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“A queda da casa de Usher” é um dos contos mais famosos de Edgar Allan Poe (1809-1849), auge do gênero gótico, conjurando temas profundos: o duplo na literatura, loucura, família, isolamento e identidades metafísicas. Narrado pelo inominado amigo de infância de Roderick Usher com seus fluxos de consciência e perguntas retóricas, desperta sentimentos antagônicos, em especial quando os personagens estão frente a frente com o silêncio. Ao descrever o amigo, o leitor percebe que Usher tem seus cinco sentidos alterados, um homem com radiação de tristeza e que derrama lágrimas passionais por Lady Madeline, sua irmã. São gêmeos intrinsicamente ligados, de corpo e alma. Morando por todas as gerações numa casa imensa e macabra, que guarda em suas pedras as energias de todos os antepassados, sempre em linha direta de descendência, uma hereditariedade invariável. Justamente essa descendência colateral é o que pode ter causado o comportamento e a vivência patológicos. Assim, as ruínas anunciadas no título do conto não se referem apenas à residência dos Usher, mas também a esta própria relação estranha e condenada entre os irmãos. "A Queda da Casa de Usher" foi publicado pela primeira vez em setembro de 1839 na Burton's Gentleman's Magazine. Hoje, publicamos a nova produção de nosso conto piloto do LdO, agora com a tradução do carioca Romildo Muniz. Boa leitura!
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Retrospectiva: era 26 de janeiro de 2024 quando decidimos fazer um projeto de sete semanas e um livro inteiro. Assim, em fevereiro concluímos Noite na Taverna (1855), publicando, semana a semana, cada um dos seus sete capítulos. Agora, pensamos que, ao invés de pular uma semana sem publicação de episódio aqui no Leitura de Ouvido, ao final desta quinta temporada vamos agir diferente. Renderizamos o livro inteiro e publicamos hoje, pelo garbo desta obra na literatura brasileira e dos frutos e depoimentos que tivemos sobre ela, ao longo do ano.
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“O carbúnculo azul” é um dos doze contos de As Aventuras de Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) e acontece exatamente num Natal do século XIX. O sinistro começa dia 22, com o sumiço de uma pedra preciosa diferenciada, da condessa de Morcar, roubada no Hotel Cosmopolitan, em Londres. Eis que o chamado carbúnculo azul vai parar justamente na goela de uma ave de Natal, que na história é chamada de ganso. E um jovem encanador vai preso. Um chapéu é perdido. Diante de todas essas pontas soltas, o conto inicia com a clássica conversa entre os dois amigos, Watson e Sherlock, no apartamento 221B, de Baker Street, apresentando os fatos concretos que temos e as valorosas deduções deste que é um dos detetives mais famosos da literatura mundial. Os jornais são pauta de pesquisa e investigação, acompanhados da infalível técnica dedutiva e da a incisiva postura: “Meu nome é Sherlock Holmes e meu trabalho consiste em saber o que os outros não sabem”. Nesta história, em suas próprias palavras, o acaso trouxe à dupla um problema dos mais curiosos e caprichosos. “Só o fato de o ter resolvido é satisfação”. A revelação, ao desvendar o sinistro, é um dos pontos altos para o leitor. Boa leitura!
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“O abeto de Natal” é um conto “exame de consciência”, do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805- 1875). Partindo do hábito de escolher uma nova árvore de Natal a cada fim de ano, o conto desenrola diversas metáforas, a partir da ansiedade e dos desejos desmesurados de uma árvore de abeto. "Oh, como eu desejo! Eu não sei o que se passa comigo!?” Os mais experientes lhe diziam: “Alegra-te em sua juventude”. Mas o abeto era jovem e sem entendimento. Enfim, chega o dia do esplendor do abeto, escolhido para ser árvore de Natal. Mas após a noite brilhosa, ele vive seus exames de consciência: “ele teve muito tempo para sonhar, à medida que os dias e as noites se passavam”. Com esse cenário, esse conto pode nos ajudar a pensar em ansiedades: o que fiz com meu ano? O que estou fazendo da minha vida? Digamos que é um conto: “cuidado com o que deseja” que pode ajudar a tirar viseiras e também a perceber um bocado da lei de Murphy de que “tudo sempre pode piorar”. As metáforas perpassam a lebre, as andorinhas, a cegonha, os raios de sol, os pardais e o ar, a luz do dia e até os ratos; bem como as estações do ano, dando conta de três invernos, além do outono e da primavera.
