isso, na minha opinião, esses processos internos de seleção baseados em argumentos produtivistas deveriam ser sumariamente vedados.

    Devemos perceber que essa situação se estende aos mecanismos para concessão de bolsas, vistas frequentemente como prêmios concedidos com base em critérios produtivistas, quando deveriam ser vistas como insumos necessários para a formação do pesquisador, realização da pesquisa e, posteriormente, concretização da produção científica. Por isso, todos deveriam ter acesso às bolsas, em particular os que mais dependem delas para a condução do processo de formação e transformação.

    Como vemos aqui, a lógica produtivista deforma a trajetória acadêmica desde o seu iniciozinho, a ponto de jovens pesquisadores acharem que não há outro caminho possível. Contudo, há outros caminhos possíveis e os processos de ensino e aprendizado deveriam sempre privilegiar o merecimento acadêmico e social, de maneira que os critérios deveriam lembrar o professor sempre de que ele é um instrumento desses processos, não o objeto finalístico dessa trajetória.

    6 min
  • Um alto índice de reprovação depõe a favor ou contra a qualidade de um curso ou de um professor ?

    É ainda comum em muitos cursos, em particular no ensino médio, mas mais frequentemente no ensino universitário, que professores se orgulhem de altos índices de reprovação, algumas vezes superiores a 80%. Nesse caso, o índice de reprovação é tomado como uma medida de como o tema ensinado é difícil e de quão séria e dedicada é a atuação de um professor particular. Dessa forma, apenas os estudantes mais aptos e mais dedicados seriam capazes de superar esse filtro de qualidade imposto por esse professor. No entanto, essa lógica parece ser pouco consistente, tendo em vista que em um processo de ensino o que importa mesmo é a capacidade de ensinar, ao invés de reprovar (que atesta a falha do processo de ensino).


    Certamente a reprovação pode resultar do desinteresse dos alunos no tema abordado, o que pode variar com o curso, o tema da disciplina, o local e o momento vivido pelos estudantes. Mas em um curso dado a um mesmo conjunto de estudantes, como em um ano do ensino médio ou ao longo do curso de graduação, as flutuações dos índices de reprovação podem falar mais sobre os professores do que sobre os alunos.

    Altos índices de reprovação podem mostrar, por exemplo, a incapacidade de o professor ensinar e transmitir o conteúdo abordado aos estudantes. Nesse caso, o índice de reprovação pode atestar que o professor é de fato um mau comunicador e incapaz de se fazer compreender. De forma similar, altos índices de reprovação podem atestar um sistema de avaliação injusto, em que se avalia algo que não foi em verdade ensinado. Como se o professor ensinasse os estudantes a somar a multiplicar e depois exigisse deles a comprovação do Teorema de Fermat. Mesmo no caso em que os estudantes demonstrem certo desinteresse, um bom professor deveria ser capaz de ao menos em parte reverter esse desinteresse, tema abordado em muitos filmes famosos disponíveis na internet.

    Enfim, a escola é um local para ensino e aprendizado, cujo sucesso pode ser medido pelo índice de aprovação em um sistema saudável e justo. Dessa forma, altos índices de reprovação podem indicar que aquele curso e a atuação daquele colega talvez não sejam tão bons assim, e que talvez estejam mais interessados em ranquear pessoas do que ensiná-las. Por isso, se você quer ser um bom professor, talvez deva trabalhar com afinco para obter, de forma justa e ética, índices de reprovação tão próximos de zero quanto possível.

    5 min
  • Se há várias carreiras possíveis na universidade, faz sentido que o filtro de avaliação seja único ?

    Como discutido no vídeo anterior, as atividades que caracterizam uma trajetória acadêmica são múltiplas, assim como as habilidades e vocações dos indivíduos. Nesse contexto, parece inapropriado que a carreira acadêmica seja pautada por um perfil uniforme de atuação e avaliação, como usualmente feito na maior parte das universidades brasileiras. Há claramente várias carreiras ou trajetórias profissionais possíveis no mundo acadêmico e que precisam ser reconhecidas e valorizadas, como descrito a seguir.


