Jazz Poética

Jazz Poética

By Jazi RodriguesArtsBooks
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Jazz Poética episodes

  • Elogio da sombra - Jorge Luis Borges
    A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
    pode ser o tempo de nossa felicidade.
    O animal está morto ou quase morto.
    Restam o homem e sua alma.
    Vivo entre formas luminosas e vagas
    que ainda não são as trevas.
    Buenos Aires,
    que dantes se espraiava em arrabaldes
    rumo à planície sem fim,
    voltou a ser a Recoleta, o Retiro,
    as confusas ruas do bairro Once
    e as vacilantes casas velhas
    que ainda chamamos o Sul.
    Houve sempre na minha vida demasiadas coisas;
    Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;
    o tempo foi o meu Demócrito.
    Esta penumbra é lenta e não dói;
    flui por um manso declive
    e é parecida com a eternidade.
    Os meus amigos não têm rostos,
    as mulheres são o que foram há tantos anos,
    as esquinas podem ser outras,
    não há letras nas páginas dos livros.
    Tudo isto deveria amedrontar-me,
    mas é uma doçura
    é um regresso.
    Das gerações de textos que há na terra
    só terei lido uns poucos,
    os que ainda hoje leio na memória,
    lendo-os e transformando-os.
    Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
    convergem os caminhos que me trouxeram
    ao meu secreto centro.
    Esses caminhos foram ecos e passos,
    mulheres, homens, agonias, ressurreições,
    dias e noites,
    devaneios e sonhos,
    cada ínfimo instante de outrora
    e dos outroras do mundo,
    a firme espada do dinamarquês
    e a lua do persa,
    os actos dos mortos,
    o partilhado amor, as palavras,
    Emerson e a neve e tantas coisas.
    Agora posso esquecê-las.
    Chego ao meu centro,
    à minha álgebra e à minha chave,
    ao meu espelho.
    Em breve saberei quem sou.
    Tradução de Fernando Pinto do Amaral
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    4 min
  • Eclesiastes 1
    Neste capítulo bíblico do livro de Eclesiastes, é dado início a uma série de profundas reflexões trazidas pelo rei Salomão. No capítulo inicial, o sábio dá ênfase a ausência de sentido em algumas frentes da vida e fala como são temporários e cansativos os anseios humanos.
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    5 min
  • Caminho - Clarice Lispector
    Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter... calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida.
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    2 min
  • Sombras - Jazi Rodrigues
    Esta superfície?
    Não é real.
    Queres o real?
    O verossímel ?
    Esse só nasce nos decursos
    Hiatos, que se interligam
    Em lembranças pretéritas.
    No presente, nada se percebe;
    No agora a retina
    Apenas recolhe pedaços
    de superfícies, de veredas,
    e não se dá conta que as enfeixa
    para um dia pincelar mosaicos
    que serão telas
    de espaços visitados.
    O tangível hábito o futuro.
    O presente é invisível
    Nele tateiamos
    Absorvendo energia e vibrações
    Correntes e impressões,
    Que só terão substância
    No rangido abrir da janela envelhecida
    No bocejar da boca octagenária.
    É só lá que as sombras se esvaem
    E o que era fóssil
    Em pedra angular, emerge.
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    3 min
  • Fagulha - Ana Cristina César
    Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
    Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando
    Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
    Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
    Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
    Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio
    Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las
    Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
– Ana Cristina Cesar, em “A teus pés”. São Paulo: Brasiliense, 1982.
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    2 min
  • Mestre - Álvaro de Campos
    — Álvaro de Campos (um dos muitos heterônimos de Fernando Pessoa), in “Poesias” {15-1-1928}.
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    6 min
  • Evocação do Recife - Manuel Bandeira
    Recife
    Não a Veneza americana
    Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
    Não o Recife dos Mascates
    Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
    — Recife das revoluções libertárias
    Mas o Recife sem história nem literatura
    Recife sem mais nada
    Recife da minha infância
    A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
    e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
    Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
    na ponta do nariz
    Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
    mexericos namoros risadas
    A gente brincava no meio da rua
    Os meninos gritavam:
    Coelho sai!
    Não sai!
    A distância as vozes macias das meninas politonavam:
    Roseira dá-me uma rosa
    Craveiro dá-me um botão
    (Dessas rosas muita rosa
    Terá morrido em botão...)
    De repente
    nos longos da noite
    um sino
    Uma pessoa grande dizia:
    Fogo em Santo Antônio!
    Outro contrariava: São José!
    Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
    Os homens punham o chapéu saíam fumando
    E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.
    Rua da União...
    Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
    Rua do Sol
    (Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
    Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
    ...onde se ia fumar escondido
    Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
    ...onde se ia pescar escondido
    Capiberibe
    — Capibaribe
    Lá longe o sertãozinho de Caxangá
    Banheiros de palha
    Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
    Fiquei parado o coração batendo
    Ela se riu
    Foi o meu primeiro alumbramento
    Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
    E nos pegões da ponte do trem de ferro
    os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras
    Novenas
    Cavalhadas
    E eu me deitei no colo da menina e ela começou
    a passar a mão nos meus cabelos
    Capiberibe
    — Capibaribe
    Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
    Com o xale vistoso de pano da Costa
    E o vendedor de roletes de cana
    O de amendoim
    que se chamava midubim e não era torrado era cozido
    Me lembro de todos os pregões:
    Ovos frescos e baratos
    Dez ovos por uma bataca
    Foi há muito tempo...
    A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
    Vinha da boca do povo na língua errada do povo
    Língua certa do povo
    Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
    Ao passo que nós
    O que fazemos
    É macaquear
    A sintaxe lusíada
    A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
    Terras que não se sabia onde ficavam
    Recife...
    Rua da União...
    A casa de meu avô...
    Nunca pensei que ela acabasse!
    Tudo lá parecia impregnado de eternidade
    Recife...
    Meu avô morto.
    Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
    como a casa de meu avô.
    Música: Recife, Cidade Lendária - na voz de Chico Buarque.
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    8 min
  • Se Eu Fosse um Padre - Mário Quintana
    Mario Quintana, poeta pertencente à segunda geração do modernismo, é um dos mais importantes poetas brasileiros. Seus poemas, expressos em uma linguagem simples, mas extremamente poética e reveladora dos sentimentos humanos, apresentam uma dinamicidade de aspectos, o que torna difícil categorizar o autor dentro de uma única característica.
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    2 min
  • Tratado geral das grandezas do ínfimo
- Manuel de Barros
    Manoel Wenceslau Leite de Barros foi um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao pós-Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas europeias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Manoel de Barros falava da infância como um território de liberdade, e defendia o “criançamento” das palavras, ou seja, revolucionar a linguagem da forma como ela nos é apresentada, e fazer dela cenário de brincadeira.
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    2 min
  • Biografia do orvalho - Manuel de Barros
    A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou — eu não
aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
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    2 min

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