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Há cerca de um mês uma reportagem do jornal "O Estado de São Paulo" e um vídeo filmado dentro de um templo da Assembleia de Deus revelaram que é necessária a autorização dessa igreja para que prefeitos de municípios do estado de São Paulo tenham acesso a verbas parlamentares. Segundo dito textualmente no vídeo, é necessário que o prefeito se apresente ao lado de um pastor da igreja para que possa se candidatar à recepção das verbas parlamentares. Adicionalmente, no tal vídeo o pastor exorta outros pastores a se candidatarem politicamente, para fortalecer o projeto da igreja, e pede aos fiéis que só votem nos pastores da igreja. Isso deveria ser suficiente para que tal denominação religiosa perdesse suas prerrogativas fiscais, já que obviamente não faz religião, mas toca projeto político e de poder. além de fazer lobby por projetos de seu interesse imediato, com a complacência dos políticos instalados em Brasília.
Infelizmente, contudo, não se trata de fato isolado. Como denunciado por esse mesmo "O Estado de São Paulo", existe um gabinete paralelo formado por pastores simpáticos e afinados com a denominação religiosa do atual Ministro da Educação, Milton Ribeiro, que controla a agenda do ministro, viaja com delegações governamentais, participa de reuniões, discursa em eventos oficiais e faz a intermediação de verbas para projetos de interesse dessas igrejas em diferentes municípios do Brasil. Além disso, esse gabinete paralelo se articula com deputados do Centrão para controlar o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), que tem orçamento de 45 bilhões de reais e pode distribuir verbas discricionárias para emendas parlamentares de até 5 bilhões de reais. Assim, os projetos dos pastores do gabinete paralelo do MEC são e podem ser privilegiados em relação à distribuição das verbas federais.
Como vemos, o Estado brasileiro vem sendo tomado de assalto por essas denominações religiosas, que miram em particular ações do Ministério da Educação, para imposição de suas visões arcaicas e preconceituosas de mundo, além de construção de projetos de poder e dominação da sociedade brasileira. Por isso, esse projeto de país precisa ser combatido e interrompido urgentemente. O Estado brasileiro deve ser laico. Portanto, não apoie projetos que misturam política e religião, em particular na área de educação, que deve ser abrangente, arejada e inclusiva.
https://www.nexojornal.com.br/extra/2022/02/10/Pastor-diz-intermediar-dinheiro-de-emendas-parlamentares
https://www.youtube.com/watch?v=j2aILvHQD1I
https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,pastor-admite-intermediar-emenda-para-favorecer-filhos-politicos-quer-dinheiro-veja-video,70003974642
https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,pastores-controlam-agenda-e-liberacao-de-dinheiro-no-ministerio-da-educacao,70004012011
https://tnonline.uol.com.br/noticias/politica/liderancas-do-centrao-controlam-verbas-de-fundo-nacional-da-educacao-627198?d=1
https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/politica-e-poder/pastores-intermediavam-reunioes-no-mec-afirmam-prefeitos/
No dia 16 de Março de 2022, veículos de imprensa divulgaram imagens belíssimas de um calima que atingiu a Europa. Calima é uma palavra muito pouco usada na língua portuguesa que descreve um fenômeno atmosférico associado à presença de partículas muito finas em suspensão no ar, oriundas de explosões vulcânicas, tempestades de areia ou outras causas. O fenômeno muda a aparência e as cores do céu.
No caso considerado, o fenômeno está associado ao lançamento de partículas de areia do Saara por tempestades de areia sobre as cidades da Europa. Como descrito na belíssima canção de Caetano Veloso, Reconvexo, magistralmente gravada por Maria Bethânia, "Eu sou a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma".
O fenômeno reforça de maneira óbvia que somos um único ambiente global em vários aspectos, sendo impossível impedir que a areia do Saara atinja a Europa. Da mesma forma, não há como impedir que a poluição lançada nos mares da China ou nos ares dos Estados Unidos eventualmente atinja o Brasil. A beleza desse cenário é que ele torna cada um de nós igualmente responsável pela manutenção e preservação do planeta Terra.
