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Or


Pepeu Papeca era um bom menino,
sabia se comportar,
Pepeu papava tudinho,
não deixava nada no prato sobrar,
Pepeu papava tudinho,
no café, no almoço e no jantar,
não deixava cair a peteca,
não deixava a comida estragar
Mas Pepeu Papeca
gostava mesmo era de papar... cheiro-verde,
Pepeu papava tudinho,
não deixava nem o prato esfriar,
Nada saciava a sua sede,
até que um dia Pepeu Papeca
conheceu uma garota sapeca
e nunca mais quis saber de cheiro-verde,
seu nome era Pâmela Papeco,
era menina, mas também brincava de boneco
Pepeu cresceu e virou príncipe,
e Pâmela se tornou a sua princesa,
os dois formavam um casal de muita lindeza
Pepeu virou cavaleiro da tempre
ela subiu na garupa do seu cavalo
Eu queria ser prefeito
duma cidade sem confim
Eu queria fazer tudo do meu jeito,
e escrever a história até o fim
Eu queria que não apontassem os meus defeitos,
que não tivesse de guardar todo amor só para mim,
que ignorassem meus trejeitos,
e entendessem o meu latim
Eu queria ser mais afeito,
mais amado enfim,
queria ser eleito
dono de mim
Eu queria ter mais coragem no peito,
ir até o fim,
queria ter mais respeito
ser um rei, um delfim
Eu queria lutar pelo meu direito,
ser um guerreiro ou um anjo serafim,
queria vencer o preconceito
e que os outros confiassem em mim
Eu queria ser perfeito,
porque errar tem um gosto ruim,
eu queria ser aceito,
Uma página mal passada,
deslida,
do caderno não foi transcrita,
poesia recém-nascida,
pobrezinha, ficou para trás, foi esquecida,
largada como um bebê numa caixa de sapato;
era tão bonita
e nunca teve um leitor de fato,
quão cruéis podem ser dois dedos ao esfregar umas folhas
Deixaram uma obra-prima ao léu,
uma trova com sabor de arco-íris
e outras doçuras do céu,
uma poesia que não se casou,
nunca fez uma viagem de lua-de-mel,
sequer noivou,
nunca vestiu o véu,
ficou para as traças,
uma solteirona cerrada num pedaço de papel
Olho para a copa das árvores e vejo o sol escapando pelos
olho para a roxidão da noite e vejo as estrelas
em tudo há uma beleza contida,
que escondida foge aos nossos olhos apressados,
desatentos ao que realmente importa,
mas quando paro e começo a caminhar sem pressa,
o universo parece que por mim se interessa
e cheio de atitude
começa a me mostrar a sua magnitude,
a sua grandeza
O mundo tem tantas texturas,
tantas cores,
que é impossível aos meus olhos captar todas
e talvez essa seja a sua grande beleza
Um dia,
de repente,
o gato deu vida a fantasia
de agir como gente,
começou a ficar de pé nas patas traseiras,
a gesticular com as dianteiras,
empinou-se num andar galante,
empossou-se dum gestual elegante;
aprendeu a se sentar na mesa,
a comer com garfo e faca na maior destreza,
a usar o toalete,
a limpar com guardanapo sua boca suja de croquete,
desimpressionou-se da luz a laser,
dos ratinhos de borracha
e até de sua bola,
passou a detestar o apelido de “Frajola”
em caçar não via mais beleza,
nunca mais comeu ração,
só queria saber de comida francesa;
aprendeu até mesmo a jogar xadrez e dominó
começou a trajar paletó,
às vezes colete,
gravata comprida,
às vezes borboleta,
monóculo,
cartola
bengala,
o felino, incrivelmente, aprendeu a falar,
e fazia sala
para as visitas,
que figura atraente,
com sua fala mansa e envolvente
era agradável demais,
bastante cortês
e muito sagaz
sabia contar piadas como ninguém,
dominava a arte do flerte cordial
e tinha sacadas geniais,
tratava os humanos na maior camaradagem,
só numa coisa permanecia selvagem,
dispensava cinto, suspensórios, todo tipo de alças
o bichano se recusava a usar calças,
detestava também usar calçados,
deixava todos avisados,
não era coisa para gato,
a moda de usar sapato,
tamanha cafonia,
ele até escreveu uma sinfonia
com um complicado arranjo de notas
deixou exposto
o seu repúdio ao mau gosto
do Gato de Botas
Tenho muitas coisas a fazer,
mas hoje é dia de azar,
é melhor esquecer,
é melhor ficar quieto,
não é bom sair de casa em dias de azar,
a má sorte vira uma bola de neve que não para de rolar;
não adianta insistir em fazer as coisas darem certo,
quando certo mesmo é o nosso azar
Tem hora que o Bicho-do-azar gruda no nosso pé
não solta de jeito nenhum, não arreda pé,
maldito bicho do azar,
quando ele agarra não quer mais largar
Mas de repente, uma hora,
o bicho do azar se catapulta feito catapora,
do nada some, vai embora;
é bicho de fase, é de lua
quando dá o tempo, finalmente
ele larga a gente
ganha a rua
o que a gente não pode é achar
que o Bicho-do-azar
está sempre no nosso lar
Fui à Lagoa,
perambular à toa,
e como sempre
colhi umas estrofes
A natural beleza sempre inspira
as palavras pairam pelo ar daquele céu de poesias
se pode tocar letra por letra
como frutas num pomar;
uma por uma se retira,
vencendo doces dilemas,
e assim nascem, de um em um, os poemas
O gato hipnotiza com seus movimentos,
com seu jeito de brincar,
o gato amolece o coração,
com seu ronronado,
sua doçura de miar
O gato é o que não deixa esse apartamento ser vazio,
ele caça ratos,
caça insetos,
caça também a depressão,
despedaça o mal-estar,
deita do meu lado no colchão
Por que choras?
Por que choras,
Marilena,
se a vida é feita de amores e amoras
e doces rimas de poemas?
Por que vais para longe?
Por que queres morar na casa do Conde,
Mariana,
se a vida dura muito mais que uma semana?
Por onde se esconde?
Por que te escondes,
Giuliana,
se é tão bonito o horizonte,
se amores tens aos montes
e a rima para o fim da vida está longe de se achar?
Ó mulher, que não me conhece,
que nunca me viu e já me esquece
A tua voz
desata todos os meus nós,
desata meu coração
nos acordes da canção,
a tua voz, doce voz,
ela me faz pensar o que seria de nós,
um amor platônico,
um amor icônico,
uma cantora famosa,
e um poeta desconhecido
uma bela rosa
e um capim enxerido,
a dizer “bom-dia”,
inesquecível manhã seria,
mas não és mais que uma mera ilusão
e eu só posso te amar no meu coração
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