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“Poema Negro” é do escritor paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914) com versos que remetem à consciência sobre a finitude da vida e sobre a passagem do tempo. Promove um cenário com “sombria análise das cousas”. Faz parte de sua coleção no solitário livro Eu e outras poesias (1912) e, portanto, é um bom exemplar para ser contemplado e analisado no mês do Halloween. O clima da construção poética é a noite, como já evoca o título, mas do breu, Augusto dos Anjos vai elucidando algumas simbologias que remetem ao seu estado de realidade: “Para iludir minha desgraça, estudo./ Intimamente sei que não me iludo”; bem como ao sonho, sequência marcada a partir do verso: “surpreendo-me sozinho numa cova” e que vai culminar numa viagem para Roma em Sexta-feira Santa e num encontro com Jesus, esquelético. Vem uma estrofe com insistentes repetições, que talvez remetam ao ciclo inerente ao ser humano: caindo (2x) e declínio (3x). Sobre os temas de suas poesias, a morte e toda a energia que esse acontecimento de finitude engloba, é um dos mais presentes. Daí a alcunha “O Poeta da Morte”: Boa leitura!
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“O ladrão de cadáveres” (1884) é conto do escritor escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894) no qual se tem forte a alegoria do bem e do mal em guerra um contra o outro. É a história do velho bêbado escocês, Fettes, homem de inegável instrução e também de algumas posses, já que vivia na ociosidade. Ao ouvir o nome do médico que viera de Londres, Dr. Wolfe Macfarlane, ele retorna a uma memória da juventude, com quem estudou Medicina em Edimburgo, na posição de monitor da turma. À ocasião, o filtro da ética de Fettes acende-se quando recebe o corpo de uma moça que ele quis namorar no dia anterior e que gozava de perfeita saúde. A isso, Macfarlane avança sobre Fettes com um discurso pesado de profecia, materializada na metáfora de que: de um lado, estão os leões, que têm coragem e sabedoria; e de outro, os cordeiros, que são desrespeitados e assassinados, indo parar na mesa de dissecação. Ao passo que a narrativa revela como ambos foram cúmplices de inúmeros casos ilícitos para obter corpos para os estudos, culminando no clássico caso da “consciência pesada”, emerge a prosa rica e sutil de Stevenson, que dá à história profundo sentido de beleza literária e tensão. A grande conclusão é que “os maus não têm descanso”. Boa leitura!
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“A dança dos ossos” (1871) é um conto em quatro capítulos de Bernardo Guimarães (1825-1884). O escritor brasileiro faz uma narrativa folclórica e bem-humorada, de aventuras contadas ou ouvidas pelo narrador viajante, que achega-se defronte ao fogo com os caboclos, às margens do Rio Parnaíba, entre Minas Gerais e Goiás. O principal interlocutor do viajante é o barqueiro Cirino, a quem cabe narrar a história da Dança dos Ossos. Ele é comparado à Caronte, barqueiro do submundo da Mitologia Grega.
Cirino refere-se à dança dos ossos que ocorre em toda sexta-feira, noite em que não se pode entrar na floresta sem se defrontar com o espetáculo sinistro e horripilante. O causo contado por ele é acompanhado com curiosidade pelo narrador, a que Cirino chama de “Meu Amo” ou de “Vm.". Um dos ensejos é o querer saber "quantos ossos há no corpo humano?" já que os ossos do defunto estão espalhados pela floresta. A resposta, damos nós: são 206 os chamados ossos constantes, em um adulto. O que traz o inverossímil à história é também o fato de que a conversa do barqueiro é regada a “tragos”, o que significa que não estava sóbrio nem quando deparou-se com a caveira, nem no momento em que conta a história. “A dança dos ossos” consta no livro “Lendas e Romances”, publicado em 1871, o menos conhecido de Bernardo Guimarães, no qual faz construções sintáticas e expressões bem brasileiras. Boa leitura!
