Falando com Ciência

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By Jose Carlos PintoScience
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Falando com Ciência episodes

  • No Dia dos Professores, o desejo simples é que os compromissos com a educação sejam enfim cumpridos

    Antes de mais nada, FELIZ DIA DOS PROFESSORES para todos os profissionais da Educação !!!! Parabéns a todos pelo dia 15/10 !!!! Hoje é o dia em que a sociedade brasileira lembra dos professores e tece muitos elogios em redes sociais e veículos de comunicação, para logo depois esquecê-los na Quarta-Feira de Cinzas ... Há inclusive muitos sites oferecendo frases para você mandar para o seu professor. Não use essas frases !!!! Se você quiser se manifestar, use o seu coração !!!!

    Talvez você não saiba, mas a data de hoje remonta ao longínquo dia 15 de outubro de 1827, quando o então imperador D. Pedro I sancionou uma lei que estabelecia a obrigatoriedade de o Estado brasileiro construir escolas e oferecer ensino fundamental aos cidadãos brasileiros nas cidades mais populosas do Brasil. A lei tinha vários pontos avançados para a sua época, como:

    1. Estabelecia a obrigatoriedade de o Estado construir escolas e oferecer ensino aos cidadãos;
    2. Estabelecia uma espécie de concurso público para a contratação de professores;
    3. Estabelecia a estabilidade do vínculo do professor com o Estado brasileiro;
    4. Criava uma espécie de currículo mínimo para ser ensinado, que incluía Matemática, Português, História, Estudo da Constituição e Religião;
    5. Estabelecia que os salários de professores homens e mulheres deveriam ser iguais.
    6. Mas a lei tinha também traços característicos da sociedade da época:

      1. Separava o ensino de meninas e meninos;
      2. Estabelecia que as meninas estudariam menos Matemática para estudarem Prendas Domésticas;
      3. Definia que o direito ao ensino era privilégio dos cidadãos brasileiros, excluindo estrangeiros e a grande massa da população escravizada.
      4. O fato é que, apesar de constituir referência importante, a lei não pegou, porque D. Pedro I esqueceu de dizer quais eram as grandes cidades brasileiras que estavam obrigadas a seguir a lei, de forma que cada um olhava para o lado e fingia que o imperador estava falando com o outro. Hoje, quase 200 anos depois, continuamos vivendo experiências similares no Brasil.


        Talvez você também não saiba, mas depois de 4 anos de discussão, o Congresso Nacional aprovou em 2014 o Plano Nacional de Educação, que estabeleceu várias metas a serem atingidas até o ano de 2024. Entrando já no ano de 2022, tudo indica que as metas acordadas não serão atingidas e que uma vez mais os compromissos com a educação e a formação do povo brasileiro não serão cumpridos. Parece que a PNE também não pegou. Aliás, vários índices e indicadores estão hoje piores do que estavam em 2014.

        • O país tem 11 milhões de analfabetos;
        • 28% da população brasileira são constituídos por analfabetos funcionais, que sabem ler e escrever, mas não compreendem o que leem;
        • Temos hoje menos escolas dedicadas ao ensino integral que em 2014;
        • Temos hoje menos alunos matriculados no ensino integral do que em 2014;
        • Os programas de formação continuada dos professores nunca saíram de fato do papel;
        • Os salários dos professores brasileiros são os piores dentre todos os países da OCDE, em todos os níveis.
        • Como vemos, as leis que tratam da educação não costumam pegar no Brasil. Por isso, nesse dia 15/10/2021, desejo a todos os profissionais da educação e a todos os cidadãos brasileiros que a sociedade reconheça a sua dívida em relação à educação e à formação do povo brasileiro e faça algo muito simples: cumpra o que foi combinado.

          Para a lista completa das referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube.

          6 min
        • Bizarro !!! Congressos científicos vão virar desfiles de índices H ?

          Como discutido em vídeos anteriores do canal, congressos e eventos científicos se transformaram em um grande negócio. Por isso, todos nós que trabalhamos no mundo acadêmico recebemos todos os anos centenas de convites para participação nesses eventos, em geral acompanhados de uma tabela de preços que fixa frequentemente a participação em valores superiores a mil dólares. Mas um convite recebido na última semana me surpreendeu, porque não apresenta as maravilhas do local onde o congresso está sendo organizado (incentivando o turismo), não discute a importância temática do assunto principal a ser debatido e sequer apresenta os títulos das palestras a serem apresentadas pelos palestrantes, apresentando apenas uma lista de palestrantes e de seus respectivos índices H. A mensagem implícita é que um evento bom depende apenas do desfile de índices H que apresenta, importando pouco o que será debatido. Bizarro !!!


