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  • Explicar origem das palavras pode engajar mais os alunos nas aulas de português

    A etimologia se caracteriza pelo estudo da origem das palavras e de suas mudanças de significado. No grego, “etymos” corresponde a verdadeiro e logos a estudo, tratado. A definição está no livro “De onde vêm as palavras”, escrito pelo doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) Deonísio da Silva.

    “Os gregos, antigos gregos, antigos latinos, eram muito preocupados – inclusive em debates, no Senado Romano –, com o significado verdadeiro da palavra, aquele que a palavra tivera no berço. Isso não quer dizer que aquilo que está lá no berço ficou exatamente assim. É como nós. Nós fomos um dia crianças, só recorríamos ao choro; tínhamos uma aparência, um tamanho, umas medidas, um peso, e nos alteramos muito. Com as palavras, deu-se algo semelhante”, ilustra o professor.

    É dessa forma, misturando filosofia e curiosidades, que ele defende a importância da etimologia e lamenta o fato de a origem das palavras ter pouco espaço nos currículos escolares atualmente. “As crianças têm muito interesse por saber de onde as palavras vieram. Esses saberes, que têm sabores deliciosos, tornam mais interessante o ensino da língua portuguesa e de todas as disciplinas”, acredita.

    A origem de 'aluno'

    No áudio, além de falar sobre como imagina que a etimologia pode ser ensinada na escola, Deonísio da Silva comenta de onde vêm palavras ligadas ao universo escolar e desmistifica que aluno tenha o significado de “sem luz”, como correntemente se ouve dizer.

    “Aluno veio do latim alumnus, aquele que se alimentava ou que alguém era encarregado de alimentá-lo. O Império Romano tinha muitos órfãos, por motivos óbvios. Era um império guerreiro, perdia muitos pais. E então eles eram criados, ‘alimentados’, por terceiros – a mãe não dava conta de todos”, explica.

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    Era a esse ato de cuidar da criança e ensinar a ela os preceitos do convívio, que se chamava aluno. Alumnus vem do verbo ‘alere’ que é ‘alimentar’, “mas não é no sentido de que você apenas alimenta, porque se alguém não quiser comer, não come. Veja, na etimologia de alumnus, já tem a parceria do professor e do aluno”, completa Silva.

    Ainda sobre o vocábulo “aluno”, ele acrescenta: “é impossível formar uma palavra ‘sem luz’ com ‘alunos’, porque o ‘a’ negativo é grego, não é latino (...)luz, em latim, é ‘lux’, lume é ‘lumen’”. Ainda no podcast, o escritor traz uma antecipação do próximo livro, em que está pesquisando de onde vêm os palavrões.

    “Por que para ofender uma pessoa de quem não gostamos, ofendemos a mãe dele? Junto com o estudo dos palavrões, vêm os conceitos da opressão da mulher na sociedade em que vivemos, nesta formação patriarcal. Ninguém diz ‘olha, você é um filho do pai’, não é? Você diz ‘você é filho da mãe!”, cita em justificativa sobre o novo estudo.

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    9 min
  • Saúde mental: Luka Salomão e Amanda Ramalho aproximam tema de público adolescente

    A adolescência é um momento em que se vivem múltiplas mudanças  físicas, emocionais e sociais. Assim, um olhar mais atencioso para a  saúde mental do adolescente tem ganhado espaço nas últimas décadas,  sobretudo a partir de meados dos anos 2000, de acordo com a comunicadora  prestes a se formar em psicologia Luka Salomão. “A grande artista que  trouxe a palavra para a grande mídia foi a Britney Spears, né? Naquela  fase ali dela, as pessoas falaram: ‘cara, que que essa mulher tem?’.  Fato é que a Britney sofreu muito, foi constantemente vigiada, julgada, e  o emocional dela entrou em colapso”, lembra.

    Salomão utiliza a biografia conturbada de artistas, principalmente da  música, para aproximar os cuidados com a saúde mental de adolescentes e  jovens. Ela faz isso com a ajuda do psicólogo Mario Sergio Picorelli,  no canal do Youtube “Cada Caso um Caos”.