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“O fabricante de caixões” (1830) é um dos cinco Contos de Belkin, escritor fictício criado pelo gênio russo Alexander Pushkin (1799-1837), no qual vamos conhecer Adrian Prokhoroff, cuja profissão é mesmo essa. Na Rússia do século XIX, além do caixão ele dispunha de outros estoques mortuários aos seus clientes, como chapéus de luto, mantos e tochas. Como qualquer negócio, ele não poderia deixar de pensar na sustentação do seu, o estranho é o ter que desejar que convalescentes, como a esposa do comerciante, uma vez falecendo, ainda fosse ele a ser procurado para encomendar tudo e não o concorrente. Afinal, “os mortos não podem viver sem caixão”. A história começa com o fabricante de caixões saindo de sua zona de conforto, com a mudança de residência do casebre para a casa maior, com as filhas e a criada. Logo, conhece os vizinhos e é convidado para uma festa. Depois disso e muita bebedeira, bem, quem nunca foi dormir contrariado? O texto de Pushkin cheira temperança no irreverente, fazendo seu narrador conversar diretamente com o leitor. Publicados em 1830, como parte de uma coletânea desse narrador fictício, teriam sido encontrados e complicados em livro por um suposto editor. O feito demonstra a maestria de um dos mais importantes e precursores da literatura russa. Boa leitura!
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“A dama branca” é um conto da escritora Grazia Deledda (1871-1936), primeira italiana a ser agraciada com o Nobel de Literatura, em 1926. É um dos seus Contos Sardos, local de nascimento de Grazia, que se dedicou a narrar a beleza, o costume, a cultura e o sobrenatural de sua ilha. O nome “A dama branca” remete, de certa forma, à ideia de uma aparição. E esta manifesta-se em sonho, ao vaqueiro Bellia, contando que haveria uma fortuna escondida em determinado local da floresta e que só caberia a ele, em determinado dia, resgatar. Uma série de adversidades se desenrola na história contada pelo velho Salvatore, para quem trabalham os vaqueiros, sendo a narrativa tomada também pelo pároco nonagenário, de posse do testamento que explicaria todo o mistério. É uma trama repleta de camadas com direito a histórias de amor e de crimes e que remonta à história de tesouros escondidos guardados pelo diabo. Boa leitura!
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“A paixão da leitura” é um ensaio filosófico e bastante didático de Virginia Woolf (1882-1941) sobre a nossa relação com os livros. Logo ao princípio, ela infere o surgimento das bibliotecas e afirma que ler é uma arte muito complexa. Nossa obrigação como leitores são muitas e variadas. Por um lado, devemos nos colocar no banco dos réus e ler sem julgar quem escreveu ou o escrito, mas sim, ler como se estivéssemos escrevendo. Num segundo momento, devemos saber criticar como um juiz, e julgar não apenas os clássicos, mas também os escritores vivos, pois só assim estaremos ajudando a trazer livros bons para o mundo. O ensaio está no livro O Sol e o Peixe, encerrando o capítulo I.A vida e a arte. A relação de Virginia com os livros tem imensas dimensões. Ela escrevia, editava livros à mão, traduzia, debatia e, acima de tudo, ensaiava "Como se deve ler um livro?", em O valor do riso e outros ensaios. Na vertente produção de livros, durante o período entreguerras (1918-1939), o casal Virginia e Leonard Woolf passava o tempo realizando impressão de livros à mão para, alguns anos depois, fundar sua própria editora, a Hogarth Press, que funcionava na sala de estar de casa. Dá para ter uma noção do clima literário a que estavam envolvidos. Boa leitura!
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“Metafísica das Rosas” é um conto com ares de parábola, de Machado de Assis (1839-1908). Começa com “No princípio, era o Jardineiro”, o que imediatamente nos remete às escrituras da Bíblia Cristã. No conto, Machado explora passagens bíblicas que tratam da criação do mundo: [Gênesis 1:1-3] e [João 1:1-5]. O Bruxo recorre novamente à criação do homem e da mulher, criando ele a partir de um tronco de palmeira e um sopro; e ela, de um tronco de laranjeira e um sopro. O homem e a mulher surge nesse jardim de delícias, o Jardim do Éden, justo quando as rosas (que são os pensamentos do jardineiro) estavam insatisfeitas; tiveram uma mudança de comportamento para o triste, porque desejavam a “contemplação de outros olhos”. Esse é um dos “contos abandonados” do Bruxo do Cosme Velho. O que significa que, após sair na Gazeta de Notícias em 1º de dezembro de 1883, ele não o incluiu nas coletâneas posteriores: “Histórias sem Data” (1884) e “Relíquias de Casa Velha” (1906). O conto voltou a sair após a sua morte, em 1908. Mas ao que tudo indica, alguns desses textos abandonados, possivelmente o foram, pelo fato de que Machado estava empregando ainda mais estudos no assunto. Aqui, por exemplo, há a fixação em Metafísica. Neste texto há muitas camadas, diversas pétalas a se conhecer. Boa leitura!
