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O ser humano é um ser social e político. Esta é uma máxima aristotélica, antiga e desgastada. Mas uma prática constante. A gente se cansa da solidão. E as restrições com a Covid-19, você se lembra? Acredito que já se esqueceu ou faz questão de não lembrar, porém, nos fez valorizar a relação com os outros. Percebemos no isolamento que a solidão cansa. Por mais que tenha alguns que adoram se isolar, nem todos por muito tempo.
Os chineses vivem momentos ainda de forte intervenção na vida social em relação a Covid-19 por parte do Estado. As restrições impostas pelo governo e o temor da proliferação da doença ainda preocupa. O Estado conseguiu colocar medo na população. E aqueles que viajam para ou na China não são vistos com bons olhos, se teme a propagação da doença.
Mas quem é que consegue fazer alguém ficar isolado por muito tempo?
Os chineses resolveram o problema da solidão com os aplicativos de namoro. Através de relacionamentos gerados por relações virtuais, eles e elas conseguem viajar pelo país, fazer de encontros oportunidades de sair do isolamento, evitam os hotéis e vão para o particular. Fora isso, fazem negócios, compram e vendem. Disfarçados na aparente busca de um amor se consegue a liberdade.
Falo isso para lembrar que qualquer medida de restrição a liberdade tende a ruir. A força que represa o direito das pessoas e tenta fazê-las virarem como fantoches ou marionetes se rompe. Toda a repressão será vítima da reação à força que controla. Muitas vezes a reação vem silenciosa, mas vem.
Não vale a pena viver sem o sabor da vida. Preservar a vida não vale a pena se o preço é não viver. Não ter o sabor da liberdade é viver sem alimentar a vida de sentido. Logo, quem pode conter o desejo de viver? Apenas nós mesmos, se aceitarmos que nos controlem.
As coisas não são assim. E não devem ser. Ao escolher agredir e gerar uma ação circense em suas redes socais chamando de resistência democrática o ataque a policiais que cumpriam uma ordem de prisão, o ex-deputado Roberto Jeferson demonstrou o perfil do homem público que temos que combater.
Nas redes sociais, li vários depoimentos, mas um deles me chamou a atenção e dele quero transformar em ponto de análise. A afirmação era simples, se fosse outro, um cidadão comum, seria tratado da mesma forma?
O enfrentamento ao aparato de segurança, a afronta a Justiça, ofensas a ministros, isso não é democracia. Não se resolve interesses e defesas com extremos de violência e colocando em risco as instituições.
Não é uma questão de que lado você está, é uma questão de preservamos a vida humana, a convivência, a possibilidade de mudança dentro de uma ordem democrática que não se consolida com a guerra, mas a ameaça.
Estes personagens devem acabar. Não podemos admitir extremos. Quem fala a linguagem da violência estimula o opositor a agir da mesma forma. Se o argumento é a força, os extremos opostos respondem.
Temos que aprender a fazer do diálogo e a organização democrática de uma sociedade que deve se organizar politicamente e ter como defesa um projeto de sociedade, defendendo os seus interesses, mas não colocar em risco a sociedade que nos permite ser que somos e mudar para aquilo que desejamos.
Não apoie a violência, não apoie o radicalismo e defenda a liberdade, mas se colocar em risco a sua existência. Triste a atitude do ex-deputado, tudo o que devemos refutar.
Não sei quem vai ganhar esta eleição. Os dois candidatos estão praticamente empatados. A campanha eleitoral demonstra extremos. Promessas, e ofensas para seduzir o eleitor ou demonizar o adversário.
Na busca pelo voto tudo se justificativa. O que se deseja é a aceitação momentânea do eleitor. O compromisso é agora, na hora de conseguir ser daquele que escolhe a opção. Sedução pura e direta, sem compromisso e jurando se comprometer.
Não por acaso os dois candidatos são a demonstração clara da simplificação de problemas complexos. Um resumo medíocre de questões que merecem respeito e serem entendidas com um aprofundamento na abordagem. Porém, quem tem tempo para isso e que deseja tamanho conhecimento.
