Falando com Ciência

Falando com Ciência

By Jose Carlos PintoScience
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Falando com Ciência episodes

  • Urubus no Ministério da Saúde publicam tabela com tese que procura dados desesperadamente

    Quando você acha que já viu de tudo, o Governo Federal mostra que não e que é sempre possível ser ainda mais obtuso. Pois bem, na última sexta-feira, 21/01/2022, o Governo Federal publicou uma incrível nota técnica por meio do Ministério da Saúde que diz em uma de suas tabelas que o uso das vacinas não é seguro nem comprovado, enquanto o da hidroxicloroquina é. A nota tem provocado enorme indignação (com justa razão) nas comunidades técnicas e científicas do país e há inclusive um abaixo-assinado disponível na internet para repúdio e revogação dessa nota.

    A responsabilidade pela Nota Técnica 02/2022 SCTIE/MS é o Secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos, o senhor Hélio Angotti Neto, oftalmologista que deveria ser sumariamente demitido do cargo que ocupa por fazer o oposto do que deveria fazer a secretaria que dirige: Ciência. No entanto, não se trata de fato isolado de mais um louco olavista que ocupa um cargo no Governo Federal. O objetivo da nota é rejeitar um protocolo que propõe a eliminação do uso do "kit COVID" para tratamento da doença que matou velhinhos em São Paulo, no famoso caso da PREVENT Senior, conforme recomendado pelo CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao SUS), que o Ministro da Saúde dizia respeitar e cujas recomendações seriam usadas para pautar suas decisões. Sabe-se agora que a afirmação do Ministro era falsa, e que as recomendações do CONITEC só são úteis quando não contrariam as opiniões de seu chefe.

    A nota também faz parte da luta que o Governo Federal empreende contra as vacinas e do discurso que propõe que o uso das vacinas não é seguro. Veja que o Ministro da Saúde e o Presidente da República jamais visitaram uma família enlutada pela COVID-19, embora o Ministro estivesse presente na Paraíba, assim que se soube que crianças haviam sido vacinadas com doses de adultos (até onde se sabe, todas as crianças passam bem), e em São Paulo, assim que se soube que uma criança havia tido uma parada cardíaca no mesmo dia em que tomou a vacina (embora se saiba que o evento cardíaco nada tenha a ver com a vacina e tenha sido provocado por uma doença que infelizmente a criança tem).

    Vê-se, portanto, que a tabela da nota técnica do Ministério da Saúde propõe uma tese que está em busca desesperada por dados que a confirmem. Enquanto isso, os urubus estão passeando entre os girassóis, procurando e provocando mortes. Vergonha eterna para esses médicos de araque que atuam no Governo Federal. Que a gente possa virar com máxima urgência essa página triste da história do Brasil.

    Referências:

    • https://g1.globo.com/saude/coronavirus/noticia/2022/01/22/ministerio-da-saude-diz-que-hidroxicloroquina-e-segura-mas-vacinas-nao-nota-tecnica-contraria-oms-e-cientistas.ghtml
    • https://chng.it/WYbKTVBd
    • https://www.otempo.com.br/politica/governo/olavista-e-alvo-de-cpi-e-autor-da-nota-do-governo-contra-vacinas-1.2599954
    • https://www.poder360.com.br/justica/mpf-apura-uso-de-vacinas-de-adultos-em-criancas-na-paraiba/
    • https://www.cnnbrasil.com.br/saude/saude-confirma-que-crianca-nao-teve-reacao-a-vacina-em-lencois-paulista/
    • 5 min
    • O que fazer no momento? Perseguir o sonho da carreira de pesquisa ou aceitar a proposta de emprego?

      A vida acadêmica sob vários aspectos apresenta um certo caráter oscilatório. Por exemplo, a atratividade da pós-graduação flutua muito ao longo dos anos por conta de vários fatores, mas em particular dos níveis de atividade econômica.

