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"Adília Lopes é pura desmistificação. Tudo o que você sabia sobre poesia precisa ser repensado. Não há diferença entre erudição e cultura popular, existe apenas o fim absoluto do preconceito. Ternura e frontalidade. Citação e confissão. Adília é nua." Valter Hugo Mãe, no posfácio do livro "Um jogo bastante perigoso", de Adília Lopes.
Olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
Te amo
Não, meu coração não é maior que o mundo.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Tu sabes como é grande o mundo.
Fecha os olhos e esquece.
Meu coração não sabe.
Outrora escutei os anjos,
Outrora viajei
Meus amigos foram às ilhas.
Então, meu coração também pode crescer.
Ninguém pode calar dentro em mim
Eu não posso explicar quando foi
E se alguém não quiser entender
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/04/maria-homem-viuva-de-contardo-calligaris-lembra-a-relacao-com-ele.shtml
Não tenho nada com isso, nem vem falar
Mas acontece que eu não posso me deixar
Nenhuma força virá me fazer calar
Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior
Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os ciclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.
Todas as coisas de que falo estão na cidade
Coisas,
Ler ou cantar ou ler cantando, virou quase uma oração.
Minha cabeça trovoa
Flores vermelhas, Vênus, bônus
Me entrego, ofereço
Graças a Deus você existe
Te ergo com as mãos
Fora de órbita
Seja meiga, seja objetiva
Metralhando na quinquilharia
Minha cabeça trovoa
Famílias assistem TV, eu não
Vou sossegado e assobio
A fuligem me ofusca
O aço fino da navalha me faz a barba
Sozinha na padoca em Santa Cecília
Batucando com as unhas coloridas
Lebrando que um dia eu falei
Eu não sirvo pra nada
Minha cabeça trovoa
Me atirar pros teus peitos
Espessa nuvem de incenso de perfume intenso
Ignora a mímica
Por sobre as mesas de fórmica
Deslocamento atômico
E se abraçar com força descomunal
Esse momento tão pequeno e gentil
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