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Jornalista gastronômica apresenta atitudes saudáveis e revela processo de produção dos produtos.
Quanto nossas escolhas alimentares estão atreladas não apenas com o nosso bem-estar, mas também com a sustentabilidade do planeta? Para responder a essa pergunta, o Instituto Claro conversa com a jornalista, especialista em gastronomia, Ailin Aleixo. Para ela, “o que comemos molda o mundo”.
“A preocupação é crescente com este tema, tanto com relação à saúde física quanto à saúde ambiental, em relação ao que a gente come, porque a gente está passando já por um caos climático. Boa parte disso é derivado de como a gente usa o mundo para produzir comida.”
Aleixo passou por diversas redações cobrindo as novidades do setor gastronômico até começar um caminho mais autônomo na web sobre um consumo mais consciente e salutar dos alimentos. Influenciadora digital, ela coloca uma pitada de engajamento pessoal e cidadania em tudo o que produz atualmente.
A mudança para este jornalismo mais ativista começou a partir de seu incômodo em relação aos processos por trás da produção dos alimentos. “A pecuária é a maior responsável pelo desmatamento da Amazônia. A única forma de diminuir o impacto é reduzir imensamente o consumo de alimentação a base de animais”, exemplifica.
Na entrevista que você confere no podcast, além de acompanhar os bastidores da forma em que são produzidas as tilápias no Brasil e como isso pode ser feito de maneira sustentável, Aleixo traz dicas para uma alimentação saudável e que gera bem-estar também ao planeta.
“No Brasil, a gente tem uma oferta muito grande de legumes, de frutas, de verduras. Cada estação tem a sua oferta desses itens vegetais e sempre que as coisas estão na estação, elas têm mais gosto, são mais baratas, e precisam de menos agrotóxico, porque elas estão no momento certo de crescimento delas”, dá a receita.
Em seu perfil no Instagram, ela publica frequentemente posts com dados de estudos oficiais que embasam tais afirmações, além de compensar os internautas com fotos de dar água na boca relativas às iguarias à base de grãos, vegetais e novos conceitos trazidos, por exemplo, pelo veganismo.
“Precisamos lembrar que nossas doenças mentais e físicas podem ser resultado de uma dieta mal feita. Essa coisa da gente querer comer sempre os mesmos itens o ano inteiro não é só ruim para o planeta, mas é ruim para a nossa saúde. A gente precisa de micronutrientes diferentes e, por isso, de uma alimentação diversificada”, conclui.
Crédito da imagem principal: reprodução site Gastrolândia.
Proposta é despertar orgulho nos estudantes, ao tomarem contato com outras realidades da região.
Um mapa interativo e digital com a história do bairro do Grajaú. Esta é a proposta do TCA (Trabalho Colaborativo de Autoria) realizado em 2019 e que terá continuidade neste ano na EMEF Padre José Pegoraro, localizada na zona sul de São Paulo.
O professor de língua portuguesa da escola, Diego Navarro, ouvido pelo Instituto Claro neste podcast, afirma que as atividades seguem o conceito de cartografia afetiva.
“A ideia principal é que você consiga entender o território no qual você é sujeito, a partir das relações que você trava com ele. Entender o bairro não só como um pedaço do mapa, uma construção do estado, mas sim como um lugar com o qual você se relaciona, que te traz lembrança, memória, afeto mesmo”, explica.
Nesse sentido, a exploração dos trabalhos desenvolvidos em slams de poesia, centros culturais, coletivos de grafite, grupos de preservação do meio ambiente, espaços educativos, entre outros, contribuem para que os estudantes consigam enxergar o território para além daquilo que é posto e socializado na mídia.
“O Grajaú figura entre os piores índices de desenvolvimento. E, a partir do momento que os alunos têm contato com esses números, gera uma certa angústia e eles começam a falar “‘como mudar isso?’”, defende o professor de geografia, Carlos Amorim.
O trabalho foi idealizado após a revisitação do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, que valoriza a interdisciplinaridade. “Um país chamado Grajaú” busca dialogar também com um trabalho iniciado em 2013, intitulado: “Grajaú, onde minha história começa”.