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“O sobrenatural” é um conto de Florbela Espanca (1894-1930) que versa sobre aventuras da juventude e mistério. Três rapazes, Castro Franco, Paulo Freitas e Mário de Menezes, estavam em uma comemoração, junto com três raparigas “de vida fácil”. Uma delas, era a distinta Gatita Blanca, com seus olhos verdes oblíquos e semi-cerrados. O texto evoca grande fluxo de consciência, enquanto a chuva castigava as vidraças, em especial quando Mário de Menezes retorna a uma história de seus 24 anos, como forma de responder a uma pergunta insistente no gabinete: “o que é um burguês?” Deste território de burguesia aparentemente leviano, o conto florbeliano galga profundezas, para focar em sensações e na apreensão que o desconhecido causa a qualquer pessoa, até o passo do sinistro, para concluir que “o tempo não é de todos os mundos. O sobrenatural não tem lógica nem limites”. O passado contado por Mário de Menezes retorna a um 22 de dezembro e rememora o madeiro de azinho que ardia no fogo, dando o clima para reuniões familiares, em remotos Natais. Até que chega o medo, diante do sobrenatural, em uma noite de Natal. Boa leitura!
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"O elixir da longa vida" é do fundador do Realismo francês e criador de A Comédia Humana, Honoré de Balzac (1799-1850). Sete mulheres abrem a cena no palácio de Ferrara, ao lado do príncipe Belvidero, o que nos indica uma das construções históricas de Don Juan. A luxuosa história que põe a mão numa das características da alma humana, trabalhando os liames do bem e do mal, tem aqui um toque de Fantástico. Aliás, para Balzac, nenhum homem ou mulher é totalmente bom ou ruim. É sempre uma mescla desses dois poderes que formam a humanidade. E assim, Bartolomeu Belvidero já era nonagenário quando o filho foi chamado ao seu leito de morte. É nesta cena que ele apresenta a Don Juan o elixir da longa vida, pedindo ao seu herdeiro que seguisse determinados passos e o ressuscitasse, para a vida eterna. Mas ideias suscitam na cabeça desonesta do jovem e uma reviravolta acontece. O conto segue narrando a vida de Don Juan até seus 60 anos, descortinando sua postura com as pessoas e com si mesmo, em especial com as cortesãs que conquistam seu caminho. A Comédia Humana é obra monumental, com 137 livros pensados e 89 executados, contendo mais de 2.500 personagens, dos quais cerca de mil deles passeiam de um livro a outro. Boa leitura!
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“A felicidade” (1884) é um conto de Guy de Maupassant (1850-1893) que explora o realismo psicológico francês. Narrado por um idoso viajante, vamos conhecer a história do casal formado por um soldado hussardo e uma dama francesa chamada Suzzane de Sirmont, que fugiu da Capital juntos, há 50 anos, para viver um grande amor. O casal vai se refugiar na Córsega, a ilha montanhosa ao sul da França, situada como a 4ª maior do Mar Mediterrâneo. O texto tem ao menos três camadas, começando com os viajantes que teorizam sobre o amor, tomado no segundo momento pela narrativa do idoso que foi testemunha desse exemplo admirável de amor constante; e culminando na própria história de Mademoseille Suzzane na juventude, quando se apaixonou pelo bonito rapaz, filho de lavradores, que vestia seu dólman azul. Assim, o texto que reflexiona sobre ser possível amar uma única pessoa por tantos anos, a partir da pergunta: “poder-se-á amar muitos anos sem cansaço?” tem a resposta nessa história de amor do século XIX e a transformação que esse sentimento foi capaz de gerenciar, uma vez que, "banal e soberano, é o acordo eterno e misterioso entre dois seres com uma emoção profunda e um interesse ardente”. Boa leitura!