          O congresso se comporta assim como uma casa de espetáculos que anuncia uma banda, importando pouco o que a banda vai tocar, já que o espectador vai ao evento para ver a banda. Mesmo assim, é comum que as pessoas tenham expectativa de ouvir alguma música em particular.

          Mais bizarro ainda é o fato de que os palestrantes são apresentados meticulosamente em ordem decrescente de índices H, criando uma óbvia hierarquia entre os palestrantes do evento que nada tem a ver com a organização ou planejamento do congresso. Bizarro !!!

          Uma checagem rápida nos perfis dos palestrantes mostra que existe uma quantidade enorme de homônimos cadastrados no Google Scholar, o que demanda importante trabalho de validação da produção individual dos palestrantes. Esse fenômeno foi já observado entre pesquisadores citados no ranking picareta discutido aqui no canal na semana passada, que têm índices H superiores ao número de publicações que fizeram. É como se todos os JC Pinto do mundo se juntassem para construir um super-perfil compartilhado por todos eles, para benefício mútuo.

          Ainda mais curioso é perceber que o perfil de publicações do palestrante com maior índice H da lista concentra majoritariamente a publicação de revisões, em geral citadas por outras revisões, mostrando a existência de um mercado de impulsionamento dos índices H. Até por isso, o índice H desse palestrante é muito semelhante ao número total de publicações do autor, mostrando uma estratégia profissional centrada na atividade editorial, ao invés da pesquisa. Dessa forma, o palestrante fala principalmente sobre o trabalho dos outros, ao invés de apresentar os seus próprios resultados de pesquisa, o que não deixa de constituir fenômeno relevante para aqueles que pretendem participar desse evento científico.

          O fato mostra a vulgarização, espetacularização e mercantilização da atividade científica de formas nunca vistas na história da ciência, impulsionadas pelo culto aos índices. Eu certamente jamais irei a um evento como esse e torço para que você pense o mesmo. Além disso, apesar de torcer contra não fazer muito o meu perfil, torço para que o evento seja um fracasso, para o bem da ciência e da pesquisa.

          Referências:

          • https://youtu.be/-jnTX2__oCg
          • https://youtu.be/AB9eYfJX44g
          • https://youtu.be/Mh_HuS0ykr4
          • https://www.thescientistt.com/nanotechnology-nanomaterials/2022/speakers.php
          • https://scholar.google.com.sg/citations?hl=en&tzom=180&user=Cgo45S8AAAAJ
          • http://www.jornaldaciencia.org.br/edicoes/?url=http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/24-como-queremos-ser-avaliados-uma-breve-reflexao-sobre-o-mais-novo-indice-da-ad-scientific-index/
          • 7 min
          • Governo veta de forma ilegal transferência de recursos para pagar bolsas e projetos do Universal

            No dia 07/10/2021, o Governo Federal vetou (de novo) de forma ilegal a transferência de recursos para o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) necessários para o pagamento de bolsas e de projetos de pesquisa, em particular aqueles vinculados ao Edital Universal. Para você entender o que está acontecendo, é necessário puxar um pouco o fio da meada.


            O FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) é formado com recursos financeiros arrecadados como uma fração de negócios realizados por empresas que atuam em áreas estratégicas e devem ser integralmente utilizados para o financiamento de atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação. O problema é que o Governo Federal vinha há alguns anos contingenciando a liberação desses recursos e sufocando as atividades de pesquisa e formação científica no Brasil. Por isso, o Congresso Nacional aprovou o projeto de lei complementar 177/2021 que, dentre outras coisas, proíbe o contingenciamento das verbas do FNDCT e obriga o Governo Federal a cumprir as suas obrigações com o financiamento das áreas de ciência, tecnologia e inovação.

            A lei que trata do FNDCT dispõe em seu Artigo 5 e Inciso 4 que cabe ao Conselho Diretor do FNDCT fazer a programação e aprovar o uso e o calendário dos recursos financeiros postos à disposição do fundo. Ignorando a lei (o que vem sendo contestado), o Ministério da Economia obrigou que 50% dos recursos do fundo sejam tratados como recursos reembolsáveis postos à disposição de empresas. Contudo, como os juros são muito elevados (12% ao ano), na prática as empresas não usam os recursos. Contudo, se não forem utilizados, os recursos têm que ser devolvidos ao caixa do Governo Federal. Ou seja, o Governo inventou uma forma de contingenciar os recursos, sem usar esse nome.