      Nesse movimento pendular, vivemos um pico de alta atratividade na metade da década passada, por conta dos muitos investimentos governamentais e da Petrobras em atividades de pesquisa e tecnologia, em particular em torno do tema do Pré-Sal. Mas vivemos hoje um período de baixa histórica, com significativa redução do interesse de estudantes pela pós-graduação, com aumento expressivo do número de abandonos e redução considerável do número de inscrições.

      As razões que explicam o momento que vivemos hoje são várias:

      a) a redução do número de bolsas oferecidas por agências de fomento, em particular pelo Governo Federal;

      b) a defasagem do valor das bolsas, apesar de algumas agências terem anunciado alguma correção no final do ano passado;

      c) a pandemia, que afastou os estudantes dos programas de pós-graduação e institutos de pesquisa;

      d) a crise econômica brasileira, que afeta a capacidade de sobrevivência das famílias e gera o medo do desemprego, incentivando a aceitação de qualquer oportunidade de trabalho que apareça;

      e) e obviamente o discurso obscurantista, negacionista e anti-ciência do Governo Federal, que faz com que estudantes desacreditem do apoio às atividades de pesquisa que venham eventualmente executar.

      Nesse cenário, muitos estudantes se perguntam se devem perseguir o sonho da carreira de pesquisa ou se devem aproveitar as oportunidades de trabalho que se apresentam de forma imediata. Contudo, é muito difícil responder essa pergunta de forma única, pois cada indivíduo é um ente particular e enfrenta uma realidade também particular. Por isso, não é possível formular uma única resposta para essa pergunta e cada caso deve ser analisado de forma independente.

      Para o país, cada perda de um possível candidato à carreira de pesquisa é uma perda irreparável e irrecuperável, pois a média de pesquisadores no Brasil é muito mais baixa que nos demais países da OCDE, como discutido aqui em vídeo anterior do canal. Perdemos assim a nossa capacidade de gerar conhecimento e tecnologia, transferindo pesquisadores em massa para a execução de atividades operacionais e aprofundando a dependência econômica e tecnológica do país, que nunca se resolve.

      Para os estudantes que ainda estão em dúvida, é importante dizer que é possível conciliar as atividades externas com a pesquisa. Por exemplo, é possível combinar os temas das atividades realizadas no emprego com as atividades de pesquisa. É possível também participar de projetos de pesquisa realizados em colaboração com empresas parceiras. Por isso, se esse é seu caso, procure o seu orientador e o coordenador do seu programa para ter uma conversa franca sobre o tema.

      Para os mais resilientes que decidirem investir na carreira de pesquisa, apesar das dificuldades do momento, saibam que esse momento vai passar. Nesse caso, os mais resilientes estarão certamente mais bem posicionados para alavancar a carreira no momento em que os investimentos em conhecimento e pesquisa voltarem a aumentar. No entanto, é importante perceber que esse movimento passa pelas eleições presidenciais de 2022. Por isso, fuja dos candidatos obscurantistas, negacionistas e anti-ciência que mantêm o país atrelado ao passado. O Brasil moderno precisa do trabalho de pesquisa que você realiza.

      https://youtu.be/leH_UQuVRKE

      6 min
    • A Ômicron é campeã de transmissibilidade ! Se você não está na sede, aguarde a onda passar !

      É impossível ignorar que no dia 18/01/2022 foi registrado o recorde de novos casos diários de infecções confirmadas pelo coronavírus no Brasil, superior a 130.000 novos casos. Cenário similar vem sendo observado em outros países do mundo, como na Alemanha (recorde de 100.000 novos casos), França (recorde de quase meio milhão de novos casos), e muitos outros lugares. Nos últimos dois meses, o número de casos confirmados de novas infecções mais do que dobrou em todo o mundo e nos aproximamos rapidamente da incrível marca de 350 milhões de casos confirmados de COVID-19 no planeta.

      É relevante ressaltar que esses números podem estar muito subestimados, pois faltam testes de confirmação em todo o mundo, incluindo o Brasil. No país a falta de testes tem resultado em longas filas para confirmação da infecção. Como as taxas de confirmação são aproximadamente iguais a 50% do número de testes realizados, as longas filas de testagem podem contribuir com espalhamento das infecções e há muitos relatos de pessoas que acreditam ter sido contaminadas nessas filas, o que de fato é possível. Por isso, muito cuidado.