A cultura (como sugerido por Caetano Veloso) e a ciência são também calimas, cada um a seu jeito. Embora a ciência possa ser usada para beneficiar projetos corporativos e alavancar projetos geopolíticos, o fato é que uma descoberta lançada no meio científico pode provocar mudanças em trabalhos de todo o mundo. Da mesma forma, cada trabalho de pesquisa é afetado por uma rede interminável de outros trabalhos e pesquisadores deslocados no tempo e no espaço, como comprovam as referências dos trabalhos e as referências dessas referências. Se você refletir um segundo sobre a enorme rede de informações conectadas a seu trabalho, perceberá rapidamente que a comunidade científica é uma comunidade global.
Assim, a calima científica segue soprando achados da África sobre os laboratórios do Brasil, ou achados do Saara sobre os laboratórios de Roma.
https://es.wikipedia.org/wiki/Calima_(meteorolog%C3%ADa)
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/03/15/por-que-os-carros-da-capital-espanhola-amanheceram-cobertos-de-areia-do-saara.ghtml
https://www.youtube.com/watch?v=qXd04dhUJBM
Uma das histórias mais simbólicas da guerra da Ucrânia tem sido contada por correspondentes de guerra, que informam que os ucranianos têm pedido que eles se refiram à cidade de Kiev usando a forma ucraniana, Kyiv, ao invés da forma russa, Kiev. Isso mostra que nomes importam e que estão carregados de significados culturais, emocionais e nacionalistas.
Aprendemos desde cedo que nome próprio não se traduz. Assim, eu sou José Carlos onde quer que eu esteja e não me transformo subitamente em Joseph Charles porque estou no exterior ou porque sou apresentado por um colega estrangeiro a uma audiência que fala inglês.
A apropriação que as línguas fazem dos nomes próprios por fatores históricos, culturais, sonoridade ou traduções toscas é na maior parte das vezes desnecessária. Não há razão para que não chamemos a capital da Inglaterra de London, ao invés de Londres; ou que não chamemos a cidade de Nova York por seu nome, New York; ou que estrangeiros escrevam Brasil com z; ou ainda que se refiram à cidade de São Paulo como San Pablo.
No caso das instituições, preservar nomes é fundamental !!!! Contudo, há enorme pressão para que jovens estudantes traduzam os nomes da instituição quando preenchem a filiação de artigos científicos publicados em veículos internacionais. Assim, o estudante diz que pertence ao "Chemical Engineering Program of the Federal University of Rio de Janeiro", ao invés da forma correta "Programa de Engenharia Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro".
Além de soar presunçoso algumas vezes e submisso outras, o uso da forma traduzida está errado e prejudica a visibilidade da instituição brasileira. Dia desses, por exemplo, ao preencher um formulário eletrônico, fui forçado a escolher uma dentre quatro formas de representar a UFRJ: (i) UFRJ; (ii) Universidade Federal do Rio de Janeiro; (iii) Federal University of Rio de Janeiro; e (iv) Université Federal do Rio de Janeiro. Isso atrapalha o cômputo automático da produção acadêmica da UFRJ.
Enfim, faça um esforço para usar Kyiv, ao invés de Kiev; Brasil com s, e não com z; e Universidade Federal do Rio de Janeiro.
https://www.poder360.com.br/europa-em-guerra/leia-como-pronunciar-os-nomes-de-10-cidades-da-ucrania/
https://proa.ua.pt/index.php/rual/article/view/2371
https://proa.ua.pt/index.php/rual/article/download/2371/1855
Semana passada foi divulgado mais um desses rankings da importância acadêmica dos pesquisadores. Dessa vez, o ranking foi organizado e divulgado pela empresa Research.com. Como das outras vezes, instituições acadêmicas brasileiras se lançaram a divulgar os nomes dos seus quadros presentes no tal ranking, como estratégia de marketing e auto exaltação. Infelizmente, trata-se de mais uma empulhação que deveria ser sumariamente rejeitada por instituições acadêmicas brasileiras, ao invés de divulgada e exaltada.