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    Outro conteúdo que aborda o assunto de forma leve e sem caretice é o  “Esquizofrenoias”. O podcast é uma criação da jornalista Amanda Ramalho,  que foi diagnosticada com ansiedade e depressão aos 16 anos de idade.  “A gente pode evitar sofrimentos de pessoas que dão sinais muito cedo.  Sim, a gente dá sinal. Às vezes as pessoas não entendem, mas a gente  pede ajuda. Só filtrar e perceber e não pensar com a sua cabeça, tentar  pensar com a cabeça do outro”, afirma, tendo a experiência pessoal como  exemplo. Ramalho já sentia o coração disparar desde os 5 anos de idade e  era levada pela mãe constantemente a cardiologistas.

    Distanciamento Social

    Nessa fase de transição para a vida adulta, a convivência e troca de  ideias com pessoas da mesma faixa de idade costuma ser um artifício para  lidar melhor com as próprias dificuldades, pois muitas das questões são  parecidas para boa parte dos adolescentes. Com a pandemia, no entanto,  outros caminhos têm sido encontrados. Entre eles, a busca por assuntos  ligados à saúde mental na internet. “Eu acho que aumentou, porque as  pessoas têm se importado mais, elas estão pensando mais nisso, então  elas estão falando mais, elas estão comentando mais”, acredita Luka  Salomão.

    Amanda Ramalho ressalta que o estranho seria se as pessoas não  estivessem se sentindo mal diante do contexto trazido pela pandemia. “Se  você não sentir que o mundo está estranho, eu acho mais patológico do  que você se sentir mal. Ainda se confunde muito a saúde mental com  bem-estar. Então, pessoas que perderam o emprego, perdem a renda, – e  teve gente que precisou voltar pra casa da mãe -, são coisas que a gente  não estava preparada, né?”.

    No áudio, as entrevistadas avaliam como esse momento tem impactado a  saúde mental de adolescentes, citam as principais queixas divididas nos  comentários encaminhados para os canais que elas mantêm, trazem dicas  para lidar melhor com essa fase da vida e tratam da importância da  atenção que deve ser dada pelos pais.

    “Quando você enxerga o seu filho, quando você tem aquela escuta  ativa, não é aquela história de ‘não chora’, ‘para de chorar’, ‘ah, não  doeu, vai?’. Sabe assim… ‘por que que você está chorando?’, ‘o que que  você está sentindo?’, ‘é mesmo? É isso?’, ouvir, deixá-lo falar, sentir  aquilo. Como ele está querendo te passar alguma coisa, é ouvir. Isso é a  melhor coisa que um pai pode fazer por um filho”, avalia.

    9 min
  • Gamificação torna aulas de educação física mais estimulantes no ensino híbrido

    Com a pandemia de covid-19, os docentes enfrentam uma série de  desafios. No caso da educação física, é preciso buscar recursos para  manter a motivação nas aulas. Nesse cenário, a gamificação e modalidades  do atletismo, com ênfase na corrida, mostram-se formas de adaptação à  realidade de professores e suas turmas, segundo pesquisadores do  departamento de Mídia e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista  (Unesp).

    “Na plataforma gamificada, você perde ponto se não respeita as  regras. E uma coisa importantíssima sobre o esporte é que ele nos ensina  a perder”, defende o coordenador do curso de doutorado na área Marcos  Américo. “Essa questão de [os alunos] praticarem atividade de corrida na  escola já está até acontecendo. Eles já estão optando mesmo por  atividades que não têm contato físico”, completa o recém-formado doutor  em Mídia e Tecnologia pela Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação  da Unesp Fernando Chade.

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    Com a proximidade das Olimpíadas, aumenta o interesse por outros  esportes também no ambiente das aulas. A corrida se torna uma maneira de  colocar foco no atletismo. “Ela não demanda nenhum equipamento  específico. Outras modalidades esportivas, por exemplo, se você  trabalhar com o lançamento do dardo, eu vou ter que ter o dardo; se eu  vou trabalhar natação, eu preciso da piscina”, observa Américo.

    Gamificação simples

    O professor explica também que a gamificação não exige  necessariamente tecnologias sofisticadas, já que se trata da utilização  de estratégias dos videogames em atividades fora do virtual, com  ferramentas que estão ao alcance de todos. “Papel, caneta, cartão, peças  de jogos de tabuleiro, ou criando alguns troféus que você pode dar para  a pessoa”, explica.

