Jazz Poética

Jazz Poética

By Jazi RodriguesArtsBooks
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Jazz Poética episodes

  • Convite Triste - Carlos Drummond de Andrade
    Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

[…]
    
Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um umbigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Vamos
    Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(E olhar obsceno e a mão idiota)
e depois vomitar e cair
e dormir.
    ---
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    3 min
  • El Vino - Luciano Cavido
    EL VINO
    Por qué necesitamos de su abrigo
    Para cruzar la noche interminable.
    Por qué con él, el mundo detestable
    Se torna caprichosamente amigo.
    Por qué al calmar mi sed, bebiendo sigo.
    Por qué contigo, Judas no es culpable.
    Dame hoy la respuesta, Vino amable.
    Compañero de reyes y mendigos.
    El elixir sagrado, el sacrificio,
    El éxtasis que anunciará la orgía.
    La sangre derramada por el Cristo.
    El Hombre sin su dios, Tú sin Dionisio.
    Desenmascaras toda hipocresía.
    Oh, Vino, me recuerdas que aún existo.
    ---
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    2 min
  • Corridinho - Adélia Prado -
    O amor quer abraçar e não pode.
    A multidão em volta,
    com seus olhos cediços,
    põe caco de vidro no muro
    para o amor desistir.
    O amor usa o correio,
    o correio trapaceia,
    a carta não chega,
    o amor fica sem saber se é ou não é.
    O amor pega o cavalo,
    desembarca do trem,
    chega na porta cansado
    de tanto caminhar a pé.
    Fala a palavra açucena,
    pede água, bebe café,
    dorme na sua presença,
    chupa bala de hortelã.
    Tudo manha, truque, engenho:
    é descuidar, o amor te pega,
    te come, te molha todo.
    Mas água o amor não é.
    ---
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    1 min
  • Inoportunamente oportuno - Fernanda Candinho
    Gosto tanto do teu tocar,
    Em momentos inoportunos…
    Pois o que é o momento?
    Ou quando seria oportuno?
    Oportunizemos
    Fazemos
    Toquemos
    Momentos,
    Distâncias e,
    Fragmentos de ti e de mim,
    Vestido ao vento,
    Nus em deslumbrantes folhas da
    Figueira, antes da maceração do licor
    De figo doce.
    Delirantes sussurros gemidos
    Em contidos pedidos de
    Quero, mais e mais…
    Repete
    Impele
    Na pele
    Que
    Incita
    Excita
    Intensifica
    A tensão
    Dos pés ao
    coração, que
    Palpita e
    segurando
    firme minha
    Mão
    Vai
    Paixão…
    ---
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    4 min
  • Amor de Tarde - Mario Benedetti
    Es una lástima que no estés conmigo
    cuando miro el reloj y son las cuatro
    y acabo la planilla y pienso diez minutos
    y estiro las piernas como todas las tardes
    y hago así con los hombros para aflojar la espalda
    y me doblo los dedos y les saco mentiras.
    Es una lástima que no estés conmigo
    cuando miro el reloj y son las cinco
    y soy una manija que calcula intereses
    o dos manos que saltan sobre cuarenta teclas
    o un oído que escucha como ladra el teléfono
    o un tipo que hace números y les saca verdades.
    Es una lástima que no estés conmigo
    cuando miro el reloj y son las seis.
    Podrías acercarte de sorpresa
    y decirme "¿Qué tal?" y quedaríamos
    yo con la mancha roja de tus labios
    tú con el tizne azul de mi carbónico.
    ---
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    2 min
  • O amor natural - Carlos Drummond de Andrade
    Amor — pois que é palavra essencial —
    comece esta canção e toda a envolva.
    Amor guie o meu verso, e enquanto o guia
    reúna alma e desejo, membro e vulva.
    Quem ousará dizer que ele é só alma?
    Quem não sente no corpo a alma expandir-se
    até desabrochar em puro grito
