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Instituto Claro episodes

  • Financiamento atrelado à meritocracia amplia desigualdades na escola

    Algumas propostas de financiamento da educação, incluindo o novo texto do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), vinculam o repasse de parte da verba à meritocracia. Neste podcast, o Instituto Claro ouve dois especialistas da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo(FEUSP) para saber que consequências isso pode trazer. “Boa parte das escolas não têm laboratório, biblioteca, sala de informática; ou, se tem, pode ser que tenha tudo isso, mas não tenha um funcionamento regular”, observa o professor e pesquisador em política educacional da FEUSP, César Minto.

    O também professor, especialista em financiamento da educação, Rubens Barbosa de Camargo defende que os repasses deveriam levar em conta a superação de desigualdades de condições das escolas, mas normalmente as verbas têm sido destinadas às instituições que apresentam o que governos entendem como “melhores desempenhos de aprendizagem”.

    Aumento da desigualdade

    “Quando você começa a dar prêmio, a dar bônus, isso de uma certa maneira, para aquelas ‘melhores escolas’, vai provocando um afastamento ainda maior daquelas que têm maior dificuldade. A desigualdade, nesse caso, vai ampliando e não diminuindo”, afirma o professor Rubens Barbosa de Camargo, pesquisador em financiamento da educação e política educacional.

    No áudio, eles criticam ainda o fato dos critérios de desempenho e meritocracia se restringirem às disciplinas matemática e português e que a relação entre financiamento da educação e desempenho produz problemas graves, como a eliminação de estudantes com dificuldades de aprendizagem e o aumento de treinamento para provas no lugar da dedicação à aprendizagem.

    César Minto ressalta que dentro dessa lógica, a inclusão de alunos com deficiência fica comprometida. “Porque na sociedade capitalista não tem espaço para essas pessoas, porque elas são consideradas ‘estorvo social’, porque elas ‘nada produzem’, ao contrário, elas demandam cuidados ‘que custam’. E o ‘cobertor é curto’, essa é a lógica vigente”, denuncia. “Há muito ainda a ser feito nessa seara, políticas públicas inclusivas, eu quero dizer, para que essas pessoas com deficiência sejam consideradas portadoras de direitos, como todas e todos nós”, acredita o professor.

    9 min
  • Aos 9 anos, menino com síndrome de Down publica livro contando suas conquistas e aventuras

    Max Dalarme tinha apenas 7 anos quando escreveu e desenhou seu primeiro livro, em 2019. “Eu sou o Max!” está sendo lançado agora e traz a história de um menino que ama sua família e o cachorro Maui. “Entrar em contato com o Max e com os desenhos e a escrita dele, pra mim, foi uma revolução, porque a minha experiência com o universo Down era de pessoas limitadíssimas, isoladas e sozinhas. Mas o Max, desde bebê, é estimulado e tem esse universo rico”. É assim que Cris Eich, ilustradora do livro, percebe o talento do garoto.

    A artista conheceu Max e a mãe dele em uma livraria, no Rio de Janeiro. Era verão e Eich se surpreendeu ao ver a criança se enfiar no meio dos livros como se fosse a casa dele. “Max tem uma alma de artista. Ele não gosta apenas da leitura e de livros, ele gosta de pintar, desenhar, teatro”, revela Melissa Dalarme, mãe do menino.

    A narrativa do livro é simples e singela. Nela, Max apresenta a ele próprio e ao universo que o rodeia. Ao narrar essas aventuras cotidianas, constrói uma história em que o olhar infantil passeia pelas conquistas e alegrias da rotina, que inclui aulas de natação, treinos de capoeira, surfar com o pai e uma visão amorosa para a diversidade.

    Eich conta um episódio que ilustra a personalidade de Max e que também foi parar no livro: “Um elevador cheio de gente e as pessoas se prensavam no canto para caber uma senhora na cadeira de rodas e o Max, que estava com o skate na mão, se aproximou dessa senhorinha e falou ‘não se preocupe, eu também tenho rodinhas e acho muito legal’. Eu imagino as pessoas dentro daquele elevador como é que se sentiram”.

    “Tudo bem ter rodas na cadeira! Eu tenho rodas na bicicleta, no skate, no carro, no caminhão.

    O bebê tem rodas no carrinho... Eu amo pessoas e animais!”