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“A sombra” é um conto misterioso de Coelho Neto (1864-1934) que versa sobre a loucura ao inserir a importância "científica" no nosso cotidiano. Narra a história do médico e cientista Avelar, que matou a esposa “envenenada" por bacilos nocivos à saúde, até que adoecesse e sucumbisse. A motivação, contudo, veio do mundo moral: “o tal micróbio do ciúme. Porque há também micróbios no mundo moral, oh! se os há! São as tais palavras vagas que nos entram n'alma e lá se desenvolvem e proliferam em desconfianças”, justifica-se o personagem. A história é narrada pelo amigo que o visita no Quartel da Brigada e, à medida que se desenrola, mais vai colocando o leitor no papel de detetive. O viés do Naturalismo foi, de fato, o que marcou o início das histórias policiais de Poe, Conan Doyle e Jacques Futrelle. Em 1928, Coelho Neto foi consagrado como “Príncipe dos Prosadores Brasileiros”, escreveu mais de cem livros e aproximadamente 650 contos. Dono de um rico e esplêndido vocabulário deixou-se dominar pela palavra. Sua inclusão entre os pré-modernistas se deve à capacidade imaginadora, à mente intuitiva, que ora se aproxima dos naturalistas, ora se liga aos parnasianos-realistas, ora documenta fatos da República através de uma criação ficcionista vigorosa. Boa leitura!
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“Eros e Psique” é um dos poemas de Fernando Pessoa (1888-1935) que evoca a lenda de uma princesa encantada que dormia, à espera de um infante que tinha que vencer o mal e o bem. É exatamente o desfecho de O Asno de Ouro de Apuleu (século II d.C.) onde são contadas pela primeira vez as aventuras dos dois, num contexto alegórico-romanesco que se manterá, sob diversas formas, nas adaptações que, ao longo dos séculos, se fizeram desses dois personagens. A figura de Eros preexiste à de Psique, embora à força das produções literárias embebidas na mitologia grega, trabalhe a ideia de ambos como interdependentes. Dito isso, nesse episódio vamos abrir informações sobre a mitologia grega que sustenta o encontro entre esses dois personagens. Aos gregos, Eros é a figura alegórica do amor; Psique é a figura alegórica da alma. Em suas camadas mais profundas, podemos interpretar que Pessoa propõe-se a trabalhar com a ideia de alma gêmea, uma vez que, no último verso, quando Eros encontra Psique, vai enxergar a si mesmo. “E vê que ele mesmo era/ A princesa que dormia”. Esse episódio conta ainda com mais duas poesias de Pessoa datadas de 1935, ano de sua morte: “Azul, ou verde, ou roxo, quando o sol”; e “Começa a ir ser dia”. Nessas, ele continua explorando o mesmo território de Eros e Psique: “quem sabe o que é a alma?”
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“O cemitério” (1924) é um conto com toques realistas e, porque não dizer, naturalistas, de Lima Barreto (1881-1922). Narra uma visita ao cemitério e a observação dos túmulos, gerando sentimentos, como se a matéria fria fosse capaz disso. Nas lápides, o narrador impressiona-se com o esforço manifestado pela implantação de esculturas e investimentos em pirâmides, para tentar manter a diferença social, deixar saber quais são os túmulos pobres e ricos, mas todos são simplesmente, mortos. É um “mudo laboratório de decomposição”. Até que ele enxerga a lápide de uma moça, “bela mulher!” exclama, como se a contemplasse na Rua do Ouvidor. É a partir desse ponto que vem a descrição naturalista, seguido da composição completa que o narrador faz, a partir do par de olhos que contempla no túmulo. No conto, ele segue a "meditar como um cientista-profético-hebraico”, por isso, emerge na história variadas impressionâncias. O cemitério, aliás, é um ambiente sobre o qual Lima versou bastante. Uma de suas obras mais conhecidas é Cemitério dos Vivos, um romance inacabado escrito entre 1919 e 1920. A obra foi publicada postumamente em 1957. Exatamente hoje, 1º de novembro, completa-se 102 anos da morte do autor. Boa leitura!
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