      Segundo os infectologistas, a variante ômicron do coronavírus é o vírus mais transmissível da história da sociedade humana. Segundo os especialistas, uma única pessoa doente pode transmitir o vírus para outras 14 milhões de pessoas, num processo explosivo em que cada contaminado vai transmitindo a doença para outras 200 pessoas. Para fins de comparação, o vírus mais transmissível até então era o vírus do sarampo, com potencial de infectar outras 15 pessoas a partir de cada pessoa doente. É verdade que as vacinas e os cuidados com higiene das mãos e uso de máscaras podem reduzir o potencial de contaminação da ômicron para 3 novas infecções para cada pessoa doente, mas que ainda é um número muito grande.

      Segundo os especialistas, a maior transmissibilidade da ômicron está associada principalmente a dois fatores. Primeiramente, as mutações sofridas pelo vírus tornaram a interação com as células do corpo humano mais fáceis, de maneira que o vírus penetra mais facilmente as células humanas e se reproduz com maior efetividade. Em segundo lugar, a variante ômicron se instala nas partes superiores do trato respiratório, tornando o contágio das pessoas ao redor mais fácil.

      É relevante ressaltar que a aparente menor agressividade da variante ômicron deve ser relativizada; afinal, 2% de mortes em 100 mil casos são equivalentes a 2000 mortes, mas 0,5% de mortes em 1 milhão de casos são equivalentes a 5000 mortes. Além disso, o planeta se transformou numa espécie de covidário, de forma que novas mutações podem ocorrer e novas variantes podem aparecer, o que resultou no alerta da ONU para que a evolução genética das cepas seja acompanhada com rigor em todo o mundo.

      Na universidade, a explosão da ômicron está fazendo um enorme estrago, porque o número de docentes, pesquisadores e servidores técnico-administrativos afastados pela doença é enorme, afetando a oferta dos serviços, como em outras instituições e empresas. Além disso, até mesmo por intervenção do Ministério Público Federal, as atividades presenciais foram tornadas obrigatórias no final do ano de 2021, fazendo com que muitos estudantes e pesquisadores deixassem as cidades onde residem e voltassem às cidades em que se encontram as sedes das instituições de ensino e pesquisa. No entanto, a explosão de casos da ômicron forçou o retorno às atividades remotas e muitas dessas pessoas estão agora sem o amparo de suas famílias e com risco de ficarem doentes. Por isso, se você mora fora da sede da instituição em que faz pesquisa, não é hora de ser voluntarioso e viajar, pois o risco de ser contaminado é grande. Aguarde o desenrolar dos fatos e o pico da contaminação, que deve ocorrer no início de fevereiro.

      [Para a lista completa de referências, consulte a descrição do vídeo no canal do YouTube https://youtu.be/nsZvhSkamhk]

      8 min
    • Para entender desafios da pesquisa de forma bem humorada em 2022, assista 'Não Olhe para Cima'

      Antes de mais nada, desejo a todos que assistem esse vídeo um grande ano de 2022, ano que pode representar uma virada nas áreas de educação, ciência e pesquisa por conta das eleições presidenciais de outubro.

      Muitas coisas importantes ocorreram ao longo do último mês em que estivemos de férias. Os valores das bolsas de pós-graduação foram corrigidos por algumas agências de fomento; ocorreu a explosão da ômicron, causando uma bagunça nos calendários acadêmicos; a crise na CAPES se intensificou; o negacionismo e o obscurantismo recrudesceram no discurso oficial em relação às vacinas; dentre outros. Enfim, não faltam assuntos para discutirmos aqui no canal.

      Mas nesse vídeo eu gostaria de me concentrar em um evento ocorrido na noite de 14 para 15 de janeiro, quando foram feitos vários registros da queda de meteoros na região de Minas Gerais. Os relatos de estrondos feitos pelos que registraram o evento sugerem que fragmentos de rocha podem ter atingido o solo e pesquisadores procuram agora esses fragmentos para estudos.