    Em sua pesquisa de doutorado, Fernando Chade desenvolveu uma  plataforma sobre atletismo e aplicou em duas escolas de Araçatuba,  interior de São Paulo, com estudantes do 5º ano do ensino fundamental.  “As crianças, inicialmente, relacionavam muito o atletismo com algumas  brincadeiras infantis. O conhecimento digital que a plataforma  proporcionou a esses alunos trouxe conceitos mais técnicos das  modalidades, do esporte. Então, houve, realmente, um ganho nesse  conhecimento sobre o esporte”, aponta.

    Chade considera importante trazer exemplos de atletas brasileiros que  se destacaram na modalidade, como é o caso de Joaquim Cruz, que, em  1984, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, conquistou seu primeiro ouro  na corrida de 800 metros. “Então é uma forma, pelo menos, de tentar  incentivar esse tipo de atividade física, que é uma base fundamental  também para a maioria das atividades físicas. Grande parte dos esportes  demandam ter o preparo e a resistência pra corrida”, conclui Marcos  Américo.

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    8 min
  • Educação climática é forma de tratar desenvolvimento sustentável nas escolas

    Agir na busca de soluções à crise climática é urgente e a escola é o  lugar em que as futuras gerações podem transformar atitudes em prol do  desenvolvimento sustentável de todos. É esse o objetivo da chamada  educação climática.“Essa busca por um novo modelo de desenvolvimento,  que procure um novo equilíbrio, uma nova harmonia entre os processos  sociais, econômicos, culturais, políticos e ambientais, dialoga muito  com essa ideia do desenvolvimento sustentável. E, claro, a educação  climática, considerando que ela é parte dessa discussão, é tópico  fundamental da formação das pessoas em todos os níveis de escolaridade”,  explica o diretor educacional da Reconectta e do Movimento Escolas pelo  Clima, Edson Grandisoli.

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    Para ele, o tema deve vir integrado a todo o currículo da escola: “O  ideal é que a temática não fique restrita somente a uma ou duas  disciplinas — ciências e geografia —, mas que professores, por exemplo,  de história, filosofia, artes e língua estrangeira também participem com  suas expertises nessa discussão”.

    A educação climática visa a transmissão de um aprendizado que extrapole o  ambiente escolar e que possa ser levado para dentro da comunidade. “O  papel da educação dentro de uma comunidade é muito grande. E  especialmente quando os movimentos, as ações e as ideias chegam na casa  deles, aos pais deles, aos parentes, às pessoas da comunidade pelos  jovens”, analisa Grandisoli.

    Aqui e agora

    Ao utilizar mais o termo “crise” do que “mudança”, quando o tema é o  clima, a ideia é fazer com que todos da comunidade escolar percebam que  as atitudes precisam ser alteradas no momento presente. “Um dos grandes  desafios, quando a gente fala de sistemas complexos ou quando a gente  fala da crise climática, é a questão da temporalidade. Então parece que é  tudo muito para o futuro”, afirma o coordenador geral do Movimento  Escolas pelo Clima, Douglas Giglioti.

    Especialista em neurociência e psicologia aplicada, ele vê na  convivência com a pandemia uma maneira de as pessoas perceberem o quanto  é urgente tratar de mudanças nas atitudes que envolvem o meio ambiente.

    “A crise do coronavírus é algo que as pessoas estão sentindo na pele e  que foi causada por um desequilíbrio socioambiental. Então, a gente  consegue ‘tangibilizar’ uma das amostras do grande problema que é a  mudança climática por um problema intenso que está ocorrendo hoje e que a  gente não quer que ocorra nos próximos anos. A gente consegue  materializar um pouco, para hoje, alguns dos efeitos da nossa forma de  consumo, de produção e de vida”, conclui Giglioti.

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    9 min
  • Envelhecimento ativo e protagonismo sênior buscam vencer etarismo

    O aumento da população idosa tem sido constatado nos últimos anos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pirâmide social ruma para uma inversão e há expectativa de que, já em 2030, o percentual de brasileiros com 60 anos ou mais vai ultrapassar o de crianças de zero a 14 anos.

