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Quem não precisa de uma avaliação do que está fazendo. Todos, em algum momento, consideramos que nossas atitudes não estão corretas. Nos sentimos perdidos em relação ao futuro, inseguros com as atitudes que tomamos. Nestas horas precisamos de alguém que nos dê um “feedback”.
O ser escolhido para nos ajudar é crucial. Sua forma de agir pode melhorar ou piorar as coisas. Por isso, vale lembrar, quem quer ajudar não pode julgar. O que infelizmente nem sempre acontece.
Não é incomum, por sinal é a tendência, de quem se chama para avaliar nosso comportamento se considerar senhor do bem e do mal. Assumir o papel de “senhor da verdade”. A sensação de poder e domínio acaba por se impor e acabar com a lucidez.
O tão esperado conselho, o que é um erro, nunca dê, joga no ouvido do que queria uma avaliação um sermão. O ser que se acha “perfeito” critica a pessoa e não analisa a intenção. Não fala dos fatos, apenas rotula os envolvidos.
O bom feedback é importante, merece ser dado, mas não é um sermão, um julgamento, nem a imposição de uma aparente verdade. Ele é a reflexão sobre o contexto em que a ação se deu, consequências dos atos para as pessoas e para quem o cometeu.
O bom avaliador, aquele que quer ajudar, não fala de pessoas, faz uma reflexão com quem pede ajuda. Procura dar uma visão mais ampla sobre a condição em que o fato se deu e a intenção dos que estão envolvidos.
Feedback não é uma imposição conclusiva, é a busca do melhor posicionamento para tentar acertar o erro cometido. Aprender com equívocos e fazer do que muitos chamam de derrota uma parte na busca da vitória.
O problema nunca foi nossas escolhas e sim o que nos faz escolher. Consideramos de forma errônea que a mudança é agir de forma diferente. Acredito que mudar é algo que está dentro de nós, o que dá sentido às escolhas que fazemos.
Na minha carreira docente dou aula em uma disciplina que está nos primeiros anos dos cursos de graduação. Acompanho ano após ano um número significativo de acadêmicos que abandonam o curso nos primeiros meses ou anos de formação.
Lembro-me de um caso em especial, um aluno que fez durante quatro anos, os primeiros anos de quatro cursos diferentes. Ironicamente eu dava aula a todos eles. Vi este aluno entrar e sair desses cursos sem se formar em nenhum deles.
Perguntei a ele o porquê de mudar, ele afirmou que não tinha se encontrado em nenhum curso e que ainda iria fazer uma graduação em algo que ele gostasse. Ele considerava que nunca tinha feito a escolha certa. Será?
O problema do acadêmico indeciso não era não ter encontrado o curso que o realiza. O dilema estava na insatisfação com ele mesmo e com o que ele estava fazendo, por consequência. Conheci muitos que fizeram o que não escolheram e tiveram satisfação no que estavam fazendo.
A insatisfação reside mais no sentido que damos às coisas, no significado que a vida tem do que aquilo que escolhemos fazer. Por isso, muitos vivem mudando de lugar e não se encontram em lugar algum.
Domingo pela manhã fui ao mercado. Pouca gente circulando entre as gôndolas. Talvez, por isso, um homem não me passou despercebido com um carrinho com fraldas, leite em pó e uma cesta básica. Parava em cada cliente e pedia ajuda. Comigo não foi diferente, ele se aproximou e pediu para que eu pagasse a sua compra.
Tinha apenas R$ 5,00 no bolso. Falou que suas duas filhas gêmeas de um ano e meio, um filho de dez anos, a esposa e mais nada. Estava com a cara de quem era acompanhado pela fome com o toque do olhar de desespero.
Se o constrangimento de pedir já era muito, o dele era a exposição a uma humilhação que ia mais além. Estava com o que precisava no carrinho do mercado, colheu nas prateleiras, mas não significava que sairia de lá com o que colheu.
Diante de tantos “nãos” que tinha recebido até ali, resolvi ser o sim do dia. Porque, com certeza, teriam outros dias de risco e humilhação. Sei que não era a solução, apenas a possibilidade de se estender por mais um dia à espera de um milagre.