A ideia central é a de ajudar na ressignificação da relação dos estudantes com o bairro, ajudando-os a entender o território como um espaço rico de histórias e personagens, em diferentes áreas de atuação, que ajudam a construir uma imagem mais ampla do bairro do Grajaú.
Neste sentido, cada disciplina tem sua importância. No áudio, você acompanha ainda o depoimento da professora de ciências, Thabata Soares, que destaca um lado pouco conhecido da região: o da vasta área verde que ela compreende.
“A gente fez um tour também pelo bairro ali, conhecer um pouquinho da história da Ilha do Bororé, que fica tão próxima deles – dá para ir a pé da escola até lá – e que muitos alunos não conheciam, porque o trajeto deles era da escola pra casa, da casa pra escola. E aí eles conheceram locais que eram próximos e que eles não tinham contato, não tinham acesso, não tinham conhecimento mesmo.”
Para Navarro, os alunos passaram a ver o bairro para além do que é noticiado. “Hoje, eles se orgulham de ser moradores do Grajaú. Um depoimento importante de uma aluna nossa, que é a Maira, explica que ela parou de ver o bairro só no preto e no branco e começou a enxergá-lo em suas diferentes cores, pelo fato dos sujeitos se sentirem pertencentes àquele bairro e capazes de lutar para que esse bairro consiga melhorar”, conclui.
Em 2020, a proposta é ampliar o projeto e abranger todos os anos do fundamental II.
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Imagem: divulgação
“Téo & o Mini Mundo” coloca lente sobre situações de desigualdade e injustiça.
Recém-lançado, o livro “Téo & o Mini Mundo” reúne, em ordem cronológica, de 2012 até 2019, as tirinhas criadas originalmente como webcomics (série para internet) por Caetano Cury. “Eu tive a necessidade de falar mais de coisas humanas, de sensações, emoções. E aí eu tive a ideia de criar um personagem que observava o mundo dentro de um microscópio. E dentro desse mundo tudo pode acontecer”, explica o ilustrador e jornalista.
Com aspectos originados por pensamentos ligados também à psicologia e à psicanálise, a essência das tirinhas é a filosofia. Para isso, o menino Téo conta com as percepções da borboleta Eulália.
“Ela é uma reunião de tudo que eu já li e ouvi, e tenho lido e ouvido, do que faz elevar o espírito, uma junção das filosofias orientais, grega e alemã. Então, tudo que eu tenho visto de bonito, de profundo que eu tenho esbarrado durante o meu caminho, eu tento puxar alguma coisa.”
Nas imagens, feitas no processo de aquarela e depois digitalizadas, veem-se o menino na companhia dessa borboleta filosófica e um microscópio para observar o mundo. “Tive a ideia de fazer o microscópio, porque estava andando e vi uma livraria com muita gente. Aí fiquei pensando se eu desse um ‘zoom’ e visse o que cada um está lendo, será que estariam lendo alguma coisa legal?”
A proposta de Cury é gerar reflexões profundas sobre o eu e o nós, os mundos de dentro e de fora, expressas em textos simples, ritmo tranquilo e ilustrações lúdicas e delicadas.
Imagem: ilustração do livro “Téo & o Mini Mundo”.
Em correspondências com menina de 9 anos, pensador defende que adultos mantenham "meninice"
O período de férias aproxima, novamente, muitos adultos das brincadeiras. O contato com as crianças faz com que se lembrem do quanto o brincar é importante para as novas descobertas. É justamente a valorização da manutenção de aspectos da “meninice”, mesmo quando se amadurece, o que Paulo Freire transmitiu à sua prima Nathercia Lacerda.
A arte-educadora lida com educação infantil e teve nas cartas com o patrono da educação brasileira inspiração para os caminhos que segue. “Ao longo da vida, eu não pensei muito no que essas palavras poderiam ter movido em mim. Ao escrever o livro, fui entendendo como brincar é estar vivo, é um olhar para o outro para além da casa. Toda minha trajetória profissional foi pautada por essas indicações”, afirma em entrevista ao podcast do Instituto Claro.