No caso considerado, a empresa Research.com é uma empresa de consultoria, que vende serviços nas áreas de recursos humanos, recrutamento e organização de carreiras. O tal ranking é um produto oferecido pela empresa para outras organizações interessadas no recrutamento de investigadores. Nesse sentido, os pesquisadores constituem apenas o meio através do qual o negócio se estabelece.
A empresa diz que o ranking está baseado em metodologia avançada de análise de dados, mas apresenta uma vez mais apenas uma lista de fatores H, que é uma medida da popularidade dos artigos de um determinado autor e está sujeito a muitas deformações, como amplamente discutido na literatura. Por exemplo, o fator H depende do tipo de trabalho publicado e da área em que o pesquisador atua.
A empresa diz ainda que usa a base Google Scholar como referência, mas parece usar de verdade a base Microsoft Graph, sem qualquer penetração relevante na área acadêmica e que boa parte dos pesquisadores sequer conhece. Conclui-se, assim, que um dos objetivos da divulgação do ranking está sendo atingido, que é a divulgação das marcas Research.com e Microsoft Graph.
Meu nome por acaso está na lista, mas os dados estão completamente equivocados, o que não me surpreende, já que não mantenho conta ativa no Google Scholar, por não considerar que essa base tem legitimidade para concentrar toda a informação acadêmica mundial. Sei que outros colegas pensam o mesmo. Por isso, é provável que os números de vários colegas da lista e fora da lista estejam sumariamente errados.
Enfim, trata-se de empulhação que deveria ser sumariamente rejeitada pela academia brasileira. Se a comunidade acadêmica brasileira acha que esse tema é importante e que iniciativas como essa devem ser estimuladas (deixando aqui claro que eu não acho), as instituições nacionais deveriam se organizar para construir uma referência legítima, baseada em critérios consensuados e em bases de dados completas, possivelmente em parceria com instituições internacionais.
De minha parte, torço para que projetos como esse não avancem. Torço ainda para que instituições brasileiras não usem suas páginas oficiais e sistemas oficiais de comunicação para divulgar e exaltar essas iniciativas marqueteiras, mas sim para denunciar e rejeitar a gourmetização produtivista da produção acadêmica.
https://www.youtube.com/watch?v=Mh_HuS0ykr4
https://www.youtube.com/watch?v=x7CM4qhAJG4
https://www.youtube.com/watch?v=d8G5xF0BhtQ
https://research.com/
https://research.com/our-methodology
https://research.com/scientists-rankings/engineering-and-technology
Esse episódio ocorreu no início dos anos 2010. Certo dia, enquanto trabalhava em minha sala, recebi uma mensagem eletrônica de uma instância de fomento informando que uma certa prestação de contas havia sido reprovada e que alguns itens haviam sido glosados, por terem sido executados de forma indevida e distinta da inicialmente acordada na proposta encaminhada. A alegação era a de que certos computadores haviam sido adquiridos com configurações distintas da originalmente planejadas.
Para entender o que havia ocorrido, comparamos as configurações dos modelos de computador propostos e adquiridos, observando algumas coisas curiosas:
1- Os modelos propostos não estavam mais disponíveis no mercado, o que é comum na área de informática, por conta da velocidade com que o setor de informática e computação se desenvolve;
2- Os modelos adquiridos eram melhores, mais eficientes, tinham mais memória e eram mais velozes que os modelos previstos inicialmente, o que é bom para pesquisadores que trabalham na área de análise numérica;
3- E, muito importante, os modelos adquiridos eram mais baratos que os modelos originalmente previstos.
Como pode uma prestação de contas ser reprovada e itens serem glosados por serem melhores e mais baratos ?
A ciência brasileira está contaminada pelo foco na prestação de contas, como se a qualquer momento um pesquisador fosse fraudar o projeto de pesquisa, o que não constitui problema real no país. Nesse cenário, os processos fiscais e de prestações de contas se tornam mais importantes que os próprios resultados obtidos. De forma equivocada, os produtos da pesquisa passam então a ser as notas fiscais e as planilhas de prestação de contas. E, como os processos de contratação de projetos são longos e lentos, é impossível definir com precisão e antecedência de 2 a 5 anos que aquisição vai ser de fato necessária em um laboratório.
