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No final do ano 2020, o nosso grupo de pesquisa teve a oportunidade de preparar um belo trabalho para submissão a uma revista científica, abordando vários aspectos inovadores sobre a implementação de um determinado procedimento numérico em um ambiente industrial. O trabalho inclusive continha extensa apresentação de dados que validavam o uso do procedimento em ambiente real. Estávamos orgulhosos do trabalho desenvolvido e executado. Por isso, escolhemos uma boa revista e submetemos o trabalho para publicação.
Nas últimas semanas foi muito discutida a sequência de eventos relacionada com a indicação de homenageados da Ordem do Mérito Científico do Brasil. Apesar do tema vir sendo debatido com intensidade nas redes sociais e nos grupos de zap, vale a pena revisitar a sequência de eventos para compreendermos melhor a natureza dos atos do Governo Federal e da comunidade acadêmica.
Inicialmente, devemos considerar que a Ordem do Mérito Científico foi estabelecida no ano de 1993, no Governo Itamar Franco, para homenagear personalidades que tenham contribuído com as áreas de ciência e tecnologia no Brasil. Desde então, o decreto original foi modificado por cada um dos Presidentes da República que passaram no Palácio do Planalto, mostrando de forma inequívoca a natureza política dessa instituição. Na prática, a Ordem estabelece um Conselho para assessoramento do presidente da república nas áreas de ciência e tecnologia, mas que é irrelevante, porque não tem atribuições definidas e porque opiniões e decisões do Conselho não têm qualquer poder deliberativo. Portanto, o Conselho serve apenas para que o Governo Federal possa fazer proselitismo político e para homenagear acadêmicos, que se sentirão honrados com as medalhas e comendas recebidas. Uma prova da irrelevância é que, apesar do Conselho admitir até 1300 membros, outorgas não são feitas desde o ano de 2013, ainda no Governo Dilma Rousseff, e que poucas pessoas são capazes de lembrar algum nome que faça parte desse Conselho.
Além disso, a Ordem é organizada de forma estranha, lembrando sociedades secretas, como uma loja maçônica ou aquelas sociedades universitárias americanas, do tipo Kappa-Tau-Sigma-Lambda, com classes de Grã-Cruz e Comendadores e cargos de Grão-Mestre e Chanceler. Deve ser enfatizado que há um Conselho de natureza política que revisa as indicações técnicas feitas em conjunto pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, Academia Brasileira de Ciências e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, atestando de forma inequívoca o caráter político da homenagem.
Nesse contexto, a indicação muito discutida do presidente da república para que ele mesmo e vários ministros (da Ciência e Tecnologia, da Economia, das Relações Exteriores e da Educação) recebessem a comenda era completamente desnecessária, porque eles já fazem parte do Conselho da Ordem de maneira natural, como estabelecido pelo decreto que a estabelece, queiram eles ou não. O episódio mostra apenas como esse Governo Federal é incompetente e desconhece os meandros da vida acadêmica, reforçando uma vez mais a natureza política da Ordem.
Em seguida, a remoção de dois nomes da lista de indicados à homenagem foi apenas uma grosseria, novamente mostrando o caráter político da Ordem e o desejo de forma uma academia obediente, já que esses dois indicados revelaram a estupidez e o absurdo dos atos do Governo Federal na gestão da pandemia. Por conta disso, várias cartas de repúdio começaram a circular e vários cientistas indicados pelo atual presidente solicitaram corretamente e de forma coletiva a remoção de seus nomes da lista de homenageados, lembrando as ações negacionistas e obscurantistas desse Governo e o desprestígio das áreas de ciência, tecnologia e educação no momento atual. No entanto, é importante observar que vários nomes permaneceram na lista, o que é uma vergonha !
Faltou ser dito que... [Para a descrição completa e a lista de referências, confira o vídeo no canal do Youtube].
Uma das muitas consequências ruins do produtivismo é a transformação do processo de ensino e aprendizado em uma corrida competitiva, frequentemente amparada por falsos argumentos meritocráticos. Essa deformação ocorre desde o início da trajetória acadêmica, transformando processos de seleção para cursos de pós-graduação em sistemas de ranqueamento de indivíduos baseados em itens de produção, ao invés de privilegiar aplicações de provas ou outros mecanismos que possam avaliar a aptidão ou bagagem de conhecimento prévio necessário dos candidatos.
É ainda comum em muitos cursos, em particular no ensino médio, mas mais frequentemente no ensino universitário, que professores se orgulhem de altos índices de reprovação, algumas vezes superiores a 80%. Nesse caso, o índice de reprovação é tomado como uma medida de como o tema ensinado é difícil e de quão séria e dedicada é a atuação de um professor particular. Dessa forma, apenas os estudantes mais aptos e mais dedicados seriam capazes de superar esse filtro de qualidade imposto por esse professor. No entanto, essa lógica parece ser pouco consistente, tendo em vista que em um processo de ensino o que importa mesmo é a capacidade de ensinar, ao invés de reprovar (que atesta a falha do processo de ensino).