    Em primeiro lugar, há certamente uma carreira de ensino, caracterizada pela concentração no desenvolvimento, implementação e produção de estratégias e materiais com natureza didática e pedagógica. Embora pareça certo que essa atividade constitua o núcleo central das atividades conduzidas numa universidade, as atividades de ensino têm sido usualmente desprestigiadas nas universidades brasileiras, sendo comum ouvir nos corredores que os profissionais dedicados ao ensino nada produzem, o que me parece ser no mínimo muito estranho.


    Há também uma carreira de pesquisa, caracterizada pelas atividades de geração de conhecimento e de laboratório. Essa é a carreira que tem sido tomada como referência e modelo de atuação acadêmica desejável e admirável no Brasil, concentrando os sistemas de avaliação em torno dela e assim contribuindo também com a atrofia da riqueza da vida acadêmica e universitária.


    Há certamente uma carreira de extensão possível, que é aquela concentrada nas interações da universidade com o seu entorno e a sociedade. Embora essa atividade seja fundamental para derrubar muros, levar a universidade para as comunidades e legitimar boa parte da atividade acadêmica, ela tem sido historicamente combatida por núcleos mais conservadores, que vêm viés político e ideológico nas atividades de extensão.


    Há ainda uma carreira de gestão, mais concentrada nos aspectos administrativos da vida acadêmica. Essa é certamente a atividade mais visível para o mundo externo e frequentemente disputada internamente, também por conta dos adicionais financeiros usados para estimular o recrutamento de profissionais para essas atividades.


    Uma outra carreira possível é a administração acadêmica, voltada para a criação, organização e acompanhamento de cursos de graduação e pós-graduação, além dos alunos. Essa trajetória não se confunde com as atividades de ensino e gestão e é muitas vezes invisível para a própria universidade, exigindo muitas vezes o sacrifício pessoal daqueles que se dedicam a essas tarefas.


    Enfim, há ainda outras carreiras possíveis, de forma que todas essas trajetórias deveriam ser formalmente consideradas, igualmente valorizadas e justamente avaliadas com filtros distintos. É importante ressaltar que essa discussão nada tem a ver com discussões sobre Planos de Cargos e Salários, que podem ser conduzidas de forma independente e que poderiam ser uniformes e equivalentes para todas as carreiras (embora baseadas em demandas e critérios de avaliação distintos). Essa discussão é muito comum nos corredores das universidades, mas precisam ser escaladas e transformadas em pautas formais de discussão. O fato é que é urgente que a interpretação sobre as trajetórias e carreiras acadêmicas mude, para contemplar a diversidade e importâncias das diferentes atividades conduzidas no seio da universidade.

    6 min
  • Por que professores devem ser avaliados de forma uniforme, se têm habilidades e vocações distintas ?

    Pense aí um time de futebol: são onze jogadores, cada um com uma missão e exercendo uma especialidade para benefício do grupo. Um goleiro, por exemplo, é muito importante, mas um time de onze goleiros provavelmente não iria muito longe. Isso é mais ou menos verdade em todos os esportes coletivos, em que cada um coloca o melhor de suas habilidades para o benefício de todo o grupo.


    Em contraposição, pense agora um esporte individual, em que o que importa é a superação individual do atleta: nadar mais rapidamente, correr mais rapidamente, permanecer mais tempo em quadra. Aparentemente não há cooperação visível e tudo é feito para o sucesso do indivíduo.

    Há ainda os esportes que fazem uma espécie de mescla de várias modalidades, como o pentatlo, o heptatlo, o decatlo e o iron man. Nesses casos, o atleta deve apresentar um desempenho médio superior aos dos demais concorrentes nas diferentes provas, embora provavelmente viesse a ser derrotado sempre, se tivesse que disputar contra um time de especialistas.

    Se aceitarmos essas analogias como válidas, uma pergunta se faz necessária: por que exatamente um professor universitário deve exercer simultaneamente todas as atividades que caracterizam a atividade acadêmica, como dar aulas, fazer pesquisa, fazer extensão, colaborar com a gestão, exercer atividades de representação, atuar como editor, como revisor, dentre outras ? É como se a universidade procurasse atletas de decatlo para trabalhar, ao invés de especialistas. Ainda não ouvi uma boa resposta para essa pergunta.

