
Sign up to save your podcasts
Or


Estes dias foram de choro. O atual presidente, Jair Bolsonaro tem chorado quase todos os dias. Em frente aos seus apoiadores e em eventos oficiais, depois da derrota nas eleições de outubro, o chefe da nação tem derramado lágrimas.
O futuro presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, também chorou. Foi na titulação ontem, dia 12. Discursou, relatando o que sofreu nos últimos anos e que foi redimido pelo povo brasileiro. Ele também derramou suas lágrimas.
Os dois choram sinceramente ou são lágrimas de crocodilo? Acredito que estes choros são de sinceridade. Há uma perda e um ganho que sempre leva as lágrimas. Nossa vida é uma demonstração disso. Quantas vezes nas duas situações, de ganhar e perder, já choramos.
Acredito também, que o bom estadista tem um lado de encenação. Tem choro de crocodilo por aí, na história de muitos homens públicos. A emoção é fator determinante da convergência da massa entorno de um líder. Os dois em questão, Bolsonaro e Lula, são mestres no despertar emocional de seus seguidores. Não por acaso, na liderança que eles executam há um carisma nato.
Porém, eu ainda vejo nas lágrimas sinceras a melhor medida. E não vou me esquecer da quantidade de pais e filhos que choraram pela perda ora de um, ora de outro, durante a pandemia. Do choro da fome por não ter o que dar de comer para um filho.
Me sinto mais desperto ao considerar que na história deste país, momentos de tristeza marcaram a vida de muitos, criam calos, ressentimentos, aprendizados, uma casca grossa. Para alguns, virou aprendizado e maturidade para fazer escolhas e dar certos valores a vida. Para outros, infelizmente, ficou apenas o ódio descarregado no mais próximo, nem sempre o culpado dos males. Contudo, vítima daquele que despeja o ódio multiplicado sem resolver o verdadeiro problema.
Admiro as pessoas de bom-senso e as que tem lucidez. O bom-senso é a capacidade de orientar sua ação e avaliar as situações com valores ponderados. Aquele que tem equilíbrio, age com razão e controle das paixões.
A lucidez é o princípio do esclarecimento. A capacidade de compreensão ampla do que cerca. A observação que considera os elementos envolvidos e as consequências dos atos a serem ou não tomados para cada um deles.
O que se espera de um líder? Que tenha lucidez e bom-senso. Associe o equilíbrio da ação a capacidade de visão.
A pergunta é “quantos tem?”
Não são mais estes critérios que se escolhem líderes e que alguns se impõe.
Na crise descobrimos a verdadeira face de quem nos comanda, nestes momentos é que se percebe a infantilidade dos que deveriam ser adultos.
Vivemos não só uma crise de liderança, mas uma crise de caráter. Aqueles que assumem o comando de empresas e pessoas reflete o que temos de melhor ou pior.
O líder pode ser escolhido ou não. Ele pode ser fruto do sucesso de um empreendimento que iniciou, mas o próprio sucesso mostra os critérios que a sociedade considera como importante.
Ter chegado à liderança é a demonstração do que uma sociedade prioriza. O que ela considera como mais relevante e o qual deve ser o fator determinante para que alguém alcance o comando, assim o líder se consolida.
Logo, chorões ou fanfarrões, abusivos e extremistas, autoritários e desumanos, chegam ao poder porque suas práticas obtêm sucesso e acabam por ser consideradas critério para se manter no poder.
De certa forma, cada um tem o comando que merece. Para que a mudança ocorra, temos que aprender a dizer não para determinados tipos de práticas que legitima a autoridade de determinadas pessoas. Aprender a ter critérios melhores para não ter que suportar a liderança dos piores.
Amanhã, deixa para depois. As pessoas não se importam com o futuro como idealizamos. Fazemos críticas à espera de que os seres humanos sejam mais atentos ao que vai acontecer no futuro, mas ele não é preocupação coletiva.
A grande maioria das pessoas estão vivendo um dia após o outro. O como vai ser o dia seguinte, futuro é uma palavra distante que repousa para a grande maioria em um lugar desconhecido. Nele se deposita desejos e não metas. O hoje não tem muito a ver com os próximos anos.
Não há de todo um erro nisso. Uma coisa é sentir o prazer da vida durante a caminhada, pensar no futuro, mas não se comprometer em vive-lo antecipadamente. Esperar para que as coisas cheguem em seu momento certo. Afinal, viver do amanhã é nunca viver.