      Devemos lembrar que eventos como esse são comuns e que a teoria mais aceita para explicar a extinção repentina dos dinossauros admite que um grande meteoro teria atingido a Terra há cerca de 70 milhões de anos atrás, abrindo espaço para a evolução mais rápida dos mamíferos. Pois é exatamente esse o tema de que trata o filme intitulado "Não Olhe para Cima", de Adam McKay e que conta com elenco estrelado, incluindo Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Jonah Hill, Cate Blanchet, dentre outros.

      Na cena inicial do filme, dois cientistas observam que um grande meteoro se dirige ao planeta Terra, com capacidade de provocar um evento catastrófico e a extinção da raça humana. O que se observa a partir daí é a luta dos pesquisadores para conscientizar governos e sociedade sobre a necessidade de tomar ações para destruir o meteoro e salvar o planeta. No entanto, os cientistas esbarram na oposição sistemática de governos corruptos e personalistas, de uma imprensa sensacionalista e adesista e de uma fração negacionista da sociedade, insuflada por governantes comprometidos economicamente com empresários e interessados apenas em ganhos políticos imediatos. Aliás, é exatamente o movimento negacionista que inspira o título do filme, já que um movimento social estúpido propõe que não se olhe para cima, para que não se veja a aproximação do meteoro. O filme é espetacular e um retrato do nosso tempo, mostrando como a sociedade moderna tem tratado o tema da pesquisa e do conhecimento de uma forma irônica, engraçada, crítica e ao mesmo tempo profunda.

      Assista o filme e veja de forma bem humorada tudo o que precisa ser combatido nas eleições presidenciais de 2022. E continue olhando para cima !!!!!!

      Referências:

      • https://f5.folha.uol.com.br/voceviu/2022/01/meteoro-e-visto-por-moradores-em-cidades-do-interior-de-minas-veja-video.shtml
      • https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2022/01/16/interna_gerais,1338057/especialistas-pedacos-do-meteoro-que-caiu-em-mg-podem-ser-encontrados.shtml
      • https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2021/06/dinossauros-ja-estavam-em-declinio-antes-de-extincao-por-asteroide.html
      • https://www.netflix.com/br/title/81252357
      • https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-161575/
      • 6 min
      • 2021 foi um ano difícil, mas paradoxalmente nos enche de esperanças. Feliz Natal e Grande 2022 !!!

        2021 foi um ano muito difícil. A pandemia fez mais de 400 mil mortos apenas no Brasil em 2021, levando muitos entes queridos, inclusive na minha família. Além disso, flertamos com o autoritarismo todo o tempo, como nesse último episódio absurdo de perseguição a diretores e funcionários da ANVISA, com estímulo do presidente da república, por terem tido a coragem de aprovar uma vacina para crianças. Como se os bebês não tomassem vacinas desde praticamente o nascimento e como se isso não fosse importante para manter as taxas de mortalidade infantil baixas. E se acumularam os cortes aos números de bolsas e às verbas para financiamento à pesquisa, em um país cujo governo federal não acredita que universidade não é para todos e que está fazendo a bagunça que vemos na CAPES.

        Mas paradoxalmente, 2021 também nos enche de esperanças. A vacinação em massa derrubou os números de casos e de mortos de COVID-19 em todo o mundo, incluindo o Brasil. Assim, aos poucos vamos retomando uma certa normalidade e encontrando os amigos queridos que não vemos há tanto tempo. A democracia também dá provas de que resiste e é muito encorajadora a eleição do presidente Boric no Chile, com uma pauta progressista e de igualdade entre as pessoas na sociedade. E no Brasil há indícios de que esse projeto de governo baseado na violência, no autoritarismo, nas armas, na estupidez, na ignorância, no obscurantismo, no misticismo será rejeitado, permitindo que o país retome a sua trajetória de desenvolvimento mais diverso, plural e democrático.

        Por tudo isso, eu desejo que você se encha de esperanças para 2022, que será uma ponte para a necessária reconstrução que deve começar em 2023. Encha-se de energia e participe dos debates eleitorais de 2022. A comunidade acadêmica tem que levar os temas da educação, da ciência e da pesquisa para o centro dos debates que ocorrerão no ano que vem, tornando-os prioridades nacionais.