    Uma resposta frequente é aquela que considera que todas essas atividades são inerentes à função acadêmica, o que não é possível contestar. No entanto, isso não é o mesmo que dizer que cada indivíduo deva exercer cada uma dessas muitas atividades que caracterizam o mundo acadêmico simultaneamente. Aliás, esse costuma ser inclusive um jogo sem vencedores, pois toda vez que um indivíduo é deslocado para exercer atividades para as quais não desenvolveu as habilidades necessárias ou com as quais não se sente confortável e feliz, perde o indivíduo e perde a coletividade, com o resultado menos competente do trabalho.

    Em verdade, as atividades do professor universitário deveriam ser flexíveis e as avaliações não deveriam ser uniformes para todos, medidas com a mesma régua, tendo em vista a multiplicidade de habilidades e vocações no mundo acadêmico. E esse talvez seja o nó da questão: há uma certa resistência e uma certa preguiça para discutir a carreira do professor universitário com suas múltiplas características. Apesar disso, esse é certamente um tema muito importante. Pense nisso.

    6 min
  • Um pesquisador nunca é um indivíduo, mas o coletivo que ele representa

    No dia 24 de outubro de 2021 tive a satisfação de receber a maior honraria da comunidade científica de polímeros no Brasil, o Prêmio Eloísa Mano, concedido pela Associação Brasileira de Polímeros a cada dois anos a um pesquisador da área. Para quem não conhece esse tema, a Profa. Eloísa Mano foi uma pioneira da área de polímeros do Brasil e responsável direta pela criação do Instituto de Macromoléculas da UFRJ, onde trabalhou por muitas décadas até depois dos 90 anos, com muito vigor e energia. Dessa forma, é também com enorme satisfação que vejo meu nome ser associado ao dela de alguma maneira.

    Nesse momento, foi impossível deixar de revisitar a carreira e observar que os trabalhos que fiz e publiquei contaram com as participações de mais de 500 pesquisadores, havendo mais de mil nomes de pessoas distintas citadas no meu curriculum vitae. Esse número é impressionante e mostra de forma óbvia que um pesquisador de alguma forma não é exatamente um indivíduo, mas o coletivo que ele representa. No meu caso particular, o coletivo é o EngePol - Laboratório de Engenharia de Polímeros da UFRJ.

    Sabemos todos que o trabalho acadêmico e de pesquisa se constrói a muitas mãos, de forma que prêmios e honrarias, embora concedidos a indivíduos, são de fato concedidos aos coletivos que o pesquisador representa. A compreensão da natureza coletiva do trabalho de pesquisa é fundamental para que o pesquisador não se iluda sobre a sua contribuição individual ao resultado do seu próprio trabalho, que em geral seria muito menor sem o trabalho coletivo do grupo em que está inserido. Até por isso, tenho sempre me posicionado de forma incisiva contra todos os procedimentos que procuram fulanizar o trabalho acadêmico e transformar o trabalho coletivo em mérito individual.

    Lembro também de uma certa entrevista de Nizan Guanaes ao Jô Soares Onze e Meia, em que contou a história de um prêmio mundial recebido pela agência DM-9. Após o prêmio, ligou com satisfação para sua mãe para contar sobre o prêmio recebido. Ela ficou feliz, mas reparou que estava com a voz um pouco rouca e perguntou se estava bem, se estava se alimentando direito, se estava se cuidando e sem febre. Essa história é muito legal porque mostra que para o nosso entorno o que importa mesmo é quem somos.

    Por isso, estou muito feliz e honrado com esse prêmio, mas compartilho a honraria com todos os pesquisadores do EngePol. E torço para que o EngePol continue sendo esse ambiente maravilhoso para o trabalho de pesquisa e a colaboração.

    Referências:

    • https://pt.wikipedia.org/wiki/Eloisa_Biasotto_Mano
    • https://abpol.org.br/
    • https://www.youtube.com/watch?v=w5HHZDoWWi8
    • 5 min
    • Proteja-se do estresse depressivo, muito comum entre pesquisadores e pós-graduandos

      A vida de pesquisadores e pós-graduandos costuma ser muito estressante. Em primeiro lugar, a vida de pesquisa pode ser muito demandante, com excesso de compromissos a serem cumpridos com orientadores, instâncias acadêmicas, financiadores, colegas, dentre outros atores. Além disso, a vida de pesquisa é muito competitiva, em particular por conta do produtivismo exacerbado, que muitas vezes estabelece metas inatingíveis para cada um de nós. E não podemos esquecer que o dia-a-dia da pesquisa é repleto de cobranças, em boa parte de cobranças internas.


