Felipe Simão - Poesias

Felipe Simão - Poesias

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Felipe Simão - Poesias episodes

  • 23 - O menino

    Como eu, um homem tão defeituoso,

    consigo escrever linhas tão lindas,

    às vezes eu queria

    que a vida fosse como um papel em branco,

    sem todas as cicatrizes,

    as rugas,

    os amassados,

    as marcas que me monstrificam,

    assim seria leve como uma pluma,

    como as pétalas duma flor,

    arrancadas uma a uma

    numa brincadeira de bem-me-quer,

    flutuando no ar,

    poderia voltar a ser criança

    e ser o que eu quiser;

    saudoso tempo

    em que eu era o dono do mundo,

    era eu que tingia seus contornos,

    tudo tinha o significado que a minha mente quisesse dar,

    eu construía

    carros e caminhões,

    helicópteros e aviões,

    criava máquinas,

    que até hoje o homem desconhece,

    com madeira e papelões

     

    As portas foram se fechando para aquele menino,

    a batida mais seca

    foi na entrada da felicidade,

    ela se fechou antes mesmo que ele pudesse tocar a

    maçaneta,

    tamanha maldade,

    antes que outra passagem se abrisse

    o chão desapareceu

    e o garoto caiu num buraco negro,

    foi lançado em águas nebulosas

    e viu espicharem seus braços e pernas,

    nadando num mar de perversidade

     

    Talvez o menino ainda esteja vivo,

    feito sua morada num coração de pedras,

    onde o xisto não deixa brotar nem uma tiririca,

    mas ele transforma as rochas em sonhos,

    o músculo venoso palpita pondo pedregulhos para voar;

    o toque desse menino tem poderes

    que dispensam a gravidade

    e todas as coerções da realidade,

    o infante caminha por infinitas escadarias,

    vagaroso,

    observador,

    contempla borboletas e paisagens

    que só os seus olhos são capazes de ver;

    saem saltitantes de sua boca,

    as letras que ele inventa,

    que nunca deixou de criar,

    os seus universos erguidos

    para se abstrair do próprio olhar,

    que ressoam muito além dos ouvidos

    e do que podem as conchas marítimas captar,

    a doçura dos odores e das delícias

    que não passam pelas narinas

    e tampouco se entregam ao paladar;

    inúmeros são os seus truques,

    seus segredos de encantar,

    o garoto dispensa as mãos

    e não pára de desenhar,

    sua voz é luminosa

    e ele nunca esqueceu de cantarolar

     

    O monstro anda penoso,

    carrega os dias nas costas

    até o encontro de seu fim,

    quando se apagarão todas as mazelas

    no efeito da luz branca

    que me cegará,

    chegado o momento em que me parto

    como todos, um dia eu irei,

    mas o menino ficará

    4 min
  • 22 - A poesia me pegou pelo pé

    Nunca pensei em ser poeta,

    a poesia me pegou pelo pé,

    abriu-se em mim uma fonte de palavras

    que jorram ao longe como as águas dum igarapé

     

    A poesia me pegou pelo pé,

    com uma brincadeira de rimas,

    por deboche,

    eu que desprezava suas obras-primas,

    virei seu fantoche

    e hoje por suas linhas me abro,

    descrevo meu lado puro

    e o macabro,

    saem pulsando pela ponta do lápis

    sentimentos,

    sensações,

    emoções que nem eu entendo;

    só saio escrevendo,

    deixo versos por aí,

    como se fossem migalhas de pão,

    como fizeram Maria e João,

    são caminhos que não sei refazer

     

    Nem surreal,

    como o filho do diabo

    nem engravatado,

    como um homem normal

    sou um artista,

    não aquele que penso,

    mas aquele que sinto,

    aquele que tanto neguei,

    que hoje me carrega pelas trilhas que não tracei,

    estradas que me fizeram sair do meu próprio labirinto

     