O homem que se jogou no mercado, em liquidação, esperava que alguém desse o mínimo pela sua vida. Tinha perdido tudo na pandemia, me explicou depois.
Fomos ao caixa, paguei a compra e ele se foi. Cada um seguiu seu rumo, já o destino é incerto, neste país, para muitos, cada vez mais.
O mundo está ficando mais digital. Esta é uma afirmação antiga. Não é novidade. Já vivemos o impacto da Tecnologia da Informação (TI) há um bom tempo. Ela já causou seus estragos.
Na minha juventude, vi as agências bancárias com centenas de funcionários e prédios imensos se deteriorarem. Centrais de processamento de dados que tinham centenas de metros quadrados foram superadas em capacidade de armazenamento de dados por um aparelho digital móvel que cabe nas mãos.
As manifestações dos bancários já foram um movimento social relevante pelo impacto e volume de seres humanos que interferiam diretamente na vida da cidade. Uma greve dos bancários era um espetáculo impossível de não ser notado, hoje é uma concentração que os menos atentos não percebem.
Quantos não perderam seus postos de trabalhos que tinham anos de atuação por novas formas de relacionamento produtivos. As pessoas se tornam dispensáveis para atender a demanda de outras pessoas. A lógica não é nova. Contudo, nem todos estão preparados para ela.
Quando milhares de bancários perderam seus postos de trabalho em um prazo de 10 anos com o enxugamento das agências e dos processos de compensação e transação financeira, para muitos deles era o fim de uma vida inteira. E era mesmo. Doloroso ver profissionais de décadas de carreira ficarem perdidos e muitos perderem a condição vital de sobrevivência.
Há inúmeros casos dos que superaram os limites e se reinventaram e os que faliram e não conseguiram superar os obstáculos trazidos pelas novas tecnologias. Somos propensos a cumprirmos os mesmos rituais, insistirmos, mesmo quando eles não surtem mais efeitos.
Com a pandemia, a tecnologia se tornou a solução. As empresas de TI cresceram absurdamente em importância no cenário econômico e nas relações sociais. Não para todos, mas afetando a maioria de alguma forma. Não poderemos superar nossas necessidades sem o aprimoramento das relações de produção da vida. Assim que chegamos ao grau de desenvolvimento da atualidade.
A preocupação maior é com o abismo dos que vão ficando para trás. Aqueles que não têm acesso, por vários fatores, aos meios tecnológicos de produção. As condições de qualificação. As possibilidades de escolha reduzem demasiadamente diante da ausência dos meios básicos de informação e integração social.
Por isso, nada disso é novo. Por mais que a sensação de viver um momento único, de estarmos diante de uma revolução, é marcante. Porém, não é real. Não é a história se repetindo e sim a tendência da sociedade humana diante das exigências que a vida fundada na racionalidade lógica gera.
As coisas não estão bem para muitas pessoas. A pandemia deixou um legado, aprofundou ainda mais problemas antigos e criou novos. Entre aqueles que já nos acompanhamos pode ser dimensionado pelo desemprego, perda de renda e aumento da dependência do Estado para uma assistência social que não vai tirar em médio e longo prazo a grande maioria dos vulneráveis que estão em situação de risco.
Segundo a Economist Intelligence Unit (EIU), a renda per capita brasileira vai cair 10%, já dá para você imaginar quais terão mais perdas, a população de baixa renda. Na média mundial, segundo o mesmo levantamento, o país ficará abaixo da média mundial, 18% abaixo. A renda per capita global é de 19.550, enquanto a nossa é de 15.910.
Para se perceber o empobrecimento não é preciso ir muito longe, só olhar à sua volta. Há um aumento significativo das pessoas em condição de rua, pedintes, dependendo da solidariedade, da filantropia e da caridade. Atos de ajuda ao próximo não são ruins e sim necessários, bem vindos, mas não resolvem. Falta uma resolução de futuro. Um plano de superação de médio e longo prazo.
Por isso, a pandemia agravou velhos problemas. Eles são remediados pela miserabilidade humana que insistimos em não focar como saída de nossos principais problemas. Dar às pessoas potencial para que superem suas dificuldades gerando condições próprias para isso. O capital humano é a resposta para todos os problemas. A qualidade de cada um e de todos ao mesmo tempo de resolvermos problemas.