      É preciso ainda admitir que os pesquisadores em geral são muito frágeis em relação às cobranças, porque quase sempre foram bons alunos, cumpridores de expectativas e de deveres, de forma que não costumam lidar muito bem com a existência de limites pessoais e falhas. Até por isso, costumam dizer com orgulho que não tiraram férias, ou que passaram a noite trabalhando ou que passaram o final de semana à frente do computador. Essa dedicação exagerada ao trabalho acaba provocando muita frustração quando as metas estabelecidas não são eventualmente atingidas.

      Esse panorama apresentado constitui caldo de fermentação propício para o desenvolvimento do estresse depressivo. Por essa razão, pesquisadores e pós-graduandos são com frequência vítimas desse quadro de estresse depressivo. Assim, se você está sentindo uma certa apatia, desmotivação e um pouco de tristeza, talvez você esteja sendo acometido por esse tipo de estresse funcional.

      Se esse é seu caso, saiba que você não está só e que o estresse depressivo é muito comum na nossa comunidade, podendo ocorrer algumas vezes ao longo da vida profissional. Esse pode ser um sinal de que você está passando do ponto e precisa parar um tempo para se cuidar. Talvez seja hora para conversar com amigos e conselheiros, cuidar da alimentação (a alimentação desequilibrada contribui com o agravamento do estresse e da depressão), tirar umas férias, fazer exercícios e renovar a carga hormonal, e até mesmo procurar apoio profissional (talvez dentro da própria instituição de trabalho).

      Se você está sentindo os sintomas característicos do estresse depressivo, a hora não é de tomar decisões, mas de cuidar de você. Saiba que esse momento é passageiro, vai passar e a vida vai continuar. Por isso, cuide-se.

      Referências:

      • https://youtu.be/watch?v=DKKxo1Mevok
      • https://www.anamt.org.br/portal/2019/06/07/entenda-diferencas-entre-burnout-estresse-e-depressao/
      • https://saude.abril.com.br/medicina/depressao-sintomas-diagnostico-prevencao-e-tratamento/
      • https://www.qualicorp.com.br/qualicorp-explica/doencas-e-tratamentos/estresse-pode-causar-depressao/#:~:text=At%C3%A9%2050%25%20dos%20adultos%20sofrem,e%20desmotiva%C3%A7%C3%A3o%2C%20caracter%C3%ADsticos%20da%20depress%C3%A3o
      • https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/ansiedade-e-depressao-na-universidade/
      • 5 min
      • Afaste a tentação corporativista da sua vida profissional e intelectual

        Um dos aspectos menos edificantes da vida profissional, na minha opinião, é o corporativismo. O corporativismo é aquela propensão à defesa de interesses próprios por parte de grupos organizados, que muitas vezes não compartilham mais do que a mera atuação profissional. O corporativismo faz explodir o número de órgãos de representação, conselhos de classe, propostas de reservas de mercado para atuação profissional e frequentemente faz a defesa do indivíduo com base em sua profissão, ao invés da justiça e correção de seus atos.


        Perceba que ninguém é necessariamente bom ou está necessariamente correto apenas porque é professor, ou pesquisador ou cientista. Em verdade, todos os regimes autoritários e repressores do mundo contam com o apoio de pesquisadores, cientistas e professores, que dão suporte e propagam as ideias autoritárias e repressoras desses regimes. Hitler contava com o apoio de um time de pesquisadores e cientistas para desenvolver e divulgar suas ideias supremacistas e promoveu um festival de horrores na Medicina em nome da ciência e da pesquisa.

        Deve ficar claro que o corporativismo nada tem a ver com a legítima discussão e luta por direitos trabalhistas e políticos. O corporativismo trata principalmente da demanda por e da manutenção de privilégios.

