Sempre que se discute a posição brasileira em relação à guerra na Ucrânia, dois temas se impõem: a dependência do país em relação à importação de trigo e de fertilizantes. Embora o trigo importado venha principalmente da Argentina, os preços da commodity estão sendo muito impactados pela guerra por conta das produções significativas da Rússia e da Ucrânia, afetando a balança comercial brasileira e a inflação no Brasil. No caso dos fertilizantes, o Brasil importa ureia e potássio principalmente da Rússia e fósforo do Marrocos, comprometendo do ponto de vista estratégico a posição de quem pretende se apresentar ao mundo como potência agrícola. Mas vale a pena olhar com mais cuidado esses dois temas.
No caso do trigo, faz mesmo sentido falarmos de dependência ? O trigo é insubstituível ? O fato é que se o trigo sumisse da face da Terra hoje, ninguém morreria de fome no Brasil, pois há outras fontes de amido e glúten muito bem adaptadas ao solo e ao clima brasileiro, como arroz, batata, milho, aipim, mandioca, dentre outras. A necessidade da importação de trigo não se deve a questões de segurança alimentar, mas a aspectos culturais e industriais. A verdade é que nós nos acostumamos a consumir alimentos produzidos com trigo e a indústria se adaptou ao uso desse insumo para a produção comercial de massas, biscoitos, pães, dentre outros produtos. Por isso, duas perguntas são necessárias:
1- Por que não desenvolvemos e incentivamos o uso de farinhas brasileiras no cardápio nacional e pela indústria do país ?
2- Por que não desenvolvemos variedades de trigo adaptadas ao solo e ao clima brasileiros ?
Para responder essas duas perguntas é necessário fazer pesquisa e incentivar o desenvolvimento tecnológico e a inovação no Brasil. Essas atividades são perfeitamente exequíveis e possíveis de serem executadas no país, que conta com atores importantes como a EMBRAPA e os muitos programas de pesquisas e pós-graduação em tecnologia de alimentos espalhados pelo Brasil.
No caso dos fertilizantes, cuja sigla NPK designa nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K), a situação é similar. O P e o K vêm principalmente de atividades de exploração mineral no fundo da terra. Nesse caso, o território brasileiro está mapeado ? Conhecemos nossas potencialidades nessa área ? Fala-se de maneira obsessiva na exploração de minas de potássio na Amazônia, a despeito dos problemas que essa atividade causaria ao ambiente e às comunidades indígenas. Mas há indícios de que existem outras fontes significativas espalhadas pelo Brasil, como em Minas Gerais e em Goiás. O N vem principalmente da ureia, produzida por reação entre gás metano e nitrogênio, igualmente disponível para todos em todo o mundo. A reação é muito antiga e conhecida; assim, por que não produzimos nossa própria ureia ? A resposta fácil é a de que o gás brasileiro é caro, mas onde estão os programas que procuram desenvolver o setor e baratear a produção de gás no Brasil ? De novo, precisamos de pesquisa, tecnologia e inovação.
Pressionado por esse tema, o Governo Federal anuncia o lançamento de um Plano Nacional de Fertilizantes, focado em aspectos fiscais, para facilitar a atuação de empresas estrangeiras no Brasil. Esses senhores não entendem que não precisamos convidar estrangeiros para resolver nossos problemas a preços módicos, mas sim fazer pesquisa e resolver nossos próprios problemas no Brasil. Esses senhores não entendem, como mostra a guerra na Ucrânia, que não há soberania quando há dependência tecnológica.
https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Agricultura/Trigo/noticia/2022/02/conflito-russia-e-ucrania-encarece-o-trigo-e-pressiona-moinhos-no-brasil.html
https://jc.ne10.uol.com.br/colunas/jc-negocios/2022/03/14954051-dependente-do-trigo-da-argentina-guerra-na-ucrania-vai-impactar-preco-do-pao-no-brasil.html
[Para a lista completa de referências, consulte a descrição do vídeo em https://youtu.be/jN-Nkh76fcU]