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LEIO episodes

  • "A propósito de estrelas", de Adília Lopes.

    "Adília Lopes é pura desmistificação. Tudo o que você sabia sobre poesia precisa ser repensado. Não há diferença entre erudição e cultura popular, existe apenas o fim absoluto do preconceito. Ternura e frontalidade. Citação e confissão. Adília é nua." Valter Hugo Mãe, no posfácio do livro "Um jogo bastante perigoso", de Adília Lopes.

    1 min
  • "Olhos parados", de Manoel de Barros.

    Olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.

    Girar os braços, respirar o ar fresco, lembrar dos parentes.
    Lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
    Lembrar que estão longe e ter saudades deles…
    Lembrar da cidade onde se nasceu, com inocência, e rir sozinho.
    Rir de coisas passadas. Ter saudade da pureza.
    Lembrar de músicas, de bailes, de namoradas que a gente já teve.
    Lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente já viu.
    Lembrar de viagens que a gente já fez e de amigos que ficaram longe.
    Lembrar dos amigos que estão próximos e das conversas com eles.
    Saber que a gente tem amigos de fato!
    Tirar uma folha de árvore, ir mastigando, sentir os ventos pelo rosto…
    Sentir o sol. Gostar de ver as coisas todas.
    Gostar de estar ali caminhando. Gostar de estar assim esquecido.
    Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas.

    2 min
  • "Te amo", de Pablo Neruda.

    Te amo

    te amo de uma maneira inexplicável
    de uma forma inconfessável
    de um modo contraditório
    Te amo
    Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos
    e mudar de humor continuadamente
    pelo que você já sabe

    o tempo
    a vida
    a morte

    Te amo
    Te amo, com o mundo que não entendo
    com as pessoas que não compreendem
    com a ambivalência de minha alma
    com a incoerência dos meus atos
    com a fatalidade do destino
    com a conspiração do desejo
    com a ambiguidade dos fatos
    ainda quando digo que não te amo, te amo
    até quando te engano, não te engano
    no fundo levo a cabo um plano
    para amar-te melhor.

    Te amo
    Te amo, sem refletir, inconscientemente
    irresponsavelmente, espontaneamente
    involuntariamente, por instinto
    por impulso, irracionalmente
    de fato não tenho argumentos lógicos
    nem sequer improvisados
    para fundamentar este amor que sinto por ti
    que surgiu misteriosamente do nada
    que não resolveu magicamente nada
    e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada,
    melhorou o pior de mim

    Te amo
    Te amo com um corpo que não pensa
    com um coração que não raciocina
    com uma cabeça que não coordena

    Te amo
    Te amo incompreensivelmente
    sem perguntar-me porque te amo
    sem importar-me porque te amo
    sem questionar-me porque te amo

    Te amo
    simplesmente porque te amo
    eu mesmo não sei por que te amo.

    3 min
  • "Mundo grande", de Carlos Drummond de Andrade.

    Não, meu coração não é maior que o mundo.

    É muito menor.
    Nele não cabem nem as minhas dores.
    Por isso gosto tanto de me contar.
    Por isso me dispo,
    por isso me grito,
    por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
    preciso de todos.

    Sim, meu coração é muito pequeno.

    Só agora vejo que nele não cabem os homens.
    Os homens estão cá fora, estão na rua.
    A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
    Mas também a rua não cabe todos os homens.
    A rua é menor que o mundo.
    O mundo é grande.

    Tu sabes como é grande o mundo.

    Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
    Viste as diferentes cores dos homens,
    as diferentes dores dos homens,
    sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
    num só peito de homem... sem que ele estale.

    Fecha os olhos e esquece.

    Escuta a água nos vidros,
    tão calma, não anuncia nada.
    Entretanto escorre nas mãos,
    tão calma! Vai inundando tudo...
    Renascerão as cidades submersas?
    Os homens submersos - voltarão?

    Meu coração não sabe.

    Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
    Só agora descubro
    como é triste ignorar certas coisas.
    (Na solidão de indivíduo
    desaprendi a linguagem
    com que homens se comunicam.)

    Outrora escutei os anjos,

    as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
    Nunca escutei voz de gente.
    Em verdade sou muito pobre.

    Outrora viajei

    países imaginários, fáceis de habitar,
    ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

    Meus amigos foram às ilhas.

    Ilhas perdem o homem.
    Entretanto alguns se salvaram e
    trouxeram a notícia
    de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
    entre o fogo e o amor.

    Então, meu coração também pode crescer.

    Entre o amor e o fogo,
    entre a vida e o fogo,
    meu coração cresce dez metros e explode.
    - Ó vida futura! Nós te criaremos.

    3 min
  • "Resposta", de Maysa.

    Ninguém pode calar dentro em mim

    Essa chama que não vai passar
    É mais forte que eu
    E não quero dela me afastar

    Eu não posso explicar quando foi

    E nem quando ela veio
    Mas só digo o que penso
    Só faço o que gosto
    E aquilo que creio

    E se alguém não quiser entender

    E falar, pois que fale
    Eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe
    E se a alguém interessa saber
    Sou bem feliz assim
    Muito mais do que quem já falou ou vai falar de mim

    1 min
  • "Muito romântico", de Caetano Veloso.