    (“Eu sou o Max!”, página 40)

    De acordo com a mãe de Max, que participa ativamente de grupos sobre o assunto, no Brasil, há apenas três escritores adultos com Down, de cujas obras são coautores. Há também obras escritas por familiares de pessoas com Down que falam sobre o assunto. Foi um desses livros, inclusive, que inspirou Max em sua criação: “As aventuras de uma criança Downadinha”, de Alessandra Almeida Maltarollo. No entanto, a produção autônoma de um livro como “Eu sou o Max!” é única e tem inspirado outras pessoas a não limitarem a capacidade de alfabetização e inclusão de crianças como Max.

    8 min
  • Participação cidadã: entenda o que é minipúblico e como ele traz a democracia para o cotidiano

    A participação da sociedade civil é fundamental para auxiliar ou frear decisões políticas. Tão importante quanto esta atuação é a presença de cidadãs e cidadãos comuns nas decisões que afetam o dia a dia deles próprios. “Na maior parte das vezes que a gente fala ‘processos participativos abertos à sociedade civil’, a gente está falando de grupos especializados que têm uma atuação regular, intensa, naquela temática. Quando a gente fala em participação cidadã, eu costumo dizer que é a sociedade, principalmente, as pessoas que estão na luta diária pela vida”, diferencia a cientista social e cofundadora do Delibera Brasil Silvia Cervellini.

    O Coletivo é uma organização sem fins lucrativos e suprapartidária que objetiva contribuir para o fortalecimento e aprofundamento da democracia brasileira, por meio da criação de minipúblicos, metodologia que teve início nos anos 1970, nos Estados Unidos e na Alemanha.

    “Você vai fazer um sorteio aleatório de pessoas, mais velhas, mais novas, homem, mulher, em diferentes ocupações, que represente a população. E aí você reúne todas as pessoas por algumas sessões, três, quatro, cinco encontros, onde as pessoas se conhecem, recebem informação daquele tema, interagem e fazem uma recomendação, uma proposta pra resolução do problema”, sintetiza a administradora de empresas e também cofundadora do Delibera Brasil Fernanda Império.

    Protagonismo popular

    O minipúblico, também chamado de Júri Cidadão ou Assembleia Cidadã, viabiliza a deliberação ao recrutar e sortear um grupo pequeno, mas representativo de uma comunidade ou população (bairro, cidade, estado ou até do país).

    Em dezembro de 2019, por iniciativa da prefeitura local, dezenas de pessoas participaram de reuniões do Conselho Cidadão de Fortaleza. Os cidadãos fizeram cinco encontros pra deliberar sobre a questão do lixo e sobre gerenciamento de resíduos sólidos na capital cearense.

    “Você tem ali desde a senhora do condomínio, que está falando só que ela separa (o lixo), mas ela não tem muito a ideia do que acontece com aquilo, até o catador ou o cara que é vizinho do catador. Todo mundo reunido pra achar uma solução”, explica Império.

    Essas recomendações cidadãs têm grande chance de ajudar e impactar na formulação e nas decisões de governos e iniciativas de interesse público. A ideia segue modelo proposto pelo cientista político Graham Smith, que definiu benefícios democráticos para essa deliberação cidadã.

    “Esses benefícios seriam: a inclusão; o julgamento ponderado, ou seja, a informação que permite que as pessoas coloquem na balança e façam uma reflexão de escolhas; a eficiência, o quanto aquela resposta, aquela decisão trazida pela deliberação cidadã é melhor do ponto de vista do coletivo; a transparência; e o controle social, o cidadão e a cidadã no centro da decisão”, conclui Cervellini.

    9 min
  • Paleontologia para além dos dinossauros: entenda a área e veja atividades para aplicar na escola

    Assim como a astronomia, a paleontologia é uma área que atrai  crianças e jovens para o estudo de ciências. A afirmação é da professora  do departamento de geologia e paleontologia do Museu Nacional Marina  Bento Soares.“Os dinossauros são a palavra mágica que a gente usa quando  começa uma conversa de paleontologia com o público escolar. Todas as  crianças em algum momento da vida foram ou são fascinadas pelos  dinossauros. E os professores podem lançar mão exatamente dessa  característica para aproximar os alunos do ensino da paleontologia e do  ensino das ciências em geral”, defende.

    A paleontologia vai além do estudo dos dinossauros. Essa área da  ciência se debruça na pesquisa da vida do passado da Terra, a partir de  restos e vestígios e dá pistas de espécies de animais, plantas e  microrganismos que já habitaram os continentes e oceanos em tempos  remotos. A convite do Instituto Claro, Marina se vale da experiência da  sala de aula e compartilha, no áudio, atividades que podem ser  desenvolvidas tanto no ambiente escolar como em casa. Ela também faz uma  diferenciação entre as disciplinas de paleontologia e arqueologia.