Parece claro que o controle da pesquisa deve ser feito com base nas atividades técnicas, que devem constituir a base para a execução financeira, que é apenas o meio para a execução do trabalho de investigação. Isso não significa que o controle não deva ser feito, mas que deve ser flexível para se adaptar às necessidades da pesquisa e do pesquisador. Como justificar que uma investigação pare porque um monitor de um computador que controla um equipamento importante quebrou e que essa necessidade de reparo não foi prevista 3 anos antes ?
No final, depois de idas e vindas, a prestação de contas foi aprovada. Mas alguém deveria cobrar a instância de fomento justificativas para desperdiçar tantos recursos públicos e horas de trabalho de técnicos e pesquisadores por questão tão trivial. Isso tem que mudar no Brasil.
A sociedade em que vivemos é energívora e consome energia de forma insustentável. Nesse contexto, a dependência em relação aos combustíveis fósseis (principalmente petróleo, gás e carvão), usados principalmente para a queima e geração de energia, revela uma sociedade doente. Aliás, desde que foi transformado em fonte fundamental para a geração de energia no século XIX, o petróleo tem sido simultaneamente vetor de muitas transformações, mas também fonte inesgotável de problemas graves e guerras.
No momento, os combustíveis fósseis voltam a ocupar papel central em um conflito internacional, agora na guerra da Ucrânia. De um lado, os Estados Unidos anunciam o banimento das importações de petróleo, gás e carvão da Rússia e tentam convencer outros países a seguirem seu exemplo, usando os combustíveis fósseis como arma de guerra para asfixiar a economia russa, dependente da exportação dessas matérias primas, e convencer Putin a deixar a Ucrânia. De outro lado, a Rússia ameaça suspender a venda de combustíveis fósseis para a Europa, usando esses materiais como arma de guerra para dobrar a convicção dos países europeus em relação à invasão da Ucrânia e explorando a dependência dos países europeus em relação a esses insumos. Simultaneamente, analistas econômicos avaliam que o preço do barril do petróleo pode atingir a alta histórica de 300 dólares nas próximas semanas, afetando todo o mundo. Curiosamente, os altos preços beneficiam o agressor russo, que é grande exportador de petróleo, e empresas americanas e europeias, que controlam a exploração e a transformação do petróleo em todo mundo. Enquanto isso, o petróleo segue sustentando governos autoritários e violentos espalhados no planeta, como no Oriente Médio e no norte da África. Além disso, o petróleo segue justificando guerras ao redor do globo, para controle do acesso e dos preços dessa matéria prima, que não seguem o ideal liberal da oferta e da procura, mas sim fatores geopolíticos. Por exemplo, não houve exatamente redução da oferta mundial de petróleo para justificar o aumento dos preços do petróleo, mas sim oportunidade para que estados nacionais e conglomerados empresariais fazerem caixa com a especulação e o controle do comércio da matéria prima.
Enfim, a sociedade precisa se livrar dessa doença, caracterizada pela dependência do mundo em relação aos combustíveis fósseis. É preciso migrar para uma economia mais sustentável e baseada em insumos mais bem distribuídos no mundo, como sol, vento e mares. Não se trata apenas de uma questão ambiental. Como vemos aqui, é o próprio marco civilizatório que está em jogo.
https://www.poder360.com.br/europa-em-guerra/biden-proibe-importacao-de-petroleo-russo/#:~:text=O%20presidente%20dos%20Estados%20Unidos,russo%20nos%20portos%20norte%2Damericanos.