No livro “A Casa e o mundo lá fora”, que inclui as cartas originais com a caligrafia de Paulo Freire, ela resgata a forma como o pedagogo se dirigia a uma criança. Nathercinha era chamada de “amiga mais nova”. A correspondência aconteceu durante os anos da ditadura no Brasil, entre 1967 e 1969, quando o educador estava exilado no Chile.
Árduo defensor do conhecimento como ferramenta para a autonomia, Freire elaborou seu diálogo com Nathercinha baseado no zelo, na ternura e nas saudades do lar. Com isso, busca atiçar na garota a curiosidade ao descrever as belezas e problemas de um país estrangeiro.
A mensagem que enfatiza é a de que a menina nunca perca a graça da infância. “Vocês vão ver que a gente nunca para de estudar. Há sempre muita coisa para a gente aprender, mas a vida não pode ser só estudo. A gente também precisa brincar. Até quando a gente já está grande, como mamãe, papai, como eu que já estou ficando de barba branca, a gente precisa brincar”, recomenda, numa das cartas.
Imagem: Envelopes das cartas enviadas a Nathercinha, a “amiga mais nova” (crédito: livro “A Casa e o mundo lá fora”).
No estado de São Paulo, mais da metade dos 250 professores que atuam em escolas indígenas concluíram apenas o ensino médio. Os dados são do grupo de trabalho “Por uma licenciatura indígena no estado de São Paulo”, que, desde junho de 2018, reúne educadores e lideranças indígenas, em parceria com docentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para a criação de uma licenciatura intercultural.
A iniciativa tem como objetivo central suprir a falta de formação exclusiva para docentes que atuam em escolas indígenas paulistas, possibilitando que os professores aprendam conceitos que valorizam a memória, a história e a cultura dos mais diversos povos e etnias existentes.
A exemplo do que já acontece, há cerca de duas décadas, em regiões como Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Amapá, Amazonas, Pará e Santa Catarina, em novembro de 2019, o projeto para a implementação de uma licenciatura indígena no estado de São Paulo foi apresentado na sede do Ministério Público Federal, na capital paulista. Atualmente, há cerca de 2,3 mil alunos em 44 escolas públicas indígenas no estado.
A professora indígena e também coordenadora do grupo de trabalho, Cristine Takuá, é a favor de que tais ações pedagógicas sejam ampliadas. “Uma licenciatura intercultural pode trazer avanços e vantagens a uma comunidade mais diversa. Os professores indígenas também conseguem aprender e ter uma troca rica na convivência com estudantes não indígenas, no sentido de conhecer mesmo como é o mundo na cidade”, afirma.
Nesse aspecto, se por um lado as universidades ganhariam com os saberes dos povos nativos, por outro, a proposta faria o ensino superior chegar a um número considerável de professores indígenas. A entrevistada ainda lembra que a educação deve ser para todos, conforme rege a Carta Magna.
“Esses educadores não têm um curso superior pra dar aula, eles têm uma contratação precária. A necessidade de ter uma licenciatura indígena é a possibilidade de fornecer uma formação para que eles possam aprimorar sua prática de ensino, uma vez que já atuam na área. Essa é uma demanda deles mesmos”, lembra a professora de antropologia da Unicamp, Joana Cabral de Oliveira, também ouvida pela reportagem.
Ela afirma ainda que os povos indígenas devem acessar uma escola diferenciada, com particularidades culturais e respeito aos seus modos de ser. “Para isso, eles precisam de uma escola que não opere de forma idêntica à que os brasileiros não indígenas têm. Eles precisam, então, ter garantido esse direito de respeito às especificidades culturais e de existência.”
No áudio, é possível ouvir outras vivências de Takuá e opiniões de Cabral acerca do tema.
Imagem: Para Cristine Takuá, saberes indígenas podem contribuir com toda a universidade (crédito: Alba Rodriguez)
Obra da lista da Unicamp ataca jovens marxistas, igreja progressista e jornalistas.