A lógica simples e rasa tomou conta desta campanha e se está disposto a tudo. A palavra é conquistar e não ser coerente.
Isto me lembra a diferença entre a sedução e comprometimento. Tanto o que está seduzindo como o que se deixa seduzir travam um diálogo sem a busca de garantias diante das promessas. Aquele que jura e se entrega, declara o que raramente se houve e por isso conquista, já que se ouvíssemos todo o dia não daríamos valor, tem um pacto de não ser coerente.
Por isso, seja em uma campanha eleitoral ou nos nossos relacionamentos amorosos, cheios de boas e más intenções, a sedução é momento de êxtase e não tem compromisso com a realidade. Se encanta pelo sonho e desta forma se consolida uma escolha pela ilusão.
A verdade sempre teve versões. Mas, nunca foi negada quando comprovada diante de multidões. Você pode dizer que ainda hoje tem quem afirme que o holocausto judeu não existiu e outros que dizem que a terra é plana. Alucinações.
Há os que defendem que as torres gêmeas foram derrubadas pelos norte-americanos, Osama bin Laden não morreu, assim como Hitler. As chamadas teorias da conspiração.
Estas afirmações nos distraem, viram séries de tv e acabam por alimentar o imaginário social. Fazer de um fato deste uma sustentação ou lógica para determinadas ações ou posicionamento sempre foi visto como um excesso pela maioria das pessoas.
Agora, alimentar mentiras, construir uma lógica da alucinação, afirmar como verdade o que ouviu dizer, se transformou em argumento sério e relevante na condução de nossas vidas. Como debatemos mentiras ou afirmações que não se comprovam.
Não estou falando somente da campanha à presidência da república. Considero ela apenas uma expressão de nossas alucinações. O delírio já acontecia antes e ganhou potencial com os fatos que nos abalaram nos últimos anos, pandemia e campanha política.
O descrédito no Poder Judiciário é uma demonstração desta alucinação. Da fantasia e fofocas que agora são tratadas como verdade. A conversa de boteco virou argumento e ganhou páginas de destaque e notoriedade.
Mas, por que isso acontece?
Eu acredito que o nível do ser humano é expresso quando observamos as suas preocupações. Sua lógica denuncia seu caráter. O que considerava relevante denuncia seus princípios. E não estou falando da demagogia pronta, mas da atitude prática.
O nível da educação geral se rebaixou e aquilo que sempre foi distinto da ciência, do conhecimento, da racionalidade agora se misturou. A fantasia e o delírio estão sendo considerados argumentos válidos.
Ou recuperamos os seres humanos e lhes damos educação científica, racional, lógica, ou ele vai mergulhar em um delírio perigoso que o levará a insanidade e a violência extrema.
Onde está nossa maior ameaça? Para um grande pare das pessoas está do “portão para fora”. O inimigo espreita na rua e como um estranho nos inveja e se puder, nos agredi. Será que a ameaça é exclusivamente externa?
Nossas agressões mais profundas veem da vida íntima, o agressor mora embaixo do mesmo teto. Está mais próximo de nós do que imaginamos e nos pega de surpresa. A fragilidade está em nunca estarmos preparados para receber o golpe de quem nos é íntimo.
Se considerarmos a violência contra a mulher, adolescentes ou crianças, a grande maioria dos agressores são pessoas do círculo de vida pessoal, tem acesso a vida doméstica. Por isso, tem mais facilidade em atingir o seu objetivo de agressão, sabe que a vítima não espera.
O impressionante dos agressores domésticos é que se aproximam com gestos protetivos, de amizade e carinho. Eles se mostram cordiais na convivência, em seu início, e com o tempo vão expressando a agressão, gradativamente.
Não se pode generalizar, claro que não. Há no ambiente doméstico uma proteção. Em sua maioria vivemos com que nos ama e com que amamos. Há respeito. Mas isso é uma construção, algo que se percebe ao longo do tempo.