https://www.cnnbrasil.com.br/business/russia-ameaca-cortar-o-fornecimento-de-gas-da-europa-fechando-nord-stream-1/
https://epocanegocios.globo.com/Mercado/noticia/2022/03/epoca-negocios-russia-alerta-para-petroleo-a-us300-por-barril-se-eua-e-europa-banirem-importacoes.html
Sempre que se discute a posição brasileira em relação à guerra na Ucrânia, dois temas se impõem: a dependência do país em relação à importação de trigo e de fertilizantes. Embora o trigo importado venha principalmente da Argentina, os preços da commodity estão sendo muito impactados pela guerra por conta das produções significativas da Rússia e da Ucrânia, afetando a balança comercial brasileira e a inflação no Brasil. No caso dos fertilizantes, o Brasil importa ureia e potássio principalmente da Rússia e fósforo do Marrocos, comprometendo do ponto de vista estratégico a posição de quem pretende se apresentar ao mundo como potência agrícola. Mas vale a pena olhar com mais cuidado esses dois temas.
No caso do trigo, faz mesmo sentido falarmos de dependência ? O trigo é insubstituível ? O fato é que se o trigo sumisse da face da Terra hoje, ninguém morreria de fome no Brasil, pois há outras fontes de amido e glúten muito bem adaptadas ao solo e ao clima brasileiro, como arroz, batata, milho, aipim, mandioca, dentre outras. A necessidade da importação de trigo não se deve a questões de segurança alimentar, mas a aspectos culturais e industriais. A verdade é que nós nos acostumamos a consumir alimentos produzidos com trigo e a indústria se adaptou ao uso desse insumo para a produção comercial de massas, biscoitos, pães, dentre outros produtos. Por isso, duas perguntas são necessárias:
1- Por que não desenvolvemos e incentivamos o uso de farinhas brasileiras no cardápio nacional e pela indústria do país ?
2- Por que não desenvolvemos variedades de trigo adaptadas ao solo e ao clima brasileiros ?
Para responder essas duas perguntas é necessário fazer pesquisa e incentivar o desenvolvimento tecnológico e a inovação no Brasil. Essas atividades são perfeitamente exequíveis e possíveis de serem executadas no país, que conta com atores importantes como a EMBRAPA e os muitos programas de pesquisas e pós-graduação em tecnologia de alimentos espalhados pelo Brasil.
No caso dos fertilizantes, cuja sigla NPK designa nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K), a situação é similar. O P e o K vêm principalmente de atividades de exploração mineral no fundo da terra. Nesse caso, o território brasileiro está mapeado ? Conhecemos nossas potencialidades nessa área ? Fala-se de maneira obsessiva na exploração de minas de potássio na Amazônia, a despeito dos problemas que essa atividade causaria ao ambiente e às comunidades indígenas. Mas há indícios de que existem outras fontes significativas espalhadas pelo Brasil, como em Minas Gerais e em Goiás. O N vem principalmente da ureia, produzida por reação entre gás metano e nitrogênio, igualmente disponível para todos em todo o mundo. A reação é muito antiga e conhecida; assim, por que não produzimos nossa própria ureia ? A resposta fácil é a de que o gás brasileiro é caro, mas onde estão os programas que procuram desenvolver o setor e baratear a produção de gás no Brasil ? De novo, precisamos de pesquisa, tecnologia e inovação.
Pressionado por esse tema, o Governo Federal anuncia o lançamento de um Plano Nacional de Fertilizantes, focado em aspectos fiscais, para facilitar a atuação de empresas estrangeiras no Brasil. Esses senhores não entendem que não precisamos convidar estrangeiros para resolver nossos problemas a preços módicos, mas sim fazer pesquisa e resolver nossos próprios problemas no Brasil. Esses senhores não entendem, como mostra a guerra na Ucrânia, que não há soberania quando há dependência tecnológica.
https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Agricultura/Trigo/noticia/2022/02/conflito-russia-e-ucrania-encarece-o-trigo-e-pressiona-moinhos-no-brasil.html
https://jc.ne10.uol.com.br/colunas/jc-negocios/2022/03/14954051-dependente-do-trigo-da-argentina-guerra-na-ucrania-vai-impactar-preco-do-pao-no-brasil.html
[Para a lista completa de referências, consulte a descrição do vídeo em https://youtu.be/jN-Nkh76fcU]
Um dos maiores riscos para um pesquisador ou pensador independente, mas também para os cidadãos de forma mais geral, é se deixar escravizar por falsas premissas e falácias, cujo uso frequente pode se transformar em vício argumentativo e comprometer a liberdade do pensamento. A discussão sobre a crise da Ucrânia, por exemplo, está contaminada por falácias muito comuns e que você deve procurar identificar.