        Feliz Natal e um Ano Novo de 2022 cheio de esperanças !!!!

        Curta as férias de final de ano. Vemo-nos em Janeiro.

        Referências:

        • https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2021/12/20/perseguicao-aos-tecnicos-da-anvisa-e-uma-vergonha-nacional-diz-gilmar.htm
        • https://oglobo.globo.com/saude/depois-de-autorizar-vacinacao-em-criancas-anvisa-sofre-novas-ameacas-pede-protecao-policial-diretores-servidores-25325805
        • https://www.cartacapital.com.br/mundo/esquerda-vence-a-extrema-direita-gabriel-boric-e-o-novo-presidente-do-chile/
        • 5 min
        • Novo corte de bolsas e confusão na CAPES mostram que o que os atuais gestores falam não se escreve

          Depois de fazer juras de lealdade e comprometimento com a pós-graduação brasileira em evento promovido pela SBPC no dia 29/11/2021 em defesa da pós-graduação no país, a presidência da CAPES informou os coordenadores dos projetos vinculados ao programa INCT (Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia) que os projetos e programas serão descontinuados a partir do início de 2022. Na prática, a presidência da CAPES anunciou mais um corte de bolsas, mais um corte de verbas de financiamento à pesquisa e mais um corte ao financiamento a programas de intercâmbio com instituições sediadas fora do Brasil. Os coordenadores informaram também que vários desses projetos só foram assinados e tiveram verbas liberadas no final do ano de 2017, de forma que se completaram agora quatro anos de validade dos projetos, ao invés dos cinco inicialmente programados. Assim, na prática propõe-se um corte de pelo menos 20% dos orçamentos previstos desses projetos. Belíssima prova de comprometimento da presidência da CAPES com a pós-graduação e a pesquisa do Brasil.

          Aliás, o Brasil é pródigo em promover programas de apoio à pesquisa com nomes pomposos, para logo depois descontinuá-los e abandoná-los à própria sorte. Nos meus 30 anos de carreira eu já vi os programas das redes de excelência, dos centros de excelência, dos núcleos de excelência, dos pomposos institutos do milênio e agora dos INCTs. Prepare-se que virão por aí os programas dos nós de excelência, dos programas superpoderosos ou qualquer outro nome marqueteiro para anunciar um programa de financiamento que logo depois será abandonado.

          Para mostrar que o que se fala na CAPES não se escreve, no dia 13/12/2021 os diretores da CAPES divulgaram uma carta conjunta para mostrar unidade em torno da presidência da CAPES e da defesa da pós-graduação brasileira. Pois bem, dois dias depois o Diretor de Avaliações pediu demissão, por não se sentir confortável com o rumo dos acontecimentos em torno da celeuma em que se meteu o sistema de avaliação dos programas de pós-graduação. Bela prova de unidade !!! Aliás, o Ministério Público Federal marcou uma audiência pública para discutir o sistema de avaliação (e, olhe lá, a distribuição das verbas e bolsas de pesquisa) no final de fevereiro de 2022, mostrando que essa discussão ainda vai se estender bastante.

          No meio de toda essa confusão e dificuldades, o Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação pede mais um período de férias e descanso, totalizando já mais de 50 dias de descanso em 2021. Que bela prova de comprometimento !!!

          Nós não sabemos como será a trajetória em 2022, mas o fato é que desse mato não sai coelho e que o que esses gestores do atual Governo Federal falam não se escreve. Por isso, a comunidade tem que tratar da defesa do que esse povo ainda pretenda destruir em 2022, se associando aos deputados progressistas em torno dos temas da educação, da ciência e da pesquisa. E, muito importante, tratar da inserção desse tema na pauta política de 2022 e cuidar da necessária reconstrução a partir de 2023. Até porque o Brasil não merece isso.