Contudo, é erro viver sem buscas e sem valores. O focar excessivamente no hoje tem um preço caro e se paga por isso. Vive-se o acaso, joga-se com a sorte, não há lógica no que se colhe porque não pensamos nas consequências do que plantamos.
Porém, sempre vale lembrar, a grande maioria das pessoas não tem esse olhar no futuro, não fazem uma leitura de futuro que vá além do que se mira em um horizonte curto. Por isso, o que sempre acusamos o povo, a massa e sua “memória curta”.
A felicidade que se busca é intensamente estimulada nas mídias e nas produções da cultura de massa para as sensações imediatas. Construir um futuro tem dores e dessabores, porém, o que se colhe com o tempo é algo mais sólido. São marcas de empreendimentos de uma vida toda e que impacta na vida dos envolvidos.
Uma vida profissional lapidada por muitos anos, uma empresa que se constrói um empreendimento social produzido com imensa e intensa dificuldade e de repente muda a vida de muitos que se beneficiam disso. Logo, a vida que se tem sentido se constrói com uma jornada e não com uma única “tacada”.
Você já idealizou nas pessoas o que elas não são? Esperou mais do que as pessoas poderiam te oferecer? Isso é normal. Na vida a gente tende a considerar que nossa forma de compreender a realidade, de nos posicionar diante do mundo ou mesmo os valores que temos como prioritários deveriam ser os dos outros.
Bom colocar aí também um ingrediente, nós não somos aquilo que cobramos das pessoas. Não temos méritos que exigimos publicamente. Na vida privada, muitos são o oposto do que exigem daqueles que convive. Logo, nós idealizamos os outros e nós mesmos.
Se pensarmos nas consequências disso, podemos concluir que vivemos um faz de conta. Temos uma percepção mais idealizada da realidade do que real. A precariedade que observamos os acontecimentos a nossa volta, o julgamento que fazemos das pessoas, a maneira como expressamos os valores e aquilo que defendemos é precário. Somos mais uma invenção do que uma realidade.
Se observamos na política podemos ter um bom exemplo. Estamos falando tanto em ética, comportamento adequado do homem público, cobramos que sejam transparentes, e grande parte das pessoas não se encaixam no modelo que exigem.
Outro exemplo da política, cobramos que os parlamentares sejam pessoas engajadas nas causas sociais que consideramos relevantes. Grande parte de nós não sabe a função de um parlamentar, e escolhemos os representantes do legislativo por critérios pequenos, mesquinhos, imediatistas. Escolhemos pela amizade, convivência, simpatia, julgamento precário ou por favores imediatos.
Talvez o problema não esteja em quantos nos representam, mas no critério que temos na hora de escolhê-los. Como na vida, o discurso das pessoas e suas defesas eloquentes são menos a realidade de que seus comportamentos.
Temos que ter mais critérios que se sustentem com a análise dos atos balanceado com o que idealizamos, sempre lembrando que há um caminho a percorrer. Não adianta viver idealizando sem sair do lugar ou desejando se agir para buscar o que se deseja.
Essa história de ser positivo me cansa. Este papo furado de que para tudo há o lado bom é coisa de quem não quer enxergar a realidade no peso que ela tem. E não adianta ficar dizendo que minha crítica é coisa de pessimista, não é não. Tolo é quem não quer ver o que tem que se resolver. Se as coisas mudança é porque há quem enfrenta o que precisa ser resolvido, o que não está bem, os problemas.
A enganação de que os bem-sucedidos são os que se motivam por ver que na vida há sempre um lado bom e tudo deve ser visto como uma harmonia. A natureza e o ser humano já têm um confronto antigo e as mudanças que hoje fazem a alegria de muitos é fruto desta transformação que fizemos na natureza.
Da geladeira ao tênis, da comida ao smartphone, a vida humana é transformação, é fruto da insatisfação. Tudo isso é resultado de quem não via o lado bom das coisas. Mudança é ação de insatisfação. Pessoas que enfrentam a vida e dizem: “Posso não chegar à onde eu quero, mas ficar parado não é opção”.