    A poesia me pegou pelo pé,

    a comédia me pegou pelo pé,

    o teatro me pegou pelo pé,

    a música me pegou pelo pé,

    eu nunca escolhi nenhum deles,

    já estavam dentro de mim,

    esperando a hora de sair,

    me pegaram pé

    e eu agora não tenho mais pés

    para fincar no chão

    2 min
  • 21 - Desenhista

    Se a minha casa estivesse pegando fogo,

    e por desafogo

    eu só pudesse salvar um objeto,

    levaria comigo uma caneta,

    qualquer que fosse,

    só para me lembrar,

    que não importa o que aconteça,

    o evento mais terrível, o mais abjeto

    não pode me impedir de escrever,

    me fazer parar,

    eu sou um desenhista,

    os meus rabiscos são palavras

    que traçam sonhos,

    pois não dá para viver

    deixando de sonhar

    1 min
  • 20 - Corpo de céu

    Se eu fosse feito de céu,

    todo azul, esqueceria as mágoas do mundo,

    navegaria fundo

    na cor dos teus olhos,

    pelo ar flutuaria,

    me desprendendo de qualquer raiz

    e pela primeira vez eu seria,

    eu seria feliz

    1 min
  • 19 - Uma estorieta

    Agora vou contar uma estorieta

    Era uma vez o Seu Salazar

    que foi pai de Dona Marieta,

    que tinha uma grande... bolsa-de-tricotar,

    cujo tamanho ninguém ousa duvidar

    o mundo inteiro cabia lá dentro,

    ela levava todo tipo de tempero, sal, pimenta, coentro…

    Dona Marieta

    era perneta,

    mas ia a todas as quintadas,

    abrindo as suas bandas

     

    Dona Marieta era irmã de Dona Maricota,

    que era casada com o padeiro, Seu Gamalho,

    que passava... a ricota

    no seu pão-de-alho

     

    Dona Maricota era comadre de Dona Marica,

    que gostava de chupar... laranja com sica,

    e todo dia tocava... cavaquinho

    para o seu marido, Seu Candinho

     

    Dona Marica era prima de Dona Marreca,

    que saía por aí mostrando pra todo mundo a sua... boneca,

    toda feita de porcelana

     

    DDona

    Marreca era madrinha de Dona Mariana,

    que tinha a mania de arreganhar... a casca da banana

    Dona Mariana montou um carrinho de pipoca

    e ficou amiga de Dona Maroca,

    que vendia paçoca

    e adorava uma bela... pirotecnia

    Todo fim de ano ela ia,

    e arrastava Dona Mariana,

    para ver os fogos de Copacabana

     

    Elas ficavam na casa de Dona Manola,

    que sempre chorava,

    quando descascava...

    uma cebola

     

    Dona Manola era vizinha de Dona Manuca,

    que toda sexta-feira fazia... faxina

    no salão de sinuca

    que ficava na esquina

    da rua Guilhermina

     

    Dona Marieta,

    de tanto dar... pirueta,

    acabou batendo na mureta

    e caiu de bunda na sarjeta

     

    Dona Maricota,

    depois que ficou viúva se sentiu muito mal,

    casou-se de novo com o salineiro, Seu Juvenal

    E passou a colocar na... ricota

    o seu sal

     

    Dona Marica,

    coitada,

    levou uma picada...

    do mosquito com Zika

    e foi parar no hospital de Curicica

     

    Dona Marreca

    foi alargar... a sua beca,

    porque comeu demais

    na casa de Seu Tomás,

    no caminho escorregou em gosma de perereca

    bateu a cabeça e entrou numa soneca

    da qual não acordou nunca mais

     

    Dona Mariana,

    decidiu vender... a sua cabana

    e se mudou para a República Dominicana

     

    Dona Maroca,

    com medo duma enorme... galinha-choca

    fugiu para a Guiné-Bissau

    e lá começou a tocar... o berimbau

     

    Dona Manola,

    um dia,

    levou... uma evidência à delegacia;

    numa conversa tola

    se apaixonou pelo Delegado Padilha

    e com ele teve uma filha,

    a Dona Maju

    que abriu... uma barraca de vudu,

     

    Dona Manuca,

    levou uma tacada na nuca

    e ficou pra sempre maluca

     

    Eu confesso

    também ser um pouco zureta

    de vocês me despeço

    pois assim acaba a minha estorieta

    4 min
  • 18 - Macuriri

    Macuriri nasceu condenado à esperança,

    nasceu para ser eternamente criança,

    já nasceu com preguiça,

    ele rejeita lingüiça,

    e como petisco

    só come marisco

     