          Referências:

          • https://bit.ly/3IY9Qgn
          • https://bit.ly/3mcbIbI
          • https://bit.ly/31Z6yZZ
          • https://bit.ly/3ITApDL
          • https://bit.ly/3yymDSd
          • https://bit.ly/30yIHiO
          • https://bit.ly/3yzmwWp
          • https://bit.ly/3mf4YKd
          • https://bit.ly/3FazA75
          • https://bit.ly/3mcD0yT
          • 7 min
          • Histórias de um Pesquisador (Ep 14) - A boa pergunta é aquela que ainda não achou uma boa resposta

            No início dos anos 2000, durante um curso de pós-graduação sobre "Processos de Polimerização", um estudante me perguntou o que ocorreria se combinássemos duas tecnologias em um mesmo vaso para preparação de uma certa classe de materiais. Embora a pergunta fosse simples (sobre o efeito da combinação de duas tecnologias conhecidas), eu não sabia a resposta para aquela pergunta porque nunca havia feito aquele tipo de experimento e nunca havia lido nada a respeito. Por isso, admiti o meu desconhecimento sobre o tema e estimulei o estudante a ir para o laboratório procurar a resposta para a pergunta formulada e a abraçar o tema como trabalho de disciplina. Como o estudante era muito curioso, ele topou na hora, propôs um plano experimental e foi para o laboratório tentar responder a pergunta formulada em sala de aula.

            Com o desenrolar do plano experimental, observou-se que na maior parte das vezes as duas tecnologias eram um tanto incompatíveis, de maneira que os experimentos desandavam. No entanto, observou-se que havia uma certa janela operacional em que era possível preparar um material completamente original, que não podia ser preparado com as tecnologias até então conhecidas, o que nos estimulou muito a aprofundar a investigação. Desde então, esse tema passou a constituir uma das principais linhas de investigação do grupo de pesquisas em que trabalho (produção de biocatalisadores enzimáticos), gerou várias teses de mestrado e doutorado, duas patentes, dezenas de publicações científicas e estimulou a criação de uma startup de base tecnológica, interessada em produzir biocatalisadores. O estudante que formulou a pergunta em sala de aula hoje é professor na Universidade Federal do Paraná e influenciou várias gerações de estudantes com a sua curiosidade original.

            O episódio nos revela vários pontos muito importantes. Em primeiro lugar, o docente não deve jamais ignorar as perguntas feitas por estudantes em salas de aula, em particular as que não sabe responder, pois podem revelar oportunidades para aprofundamento do conhecimento científico em uma área específica do conhecimento. Em segundo lugar, o docente não deve jamais se envergonhar de admitir que não sabe a resposta para uma pergunta, reconhecendo a necessidade de que o conhecimento seja aprofundado em um campo ainda não dominado, ao invés de se portar como o professor que sempre sabe tudo. Em terceiro lugar, o docente deve sempre estimular que os estudantes curiosos procurem as respostas para as perguntas que eles formulam e que ainda não podem por qualquer motivo ser respondidas.

            Na verdade, uma boa pergunta é aquela que ainda não encontrou uma boa resposta e revela oportunidades para o desenvolvimento do trabalho que fazemos no dia-a-dia.

            5 min
          • Precisamos remover travas que impedem crescimento e atuação plena de jovens pesquisadores no Brasil

            A proposta de redução orçamentária das áreas de ciência, pesquisa, tecnologia e inovação em 2022 são inconcebíveis para um país que precisa formar mais pesquisadores, depende cada vez mais da exportação de produtos primários e precisa investir mais em conhecimento. Nesse cenário, é preciso reconhecer que precisamos remover as travas para o crescimento do sistema de pós-graduação e para a atuação plena de pesquisadores nas Instituições Federais de Ensino Superior. Se for necessário mudar o procedimento de avaliação da CAPES para isso, que se mude.