“A Cabra Vadia” reúne uma seleção feita por Nelson Rodrigues das crônicas publicadas no jornal “O Globo”, nos anos de 1967 e 1968. Nelas, o dramaturgo admite sua crítica ao cenário político, com visões reacionárias.
A motivação do autor foi a chegada dos militares ao poder, quando passa a se proclamar um “ex-covarde” [título da primeira crônica do livro] e assume seu ponto de vista ideológico.
“Ele acredita que esse seria o momento de parar de ter medo e expor as suas experiências do ponto de vista ideológico”, explica o professor de literatura do Cursinho da Poli, Murilo Gonçalves, ouvido nesta edição do Livro Aberto.
De acordo com ele, com a atitude, Nelson Rodrigues se vê isolado, visto que era conhecido como “anjo pornográfico” por tratar de maneira explícita a vida privada, o que fazia com que fosse rejeitado pelos conservadores. Por outro lado, era reacionário e tinha um pensamento de direita, quando se tratava de política, num momento em que a experiência cultural de esquerda prevalecia.
A presença de um livro que se contrapõe aos demais da lista da Unicamp pode ter a intenção de levar ao jovem uma reflexão sobre o fato de o país já ter vivido uma ordem mais conservadora em um passado recente, especula o entrevistado.
Para Gonçalves, o vestibulando deve buscar entender quais os grupos que o escritor e jornalista elegeu como problemáticos e que são alvo nas crônicas. “Ele atacava jovens que se inspiravam em movimentos como Maio de 68, marxistas, a igreja progressista brasileira e os que chamava de ‘grã-finos de esquerda’”.
Outro aspecto presente no livro são as crônicas escritas como entrevistas imaginárias, em que cria situações absurdas envolvendo seus desafetos políticos. Uma cabra acompanha essas conversas, motivo do título da obra .
“A cabra, de acordo com as pesquisas que ele fez, seria um animal que mantém um parceiro fixo. Então, ela não trai. Se não trai, é o animal ideal para acompanhar a entrevista e ratificar, desmentir ou manter posicionamentos definidos em relação à entrevista”. Essas entrevistas imaginárias, segundo o professor, podem ser consideradas como processos que se assemelham às criações das fake news de hoje.
Mesmo se aliando aos militares, Nelson Rodrigues não consegue evitar a censura a algumas de suas peças e nem que, em 1972, o filho Nelsinho Rodrigues fosse detido e torturado pelo regime. Após este fato, o escritor, que até então acreditava que não havia tortura no país, revê o apoio aos militares e passa a defender a anistia ampla, geral e irrestrita aos presos políticos do período.
Imagem: O Professor Murilo Gonçalves no Cursinho da Poli (crédito: Marcelo Abud)
Ação de grupo do Inpa, registrada em documentário, aconteceu em região isolada da Amazônia.
Uma expedição à Serra da Mocidade, em Roraima, resultou na catalogação de mais de 1.500 espécies, entre plantas e animais, incluindo 95 novos registros para o Brasil e, ao menos, 80 novas espécies para a ciência, que continuam em estudo de comprovação. A cobertura dessa viagem está no documentário “Novas Espécies – a expedição do século”, que estreou nos cinemas no final de novembro de 2019.
Os números surpreendentes foram possíveis em função do esforço de 42 cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), de diferentes áreas.
“Tem muito biólogo no instituto, mas também tem gente que estuda doenças, que estuda gente, que trabalha com pesquisa aplicada no desenvolvimento de métodos, técnicas de exploração sustentável de recursos naturais amazônicos”, revela o ornitólogo, curador das coleções de aves do Inpa e responsável por chefiar o grupo, Mario Cohn-Haft, entrevistado no áudio deste podcast.
No depoimento, o cientista relata que há uma década tinha conhecimento da Serra da Mocidade e a certeza do êxito que uma viagem ao local alcançaria, mas o plano só saiu do papel recentemente. “Em 2016, a gente fez o que chamo de ‘expedição dos meus sonhos’. Por suas características, a região é, talvez, o lugar com maior potencial do mundo de ter espécies novas”, explica.