    Diante desse fato, como a sociedade brasileira tem se preparado para oferecer condições para um envelhecimento ativo e saudável? O Instituto Claro busca respostas com pessoas que têm se dedicado ao tema: a professora e publicitária Vera Pacheco e o psicólogo e gerontólogo José Carlos Ferrigno.

    Leia também: Cartilha da USP orienta terceira idade sobre saúde física e mental durante a quarentena

    “É uma narrativa mais recheada de queixas contra o abandono dos velhos, desvalorização, do que esse protagonismo que a gente começou a ver com mais intensidade”, afirma Ferrigno. Essas queixas normalmente estão ligadas à discriminação baseada em estereótipos associados à idade, também denominada etarismo.

    Para o especialista, esse preconceito tem mão dupla atingindo tanto os mais velhos quanto os mais jovens: “Esse etarismo, a gente tem de pensar sempre dos dois lados: no espaço de trabalho, na família, no lazer, no transporte público. Eu sempre chamo atenção para esses vários momentos de encontro ou desencontro das gerações”.

    Protagonismo Sênior

    Aos 63 anos de idade, Vera Pacheco atua como atendimento e planejamento na área de Live Marketing (termo recente que designa a interação com o público, ao vivo). Para ela, é importante redirecionar a carreira e buscar se atualizar constantemente para resistir ao etarismo. A professora e publicitária tem usado as redes sociais para estimular o conceito de protagonismo sênior, que alia conhecimento na área e adaptação às mudanças.

    “Eu escuto que ‘60+ não serve mais’, ‘queremos professores mais jovens com a mesma linguagem’, tanto é que isso me fez ter os insights para começar um movimento nas redes sociais, onde trago depoimentos de pessoas mais jovens, que dizem o quanto é importante ter pessoas mais velhas trabalhando”, explica Pacheco.

    Velhices

    Ferrigno faz um contraponto quando se trata de protagonismo ou envelhecimento ativo no Brasil. Ele destaca o aspecto das desigualdades que estão arraigadas na sociedade brasileira, o que torna mais apropriado se falar em velhices.

    “Faço uma diferenciação entre consumidor e cidadão. É preciso voar mais alto e pensar na figura do cidadão, que vai exigir não só um atendimento no mercado de boa qualidade, mas também que vai exigir direito à saúde, à educação.Então a respeitabilidade que tem o velho depende muito da sua condição social”, defende o gerontólogo. No áudio, Pacheco e Ferrigno apontam, ainda, o que pessoas com mais de 60 anos devem fazer para se manterem ativas e serem protagonistas de seu tempo.

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    9 min
  • Fuvest 2022: “Alguma Poesia”, de Drummond, traz influências do Modernismo

    Primeiro livro publicado por Carlos Drummond de Andrade, em 1930, “Alguma Poesia” é uma das novidades na lista da Fuvest para o vestibular de 2022. A obra de estreia do poeta itabirano já apresenta as marcas da literatura que produziria ao longo da vida. “Ele já é um livro bastante maduro. Drummond já demonstra uma grande familiaridade com o gênero poético. ‘Alguma Poesia’, por exemplo, apresenta uma grande liberdade formal, influências das vanguardas artísticas europeias, como o Cubismo, o Futurismo e o Surrealismo”, afirma a professora de gramática e literatura no Anglo Vestibulares e no ensino médio, Adele Grostein.

    Confira também: Na lista da Unicamp, “Seminário dos Ratos” traz visão crítica sobre o país

    Estreia brilhante

    Considerado um dos principais representantes da literatura em língua portuguesa, Drummond tinha apenas 28 anos quando esse livro foi lançado. Versos que estão no inconsciente coletivo, presentes em "Poema de sete faces", "Infância" e "No meio do caminho", só para citar alguns, já indicam marcas advindas do convívio com representantes que estiveram envolvidos na Semana de Arte de 1922.