A primeira dessas falácias é a falsa dicotomia, que admite que só há dois lados possíveis e que você precisa estar alinhado a um desses lados. Segundo essa falácia, existem Estados Unidos e Rússia, não existe a Ucrânia, que vem a ser exatamente o objeto da invasão e cuja população sofre no momento as consequências da guerra.
A segunda dessas falácias é o egocentrismo ideológico, que admite que o ponto de vista prévio e particular do interlocutor é necessariamente correto por hipótese. Assim, se eu apoio Putin e Putin invadiu a Ucrânia, invadir a Ucrânia é correto. O egocentrismo ideológico idiotiza o indivíduo e o torna escravo de grupos, pessoas e corporações.
A terceira falácia comumente utilizada é a falácia do "Tu Também", que procura identificar erros passados no adversário para justificar erros presentes. Assim, a Rússia invadiu a Ucrânia, mas os Estados Unidos invadiram vários países do mundo no passado. O fato é que um erro passado não consegue transformar o seu erro atual em acerto.
Não se deixe aprisionar por falsos argumentos e falácias e pratique todos os dias a lógica argumentativa. A verdade é que um indivíduo escravizado precisa se ver livre das correntes, não escolher a cor das correntes que o escravizam.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fal%C3%A1cia
Se você é pesquisador, deveria procurar conhecer a Iniciativa FAIR, que promete mudar a forma de fazer pesquisa nos próximos anos. No entanto, é conveniente primeiro ressaltar que no momento a comunidade acadêmica de todo o mundo procura formas de organizar o trabalho de investigação científica e de pesquisa de maneira mais clara, livre e transparente para toda a sociedade. Por exemplo, buscam-se novos modelos de negócio para as publicações científicas, para circular o conhecimento contido nos artigos publicados em revistas especializadas de forma mais livre entre pesquisadores e cidadãos. De forma similar, procura-se remover as barreiras econômicas e proprietárias que impedem a livre circulação do conhecimento e permitem a concentração da maior parte do conhecimento gerado em todo o mundo nas mãos de alguns poucos conglomerados econômicos.
É nesse contexto que em 2016 foi publicado um artigo na revista Nature propondo um conjunto de diretrizes que compõem a iniciativa FAIR e que deveriam ser seguidos por trabalhos publicados em todo o mundo. A palavra FAIR é composta pelas iniciais de quatro palavras em inglês, sugerindo de forma inteligente a ideia de justo e correto, na tradução livre para o português.
F vem da palavra "findable", ou achável, significando que os dados apresentados em uma publicação ou oriundos de um trabalho de investigação deveriam ser facilmente acháveis por pessoas ou sistemas automáticos de busca, como por meio de repositórios digitais padrões. O A vem da palavra "accessible", ou acessível, significando que os dados deveriam estar disponíveis para eventual uso por parte de outros pesquisadores e cidadãos, mesmo que por meio de registro e autorização eletrônica. O I vem de "interoperable", ou interoperável, significando que os dados acessados deveriam estar disponíveis para uso em plataformas populares e amplamente disponíveis na sociedade, como no caso de uma tabela Excel. O R vem de "reusable", ou reutilizável, significando que os dados devem estar suficientemente completos e bem documentados para que possam ser usados por outros pesquisadores para reproduzir as avaliações divulgadas ou executar novas avaliações.
Nos Estados Unidos e na Europa várias instituições de fomento já estão anunciando que só apoiarão trabalhos de pesquisa e plataformas de divulgação que seguirem os princípios FAIR a partir de 2025. Por isso, várias revistas científicas já pedem a completa divulgação de dados de laboratório (até por meio de cópias de cadernos de laboratório) e dos dados usados para construir os gráficos apresentados nas publicações. De forma similar, têm surgido várias plataformas digitais, muitas delas ligadas a veículos de publicação científica, que permitem o armazenamento e divulgação padronizada de dados científicos. O movimento certamente chegará em breve ao Brasil.
