Jazz Poética

Jazz Poética

By Jazi RodriguesArtsBooks
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Jazz Poética episodes

  • O mundo do menino impossível - Jorge de Lima
    Fim da tarde, boquinha da noite
    com as primeiras estrelas
    e os derradeiros sinos.
     
    Entre as estrelas e lá detrás da igreja
    surge a lua cheia
    para chorar com os poetas.
     
    E vão dormir as duas coisas novas desse mundo:
    o sol e os meninos.
     
    Mas ainda vela
    o menino impossível
    aí do lado
    enquanto todas as crianças mansas
    dormem
    acalentadas
    por Mãe-negra Noite.
    O menino impossível
    que destruiu
    os brinquedos perfeitos
    que os vovós lhe deram:
     
    o urso de Nürnberg,
    o velho barbado jagoeslavo,
    as poupées de Paris aux
    cheveux crêpes,
    o carrinho português
    feito de folha-de-flandres,
    a caixa de música checoeslovaca,
    o polichinelo italiano
    made in England,
    o trem de ferro de U. S. A.
    e o macaco brasileiro
    de Buenos Aires
    moviendo da cola y la cabeza.
     
    O menino impossível
    que destruiu até
    os soldados de chumbo de Moscou
    e furou os olhos de um Papai Noel,
    brinca com sabugos de milho,
    caixas vazias,
    tacos de pau,
    pedrinhas brancas do rio…
     
    “Faz de conta que os sabugos
    são bois…”
    “Faz de conta…”
    “Faz de conta…”
    E os sabugos de milho
    mugem como bois de verdade…
     
    e os tacos que deveriam ser
    soldadinhos de chumbo são
    cangaceiros de chapéus de couro…
     
    E as pedrinhas balem!
    Coitadinhas das ovelhas mansas
    longe das mães
    presas nos currais de papelão!
     
    É boquinha da noite
    no mundo que o menino impossível
    povoou sozinho!
     
    A mamãe cochila.
    O papai cabeceia.
    O relógio badala.
     
    E vem descendo
    uma noite encantada
    da lâmpada que expira
    lentamente
    na parede da sala…
     
    O menino pousa a testa
    e sonha dentro da noite quieta
    da lâmpada apagada
    com o mundo maravilhoso
    que ele tirou do nada…
     
    Chô! Chô! Pavão!
    Sai de cima do telhado
    Deixa o menino dormir
    Seu soninho sossegado
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    4 min
  • Mulher Proletária - Jorge de Lima
    Nesse poema o poeta escancara o que a socióloga e feminista Heleieth Saffioti aborda com tanto esmero em seu livro Mulher e Luta de Classes: a opressão da mulher está diretamente ligada à opressão das classes trabalhadoras, ao capitalismo – o último estágio do patriarcado. Mas também sustenta que a luta contra a exploração do trabalhador deve estar ligada diretamente a uma nova concepção de relações entre os gêneros – e vice-versa. Ao contrário das máquinas burguesas que salvam o seu proprietário, os filhos – produtos da “fábrica mulher” – são novamente alienados e subtraídos pelo patrão. Nas duas estrofes de Mulher proletária, Jorge de Lima lança um manifesto poético pela liberdade de mulheres e homens trabalhadores.
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    1 min
  • “(sem título)” - Fernanda Candinho
    Deus está em todo lugar
    No nu do céu, o vejo
    Os pássaros em fila no fio
    Neles também o vejo
    No espelho ao amanhecer, o vejo
    Na minha nudez e sensatez
    Na igreja no sermão,
    Eu também o vejo em você
    No seu corpo sacramentado
    Em seu olhar onde há pecado
    Em suas mãos suadas e aceleradas
    No seu tocar sem piedade
    O vejo, no céu, no voar
    No olhar e no tocar
    Com paixão de quem ainda
    Sente o prazer natural latente
    Em suas inquietas mãos
    Ao som* do órgão fazendo eco,
    No escuro* da catedral
    Pois, não há lugar que Deus não está
    Até na igreja você pode o encontrar. * - Grifos do narrador.
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    2 min
  • Poema do Cristão- Jorge de Lima
    A obra poética de Jorge de Lima apresentou, em suas primeiras publicações, influência do parnasianismo e do simbolismo. Posteriormente, Jorge de Lima aderiu ao modernismo, o que fez com que sua poesia passasse a apresentar temas nativistas de origem popular e africana. Depois, sua poesia expressou uma tendência ao misticismo, fase em que seus poemas apresentaram traços de religiosidade. As características mais recorrentes de suas poesias podem ser assim sistematizadas:
    Predileção pelo rigor formal, expresso na busca pelo equilíbrio rítmico e métrico;
    Temas ligados ao Nordeste e às tradições afrodescendentes;
    Temas ligados à religiosidade católica;
    Aspectos surrealistas e simbólicos;
    Uso de metáforas e alegorias;
    Vocabulário sofisticado;
    Presença de paradoxos;
    Tendência à universalidade e à atemporalidade.
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    3 min
  • Psicologia de um vencido - Augusto dos Anjos
    Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
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    2 min
  • O Pastor Amoroso - Alberto Caeiro
    O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
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    2 min
  • Acendedor de Lampiões - Jorge de Lima
    Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
    Este mesmo que vem, infatigavelmente,
    Parodiar o Sol e associar-se à lua
    Quando a sobra da noite enegrece o poente.
     
    Um, dois, três lampiões, acende e continua
    Outros mais a acender imperturbavelmente,
    À medida que a noite, aos poucos, se acentua
    E a palidez da lua apenas se pressente.
     
    Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
    Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
    Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
     
    Tanta gente também nos outros insinua
    Crença, religiões, amor, felicidade
    Como este acendedor de lampiões de rua!
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    2 min
  • Desterro - Alaíde Foppa
    Alaíde Foppa foi uma poetisa, escritora, tradutora, crítica de arte e feminista guatemalteca. Vivia exilada no México quando voltou à Guatemala em dezembro de 1980 e, no dia 19, desapareceu levada pela G-2, polícia política daquele país, então sob ditadura militar.
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    3 min
  • Amor e Crença - Augusto dos Anjos
    Sabes que é Deus?! Este infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres, Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si, num só encanto?

Esse mistério eterno e sacrossanto,
Essa sublime adoração do crente,
Esse manto de amor doce e clemente
Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se quiseres saber a sua grandeza,Estende o teu olhar à Natureza, Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Na altura Imensa, O amor é a hóstia que bendiz a Crença, ama, pois, crê em Deus, e... sê bendita!
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    3 min
  • Thiago de Mello - Para os que Virão
    Amadeu Thiago de Mello foi um poeta, jornalista e tradutor brasileiro. Foi considerado um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional.
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    5 min

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