Como discutido no vídeo anterior, as atividades que caracterizam uma trajetória acadêmica são múltiplas, assim como as habilidades e vocações dos indivíduos. Nesse contexto, parece inapropriado que a carreira acadêmica seja pautada por um perfil uniforme de atuação e avaliação, como usualmente feito na maior parte das universidades brasileiras. Há claramente várias carreiras ou trajetórias profissionais possíveis no mundo acadêmico e que precisam ser reconhecidas e valorizadas, como descrito a seguir.
Em primeiro lugar, há certamente uma carreira de ensino, caracterizada pela concentração no desenvolvimento, implementação e produção de estratégias e materiais com natureza didática e pedagógica. Embora pareça certo que essa atividade constitua o núcleo central das atividades conduzidas numa universidade, as atividades de ensino têm sido usualmente desprestigiadas nas universidades brasileiras, sendo comum ouvir nos corredores que os profissionais dedicados ao ensino nada produzem, o que me parece ser no mínimo muito estranho.
Há também uma carreira de pesquisa, caracterizada pelas atividades de geração de conhecimento e de laboratório. Essa é a carreira que tem sido tomada como referência e modelo de atuação acadêmica desejável e admirável no Brasil, concentrando os sistemas de avaliação em torno dela e assim contribuindo também com a atrofia da riqueza da vida acadêmica e universitária.
Há certamente uma carreira de extensão possível, que é aquela concentrada nas interações da universidade com o seu entorno e a sociedade. Embora essa atividade seja fundamental para derrubar muros, levar a universidade para as comunidades e legitimar boa parte da atividade acadêmica, ela tem sido historicamente combatida por núcleos mais conservadores, que vêm viés político e ideológico nas atividades de extensão.
Há ainda uma carreira de gestão, mais concentrada nos aspectos administrativos da vida acadêmica. Essa é certamente a atividade mais visível para o mundo externo e frequentemente disputada internamente, também por conta dos adicionais financeiros usados para estimular o recrutamento de profissionais para essas atividades.
Uma outra carreira possível é a administração acadêmica, voltada para a criação, organização e acompanhamento de cursos de graduação e pós-graduação, além dos alunos. Essa trajetória não se confunde com as atividades de ensino e gestão e é muitas vezes invisível para a própria universidade, exigindo muitas vezes o sacrifício pessoal daqueles que se dedicam a essas tarefas.
Enfim, há ainda outras carreiras possíveis, de forma que todas essas trajetórias deveriam ser formalmente consideradas, igualmente valorizadas e justamente avaliadas com filtros distintos. É importante ressaltar que essa discussão nada tem a ver com discussões sobre Planos de Cargos e Salários, que podem ser conduzidas de forma independente e que poderiam ser uniformes e equivalentes para todas as carreiras (embora baseadas em demandas e critérios de avaliação distintos). Essa discussão é muito comum nos corredores das universidades, mas precisam ser escaladas e transformadas em pautas formais de discussão. O fato é que é urgente que a interpretação sobre as trajetórias e carreiras acadêmicas mude, para contemplar a diversidade e importâncias das diferentes atividades conduzidas no seio da universidade.
Pense aí um time de futebol: são onze jogadores, cada um com uma missão e exercendo uma especialidade para benefício do grupo. Um goleiro, por exemplo, é muito importante, mas um time de onze goleiros provavelmente não iria muito longe. Isso é mais ou menos verdade em todos os esportes coletivos, em que cada um coloca o melhor de suas habilidades para o benefício de todo o grupo.
No dia 24 de outubro de 2021 tive a satisfação de receber a maior honraria da comunidade científica de polímeros no Brasil, o Prêmio Eloísa Mano, concedido pela Associação Brasileira de Polímeros a cada dois anos a um pesquisador da área. Para quem não conhece esse tema, a Profa. Eloísa Mano foi uma pioneira da área de polímeros do Brasil e responsável direta pela criação do Instituto de Macromoléculas da UFRJ, onde trabalhou por muitas décadas até depois dos 90 anos, com muito vigor e energia. Dessa forma, é também com enorme satisfação que vejo meu nome ser associado ao dela de alguma maneira.
Nesse momento, foi impossível deixar de revisitar a carreira e observar que os trabalhos que fiz e publiquei contaram com as participações de mais de 500 pesquisadores, havendo mais de mil nomes de pessoas distintas citadas no meu curriculum vitae. Esse número é impressionante e mostra de forma óbvia que um pesquisador de alguma forma não é exatamente um indivíduo, mas o coletivo que ele representa. No meu caso particular, o coletivo é o EngePol - Laboratório de Engenharia de Polímeros da UFRJ.