    “A gente nota, nesse livro, muitas características pregadas pelos poetas dessa geração do Modernismo: traços como versos brancos (sem rima), o verso livre, a oralidade, temas cotidianos; até traços de humor e ironia, que são elementos que apareceram na Semana de Arte Moderna, por esses poetas, que influenciaram muito a escrita de Alguma Poesia”. No áudio, além da análise da professora, você ouve também a leitura do próprio escritor para um de seus poemas (“Quadrilha”) e a participação do ator Fernando Silveira, que interpreta Drummond no monólogo “O Caminho das Pedras”.

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    8 min
  • Línguas indígenas e africanas enriquecem vocabulário do português brasileiro

    A língua portuguesa falada no Brasil é influenciada pela presença dos povos indígenas, que já estavam aqui na chegada dos portugueses, em 1500, e também pelas línguas dos povos africanos, trazidos ainda no século XVI. O contato entre todas essas línguas no território brasileiro transformou o português e deixa heranças no idioma hoje falado no país.

    “No caso das línguas indígenas, as marcas dessa presença não cessaram, elas não pertencem a um passado longínquo, acabado ou fechado – aquilo que os livros didáticos erradamente colocam. Isso é uma riqueza das línguas naturais, que têm inserção cultural também”, reforça a doutora em linguística pela Universidade Estadual de Campinas e coordenadora do Mestrado Profissional em Linguística e Línguas Indígenas do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marília Facó Soares.

    Krahô, Ikpeng, Xavante, Yanomami, Krenak, Guarani, Nambikwara, Tukano, Kawaiwete (Kayabi), Baniwa, Munduruku, Pataxó, Pankararu, Macuxi (Makuxi) são alguns dos povos indígenas que habitam o país. No Brasil atual, existem aproximadamente 256 povos indígenas, segundo dados do Instituto Socioambiental. Do ponto de vista linguístico, há cerca de 180 línguas (com suas variedades) faladas no território brasileiro. Reunidas em diferentes famílias linguísticas, as línguas indígenas representam os povos originários da nossa terra. E mesmo com todas as perdas e pouca valorização, o Brasil ainda possui uma das maiores diversidades linguísticas do planeta.

    Já os povos africanos que vieram para o Brasil a partir do século XVI descendiam de diferentes reinos. Falavam quicongo, quimbundo, umbundo, iorubá, evé e fon. Se os nomes dessas línguas hoje não são familiares a boa parte da população brasileira, as palavras advindas delas são notadas na cultura e na língua que se fala no Brasil com facilidade.

    “Mesmo na condição do trabalhador escravizado, os povos africanos conseguiram marcar – junto com os povos indígenas – esta forma sonora de como falamos a língua portuguesa no Brasil, o que mostra a potência de comunicação desses povos como força de resistência”, afirma a doutora em Ciências Sociais Wilmihara Benevides da Silva, que durante 10 anos realizou pesquisas para o Museu da Língua Portuguesa nesse tema.

    A professora cita ainda como essa influência é marcante na alimentação de brasileiras e brasileiros. “Quindim, canjica, angu, fubá, garapa, dendê, maxixe, quiabo, mocotó, quibebe, vatapá, acarajé. Aliás, alguns modos de fazer uma receita representam saberes da cultura africana no patrimônio imaterial brasileiro”, enumera Wilmihara.

    No áudio, há exemplos também de expressões idiomáticas: “embira ou envira, que está relacionada a uma casca de árvore. Então você tem a expressão ‘lamber embira’ ou ‘lamber envira’, que é passar miséria, não ter o que comer. Outra expressão: pitanga quer dizer vermelho. Então, quando uma pessoa chora em excesso, pode-se dizer que ela ‘chora pitangas’”, cita Marília.

    No áudio, as pesquisadoras dão uma dimensão do quanto palavras oriundas de línguas indígenas e africanas estão no nosso dia a dia. “Conhecer essas formas é ter uma porta de acesso para entender pela via da língua a sociedade em que se vive ou em que outros vivem, viveram (...) No mundo inteiro, se dá valor a isso, quem tem que começar a dar valor somos nós mesmos”, defende Marília. “É na língua falada que podemos estudar as influências indígenas e africanas para uma educação antirracista. Toda língua representa, hoje, não apenas os seus falantes, mas diferentes povos”, acrescenta Wilmihara.