    Curiosidades jurássicas

    “Um ponto de partida interessante seria a partir de filmes, que a  gente conhece bem como Jurassic Park, Jurassic World, por exemplo;  perguntar para os alunos ‘afinal de contas o que é ciência e o que é  ficção nesses filmes?’; ‘é possível clonar um dinossauro?’; ‘é possível  tirar sangue de um mosquito para criar um dinossauro?’; ‘o Velociraptor  era um animal de mais de dois metros?’; ‘o T-rex poderia correr que nem  um automóvel?’.

    Ainda no podcast, a entrevistada explica como trabalhar a seleção  natural com biscoitos e fala de ações em que está envolvida com o  objetivo de ampliar o interesse de docentes e estudantes para o ensino  da paleontologia, como o “Meninas com ciência”, do Museu Nacional da  Universidade Federal do Rio de Janeiro. “É um projeto desenvolvido pelas  mulheres do departamento de geologia e paleontologia e que se propõe,  exatamente, a atrair meninas (nível de ensino médio) para a área  científica e abrir horizontes pra elas seguirem na carreira”, observa.

    Seleção de conteúdos que Marina Bento Soares indica para o ensino de paleontologia no ambiente escolar:

    Livro Digital de Paleontologia “A paleontologia na sala de aula”

    Projeto Meninas com Ciência do Museu Nacional/UFRJ

    Projeto Paleoeduca “A paleontologia na Educação de Candelária, RS”

    Coluna Caçadores de Fósseis Ciência Hoje

    Colecionadores de Ossos

    PaleozooBr

    Veja mais:

    Arqueologia ajuda alunos a entenderem que registro histórico vai além da escrita

    Qual o papel da matemática na pandemia de covid-19?

    O Estudo dos Fósseis – Descobrindo o Passado por meio de Vestígios

    9 min
  • Volume de materiais construídos pelo homem vai superar recursos naturais em 2021, aponta estudo

    No último século, a cada 20 anos, a massa dos objetos construídos pela humanidade dobrou. A constatação é de estudo realizado pelo Instituto Weizmann de Ciência, de Israel. Outro dado trazido pela pesquisa é o de que no final de 2020 a massa antropogênica se igualou à massa natural. “Nós retiramos elementos da natureza e transformamos em objetos, edificações... tudo aquilo que é construído pelo ser humano é o que eles tão chamando nesse artigo de massa antropogênica”, explica o biólogo e pós-doutor do Programa Cidades Globais do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP) Edson Grandisoli.

    Os pesquisadores compararam essa matéria não viva modificada diretamente pela ação humana — como metal, asfalto, concreto, tijolos, plástico, vidro — com a biomassa viva, constituída por vegetação, animais, fungos e todos os micro-organismos presentes no solo e nas águas. “Se a gente pega esse valor da massa antropogênica no ano de 1900, ela era de apenas 3%; em 120 anos, nós subimos de 3% pra 50%. Isso demonstra, claramente, essa voracidade nossa sobre os recursos naturais”, afirma o biólogo.

    Grandisoli concorda com uma série de geólogos, geógrafos e geologistas que defendem que vivemos na era do Antropoceno: “Pode ser marcado, por exemplo, pela primeira Revolução Industrial o início do Antropoceno, que foi quando esses processos mais vorazes de uso de recursos começaram a acontecer. Mudar o nome da nossa era também é muito simbólico para marcar esse nosso impacto sobre os ambientes naturais”.

    Estimativas indicam que, se o ritmo de crescimento se mantiver, a massa antropogênica pode alcançar três trilhões de toneladas em 2040, o que corresponde ao triplo da biomassa terrestre. “É muito importante a gente sempre ficar atento no consumo do dia a dia, e não só no quanto se consome, mas o que se consome; por que se consome e se realmente eu preciso consumir aquilo que eu estou consumindo. Essa consciência com relação ao consumo é fundamental de ser desenvolvida no plano individual”, acredita Grandisoli.

    No áudio, o entrevistado, além de analisar o estudo, traz exemplos de economia circular e do desenvolvimento de materiais rapidamente degradáveis como alternativas para reverter o crescimento da massa gerada pelos objetos criados pelos seres humanos. “Muitas grandes indústrias, inclusive, no ramo de plástico, já se ocupam do desenvolvimento desse bioplástico, desses biomateriais há muito tempo. A gente tem que pensar sempre de uma maneira circular: como aquela sacolinha ou aquela garrafinha feita de um biomaterial rapidamente degradável pode colaborar, inclusive, pra retornar os nutrientes para o solo?”, aponta.