Sabemos todos que o trabalho acadêmico e de pesquisa se constrói a muitas mãos, de forma que prêmios e honrarias, embora concedidos a indivíduos, são de fato concedidos aos coletivos que o pesquisador representa. A compreensão da natureza coletiva do trabalho de pesquisa é fundamental para que o pesquisador não se iluda sobre a sua contribuição individual ao resultado do seu próprio trabalho, que em geral seria muito menor sem o trabalho coletivo do grupo em que está inserido. Até por isso, tenho sempre me posicionado de forma incisiva contra todos os procedimentos que procuram fulanizar o trabalho acadêmico e transformar o trabalho coletivo em mérito individual.
Lembro também de uma certa entrevista de Nizan Guanaes ao Jô Soares Onze e Meia, em que contou a história de um prêmio mundial recebido pela agência DM-9. Após o prêmio, ligou com satisfação para sua mãe para contar sobre o prêmio recebido. Ela ficou feliz, mas reparou que estava com a voz um pouco rouca e perguntou se estava bem, se estava se alimentando direito, se estava se cuidando e sem febre. Essa história é muito legal porque mostra que para o nosso entorno o que importa mesmo é quem somos.
Por isso, estou muito feliz e honrado com esse prêmio, mas compartilho a honraria com todos os pesquisadores do EngePol. E torço para que o EngePol continue sendo esse ambiente maravilhoso para o trabalho de pesquisa e a colaboração.
Referências:
A vida de pesquisadores e pós-graduandos costuma ser muito estressante. Em primeiro lugar, a vida de pesquisa pode ser muito demandante, com excesso de compromissos a serem cumpridos com orientadores, instâncias acadêmicas, financiadores, colegas, dentre outros atores. Além disso, a vida de pesquisa é muito competitiva, em particular por conta do produtivismo exacerbado, que muitas vezes estabelece metas inatingíveis para cada um de nós. E não podemos esquecer que o dia-a-dia da pesquisa é repleto de cobranças, em boa parte de cobranças internas.
Referências:
Um dos aspectos menos edificantes da vida profissional, na minha opinião, é o corporativismo. O corporativismo é aquela propensão à defesa de interesses próprios por parte de grupos organizados, que muitas vezes não compartilham mais do que a mera atuação profissional. O corporativismo faz explodir o número de órgãos de representação, conselhos de classe, propostas de reservas de mercado para atuação profissional e frequentemente faz a defesa do indivíduo com base em sua profissão, ao invés da justiça e correção de seus atos.
Referências:
Quando eu dou aulas, costumo fazer muitas perguntas e procuro estimular a participação dos estudantes, pois acho muito chato passar horas a fio falando, sem ter algum tipo de feedback. Contudo, durante um curso de pós-graduação para engenheiros, ao fazer uma pergunta para um estudante, recebi como resposta desse estudante o pedido de que não fizesse mais perguntas a ele. Segundo o estudante, era direito dele não revelar para os demais colegas o que ele sabia ou deixava de saber. Achei a resposta chocante e devo ter perdido a chave uns 5 segundos, pois não estava preparado para ouvir aquela resposta. Obviamente, nunca mais fiz qualquer pergunta àquele estudante durante o curso, o que foi uma pena.
O episódio ajuda um pouco a compreender por que a participação do estudante em sala de aula ou do pesquisador em evento científico é usualmente tão baixa no Brasil. No exterior, a participação de estudantes e pesquisadores nesses eventos é normalmente muito mais significativa, chovendo perguntas durante e após as apresentações. No Brasil é comum inclusive que apenas o presidente da seção faça perguntas nos eventos científicos, para evitar o constrangimento da ausência de discussão ao final das apresentações.
De alguma forma a cultura brasileira torna mais difícil a participação das pessoas nesses eventos públicos. As razões que podem explicar esse comportamento são várias: a) a baixa autoestima e o medo de revelar aos demais algum desconhecimento ou de formular perguntas tolas; b) a competição exacerbada e o medo do julgamento por terceiros; c) a inibição causada pela autoridade de quem apresenta; d) a repressão da curiosidade dos jovens como algo ruim, com uso dos apelidos de enxerido ou de Zé Perguntinha; dentre outros motivos possíveis. Minha esposa lembra que tinha raiva de ser chamada de curiosa pelos parentes quando era pequena, por conta de suas perguntas frequentes.
O fato é que perguntar e questionar são fundamentais para o aprendizado de quem ouve e de quem fala. Por isso, participe e estimule a participação de estudantes e colegas sempre !!! Inclusive, sugiro aqui um exercício para ser praticado em todas as apresentações: durante a palestra ou aula, formule perguntas possíveis e apresente algumas para o público. Isso vai ser bom para você, para o palestrante e para o público.
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