        Por exemplo, um dos conceitos mais obtusos gestados durante a pandemia é o da autonomia do médico para prescrever tratamentos para pacientes, com base apenas na sua compreensão particular do mundo e no acordo com o paciente. Essa tese, que tem sido amplamente defendida por órgãos de representação e agentes governamentais, pretende em verdade apenas dar ao médico o direito de atuar de forma ideologicamente engajada e de exercer suas atividades profissionais como uma espécie de bruxo, isentando-o de qualquer responsabilidade pelo que faz ao paciente.

        O conceito da pretensa autonomia do médico é tão absurdo que pode ser derrubado por mero exercício de questionamento teórico. Por exemplo, será que alguém tem o direito de induzir o paciente à morte, ou de tratar gripe com estricnina ou ainda prescrever o tratamento da tuberculose à base de chá de camomila ? Como as respostas para essas perguntas são obviamente NÃO, parece claro que o médico não tem autonomia nem autoridade para matar ou não curar, porque não é essa a sua missão profissional.

        Como pensador e profissional, resista e procure se afastar da tentação corporativista. Antes de perguntar se uma proposta é boa para o grupo do qual você faz parte, pergunte se a proposta é boa e justa com a sociedade que o cerca e na qual você está inserido.

        Referências:

        • https://pt.wikipedia.org/wiki/Corporativismo
        • https://super.abril.com.br/ciencia/doutores-da-agonia/
        • https://www.saraiva.com.br/os-cientistas-de-hitler-ciencia-guerra-e-o-pacto-com-o-demonio-141605/p
        • http://interessenacional.com.br/2017/09/18/o-novo-corporativismo-brasileiro/
        • https://www.poder360.com.br/governo/queiroga-e-mayra-pinheiro-defendem-autonomia-medica-em-dia-do-medico/
        • https://www.cartacapital.com.br/opiniao/autonomia-medica-tem-limite/
        • 5 min
        • Histórias de um Pesquisador (Ep 11) - Quando o estudante / pesquisador não fala nem pergunta ...

          Quando eu dou aulas, costumo fazer muitas perguntas e procuro estimular a participação dos estudantes, pois acho muito chato passar horas a fio falando, sem ter algum tipo de feedback. Contudo, durante um curso de pós-graduação para engenheiros, ao fazer uma pergunta para um estudante, recebi como resposta desse estudante o pedido de que não fizesse mais perguntas a ele. Segundo o estudante, era direito dele não revelar para os demais colegas o que ele sabia ou deixava de saber. Achei a resposta chocante e devo ter perdido a chave uns 5 segundos, pois não estava preparado para ouvir aquela resposta. Obviamente, nunca mais fiz qualquer pergunta àquele estudante durante o curso, o que foi uma pena.

          O episódio ajuda um pouco a compreender por que a participação do estudante em sala de aula ou do pesquisador em evento científico é usualmente tão baixa no Brasil. No exterior, a participação de estudantes e pesquisadores nesses eventos é normalmente muito mais significativa, chovendo perguntas durante e após as apresentações. No Brasil é comum inclusive que apenas o presidente da seção faça perguntas nos eventos científicos, para evitar o constrangimento da ausência de discussão ao final das apresentações.

          De alguma forma a cultura brasileira torna mais difícil a participação das pessoas nesses eventos públicos. As razões que podem explicar esse comportamento são várias: a) a baixa autoestima e o medo de revelar aos demais algum desconhecimento ou de formular perguntas tolas; b) a competição exacerbada e o medo do julgamento por terceiros; c) a inibição causada pela autoridade de quem apresenta; d) a repressão da curiosidade dos jovens como algo ruim, com uso dos apelidos de enxerido ou de Zé Perguntinha; dentre outros motivos possíveis. Minha esposa lembra que tinha raiva de ser chamada de curiosa pelos parentes quando era pequena, por conta de suas perguntas frequentes.

          O fato é que perguntar e questionar são fundamentais para o aprendizado de quem ouve e de quem fala. Por isso, participe e estimule a participação de estudantes e colegas sempre !!! Inclusive, sugiro aqui um exercício para ser praticado em todas as apresentações: durante a palestra ou aula, formule perguntas possíveis e apresente algumas para o público. Isso vai ser bom para você, para o palestrante e para o público.

          5 min

        About Falando com Ciência

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        Vamos comentar sobre os aspectos, muitas vezes polêmicos, do dia a dia da pesquisa que se faz pelo Brasil, nos Institutos de Pesquisa e nas Universidades.