Com equipe reduzida no Inpa e recursos governamentais escassos, a expedição só foi possível graças a uma coprodução internacional da produtora Grifa Filmes, que reuniu a GloboNews, a GloboFilmes e empresas de audiovisual da Alemanha e do Japão (Filmland, NHK, ZDF/Arte e Gebrueder Beetz).
“Quem assiste ao filme, primeiro vai ver uma Amazônia que talvez nunca tinha visto antes; uma Amazônia de altitude, fria, com vento e nuvem; vai ver uma aventura que talvez não sabia que os pesquisadores se submetiam, de andar de helicóptero, de ter que descer dele de rapel para poder abrir uma clareira para a aeronave pousar depois”, descreve Cohn-Haft.
Para o diretor do documentário, Maurício Dias, também ouvido pelo Instituto Claro neste podcast, o maior legado do filme é ajudar o público a entender um pouco sobre como é o trabalho de campo desses cientistas. “Eu achei que não existisse mais isso de grupos saindo em busca de novas espécies, que achar uma nova espécie fosse uma coisa muito casual. […] Quando estamos com eles, a gente vê que tem muito esforço e muita dedicação”, resume.
“Cada espécie do planeta, milhões de animais e plantas, pelo fato de ser diferente, de ter um jeito de viver no meio ambiente, único e singular e uma maneira de aproveitar os recursos ao redor e sobreviver, representa uma solução única para problemas enfrentados por todos. É um dever nosso, da academia, da ciência, tornar isso mais acessível para todo mundo”, completa Cohn-Haft.
Imagem: Com pico a quase dois mil metros de altitude e cerca de 80 quilômetros de extensão, região revela novas espécies (crédito: divulgação/Grifa Filmes)
Escritor português construía poesias divididas entre tese, antítese e síntese.
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) fez uma seleção de 20 sonetos daquele que é considerado um dos maiores poetas da literatura universal, Luís Vaz de Camões, como parte de suas indicações de leitura obrigatória.
Para analisar esse conteúdo, o Instituto Claro conversa com o professor de literatura do Cursinho da Poli, de São Paulo, Frederico Barbosa. “Na seleção feita pela Unicamp, o amor é o tema central. Neste sentido, alguns sonetos trabalham o neoplatonismo, em que o ideal é visto como mais interessante do que o real”, destaca.
Para o especialista, os sonetos de Camões são, em grande parte, maneiristas. “É um estilo entre o Classicismo e o Barroco, em que ainda se trabalha com a forma (…) mas já inclui uma certa melancolia, que não era comum aos poetas clássicos.”
Influenciado pela estrutura criada pelo poeta italiano Francesco Petrarca, a escrita do autor português segue uma estrutura dialética, oriunda do pensamento grego. Para isso, há adoção da fórmula petrarquina, que se divide em “tese, antítese e síntese”, respeitando originalmente uma divisão entre quatro, quatro, seis estrofes.
“Na língua portuguesa, virou quatro, quatro, três, três [estrofes], mas, se você olhar o esquema de rimas, vai perceber que os quartetos têm uma rima e os tercetos têm outra rima, que só se completa quando você lê os dois tercetos”, explica o entrevistado.
Ainda no podcast, Barbosa utiliza alguns dos sonetos para analisar o uso recorrente de paradoxos e oximoros. “Em ‘amor é fogo que arde sem se ver’, o paradoxo é você falar em uma ‘ferida que dói e não se sente’; e o oximoro é ‘dor sem doer’. Além disso, aqui também você tem tese, antítese e síntese”, ressalta ele, na análise que segue no áudio.
Segundo ele, a presença dos versos desse soneto na música “Monte Castelo”, da banda Legião Urbana, comprova o que se vê também nos outros 19 textos reunidos na coletânea proposta pela Unicamp: a poesia lírica de Camões, apesar de distante no tempo, permanece atual para quem se dispõe a enveredar por ela.