Pessoas em condição de risco tem que serem educadas, conscientizadas, agirem de forma lógica e racional com um sentido em suas ações. Pessoas precisam se sentir úteis e perceberem socialmente a sua utilidade. O desprezo que temos pelos seres humanos é uma questão de rejeitá-los por considerá-los problema e não solução.
Muitas instituições estão focadas em qualificar jovens que pertencem a famílias de baixa renda. Vários necessitam de acompanhamento para que não desistam diante de tanta adversidade.
Desde o princípio da existência da espécie humana o deslocamento é uma constante. Por que se migra? Pela busca de sobrevivência, por consequência de um crescimento demográfico ou de guerras tribais. Muitas vezes, tudo isso conjugado.
Segundo Hans Magnus Enzensberger, as migrações são uma constante em que nem sempre é voluntária. Já vivemos ao longo da história as migrações em busca de uma vida melhor. Já fizemos migrações forjadas pela escravidão.
Muitas nações foram forjadas dos deslocamentos. Aquelas que resultaram das colonizações promovidas pelos estados nacionais europeus são as mais conhecidas. O Brasil está no rol das que nasceram dos desdobramentos do colonialismo europeu.
Ironicamente, estes colonizadores tiveram seus filhos, netos, bisnetos que um dia quiseram fazer o caminho de volta, nem sempre aceitos. Os colonizados tentaram traçar a linha da colonização no sentido inverso, pensaram ser uma via de mão-dupla, perceberam que não.
Irônico falar francês na África e não poder viver na França. O português passou a ser uma língua falada em muitos países, mas nem por isso o lusitanismo lhe pertence como um direito. O inglês e espanhol tem a mesma lógica.
Ironicamente, hoje, as migrações continuam seu curso, mas gerando conflitos constantes e incertezas. Se por um lado não parece ter fim a busca por um eldorado ou um paraíso terreno, que na maioria das vezes só existe na imaginação de quem migra, o inferno dos conflitos que gera são uma realidade.
O estrangeiro nunca é bem vindo, principalmente quando espelha as nossas desgraças. Ainda o qualificado, com perspectiva de crescimento e renda é integrado facilmente e em pouco tempo ganha a identidade de nativo.
Basta a coisa ficar difícil e atingir um grande número de pessoas que os salvadores aparecem. A figura que explica de forma simples o complexo e aponta com uma certeza aparente o caminho da superação. Cuidado!
Crer em saídas milagrosas vem de um ambiente cultural de forte religiosidade. O messianismo que nos formou e orientou ao longo do tempo nos estimula a esperar um “santo”. Esquecemos que as coisas humanas são problemas dos seres humanos.
Se considerando iluminados e com uma linguagem simples, rebaixam a lógica da complexidade da crise à uma disputa entre o bem e o mal. Roubam de todos a possibilidade de crescer na compreensão das coisas, rebaixam o raciocínio do que merece elevação.
Não há explicação simples para problemas complexos, a não ser se o limite de nossa percepção é a superficialidade. Enxergar a aparência das coisas e analisar pelo senso comum pode gerar aparente apoio e uma falsa verdade.
Por isso, aposto no conhecimento científico, na visão racional. A ciência pode não ter todas as respostas, mas raramente engana com as respostas que tem. Já, o messiânico demagogo que está em tantos lugares é um traidor nato, em especial da verdade.
Nas empresas, por exemplo, as lideranças demagógicas são constantes e letais. Seus interesses imediatos promovem uma sensação de avanço e resposta. Contudo, não há superação do problema e sim remediação ou reação insensata.
Aposte na racionalidade. Ela pode não ter todas as respostas, mas evita ações precipitadas.
Estamos sempre à procura de segurança. Nos sentimos melhor quando temos a garantia de como as coisas vão ser no futuro. Caminhamos confiantes e preparados.
Mas, quando o futuro é um ponto de interrogação? E isto é condição para a maioria de nós.
A insegurança é uma sombra. Isto mesmo, ela nos persegue, mas reflete o que somos. Pode nos dominar se não temos uma orientação, um sentido. Quando nossa preocupação tem foco, a insegurança é uma companheira, mas não é determinante.