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“Patrióticas” são um conjunto de poesias na Parte Terceira de Dias e Noites (1881), livro do escritor sergipano Tobias Barreto, que recebeu o juízo crítico de Silvio Romero. Neste episódio: "À vista do Recife”, “Pernambuco”, “Os leões do norte”, “Sete de setembro”, “Em nome duma pernambucana”, “Versos escritos num dia nacional”, “Capitulação de Montevidéu”, “A volta dos voluntários”, “Decadência”, “A Polônia”, “A escravidão”, e “A viúva e os filhos do Capitão Pedro Afonso”. Trata-se de uma sequência de cânticos marciais que Tobias Barreto compôs em sua segunda fase poética, a pernambucana, que foi de 1862 a 1881, data da publicação do livro. Era um período guerreiro para o país e a poesia acostumou-se ao retintim das armas. O Recife, onde fora estudar Direito, era a passagem de todos os batalhões do norte e o ardor marcial era geral. À época do segundo império, os poetas compunham parte da aristocracia pensante e Tobias Barreto foi um filósofo, escritor e jurista brasileiro, apesar de sentir-se por vezes discriminado, por ser mestiço. Com Silvio Romero, fundou a Escola do Recife, corrente do pensamento social, filosófico, literária e jurídica que agitou a Faculdade de Direito do Recife nas últimas décadas do século XIX. Hoje a Faculdade é consagrada como "A Casa de Tobias”. Boa leitura!
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“Resistência em musgo” é a história de abertura de Verde Amadurecido, de Daiana Pasquim (1981), livro de contos publicado pela Editora Litteralux, em agosto de 2024. Apresenta um homem de 76 anos, viúvo e que havia desistido de viver. Ele jamais abria as janelas de seu casarão, com três enormes vidraças na frente e frequentemente, fechava as cortinas. Era um saudosista que havia se ramificado em sua própria vida, quando esteve diante da morte, ao se despedir de sua falecida esposa, Adele. A vizinhança também, já o dava como morto. Mas uma única vizinha, uma vez por ano, contratava pessoalmente um serviço de jardinagem para “desenterrar" o vizinho viúvo da grama agigantada, da necessidade de poda das árvores, dos peçonhentos que estavam a invadir. Naquele ano, contudo, a transformação no jardim não aconteceria com naturalidade. Verde Amadurecido recebeu a cuidadosa leitura da premiada escritora Maria Valéria Rezende, que cunhou as seguintes palavras: “(…) Daiana Pasquim explora, nestes contos que transitam pela permeável e vaga fronteira entre concretude e imaginação, com bela sucessão de imagens, riquíssimo vocabulário, inventivas metáforas que nos ajudam a expandir nossa própria imaginação”. Boa leitura!
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"A loucura provinda do mar” é o capítulo 3 de “O chamado de Cthulhu” [(1926)1928], de H.P. Lovecraft (1890-1937) quando o narrador vai mais a fundo na investigação, a partir de encontrar um jornal australiano que cita o acidente com o vapor neozelandês, em 1925. Neste capítulo, o herdeiro do antropólogo prof. Angell faz uma extensa acareação de datas, levanta muitos questionamentos e vai concatenando os fatos, a partir do texto escrito por Gustav Johansen, segundo imediato da Escuna Emma, que após deparar-se com uma monstruosa Acrópole, sofre um envelhecimento abrupto. Neste trecho da narrativa há uma correlação com a Odisseia, de Homero, conectada a partir da frase: “como Polifemo amaldiçoando a nau de Odisseu”, relacionando-se ao Ciclope de um olho só que Ulisses enfrenta e mutila. O que os marinheiros de O Chamado de Cthulhu vivem relaciona-se ao poema épico justamente quando aportam num "litoral que é uma mistura de lama, lodo e ciclópica alvenaria limosa que não pode ser nada menos que a essência tangível do supremo terror da terra - a fantasmagórica cidade-pesadelo de R’lyeh". É arrepiante. Boa leitura!
O Chamado de Cthulhu PARTE 1
O Chamado de Cthulhu PARTE 2
O Chamado de Cthulhu PARTE 3
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