            Todos temos também acompanhado as dificuldades enfrentadas pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) para programar, produzir e distribuir radiofármacos fundamentais para o tratamento de doenças, como o câncer, por falta de dinheiro. Por isso, o MCTI negociou a liberação de verbas complementares necessárias para garantir o funcionamento do IPEN. Simultaneamente, conseguiu encaminhar o pleito da liberação de verbas suplementares para garantir o pagamento de compromissos do MCTI, incluindo o pagamento de bolsas e projetos de pesquisa, em particular aqueles vinculados ao Edital Universal, no valor total de cerca de 650 milhões de reais. A liberação foi encaminhada ao Congresso Nacional na forma da Lei PLN 16/2021.

            Pois bem, aos 45 minutos do segundo tempo, o Ministério da Economia vetou a transferência de recursos para o MCTI alegando que o FNDCT tem recursos disponíveis e não utilizados, que são aqueles recursos colocados à disposição de empresas a juros elevados e que ninguém tem aparente interesse de usar. O Governo Federal usa um subterfúgio para contingenciar de forma ilegal os recursos do FNDCT, comprometendo o pagamento de bolsas e projetos de pesquisa. Isso precisa ser denunciado amplamente.

            Para a lista completa das referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube.

            7 min
          • Lista de depositantes de patentes no Brasil revela quadro dramático da inovação no país

            O Governo Federal divulgou no dia 04/10/2021 a lista dos maiores depositantes de patentes no Brasil no ano de 2020. No entanto, é conveniente primeiro olhar outros números do ano de 2020, para relativizar a informação disponível.


            Primeiramente, o Brasil apresentou em 2020 o nono maior PIB do mundo, correspondente a cerca de 2% da produção mundial de riquezas. Esse número constitui uma importante referência para análises comparativas.

            Simultaneamente, o Brasil foi o décimo terceiro maior produtor de artigos científicos do mundo em 2020, correspondente a 3,5% da produção mundial. Esse número pode ser considerado muito bom, por ser compatível com o tamanho da economia brasileira. O fato da produção científica nacional ser maior que a participação do país no PIB mundial reflete em parte o fato de que muitas publicações são assinadas por vários pesquisadores de países distintos, por conta das colaborações acadêmicas. Se transportarmos essa posição para a lista do PIB mundial, encontraremos a Espanha, que representa 75% do PIB brasileiro e reforça a boa produção científica nacional, a despeito da dramática redução dos investimentos em educação, ciência e pesquisa nos últimos 5 anos. Lembramos que investimentos nessas áreas são colhidos no longo prazo, de forma que colhemos hoje os resultados dos investimentos feitos entre os anos 2000 e 2015. Os resultados do encolhimento atual dos investimentos serão colhidos daqui a 10 anos.

            No ano de 2020 o Brasil foi apenas o 57o país mais inovador do mundo, posição incompatível com o tamanho da economia. Trata-se de um quadro dramático, pois indica que o conhecimento científico gerado majoritariamente em instituições públicas de ensino e pesquisa não se transforma em produtos e serviços inovadores para a sociedade brasileira. Se transportarmos essa posição para a lista do PIB, encontraremos a Ucrânia, que tem PIB 15 vezes menor que o PIB brasileiro, revelando que o país realiza apenas 7% do potencial de inovação que tem.

            Voltando à lista de depositantes de patentes, 75% dos depósitos feitos no Brasil em 2020 foram conduzidos por corporações estrangeiras, interessadas na defesa de seus interesses comerciais e estratégicos no país, não refletindo o esforço de desenvolvimento tecnológico nacional. Dos 25% restantes, 75% dos depósitos de patentes foram conduzidos por instituições públicas de ensino e pesquisa, o que constitui uma óbvia deformação do sistema de inovação no país. Como já discutido em vídeos anteriores do canal, depósitos de patentes não constituem indicadores legítimos de produção acadêmica nem missão de instituições públicas de ensino e pesquisa. Patentes deveriam ser depositadas em princípio por empresas inovadoras, que disponibilizam o conhecimento científico na forma de produtos e processos para a sociedade brasileira.