    de orgasmo, num instante de infinito?
    O corpo noutro corpo entrelaçado,
    fundido, dissolvido, volta à origem
    dos seres, que Platão viu completados:
    é um, perfeito em dois; são dois em um.
    Integração na cama ou já no cosmo?
    Onde termina o quarto e chega aos astros?
    Que força em nossos flancos nos transporta
    a essa extrema região, etérea, eterna?
    Ao delicioso toque do clitóris,
    já tudo se transforma, num relâmpago.
    Em pequenino ponto desse corpo,
    a fonte, o fogo, o mel se concentraram.
    Vai a penetração rompendo nuvens
    e devassando sóis tão fulgurantes
    que nunca a vista humana os suportara,
    mas, varado de luz, o coito segue.
    E prossegue e se espraia de tal sorte
    que, além de nós, além da própria vida,
    como ativa abstração que se faz carne,
    a ideia de gozar está gozando.
    E num sofrer de gozo entre palavras,
    menos que isto, sons, arquejos, ais,
    um só espasmo em nós atinge o clímax:
    é quando o amor morre de amor, divino.
    Quantas vezes morremos um no outro,
    no úmido subterrâneo da vagina,
    nessa morte mais suave do que o sono:
    a pausa dos sentidos, satisfeita.
    Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
    estendidos na cama, qual estátuas
    vestidas de suor, agradecendo
    o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
    ---
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    9 min
  • Travessia - Jazi Rodrigues
    Do cinzento e sombria cais
    a última caravela de asas o levou
    Raptado
    nas infinitas linhas do ar
    entre céu e mar.
    Foi arremessado…
    Presa em garras de águia
    Levado por forças do infinito
    Pulmão estraçalhado
    Grunhiu seu último pedido de socorro,
    Porém ao longe
    Ouviu apenas o eco lírico
    Com sotaque do sul
    Dando um (a deus) niilista
    Vaticinando e sepultando
    o mais puro e eterno dos sentimentos
    Cerrando os céus
    para o tão idílico voo à dois
    Chuvas negras percorreram
    a janela dos seus olhos
    correntes inundaram
    o peito tatuado de sonhos…
    No calor do rapto
    Se entregou à dor calada
    De réptil devorado
    na cadeia animal
    Na cadência lenta
    das nuvens de perdidos planos
    O percurso da vastidão dos dias
    Como ar quente e
    seco de indiferença
    asfixiava-o nos silêncios de horas,
    dias e meses
    atestando que alem daquele oceano
    nem amistosidade anfitriã existia
    Muito menos o Farol de amor
    que tudo ilumina enquanto espera…
    Ilhado
    suas noites passariam em breu.
Sob a fria luz da Lua
    como condenado em cela
    perpétua no meio do mar
    Seus restos mortais
    como destroços
    Foram encontrados
    no fundo azul marinho
    De uma naufraga travessia.
    ---
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    4 min
  • Emergência - Mário Quintana
    Quem faz um poema abre uma janela.
    Respira, tu que estás numa cela abafada,
    esse ar que entra por ela.
    Por isso é que os poemas têm ritmo
    - para que possas profundamente respirar.
    Quem faz um poema salva um afogado.
    ---
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    1 min
  • Nós, latino-americanos - Ferreira Gullar
    Somos todos irmãos
    mas não porque tenhamos
    a mesma mãe e o mesmo pai:
    temos é o mesmo parceiro
    que nos trai.
    Somos todos irmãos
    não porque dividamos
    o mesmo teto e a mesma mesa:
    divisamos a mesma espada
    sobre nossa cabeça.
    Somos todos irmãos
    não porque tenhamos
    o mesmo berço, o mesmo sobrenome:
    temos um mesmo trajeto
    de sanha e fome.
    Somos todos irmãos
    não porque seja o mesmo sangue
    que no corpo levamos:
    o que é o mesmo é o modo
    como o derramamos.
    ---
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    3 min

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