    9 min
  • Heloisa Buarque de Hollanda orienta sobre abordagem do pensamento feminista na escola

    Aos 81 anos, a professora emérita da Universidade Federal do Rio de  Janeiro (UFRJ) Heloisa Buarque de Hollanda é uma das pioneiras no estudo  de teorias feministas no Brasil. Organizadora de quatro volumes da  coleção “Pensamento Feminista Hoje”, a pesquisadora fala ao Instituto  Claro sobre a importância de trabalhar na escola o “feminismo  decolonial”, conceito criado pela socióloga argentina Maria Lugones, em  2009.

    “Não dá para se estudar feminismo com uma visão eurocentrada e  norte-americana. O que a Lugones propõe é que se comece a ter  consciência de que nós não somos iguais à Europa, nós somos países  colonizados pela Europa. O português chega aqui e encontra uma cultura  muito bem consolidada, que é a cultura indígena e, um pouco mais pra  frente, a cultura negra”, explica. Ela destaca, ainda, que o patriarcado  é uma estrutura que vem da Europa e não era presente nas culturas  indígenas e africanas. Assim, Hollanda defende o estudo do feminismo  decolonial no ensino médio, a fim de entender como nossos comportamentos  sociais são impactados também por essa ancestralidade.

    Segundo a professora, o ambiente da internet traz bons exemplos de  materiais que podem ser apresentados aos estudantes. Nesse contexto, as  batalhas de Slam, poesia falada comum entre jovens das periferias, são  consideradas por ela como uma boa forma de se entender o feminismo  decolonial no ambiente escolar. “O Slam é centrado em gênero, é centrado  em raça, é muito brasileiro. O Slam do norte é completamente diferente  do nosso Slam (sudeste) e do Slam do sul. É uma manifestação poética de  periferia, jovem, muito nova e que não abre mão da coreografia, do  corpo, que é uma linguagem extremamente indígena e negra”.

    Entre as contribuições de Heloisa Buarque de Hollanda para a  literatura está a organização do livro “26 poetas hoje”, publicado em  1976. Foi nessa antologia, por exemplo, que a poeta Ana Cristina Cesar  foi lançada. Agora, a pesquisadora acaba de lançar um novo projeto: a  obra “As 29 poetas hoje”. “São meninas de 25 anos pra baixo escrevendo  poesia pelo Brasil inteiro. E temos todas as opções de gênero: trans,  lésbica, indígena, negra, branca. É decolonial. Fala de Brasil, quer  dizer, é uma luta de gênero contextualizada, não é uma cópia com o  padrão, digamos, de uma poeta americana, longe disso”, comenta.

    Hollanda considera que “As 29 poetas hoje” é um bom caminho também  para trabalhar o feminismo decolonial na escola. Além dos temas e da  qualidade literária, há o fato de serem mulheres jovens dialogando com  adolescentes e jovens. “Elas falam de aborto; elas falam de filho de uma  forma solta, sabe?É o desconforto, é a dúvida; você tem o cotidiano de  mulher que nunca entrou na poesia. Menstruação! Então pela primeira vez  essas vinte e nove botam na mesa o que é ser mulher, suas dúvidas, seus  desconfortos, suas alegrias, sua confiança, é muito bonito. Eu sou doida  por elas!”, conclui a pesquisadora

    8 min
  • Revolta da Vacina: falta de informação foi determinante para insurreição de 1904

    “Os combustores de iluminação partidos, com os postes vergados, estavam imprestáveis. Os vidros quebrados brilhavam na calçada. Paralelepípedos revolvidos, que serviam de projéteis para essas depredações, coalhavam a via pública. Em todos os pontos, destroços de bondes incendiados”. Foi assim que o jornal O Paiz descreveu o cenário da Revolta da Vacina em 1904. E é esse o aspecto que normalmente se ressalta desse episódio que ganhou as ruas do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, entre os dias 10 e 16 de novembro daquele ano.

    Mais recentemente, no entanto, historiadores têm se debruçado também nas questões sociais e no aspecto da dificuldade de acesso à informação como fatores que colaboraram para o motim popular. “A população não chegou a ser devidamente informada, em 1904, de como funcionava a vacina, de como ela era não só boa, como necessária, pra salvar vidas e evitar sofrimentos. Num país com tantos analfabetos, não adiantava você colocar um cartaz na rua explicando os benefícios da vacina, aquilo ia atingir pouca gente”, explica o professor e criador do canal “Aí tem História” no Youtube Warde Marx, ouvido neste podcast.