            Referências:

            • https://oglobo.globo.com/brasil/proposta-no-congresso-preve-cortes-acima-de-55-para-universidades-federais-bolsas-do-cnpq-25312285
            • https://pensaraeducacao.com.br/pensaraeducacaoempauta/financiamento-a-pesquisa-um-projeto-de-destruicao-nacional/
            • https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/12/12/mais-de-50percent-do-que-o-brasil-exporta-ja-sao-produtos-basicos.ghtml
            • https://www.rdworldonline.com/2021-global-rd-funding-forecast-released/
            • http://uis.unesco.org/apps/visualisations/research-and-development-spending/
            • https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/o-que-e-a-ocde-e-por-que-o-brasil-quer-fazer-parte-dela/
            • 12 min
            • Fazer pesquisa não é o mesmo que correr uma corrida de 100 metros

              Conversamos no último vídeo sobre como a corrida tecnológica moldou a universidade e a pesquisa que se faz nesse início de século XXI, em defesa dos interesses dos governos nacionais e das grandes corporações. Para ver como esse receituário impregna o imaginário da academia no Brasil, é conveniente avaliar uma entrevista dada em 02/12/2021 por um colega demissionário de um Comitê de Avaliação da CAPES à DW Brasil.

              Perguntado sobre a suspensão do processo de avaliação quadrienal pelo Ministério Público, o colega informou que a decisão não faria sentido porque ignora que a avaliação é comparativa e que, portanto, não haveria razão para fixar metas a serem atingidas a priori. Do ponto de vista de um processo de avaliação, o colega não poderia estar mais equivocado, porque é simplesmente impossível monitorar, avaliar e controlar um sistema dinâmico (como o sistema de pós-graduação, que evolui no tempo) sem que se estabeleçam metas e objetivos a serem alcançados. Avaliar sem fixar metas e objetivos é abrir mão de estabelecer uma estratégia nacional que deva ser perseguida para o bem da sociedade brasileira. Aliás, estamos no momento sem um plano nacional de pós-graduação vigente, de forma que estamos literalmente à deriva e sem saber para onde ir. Avaliação sem metas ou objetivos não é avaliação, mas ranking.

              Usando o mesmo exemplo dado pelo colega, suponha que 100 programas em um certo ano sejam avaliados e que 99 tenham gerado 0 mestres e doutores, enquanto um programa formou 1 pós-graduando. Na lógica do colega, esse programa é excelente, quando todos em verdade são péssimos. De forma similar, se 99 produziram 100 mestres e doutores e 1 deles formou 99 pós-graduandos, isso não faz desse programa um desastre, já que são todos muito bons. Portanto, parece óbvio que é necessário estabelecer metas e que a avaliação não pode ser feita de forma comparativa, não fazendo qualquer sentido fixar frações de excelência ou precariedade a priori.

              O colega depois aprofunda a análise comparando o sistema de pós-graduação a uma corrida de 100 metros, em que o importante é saber quem correu mais naquele dia. Além de estabelecer uma conexão óbvia com o receituário produtivista da corrida tecnológica, o colega ignora que a comparação é esdrúxula e elitista. Afinal, enquanto um corredor pode ser Usain Bolt, o outro pode iniciar a corrida de pés descalços, cabendo ao processo de avaliação estabelecer condições que garantam o desenvolvimento exatamente dos programas que enfrentam mais dificuldades, e não apenas concentrando recursos nos programas mais bem preparados, que talvez tenham condições de sobreviver com recursos captados em outras fontes e que ganharão sempre as corridas se forem privilegiados pelo sistema, sem suporte de uma estratégia de expansão do sistema de pesquisa no país.

              De mais a mais, o argumento da corrida é muito contraditório, pois o colega defende que as regras mudem ao longo do processo, o que é incompatível com uma competição minimamente justa. É inconcebível que um juiz vá adaptando as regras do jogo enquanto a partida de futebol se desenrola.

              Enfim, vemos que a lógica produtivista da corrida tecnológica impregna o imaginário de boa parte da academia brasileira, para prejuízo dos interesses da sociedade que nos cerca. Isso precisa ser discutido e mudado. É preciso que a avaliação seja balizada sim em metas associados a um plano que estabeleça uma estratégia nacional para a pós-graduação, que as avaliações sejam individualizadas (porque as instituições não se encontram simultaneamente no mesmo estágio de desenvolvimento) e que o sistema de fomento seja desvinculado do processo de avaliação, para levar em conta os interesses estratégicos do país e a necessidade de apoiar programas em desenvolvimento que enfrentam dificuldades. É preciso ... [Para a descrição completa e a lista de referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube https://youtu.be/OTXfj7nqyTU]

              9 min
            • Contradições na universidade montada para subsidiar a corrida tecnológica e uma pauta no século XXI

              Para entender a universidade moderna, é preciso admitir que o engajamento compulsório das instituições universitárias na corrida tecnológica promovida por governos nacionais a partir da década de 1950, como discutido no último vídeo do canal, provocou muitas transformações nessas instituições ao longo da segunda metade do século XX.