Logo, seja um eterno insatisfeito. Meta o bedelho, aponte os erros, mostre que o copo está meio vazio e não se contente com ele meio cheio. E lembre-se, tem horas em que precisamos mudar o frasco, trocar o copo e até mesmo quebrá-lo. Possibilidades se constrói da insatisfação.
Hoje morreu o ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger. Um dos mais brilhantes pensadores do Século XX e início deste Século. Um brilhante defensor da paz mundial e um crítico dos excessos dos regimes totalitários.
Sua obra é uma análise fantástica dos como determinados períodos da história foram marcados pelos ambientes sociais de uma geopolítica internacional e o quanto o que nos ocorre regionalmente é uma expressão do que o mundo proporciona. Nada é igual em lugar algum, mas o mundo está interligado e recebe influências de todos os lugares, muito ou pouco.
O pensador alemão deixou com uma de suas últimas obras o livro “Tumulto”, o qual estou me debruçando nos próximos dias. Quero entender sua memória ao resgatar sua vivência nas décadas de 1960 e 1970. O que ele refletiu sobre os fatos marcantes de uma era de utopias e desilusões com as ideologias que se propunham a ser resposta.
Uma das coisas que me encanta nesta obra e que desejo conferir, o que sempre fez parte da personalidade de Enzensberger, é que os grandes intelectuais e personagens da história eram em sua intimidade e na relação humana seres imperfeitos. Alguns com defeitos gritantes e contraditórios ao que criticavam ou defendiam e suas obras.
O ser humano é uma contradição. Temos que aprender a entender que a obra de um grande pensador, um artista, um homem público, nem sempre reflete com integridade a sua personalidade humana. A sua vida cotidiana. Não é um desmerecimento a pessoa, apenas o limite de ser humano.
Claro que o legado de Enzensberger não se vai com ele. Fica como uma reflexão eterna de seu tempo e de uma mente brilhante. O que se lamenta é não ter mais sua inteligência reflexiva a serviço dos acontecimentos que virão e que caberá a todos que o admiravam refletir a partir de suas obras.
Se olhássemos nossos símbolos e entendêssemos sua raiz, a profunda origem de seu significado, ainda assim os usaríamos?
Veja o caso da Bandeira do Brasil, de suas cores que não significam o azul do céu, o verde das matas e o amarelo de suas riquezas e sim cores herdadas da monarquia portuguesa e suas ligações com outras casas dinásticas da Europa.
Mas, ainda falando da Bandeira, vamos falar da frase “Ordem e Progresso”, no centro da flâmula, uma expressão do positivismo ligada ao pensador francês Augusto Comte. Nela, a defesa de uma ordem que defende mais a disciplina do que a liberdade. Inclusive, vale lembrar, que Comte era um crítico do liberalismo, considerava um mal a ordem coletiva.
Mesmo, a afirmação do “progresso” que se associa ao desenvolvimento da economia e da sociedade em busca de sua perfeição, pode também se relacionar com o progresso de um problema, de uma doença, de um mal. Mas, é claro, na Bandeira, deseja a defesa do crescimento da satisfação coletiva e sua eficiência em resolver os seus problemas.
Hoje, os que se dizem liberais abraçam a bandeira, gritam pela ordem e o progresso e exaltam o pensamento que se coloca contra eles mesmos em sua originalidade. Uma contradição, das tantas que nos rodeia e que se tivéssemos consciência, poderíamos ter um comportamento mais ponderado e menos radical, quando estamos cientes das nossas contradições e enganos.
O que nos faz cometer erros e enganos? Você pode me dizer que é desconhecimento, ignorância. Não conhecemos as pessoas com quem estamos lidando e por isso, caímos na lábia, na conversa mole ou no chamado “canto sedutor”. Quem já se decepcionou com este tipo de engano jura nunca mais cair nele novamente. Mas, cai. As vezes de maneira crônica.
O hábito de ser enganado se multiplica tanto em uma vida, em um relacionamento, que aquele que engana já age com a má intenção. Pretende enganar. Sabe que o mal que faz não será condição derradeira para acabar com o relacionamento enganoso. Quem mente por muito tempo se transforma no profissional da mentira. Por isso, político e mentiroso é quase um sinônimo.
Lembro-me de planos econômicos, privatizações, segurança e auxílios emergenciais, preço de combustíveis, enfim, inúmeras promessas não cumpridas. Como nos relacionamentos amorosos que se multiplicam os atos de traições e mentiras, juras e pedidos de perdão, promessas de não fazer novamente, e a prática que se repete constantemente.