Diálogo é um dos caminhos para mostrar riscos e consequências para crianças e jovens.
Em 2014, Dimitri Jereissati, então com 16 anos de idade, foi encontrado pelo pai sem vida, com um cinto em volta do pescoço. Ele havia participado de um desafio que tinha visto na internet. Dois meses depois, o responsável pelo garoto criou o Instituto DimiCuida, destinado a preservar a vida de outros jovens em meio a popularização da prática das chamadas brincadeiras perigosas, que atingem uma parcela significativa de crianças e adolescentes, entre 4 e 20 anos.
Com a expansão de canais no YouTube, houve uma proliferação desses jogos de não-oxigenação, de acordo com a psicóloga do instituto, Fabiana Vasconcelos, ouvida neste podcast. Responsável por palestras sobre o tema, ela aponta como pais e educadores podem identificar sinais de que a pessoa está vivenciando situações que levam ao desmaio, o que pode gerar sequelas ou até a morte. “Eles normalmente são notados diante de marcas ou alterações no comportamento”, alerta. Por exemplo, se o filho começa a usar camisas de gola alta ou de manga comprida, mesmo quando está calor, pode ser para esconder marcas no corpo geradas por essas práticas.
No áudio, a psicóloga relaciona esses e outros indícios e aponta de que forma adultos podem tentar evitar que crianças e jovens se envolvam com os desafios. O diálogo é um dos caminhos. “Você pode questionar que tipo de desafios eles conhecem e pedir que expliquem porque são perigosos. Quando chega nos jogos de não-oxigenação, o adulto pode focar no que acontece quando se interrompe o fluxo de oxigênio pro cérebro, principalmente nas sequelas que eles não querem ter, que reduzem a qualidade de vida”.
Créditos:
Imagem: Highwaystarz-Photography – iStock
Oficinas instigam adolescentes de regiões periféricas a pensarem questões da comunidade em que vivem.
Desde 2017, o educador social Pedro Miranda aposta na filosofia como forma de transformar a mente de jovens que moram em regiões periféricas do Rio de Janeiro (RJ). No início, seu projeto, chamado Turma Jovelina, realizava festivais para integrar a Arena Carioca Jovelina Pérola Negra ao sistema de educação do bairro da Pavuna.
“A ideia é estimular o pensamento crítico, não oferecendo necessariamente respostas, mas questionamentos que movem transformações no âmbito mental, educacional e social”, resume o bacharel em filosofia, criador e coordenador da iniciativa, que cresceu e agora passou a se chamar Pensadores Cariocas.
Nos encontros, que chegam a ser realizados durante três dias nas escolas, o filósofo utiliza ações não formais de educação, para tornar o ambiente escolar atraente e levar a filosofia de forma prática. “Nós debatemos questões do bairro em que os estudantes transitam, da comunidade em que moram e dos acontecimentos em suas vidas. Nestas dinâmicas, ninguém é superior, mais inteligente ou importante que ninguém.”
Em um primeiro momento, você pode imaginar que os pensadores são os professores, mas Miranda explica que esses filósofos são, na verdade, os alunos. “Como profissional da filosofia, neste atual século que a gente está vivendo, a minha função é criar dispositivos para que todos possam pensar filosoficamente. Os pensadores cariocas são os estudantes, que passam pelo projeto, que se tornam os pensadores.”
Por enquanto, as oficinas acontecem em Pavuna e Costa Barros, regiões periféricas da zona norte do Rio de Janeiro. Para 2020, ele deve ser ampliado alcançando novos lugares: Maré, Complexo do Alemão e Caju, que também ficam na zona norte da cidade, a Rocinha, que fica na zona sul, e a Vila Kennedy, que fica na zona oeste.
No áudio, você conhece mais sobre o projeto e algumas dinâmicas realizadas nas escolas, além de ouvir depoimentos de uma professora e uma aluna de instituição que contou com a iniciativa.
Imagem: Alunos de escola municipal são chamados de “pensadores cariocas” por Pedro Miranda, educador do projeto (crédito: divulgação)
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