              Primeiramente, o foco na corrida tecnológica tirou o foco das atividades de formação e ensino, transformando aos poucos as universidades em instituições de pesquisa que ensinam, ao invés de instituições de ensino que fazem pesquisa. Essa mudança também transformou aos poucos os estudantes, em particular os pós-graduandos, em operários da pesquisa e da corrida tecnológica, responsáveis pela execução de trabalhos de qualidade, por longos períodos de tempo (6 anos, se somarmos os característicos 2 anos de mestrado e 4 anos de doutorado), de forma mal remunerada e desamparados pela legislação trabalhista, permitindo fazer pesquisa barata e subsidiada.

              O financiamento foi também aos poucos sendo transferidos das instituições para os grupos de pesquisa e os indivíduos, gerando essa instituição contraditória, muitas vezes pobre e fraca, apesar de ser formada por alguns grupos de pesquisa e pesquisadores ricos, em geral os mais bem sucedidos na corrida tecnológica e na captação de recursos financeiros. Aos poucos, os recursos captados para a pesquisa foram também sendo transferidos para a manutenção das atividades inerentes à universidade, concentrando o poder institucional nos indivíduos e grupos mais bem sucedidos na captação que supostamente mantém uma parte significativa da universidade funcionando.

              Gerou-se assim a carreira do "professor empreendedor", com deformações absurdas nos sistemas internos de avaliação, como a hiperconcentração dos critérios de avaliação nas atividades inerentes à pesquisa, a desvalorização continuada das atividades de ensino e formação e até mesmo a criação de indicadores de desempenho baseados na capacidade de captação. Para piorar, a concentração de poder em torno desses grupos e indivíduos tem reforçado esse modelo de avaliação que os favorece, com base em argumentos meritocráticos centrados na captação e na pesquisa.

              É importante observar que esse modelo continua avançando e se aprofundando no Brasil, havendo vários sinais que permitem fazer essa afirmação de forma clara. Por exemplo, as bolsas de pesquisa estão congeladas há incríveis 9 anos, de forma que o trabalho do pesquisador é a cada minuto mais mal remunerado e mais precário. Além disso, há pressão para reduzir os tempos de titulação com base em argumentos de produtividade da pesquisa e ocorre redução continuada do financiamento institucional, com foco cada vez maior no financiamento individual e de grupos.

              Como consequência, vemos no Brasil esse cenário contraditório que combina salas de aula caindo na cabeça e prédios pegando fogo por falta de manutenção, enquanto alguns laboratórios são luxuosos e alguns docentes trabalham atrás de longas mesas em ambientes suntuosos. O paradigma de que o professor bom é aquele que capta mais recursos é obviamente falso, pois isso depende da área em que o pesquisador trabalha e do ambiente e oportunidades econômicas em um momento histórico particular.

              Por tudo isso, é preciso questionar esse modelo em marcha e reverter esse processo histórico. Esse movimento passa pelo fortalecimento político e financeiro das instituições universitárias, financiando institucionalmente as atividades que são inerentes à vida universidade, pela valorização das atividades de ensino e formação nessas instituições e pela valorização das condições de trabalho e dos trabalhadores que fazem pesquisa. Temos, portanto, uma pauta de luta importante para a pesquisa do século XXI.

              Referências:

              https://youtu.be/watch?v=UERc3HXPgmk

              7 min

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            Vamos comentar sobre os aspectos, muitas vezes polêmicos, do dia a dia da pesquisa que se faz pelo Brasil, nos Institutos de Pesquisa e nas Universidades.