Mais que isso, a vida doméstica é o local onde o aprendizado e o caráter mais profundos se molda. Se compreende e interpreta a coerência e incoerência da vida. O lá fora ganha significado na vida doméstica, como também o inverso é verdadeiro.
Sempre é bom cuidar de nossas relações e cultuar o respeito em nossa intimidade. Ser para o outro na proporção que se deseja que seja para si. Na vida doméstica há um grande aprendizado e temos que fazer dela, um modelo, um abrigo e um lugar de preparação para a mudança tão necessária lá fora.
Ainda não consigo entender o que as pessoas querem com a religião. Elas querem ter o direito de professar sua fé de forma livre, segura e com respeito ou gostaria de impor sua crença a todos e eliminar as demais igrejas e dogmas? O que as pessoas querem?
Por que a religiosidade se transformou em tema de campanha política e virou determinante para se julgar um ser humano bom ou ruim? De onde vem a inspiração para transformar uma crença em critério da cidadania em pleno Século XXI.
A religiosidade já foi ao longo da história um determinante para se dividir uma nação, um território e o mundo entre os bons e ruins. Os cristãos ocidentais já se lançaram em guerras seculares no combate ao pagão e infiel. Os muçulmanos já foram suas vítimas prediletas.
No Século XVI E XVII a Europa foi banhada de sangue pelas guerras religiosas entre católicos e protestantes, fora a perseguição aos judeus que se desdobrou de forma grotesca e absurda no holocausto.
Agora, uma campanha política discute a religiosidade como campo de escolha de um representante público. Os dois candidatos se acusam de desrespeito a religiões e de usá-las como instrumento de manipulação política. Há alguma coisa errada nisso.
Estamos retrocedendo nitidamente. Empobrecidos em nossos temas e marcados por pautas pobres que denunciam nossa limitação para enfrentarmos nossos problemas. E não se engane, nada se resolverá por um milagre, por mais que Deus esteja na pauta dos homens.
Quando abordamos o atual momento no país fica muito claro o quanto colocar rótulos ficou comum. Para raciocinar uma determinada questão, articular posicionamentos, o rótulo se transformou em uma definição prévia e generalizadora, o que é muito perigoso.
Alguns termos como “evangélicos” ficaram associados a “direita” e todo defensor de direita se transformou em bolsonarista. Do outro lado, defensor da esquerda virou comunista e associado a pautas sociais. Basta você falar que condena a desigualdade e acredita na necessidade de políticas sociais e públicas para reduzir a desigualdade de renda que te taxam de “comunista”.
Falta esclarecimento, sem dúvida.
Mas isso vai se resolver? Não.
As pessoas preferem o rótulo mesmo. Assim elas podem lidar com mais facilidade com o que não tem interesse ou capacidade de compreender pelo tempo que exigiria conviver com a complexidade. Assim, o pragmatismo é sempre um facilitador e tem muitos adeptos.
Não existe uma forma mais fácil de ajudar uma pessoa a se posicionar do que você separar o mundo entre “bandidos” e “mocinhos”, colocar as características de cada um, e mostrar de que lado você está. Lembrando que os bandidos têm como principal perfil não serem como os mocinhos, ou seja, todo aquele que é diferente, “não presta”.
Logo, esta tendência de rotulação não vai se acabar tão cedo. Para dois terços da sociedade é assim que podemos compreender a vida e desta forma que a vida se leva. Querem gostem ou não.
Ontem, os dois candidatos à presidência da república esperavam uma vitória significativa sobre o seu adversário e saíram empatados das urnas. A vantagem que se esperava segundo algumas pesquisas a véspera das eleições não se deu, como da mesma forma, o data-povo não foi o que se esperava.
Teremos segundo turno daqui quatro semana e os dois candidatos, Bolsonaro e Lula se enfrentam novamente. Há uma incerteza no ar, impossível dizer o resultado desta disputa. Bolsonaro sai melhor do que pensava e Lula não chegou aonde esperava, acredita que poderia mais.