Não podemos prever o futuro, claro. Tem muitas coisas que não dependem de nós. Não apenas nosso comportamento será o fator determinante para o contexto e condição que vivemos se realizarem.
Porém, vale lembrar, se temos uma ação determinante, na busca do que desejamos de forma ciente e consciente, o que se relaciona conosco tende a conspirar em nosso favor. O que não significa que irá acontecer como queremos.
Não estou aqui para dizer que se desejamos algo e mentalizamos de forma positiva sua realização ela vai acontecer. O mundo não conspira a nosso favor, somos nós que criamos possibilidades de acerto na medida em que estamos “focados” na buscando a realização do que queremos. Resumindo, buscar estar no lugar certo na hora certa.
Vamos dizer que podemos aumentar as nossas possibilidades na medida em que somos opção possível. Vale para as coisas da vida profissional como na vida pessoal. Olhando a minha volta e percebendo o ambiente que frequento e encontro, qual a possibilidade dos meus interesses se realizarem? Qual a possibilidade de minha intervenção para criar estas condições?
Muitos consideram que a saída é ir atrás da oportunidade. Também é válido o ato de construir a oportunidade onde você está. Não é porque estou em um ambiente desqualificado que devo sair dele. Posso qualificá-lo também.
Por isso, o que você quer?
Em tempo em que se vende receitas de como dar certo na vida, com falas mirabolantes, um livro me chamou a atenção. Silvio Lee, professor, mestre e doutor na área de biologia escreve uma obra com o título “O professor que transforma: passos para o sucesso na prática do ensino”.
Baseado em sua experiência e no estudo sobre as condições que envolvem o cotidiano docente, Lee faz uma orientação didática da vida dentro do ambiente escolar pela ótica do professor. Profissão que ele valoriza e eleva com sua postura ética a todo o momento.
Muitas respostas que buscamos na vida prática do cotidiano escolar é o foco do trabalho. A experiência profissional de Silvio Lee conta neste momento em diversos momentos em que ele usa de cases para demonstrar a importância de determinados temas e ações no dia a dia.
A preocupação com o corpo, a preocupação com a mente, o sentido de educar sem entrar em devaneios ideológicos que fugiriam a proposta do trabalho. Por isso, se as pessoas querem conhecer a vida do professor por dentro do cotidiano do profissional que tem na educação seu trabalho, o livro de Silvio Lee é leitura obrigatória.
Li, gostei e recomendo.
Não por acaso se afirma que o maior capital de qualquer empresa são as pessoas. Isto é uma verdade, com elas tudo pode ser resolvido ou nada se faz. São o fiel da balança entre o sucesso e o insucesso. Por isso, valorizar e aprimorar o capital humano é sempre a saída para qualquer crise.
Não pense que na vida privada também é diferente, não é. São as pessoas com quem convivemos ou nos relacionamos que podem gerar um ambiente propício para nossa melhoria ou nos prejudicar de vez. Na frase clássica, “me diga com quem andas e te direi que és”, pode fazer a inversão que a lógica também vale, “me diga com quem és que te direi com quem andas”.
Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) realizado em 2019 mostra que 7,5 milhões de pessoas no Brasil não têm qualquer preparo ou condições mínimas de ingressar no mercado de trabalho.
Não pense você que o prejuízo é só para as pessoas desqualificadas, é também para o país. Segundo o Painel Telebrasil, de 2019, panorama econômico do país, 50% dos jovens brasileiros não têm qualificação adequada e ficarão fora do mercado de trabalho. Haverá um custo de manutenção básica destas pessoas ao longo dos anos para suprir suas necessidades básicas.
A dependência do estado, dos gastos públicos, está relacionada diretamente com a desqualificação. Quanto mais carente de recursos próprios as pessoas buscam os subsídios públicos. Sem um planejamento de futuro não há dependência que se acabe. Pessoas independentes e livres fazem suas escolhas com autonomia e não legitimam que os subsidiam por falta de opção.
Logo, até para a democracia a qualificação é fundamental. Liberta as pessoas do comando dos senhores que governam a vida da população dependente dos serviços públicos básicos. A população de baixa renda ou sem nenhuma acaba se transformando em massa de manobra de quem está no poder.
Por isso, temos que defender a qualificação para libertar as pessoas.
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