            É muito relevante perceber que, dentre os 20 maiores depositantes de patentes no Brasil em 2020, 17 foram instituições de ensino, 1 foi a Petrobras (empresa estatal), 1 foi um professor universitário e apenas 1 foi uma empresa privada que atua no país. Dentre os 10 maiores depositantes, 9 foram universidades e 1 foi a Petrobras. Há universidades comemorando esse feito, mas não há o que comemorar nessa tragédia. Para fins de comparação, dentre os 20 maiores depositantes de patentes nos EUA não há uma única universidade, a despeito da robustez do sistema universitário americano.

            Os números não mentem e mostram uma economia pouco inovadora e doente. É preciso desenvolver com urgência um plano de desenvolvimento econômico e tecnológico que privilegie o conhecimento embarcado em produtos e processos, interrompendo a trajetória de simplificação da economia nacional. E isso é trabalho urgente para essa geração, para o bem do futuro do Brasil.

            Para conferir as referências, consulte a descrição do vídeo no canal do YouTube.

            9 min
          • Um outro tipo de avaliação acadêmica, mais humana e consequente, é possível e deve ser perseguida

            É bem estabelecido na área de Monitoramento e Controle de Processos que a garantia da qualidade só é possível se as características essenciais do resultado principal são medidas, avaliadas, comparadas com medidas de desempenho desejado e eventualmente corrigidas, caso desvios indesejados sejam observados. No caso do processo de ensino, qual seria o resultado principal obtido ? Parece não haver dúvida de que é a formação do estudante, do graduando, do pós-graduando e do egresso daquela instância acadêmica. Dessa forma, o estudante deveria ocupar papel central em qualquer sistema de avaliação acadêmica que se proponha, embora a participação do estudante nas avaliações acadêmicas vigentes no Brasil seja pífia.

            Com base nesse pressuposto, o estudante deveria ser ouvido sobre o que pensa a respeito do ensino oferecido e as ferramentas ensinadas, antes e depois da formatura ou defesa de tese. O acompanhamento do egresso ao longo do tempo é fundamental nesse procedimento, pois as opiniões podem mudar ao longo do tempo, com o acúmulo de experiência profissional e a maturidade. Ouvir o estudante antes da formatura é muito simples, por conta da matrícula, da formatura, da defesa, assim como em outras instâncias e oportunidades. Ouvir o egresso depois da formatura é fundamental, embora constitua atividade desprezada pelo mundo acadêmico brasileiro, mas muito bem conduzida pela maior parte das universidades estrangeiras, que procuram manter o vínculo e o relacionamento com os ex-alunos. Portanto, trata-se de atividade perfeitamente factível, bastando vontade para que seja executada.

            Além disso, é importante saber se o egresso está trabalhando, está ativo, está produtivo, ou se enfrenta dificuldades profissionais. A universidade tem muita responsabilidade pelo sucesso e o insucesso de seus egressos, que falam muito mais sobre a qualidade do ensino do que o sucesso ou insucesso dos professores. Esse acompanhamento pode ser feito na forma descrita anteriormente e pode contar com o apoio do IBGE, pois constitui estatística social relevante sobre o que se passa no país e o IBGE tem larga experiência na condução dessas pesquisas e estatísticas sociais.

            É preciso também compreender se a universidade está promovendo a mobilidade social que dela se espera. É importante avaliar os programas de assistência estudantil e as políticas de cotas, para determinar se a universidade está ajudando a forma estudantes carentes. Aliás, é relativamente muito fácil formar estudantes ricos, que não precisam trabalhar para contribuir com o sustento da família. É preciso compreender se os egressos vivem melhor que seus pais, como esperado, e o Ministério da Economia e o IBGE têm os dados que permitem oferecer respostas para essas perguntas e podem colaborar com esse sistema de avaliação.

            Nesse contexto, a infraestrutura disponível na universidade é obviamente importante, mas desde que possa ser compartilhada e utilizada pelos estudantes para a sua formação. Os professores são também muito importantes como condutores desse processo, mas desde que deem aulas, orientem, coordenem projetos que envolvam os estudantes, assinem artigos científicos com os estudantes e auxiliem o processo de formação e mobilidade social desses estudantes.

            Talvez você não concorde com indicadores propostos nesse vídeo, mas não há problema algum nisso. Vamos discutir os indicadores de baixo para cima, conduzindo essa discussão com toda a comunidade acadêmica, por meio dos departamentos, institutos, universidades e em grande evento promovido pela CAPES, para consensuar a avaliação que queremos e precisamos. A missão dos Conselhos da CAPES não é formular a avaliação, mas monitorar e implementar as regras consensuadas pela comunidade acadêmica e pela sociedade brasileira.