Contudo, o que já se nota e com grande importância é a formação do poder legislativo, uma tendência ao conservadorismo. Não é possível definir quem vai ganhar no poder executivo, mas o bolsonarismo sai fortalecido. O crescimento desta tendência é nítido. Os aliados do atual presidente não só se mantiveram como suas bases eleitorais cresceu.
O que assistimos nas urnas, independente da escolha, foi 0 pragmatismo de memória curta. Ele continua a dominar nossas vidas. Nem escândalos de corrupção recentes, nem prisões, nem mortes na pandemia prevaleceram na mende. Tudo se esquece e como um olhar de curta distância se vai em frente, querendo se viver em paz e não se construindo uma vida digna permanente.
Apenas para lembrar, quem vive dos dias não pode reclamar de seu destino, seja ele qual for, dia 30 de outubro.
Depender de quem lhe paga as contas é algo desagradável. Mulheres que dependem de seus maridos que por serem provedores ou terem a maior parte do rendimento as submetem e as ofendem. Uma lógica cruel. Ainda mais porque vem acompanhada de um ritual de submissão que se consolidou ao longo do tempo.
Da mesma forma, um colaborador, trabalhador ou como deseja falar, empregado se achar melhor, depende de seu chefe ou patrão. Está sequestrado pelo mando autoritário e agressivo, pelas ofensas do dia a dia, pela mau humor e humilhação.
Também assim é um povo que depende excessivamente do Estado. Dentro do corpo administrativo da autoridade constituída está os funcionários de carreira e os representantes públicos. Nos primeiros a tradição de estarem dentro de uma máquina que se impõe sobre a vida de todos e faz do agente público um determinante na vida das pessoas, o representante público e, em muitos casos, gestor se torna crucial para o sucesso e insucesso dos negócios.
Muitos já discutem o resultado das eleições com a vitória do candidato A ou B e suas consequências para a economia e para a sociedade. Para alguns a vida vai melhorar ou piorar se for eleitor um ou o outro. É lamentável que a escolha de um representante público seja uma ameaça tão significativa. Um país que vive do humor de outro é sequestrado por sua autoridade.
Talvez o nosso maior problema não seja quem nos governe e sim ficarmos dependentes intensamente do governo. Esta dependência é fatal e denuncia nossa desqualificação e incapacidade de construirmos nossas vidas sem o ser determinante. Nenhuma sociedade é livre se sente ameaçada por um poder que esteja acima dela. Ninguém é verdadeiramente livre se depende de um outro ser para sobreviver e agir na busca de seu interesse.
Diferenças são necessárias assim como o tratamento de forma igualitária. As pessoas pensam e agem de maneira diferente, mas devem ser tratadas da mesma forma quando forem ser julgadas pelas práticas que tem. Isso não há dúvida. E a sentença é na proporção do ato a ser reprimido ou estimulado.
Quando falamos de democracia, estamos dando a liberdade dos seres humanos agirem como consideram mais adequado aos seus interesses, porém, sem deixar de respeitar a lei vigente. Logo, não se deve colocar em risco a vida das outras pessoas para atender um interesse pessoal.
Esta coisa do faz o que quer não é bem assim, por mais que alguns consideram que liberdade é deixar à vontade. E vontade é algo perigoso se não tiver um limite. Ninguém pode exceder naquilo que deseja e nem considerar que os seus desejos estão acima dos demais. Quem pensa de maneira extremamente egoísta denuncia os limites de sua própria capacidade de compreensão do convívio social e a dependência que temos dos demais.
O que causa um mal-estar hoje são os excessos e distorções. A caricatura humana que se coloca na condição de liderança. O que sempre foi personagem de paródias, seres estravagantes de contos e causos, elementos de ficção e exageros pontuais, se tornaram padrão de comportamento e inspiração social.
Nunca considerei tanto que a estética de um ser humano, a maneira como age diante dos fatos e os seus atos, fossem tão importantes para se compreender o peso da liberdade. Nosso grande problema está em levar a sério o que antes era motivo de piada. Hitler era ironizado nos bares antes de virar ditador e governar a Alemanha.
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