    8 min
  • Na lista da Unicamp, “Seminário dos Ratos” traz visão crítica sobre o país

    O conto “Seminário dos ratos”, de Lygia Fagundes Telles, é uma das  novidades na lista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para o  vestibular de 2022. Parte de livro de mesmo nome, o texto é,  originalmente, uma alegoria ao regime ditatorial que imperava no Brasil  quando foi lançado, em 1977.


    “Nós estamos lendo esse conto para entender quem somos, o país em que  vivemos, para olhar historicamente para reflexões que continuam,  lamentavelmente, fazendo todo sentido pra nós hoje em dia”, afirma o  professor de literatura do Anglo Vestibulares e mestre em literatura  brasileira pela Universidade de São Paulo Mauricio Soares Filho, ouvido  nesta edição do Livro Aberto.

    Como nos demais contos da obra, “Seminário dos Ratos” tem como estilo  o realismo fantástico. “A gente está falando de algumas narrativas em  que traz algo que é estranho, que é diferente, que muitas vezes a gente  fica em dúvida se poderia acontecer na vida real”, observa o professor.

    Olhar de seu tempo

    Em palestra realizada por Lygia Fagundes Telles em 2010, na Livraria  da Vila, em São Paulo, a escritora resumiu o seu processo criativo:  “Participante deste tempo, desta sociedade, eu procuro apresentar esta  sociedade e este tempo envoltos na sedução do imaginário e da fantasia,  mas sempre fiel a esse comportamento na vida real”.

    No conto, o seminário reúne chefes de diversas nações para decidir  sobre a situação dos ratos. Em vez de nomes, esses líderes são  identificados apenas pelos cargos que exercem. Na fantasia, os ratos  roem tudo o que encontram pela frente: comida, pessoas, roupas, móveis.

    “A forma como esses personagens, conversando, vão nos apresentando a  situação e vão se referindo um ao outro com alguma noção de hierarquia e  sempre muito conectados com esses nomes oficiais, nos transmitem essa  sensação de que estamos, de fato, numa grande reunião governamental, em  que há um grande problema a ser resolvido, no qual se deseja que a  imprensa esteja afastada, para não atrapalhar qualquer tipo de  negociação”, resume Soares.

    Questão de prova

    No áudio, o entrevistado traz aspectos do conto que acredita que  possam ser levantados no vestibular. Entre eles está o título, que tem  um aspecto propositalmente ambíguo. “Eu acho que essa é uma grande  questão: afinal de contas, quem são os ratos do Seminário dos Ratos? Por  que a utilização dessa preposição “dos” faz com que a gente pense: esse  seminário é feito pelos ratos? Esse seminário é sobre os ratos? Os  ratos dominam esse seminário ou eles são o alvo dele?”. As respostas  podem ser deduzidas do conto de dez páginas que, segundo o professor, é  muito acessível e imprescindível para o vestibulando.

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    Plano de aula sobre o conto “Seminário dos Ratos”

    Edição especial do podcast do Instituto Claro com Lygia Fagundes Telles

    9 min
  • Depressão, angústia e pânico: entenda consequências da pandemia de covid-19 para a saúde mental

    Medo constante, luto, angústia e melancolia. Essas são algumas das principais reações na saúde mental, geradas pela necessidade de distanciamento social. Para o psicanalista Joel Birman, autor do livro “O trauma na pandemia do coronavírus - a dimensão psíquica da pandemia da covid-19”, após mais de um ano convivendo com a presença do vírus, a população brasileira está diante de uma crise humanitária que encontra similaridade em períodos de guerra.


    “A semelhança entre as guerras e a pandemia é que as duas mostram que nós somos expostos a um trauma de dimensão coletiva, onde a espécie humana está em risco, de maneira que depressão, melancolia, angústia, o uso de drogas, tudo isso a gente vê que se passa perfeitamente em ambas as experiências”, afirma o psicanalista nesta entrevista ao Instituto Claro.

    No áudio, Birman aborda diferentes dimensões de traumas. “O sintoma inicial é aquilo que Freud chamava de ‘neurose de angústia’, que os psiquiatras chamam de síndrome do pânico. Você começa a sentir falta de ar, o coração começa a acelerar, seu pulso acelera, você tem suores frios. Você tem a sensação de que vai morrer de uma hora pra outra. E a partir desse efeito traumático inicial, uma série de sintomas se organizam”.