Se você tem ciúmes dos dados que gera e dificuldades para compartilhar seus dados com colegas, prepare-se para um mundo novo, pois em breve você vai ter que compartilhar seus dados com o mundo todo.
https://www.youtube.com/watch?v=Vyf6mQpXa3Q
https://www.go-fair.org/
https://www.nature.com/articles/sdata201618
https://www.universityworldnews.com/post.php?story=20220210091705943
A FAPESP (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo) anunciou na última semana a correção dos valores de todas as bolsas de pesquisa pagas pela instituição. Os novos valores das bolsas são de 70% a 100% maiores que os valores praticados pelo governo federal por meio da CAPES e do CNPq, equivalentes à inflação acumulada no período em que as bolsas federais têm sido mantidas congeladas nos últimos nove anos. O movimento da FAPESP confirma tendência das fundações estaduais de apoio de desvincularem suas políticas de pagamento de bolsa das políticas praticadas pelo governo federal, como anunciado de forma mais tímida recentemente pelas fundações de apoio do Rio de Janeiro, Santa Catarina e Minas Gerais.
O movimento da FAPESP precisa ser apoiado obviamente, mas revela a trágica gestão da área de ciência e tecnologia feita pelo governo federal. Por meio de suas políticas equivocadas, o governo federal aumenta as diferenças e heterogeneidades regionais e trabalha para concentrar a pesquisa do país na região sudeste, em particular no estado de São Paulo. No contexto atual, parece óbvio que não há motivação para que um estudante paulista se dirija a um programa de outro estado para desenvolver estudos de pós-graduação. De forma similar, um pós-graduando preferirá se dirigir para São Paulo, onde encontrará melhores condições de subsistência para desenvolver seus trabalhos de pesquisa.
Há quem acredite que essas diferenças são devidas à riqueza do estado de São Paulo, embora resultem em verdade da falta de vontade política de corrigir distorções e do desprezo que o governo federal tem pela educação e a pesquisa no Brasil. Uma análise de ordem de grandeza mostra rapidamente que o esforço financeiro necessário para resolver essa distorção é pequeno. Há cerca de 400 mil pós-graduandos no Brasil, dos quais cerca de um terço estudam em instituições privadas e outro terço trabalham ou fazem cursos a distância, não demandando bolsas de pesquisa. Admitindo um universo de 100 mil bolsas e valor de R$ 3.000,00, o esforço financeiro seria de 3,6 bilhão de reais por ano. Mas parte desses valores é paga pelas fundações estaduais de apoio e parte já é paga pelas próprias instituições federais de fomento, de maneira que o esforço financeiro adicional é de cerca de 1 bilhão de reais por ano. Parece muito, não ? Mas o orçamento reservado para o fundo eleitoral em 2022 é de quase 6 bilhões de reais, enquanto o orçamento reservado para as emendas secretas usadas para fazer politicagem é de quase 16 bilhões de reais. Como vemos, trata-se de escolha política, não de falta de dinheiro.
Enfim, parabéns à FAPESP. O jeito é irmos todos para o estado de São Paulo.
Referências:
https://www.youtube.com/watch?v=1vWrIW23tGY
https://fapesp.br/valores/bolsasnopais
https://www.gov.br/cnpq/pt-br/acesso-a-informacao/bolsas-e-auxilios/copy_of_modalidades
https://www.portaldatransparencia.gov.br/orgaos-superiores/24000-ministerio-da-ciencia--tecnologia--inovacoes-e-comunicacoes
https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2021/12/20/relator-reserva-r-165-bilhoes-para-orcamento-secreto-em-2022.htm
https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/12/17/congresso-confirma-fundo-eleitoral-de-ate-r-5-7-bilhoes
https://www.semesp.org.br/mapa-do-ensino-superior/edicao-11/dados-brasil/pos-graduacao/
https://noticias.r7.com/educacao/estudo-mostra-aumento-na-busca-por-especializacao-na-pandemia-03122021
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