            O que vemos aqui é que outro tipo de avaliação, mais humana e consequente, é possível, desde que a gente queira. Perceba que não foi necessário falar em nenhum momento sobre QUALIS, índice H ou ranking

            12 min
          • Ranking de pesquisadores ADScientific é uma picaretagem ancorada na vaidade e no produtivismo

            No dia 30/09/2021 circulou mais um desses rankings que pretensamente avaliam a importância relativa dos pesquisadores. Como é comum nesses casos, o ranking começou a circular nas redes sociais e as pessoas se lançaram à busca de nomes de pesquisadores e instituições, comparando-os uns aos outros. Como tenho interesse acadêmico legítimo nesse tema e como sou crítico contumaz do uso dessas ferramentas, em geral cheias de deformações, fui ver do que se tratava.

            O tal ranking em verdade é uma lista de fatores H, já discutido em vídeos anteriores do canal. O fator H é uma medida relativa das citações recebidas por um autor. Assim, se o fator H é igual a 10, isso significa que ao menos dez publicações do autor avaliado mereceram ao menos 10 citações de outros pesquisadores. A inferência que se faz é que, quanto maior é o fator H, maior é a importância e produtividade do pesquisador. No entanto, o fator H está sujeito a várias deformações, sendo afetado por variáveis que nada têm a ver com a produção e qualidade do trabalho que o pesquisador faz, como a área em que o pesquisador trabalha. Dessa forma, o tal ranking apenas atualiza uma ideia velha.

            Como não encontrei o meu nome na lista e como o meu fator H normalmente me põe nessas listas, fiquei ainda mais curioso sobre os critérios usados para construir o ranking. Para minha surpresa, percebi que o tal ranking foi construído apenas com pesquisadores que mantêm contas no Google Scholar vinculadas ao e-mail institucional e com perfis públicos. Como não tenho conta no Google Scholar vinculada ao meu e-mail institucional, da mesma forma que não tenho contas no Facebook, LinkedIn e ResearchFinder, não mereço mesmo ser considerado um pesquisador importante. Aliás, sou um desses dinossauros que acreditam que os sistemas computacionais e de comunicação de instituições governamentais não deveriam usar plataformas como a do Google, que faz uso desconhecido dos dados e possivelmente os vende para que instituições façam rankings de pesquisadores, por exemplo.

            Fuçando um pouco a plataforma, descobri um botão que permite corrigir e inserir dados da plataforma e do ranking. Ao acionar o botão, me deparei com um conjunto de ações bastante peculiar:

            1. É necessário abrir uma conta no Google Scholar e vinculá-la ao e-mail institucional, claro, pois pesquisador importante mantém conta ativa e institucional no Google Scholar;
            2. É necessário tornar o perfil público e preencher os dados, claro, para fazer o trabalho que os organizadores do ranking deveriam fazer;
            3. É necessário garantir a veracidade dos dados, claro, porque os divulgadores do ranking não checarão os seus dados (e lembro do episódio de Camille Nous, apresentado em vídeo anterior do canal), de forma que parece legítimo questionar a consistência da base de dados;
            4. É necessário pagar US$ 30,00 (trinta dólares americanos) para inserir ou corrigir os dados !!!! Se for uma transação institucional e a lista de pesquisadores for grande, a instituição pode pedir um desconto ...
            5. O tal ranking é um negócio picareta para tirar dinheiro de pesquisadores e instituições de pesquisa. Apenas a vaidade acadêmica e o vício nas métricas produtivistas pode explicar o aparecimento de rankings e negócios como esse. Esse ranking não deveria estar sendo divulgado ou celebrado, mas deveria estar sendo denunciado !!!! Algo muito errado está ocorrendo no mundo acadêmico, quando deformidades como essa circulam, são divulgadas e celebradas no mundo da pesquisa.

              Referências:

              • https://youtu.be/watch?v=d8G5xF0BhtQ
              • https://youtu.be/watch?v=-WyY0_GhaR0
              • https://www.adscientificindex.com/add-profile-correction-form/?ref=banner
              • 6 min

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              Vamos comentar sobre os aspectos, muitas vezes polêmicos, do dia a dia da pesquisa que se faz pelo Brasil, nos Institutos de Pesquisa e nas Universidades.