Por mais que quem engane tem culpa, por fazer com má intenção, aqueles que são enganados também tem. As chamadas vítimas do enganador, não se dedicam a conhecer melhor os enganadores, a compreender que é uma prática constante e que é necessário não se deixar mais enganar.
Nossos problemas crônicos, aqueles dos quais não paramos de reclamar, são também uma condição que tem nossa conivência. Nós também estamos sempre dispostos a esquecer o engano e as veze não damos muito valor as escolhas que fazemos. Desprezo é demonstração de não desejo e desvalor.
Se queremos ter méritos e exigir mudança em nossa vida, a primeira coisa que temos que fazer é romper com nossos enganos e aprender com nossos erros. Demonstrar que não estamos mais dispostos a sermos enganados. Rompermos com o hábito de sempre perdoar a quem nunca respeito o nosso perdão.
Ontem ocorreram manifestações em frente a quartéis e batalhões. Os manifestantes, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, pediam intervenção militar. Não aceitam o resultado das urnas e consideram que o país precisa de uma ação inconstitucional.
Será que as pessoas têm dimensão do real preço de uma intervenção militar?
A nossa história está recheada de militarismo e intervencionismo da farda na vida pública e não se demonstrou um sucesso ao longo do tempo. O país não conseguiu resolver seus principais problemas por causa disso. Vale insistir no erro?
A liberdade tem que ser sólida o bastante para se manter sem sair das regras constitucionais e das leis que legitima a democracia.
Ser um liberal é respeitar a lei, é agir dentro dela e saber que não se ganha sempre, mas que não se cala nunca. Contudo, sem jamais querer mudar a regra do jogo para ser beneficiado.
Winston Churchill, primeiro-ministro inglês, durante a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) considerava que a democracia não é boa, mas entre todas as formas de governo era a menos ruim.
Logo, temos que aprender a aprimorá-la e não a destruir. Mudar as regras do jogo quando não ganhamos, considerar que nada pode permanecer se o resultado não for o esperado.
Quando vamos amadurecer? Quando vamos deixar de ser cabeças-duras para agirmos de forma madura e construir a possibilidade e a solução em vez de destruir a condição que a gera.
Queremos tanto ser grandes e nos falta maturidade.
Como entender o momento que estamos atravessando? Deveríamos ser mais atentos e curiosos sobre o que nos move, ir além da aparência, desta sensação imediata que a vida traz e que nos faz julgar precipitadamente o que nos cerca.
A grande maioria das pessoas prefere ficar com este julgamento imediato mesmo, não buscar entender os fatores que determinam suas vidas. Vai da “mão para a boca mesmo”. O caminho se faz de um dia atrás do outro para parte considerável dos seres humanos.
Por isso, o que estamos vivendo hoje é o resultado desta vida mal medida e de atitudes desmedidas, dos excessos cometidos, da lógica infantil.
O fanatismo cego ganha força neste ambiente. Acreditamos em mentiras por pura conveniência, nos agrada. Quem precisa viver a verdade se ela é uma condição perturbadora, esta agora é a “regra dos tolos”.
A verdade parece ser um monstro, que se encarado de frente seria insuportável. Há os que preferem ver a verdade pelo espelho retrovisor e outros fingir que ela não está em sua frente.
Neste momento, o que precisamos mesmo são de pessoas que consigam encarar a realidade e entendê-la o mais profundo que se puder. Necessitamos de quem não se deixa levar pelas aparências e busque a essência nos que nos cerca. Precisamos realmente é de adultos.
Falo de adultos porque este mundo está dominado pela infantilidade levada a sério. E ninguém está no playground para passar o dia “fazendo de conta” que a realidade não existe e brinca com a vida.
Quando observo o comportamento das pessoas enraivecidas por uma frustração, derrota ou por uma adversidade qualquer, vejo uma criança mimada que esperneia aos berros por não conseguir o que queria.
Há um filme da Disney, “Querida estiquei o bebê”, uma comédia que expressa o drama contemporâneo, um bebê gigante. A criança pode tudo e com o poder que tem, o de fazer um estrago imenso. Com sua lógica infantil, coloca nossas vidas em risco. Quantos bebês estigados estão por aí?
From the publisher's feed