    Para ele, a revolta e a resistência à vacinação naquela época tinham relação com a falta de informação. Já a parcela da população que desconfia das vacinas, hoje, têm um excesso de informações falsas e distorcidas. “A vacina [da varíola] vem do pus de feridas de vacas. As pessoas pegavam a versão mais fraca da varíola e ficavam com anticorpos. As pessoas diziam, na época, ‘tá vendo, a gente vai ficar que nem vaca'. Essa história atual do jacaré não é só errada, ela tem raízes nessa desinformação”, comenta.

    O Bota-Abaixo

    Outro aspecto relevante para a Revolta da Vacina foi a reforma urbana na cidade do Rio de Janeiro. Como uma das consequências, ela promoveu a remoção da população dos cortiços da região central do Rio de Janeiro, sem nenhuma contrapartida. “As meninas precisam levantar e mostrar os braços pra fazer a vacina; os homens precisam mostrar os glúteos e baixar as calças. Há uma reação de que a vacina vai afetar uma intimidade dos indivíduos, além da violência econômica, da agressão que ocorre para a população mais carente”, afirma a professora do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Santa Maria, especialista em história e saúde, Beatriz Teixeira Weber, também entrevistada pelo Instituto Claro.

    O áudio apresenta detalhes do contexto social do início do século XX no Rio de Janeiro, como um segundo surto de varíola em 1908 fez a população da cidade recorrer à vacina e quais os aprendizados que esse episódio da História do Brasil pode trazer em relação à importância da vacinação em massa diante do novo coronavírus (covid-19).

    “Nunca foi tão corrente a informação correta. Acho que, para as escolas, me parece que é uma preocupação muito importante em como é que se trabalham informações, de onde essas informações são retiradas, que se aprenda a checar a fonte da informação, que se verifiquem os procedimentos que essa informação está trazendo”, conclui Weber.

    9 min
  • Qual o papel da matemática na pandemia de covid-19?

    Em 4 de maio do ano passado, pesquisadores do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI) da Universidade de São Paulo (Usp) passaram a acompanhar tendências na evolução da propagação do novo coronavírus, após o início do distanciamento social implementado a partir de março no Brasil. Neste podcast, entenda o papel da matemática na pandemia de covid-19 e como ela pode ajudar a explicar a necessidade de distanciamento social para evitar o contágio e de vacina para proteção coletiva.

    “Uma vez que se consegue escrever algo matematicamente, aquilo vai ser descrito sem ambiguidade, sem dúvidas, e isso abre espaço pra alertar os governos e a sociedade do risco quando você tem uma doença completamente nova, que se apresenta perante uma população completamente indefesa”, explica Paulo Silva, que é também professor do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Unicamp.

    No início da pandemia, Silva se aliou a outra pesquisadora desse mesmo instituto, a professora Claudia Sagastizábal, para propor modelos matemáticos capazes de desacelerar a epidemia. “A pessoa pode ter um problema cardiológico, pode ter diabetes, qualquer coisa que precise de atenção médica e, com o serviço de saúde colapsado, não vai ter”, explica a doutora em matemática pela Sorbonne, na França.

    Matemática da vida

    Neste podcast, o Instituto Claro ouve, ainda, o coordenador do grupo interdisciplinar ModCovid19 da Usp, Tiago Pereira. Ele cita o estudo que acompanhou, feito por um grupo do Imperial College, da Califórnia, a partir de modelos matemáticos: “Para o Brasil, eles levantaram vários cenários, há um ano. Então na época já se discutia, por exemplo, se a medida de mitigação fosse muito ruim, seriam 600 mil mortes. Se nada fosse feito no país, você teria um milhão de mortes aproximadamente”.

    No áudio, os três trazem exemplos do papel da epidemiologia matemática, que se propõe a estudar informações, previsões e projeções, a fim de respaldar mecanismos de controle no combate à transmissão de doenças infecciosas. Eles concluem que a vacinação não é uma questão de escolha individual apenas, mas sim uma ação coletiva para preservar, inclusive, a vida de pessoas que não podem se imunizar por questões de saúde.