    Ao lado das contaminações provocadas pela pandemia, ocorre também a produção de inúmeras perturbações psíquicas ligadas ao campo da saúde mental: pânico, depressão, melancolia. O especialista observa também um aumento do uso de álcool e drogas e da violência doméstica contra mulheres e crianças.
    Birman ressalta, ainda, que uma das faces mais traumáticas diante da pandemia é não poder realizar o trabalho de luto para os milhares de mortos que o Brasil tem acumulado diariamente.

    Despedida virtual

    O psicanalista aponta caminhos para a diminuição do impacto desses traumas gerados pelo luto e isolamento social. A cerimônia virtual é um deles. “Fazer cerimônias virtuais antes ou depois do enterro, convocar os amigos, é uma maneira de fazer um ritual coletivo de luto onde o amigo ou o parente é perfeitamente respeitado”.

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    Joel Birman resume o que mais pode ser feito para lidar com as questões que envolvem a saúde mental: “Não se entreguem, acordem de manhã, troquem de roupa, não andem em casa como se estivessem usando a roupa que dormiu, tente estabelecer minimamente uma vida digna de produção e de trabalho, que isso ajuda”.

    Quando a situação parece sair do controle, a procura por especialista da área de saúde mental é outra forma de lidar melhor com as principais perturbações psíquicas verificadas desde o início da quarentena.

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    9 min
  • Colorismo e fabulação: o que discussões no BBB podem nos ensinar sobre esses conceitos?

    Os negros, grupo que reúne pretos e pardos, representam a maior parte da população do Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 56,1% dos habitantes do país se declaram negros. No entanto, poucos ascendem socialmente e, na televisão, ainda há o domínio de pessoas brancas. Diante desse cenário, a 21ª edição Big Brother Brasil (BBB) apostou no maior número de integrantes de pele negra de sua história. Com a atenção voltada para essa parcela de participantes, alguns temas têm surgido a partir de conversas na casa, como o colorismo e a fabulação.

    Leia também: Substituir expressões cotidianas que usam a cor preta de forma pejorativa ajuda a combater racismo

    Para explicar o significado desses conceitos, o Instituto Claro conversa, neste podcast, com o doutor pela Universidade de São Paulo, professor do curso de jornalismo da Universidade Estadual Paulista e ativista pela questão da diversidade no meio acadêmico Juarez Tadeu de Paula Xavier. “Há um ponto crucial, que é a chegada da família real no Brasil, em 1808. Há ali a constituição de um projeto de Estado no sentido de apagar essa presença negra, em especial a partir de 1888, com a abolição”, contextualiza o professor.

    Colorismo em debate

    Em um dos episódios do BBB, o humorista Nego Di e a rapper Karol Conká repudiaram uma fala do economista Gilberto Nogueira. Em festa no início de fevereiro, Gil se afirmou negro e foi ironizado pelos colegas, pelo fato de ter pele mais clara que os outros competidores. Xavier explica que o episódio demonstra, na prática, um conceito que teve origem nos Estados Unidos, ainda nos anos 1980, o colorismo. “Em sociedades racializadas, quanto mais clara é a cor da pele da pessoa, mais mobilidade ela tem, mais aceitação ela tem. Ela não supera as marcas do racismo, mas há de fato a tendência de se associar fortemente pessoas negras de pele mais retinta com qualquer aspecto negativo”.

    A postura de Conká em episódios envolvendo outros integrantes negros na casa, entre eles o ator e slammer Lucas Penteado, está ligada, segundo o entrevistado, a uma tese apresentada pelo saudoso geógrafo e pensador, Milton Santos. “A pessoa constrói uma fabulação a partir de uma suposta ascensão econômica e social e acredita piamente que está sendo considerada dentro de um outro contexto. Rapidamente este tipo de ilusão acaba se diluindo, em qualquer enfrentamento racial”, explica. Xavier cita ainda o patrono da educação brasileira para concluir: “Fazendo uma alusão a Paulo Freire, quando a educação não é libertária, o sonho do oprimido é ser opressor”.

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    9 min

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