    Macuriri tem o peito branco

    que é a cor da paz,

    Macuriri tem a força do índio goytacaz,

    tem os olhos castanhos como a castanha de caju

    os lábios tamanhos, cor de jambu,

    Macuriri adora comer doce com frufru

     

    Macuriri é saltimbanco,

    é muito sagaz,

    Macuriri tem o cabelo azul

    que é a cor do manto do povo de Cabul,

    Macuriri é malandro,

    não tem o sangue-azul

     

    Macuriri tem a pele verde

    que é a cor da verdade,

    e é a causa da sua distinção

    Macuriri foi moldado pela sinceridade

    e não pode dizer “não”,

    Macuriri é travesso,

    mas não faz por maldade,

    é a sua confissão

    Macuriri é avesso à vaidade,

    e à boa razão

     

    Macuriri nunca teve liberdade,

    cresceu numa prisão

    Macuriri não tem saudade,

    pois só viveu na solidão,

    Macuriri fugiu da sua cidade,

    abandonou o Sertão

     

    Ele vem duma terra distante,

    dominada por um jacaré gigante,

    chamado Ururau,

    que caçava criancinhas para fazer mingau,

    e gostava de chupar... creme de bacalhau

     

    Macuriri foi corajoso o bastante,

    para enfrentar o Ururau,

    prendeu o jacaré numa armadilha

    e fincou no seu coração uma forquilha,

    Macuriri saiu errante

    andando por qualquer canto

    e ele pode estar por aí,

    preste bem atenção para ouvir o seu canto,

    o canto de Macuriri

    2 min
  • 17 - Seu Lulu

    O Seu Lulu

    é fanho

    Para falar a verdade, ele é um pouco estranho,

    gosta de tomar... vitamina de chuchu,

    é vegetariano e somo come... popa de caju,

    só que todo ano ele leva peru

    para o Natal, na casa de Seu Penedo

    Na festa junina, é o único a subir no pau-de-sebo,

    todo mundo desiste

    O povo insiste

    mas Seu Lulu nunca revela o seu segredo

    1 min
  • 16 - Madorra

    Era uma vez uma cachorra,

    que tinha o nome de Madorra

    e engolia muita... saliva,

    porque era muito ativa,

    sempre se mexia

    para todo canto corria,

    a todo instante

    ficando ofegante

    e babando bastante

     

    Madorra

    era muito agitada,

    não suportava o marasmo;

    fazia questão de ter uma dose... de sarcasmo

    e ficou conhecida por ser muito malcriada

    1 min
  • 15 - Saudade de Maria

    Que saudade de Maria,

    aquela que era afilhada da nossa tia

    que era boa... de matemática,

    que era muito... simpática

    e todo mundo chamava de Vandinha

    Não me pergunte por quê

    Não vou saber responder

     

    Que saudade de Maria,

    que era nossa vizinha,

    que era muito astuta,

    aquela que todo mundo dizia

    que foi ganhar a vida vendendo fruta,

    que todo dia,

    seguia a sua labuta,

    para rua ela ia

    rodar... com a sua barraquinha

     

    Que saudade de Maria,

    que foi parida na gruta,

    que era filha de... Dona Guta

     

    Que saudade de Maria,

    que sempre se apaixonava,

    que de verdade amava,

    e por isso nunca conseguiu ser bruta

     

    Ô saudade,

    saudade de Maria,

    falo na maior sinceridade

    sinto falta de ter Maria todo dia

    2 min
  • 14 - Cadê o menino

    Cadê aquele menino,

    filho de Dr. Sabino

    Aquele que gostava de jogar baralho?

    Que sempre que ia

    à casa de Dona Luzia

    brincava com Seu Carvalho?

     

    Aquele menino,

    franzino,

    que subia no galho,

    que um dia escorregou... no orvalho

     e teve que encher

    a roupa de retalho

     

    Aquele menino,

    que o padre pedia para tocar... o sino;

    um com cara de paspalho,

    que namorava aquela menina que só chupava... a cabeça do

    alho

     

    - Ah, sei, aquele menino,

    um pirralho metido a granfino,

    que enfiava na... vitrola o disco do Zé Ramalho?

    Faz tempo demais,

    Mas, se não me engano, esse rapaz

    agora está morando na casa de João Cabralho

    1 min

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