    “Quando a pessoa fala assim ‘olha, vacina é uma questão individual’, o que essa pessoa está falando é o seguinte: sabe aquela pessoa que está com câncer e está fazendo um tratamento quimioterápico e está com o sistema imunológico baixo? Problema dela. Parece muito pouco humano você olhar para aquela pessoa que já está debilitada, por um motivo qualquer, e falar ‘quer saber, esse problema é seu, eu vou me preocupar com meu problema’”, conclui Paulo Silva.

    9 min
  • Livro digital gratuito discute perdas da educação diante de ensino remoto

    “EaD, Atividades remotas e ensino doméstico: cadê a escola?” é o nome do volume 3 da série “Diálogos Críticos”. Lançado em formato digital e gratuito, o livro traz – em 246 páginas – uma visão engajada e plural sobre o ensino remoto em prol de uma escola pública, gratuita e de qualidade. “Passamos a fazer um estudo mais aprofundado das reformas educacionais e como elas têm sido conduzidas no Brasil com uma forte presença de setores que estão ligados ao mundo da economia”, resume uma das organizadoras da obra, a doutora em educação pela Universidade Federal da Bahia Ivânia Paula Freitas.

    Com a participação de dezenas de pesquisadores de diferentes instituições, a pergunta “Cadê a escola?” é respondida em capítulos que têm a perspectiva da transformação social, o que é visto como algo cada vez mais inalcançável. O cenário, que já começava a valorizar a educação à distância e o ensino doméstico, foi acelerado no último ano, diante da pandemia.

    “Esse lugar da escola que transforma a comunidade e que é transformada por ela também não cabe nesse formato remoto”, defende Freitas. No áudio, é possível acompanhar, ainda, as reflexões da mestre em geografia e doutora em educação pela Universidade Federal da Bahia Janeide Bispo dos Santos. Ela é coautora de um dos capítulos do livro, “A Pandemia e as atividades não presenciais: estratégia de inserção da EaD enquanto privilégio de classe e raça”.

    Para a professora, a expressão “atividades não presenciais” carrega questões estruturais debatidas na educação pública há anos.

    “Ela vai segregar, vai permitir processos educativos diversos, mas se torna o caminho da exclusão. O sujeito, sobretudo os que estão nas comunidades tradicionais, nas periferias, os quilombolas, os indígenas, os que não têm acesso à tecnologia, são vítimas de um processo segregador, exclusivista, e racista, porque ela acaba privilegiando uma classe social e, no Brasil, como diz o Silvio Almeida, as relações de classe e raça, às vezes, são simultâneas”, sintetiza.

    Veja mais:

    Volume 1 da série “Diálogos Críticos” 

    Volume 2 da série “Diálogos Críticos” 
    Entenda a diferença entre educação à distância e ensino remoto

    8 min
  • Livro “Ponha-se no seu lugar” trata de crise de identidade na pré-adolescência

    O livro “Ponha-se no seu lugar”, de Ana Pacheco, marca o retorno das  publicações da série Vaga-Lume, depois de 13 anos. Criada na década de  1970 e com mais de uma centena de títulos, a coleção é um dos estímulos à  leitura junto ao público infantojuvenil. A nova obra é inspirada em  conto do russo Nikolai Gogol, escrito no século XIX. Como o funcionário  de São Petersburgo, que perde o nariz e descobre que o órgão tem vida  própria, na releitura de Pacheco, o pré-adolescente Lucas passa por  situação semelhante.

    A autora diz que lembrou da história clássica ao se deparar com notícias de jovens que se submetem a dezenas de cirurgias, buscando a aparência da boneca Barbie ou do namorado dela, o boneco Ken. “Não é um tema leve. São jovens que arriscaram sua saúde. Na história do Ken norte-americano, ele quase ficou cego; depois perdeu o olfato de tanto operar o nariz. Quer dizer, histórias horrorosas, mas que eu acho que vale a pena trazer para debate”, explica.

    Nariz empinado?

    Lucas é um menino privilegiado que estuda em escola de elite e não está acostumado a perder nada. De repente, ele vê seu nariz se tornar independente e fazer sucesso entre colegas do colégio. O adolescente começa, então, uma aventura para reconquistar o órgão e recolocá-lo no lugar.

    “Ele diz que essa falta não se esconde como se esconderia a falta de um dedo do pé dentro do sapato. E aí o caminho muito errado que ele toma é o de tentar chamar a atenção pro corpo. Tem a ideia de preencher as faltas por um caminho que gera muitas outras faltas, muitas outras sensações de vazio, que é esse de se tornar uma mercadoria de si mesmo”, analisa a autora.

    8 min

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