    Não tenho nada com isso, nem vem falar

    Eu não consigo entender sua lógica
    Minha palavra cantada pode espantar
    E a seus ouvidos parecer exótica

    Mas acontece que eu não posso me deixar

    Levar por um papo que já não deu, não deu
    Acho que nada restou pra guardar ou lembrar
    Do muito ou pouco que houve entre você e eu 

    Nenhuma força virá me fazer calar

    Faço no tempo soar minha sílaba
    Canto somente o que pede pra se cantar
    Sou o que soa eu não douro pílula

    Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior

    Com todo mundo podendo brilhar num cântico
    Canto somente o que não pode mais se calar
    Noutras palavras sou muito romântico

    1 min
  • "O jogo da amarelinha - Capítulo 7", de Julio Cortázar.

    Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

    Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os ciclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.

    3 min
  • "Coisas da terra", de Ferreira Gullar.

    Todas as coisas de que falo estão na cidade

    entre o céu e a terra.
    São todas elas coisas perecíveis
    e eternas como o teu riso
    a palavra solidária
    minha mão aberta
    ou este esquecido cheiro de cabelo
    que volta
    e acende sua flama inesperada
    no coração de maio.

    Todas as coisas de que falo são de carne
    como o verão e o salário.
    Mortalmente inseridas no tempo,
    estão dispersas como o ar
    no mercado, nas oficinas,
    nas ruas, nos hotéis de viagem.
    São coisas, todas elas,
    cotidianas, como bocas
    e mãos, sonhos, greves,
    denúncias,
    acidentes de trabalho e do amor. 

    Coisas,

    de que falam os jornais,
    às vezes tão rudes
    às vezes tão escuras
    que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.

    Mas é nelas que te vejo pulsando,
    mundo novo,
    ainda em estado de soluços e esperança.

    2 min
  • "Trovoa", de Maurício Pereira.

    Ler ou cantar ou ler cantando, virou quase uma oração.

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    Minha cabeça trovoa

    Sob meu peito te trovo e me ajoelho
    Destino canções pros teus olhos vermelhos

    Flores vermelhas, Vênus, bônus

    Tudo o que me for possível ou menos
    Mais ou menos

    Me entrego, ofereço

    Reverencio a tua beleza
    Física também, mas não só
    Não só

    Graças a Deus você existe

    Acho que eu teria um troço
    Se você dissesse que não tem negócio

    Te ergo com as mãos

    Sorrio mal, mal sorrio
    Meus olhos fechados te acossam

    Fora de órbita

    Descabelada
    Diva, súbita, súbita

    Seja meiga, seja objetiva

    Seja faca na manteiga
    Pressinto como você chega ligeira
    Vasculhando a minha tralha
    Bagunçando a minha cabeça

    Metralhando na quinquilharia

    Que carrego comigo
    Clipes, grampos, tônicos
    Toda a dureza incrível do meu coração
    Feita em pedaços

    Minha cabeça trovoa

    Sob teu peito eu encontro
    A calmaria e o silêncio
    No portão da tua casa no bairro

    Famílias assistem TV, eu não

    Às 8:00 da noite
    Eu fumo um Marlboro na rua como todo mundo
    E como você, eu sei, quer dizer
    Eu acho que sei, eu acho que sei

    Vou sossegado e assobio

    E é porque eu confio em teu carinho
    Mesmo que ele venha num tapa
    E caminho a pé pelas ruas da Lapa
    Logo cedo, vapor, acredita?

    A fuligem me ofusca

    A friagem me cutuca
    Nascer do sol visto da Vila Ipojuca

    O aço fino da navalha me faz a barba

    O aço frio do metrô
    O halo fino da tua presença

    Sozinha na padoca em Santa Cecília

    No meio da tarde
    Soluça, quer dizer, relembra

    Batucando com as unhas coloridas

    Na borda de um copo de cerveja
    Resmunga quando vê
    Que ganha chicletes de troco

    Lebrando que um dia eu falei

    Sabe, você tá tão chique
    Meio freak, anos 70, fique, fica comigo
    Se você for embora eu vou virar mendigo

    Eu não sirvo pra nada

    Num' vou ser teu amigo
    Fique, fica comigo

    Minha cabeça trovoa

    Sob teu manto me entrego
    Ao desafio de te dar um beijo
    Entender o teu desejo

    Me atirar pros teus peitos

    Meu amor é imenso
    Maior do que penso
    É denso

    Espessa nuvem de incenso de perfume intenso

    E o simples ato de cheirar-te
    Me cheira à arte, me leva à Marte
    A qualquer parte, a parte que ativa a química
    Química

    Ignora a mímica

    E a educação física
    Só se abastece de mágica
    Explode uma garrafa térmica

    Por sobre as mesas de fórmica

    De um salão de cerâmica
    Onde soem os cânticos
    Convicção monogâmica

    Deslocamento atômico

    Para um instante único
    Em que o poema mais lírico
    Se mostre a coisa mais lógica

    E se abraçar com força descomunal

    Até que os braços queiram arrebentar
    Toda a defesa que hoje possa existir
    E por acaso queira nos afastar

    Esse momento tão pequeno e gentil

    E a beleza que ele pode abrigar
    Querida, nunca mais se deixe esquecer
    Aonde nasce e mora todo o amor

    4 min

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