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“O Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa (1888-1935), assinado por seu semi-heterônimo Bernardo Soares é a obra mais importante e mais profunda de Pessoa e a que mais reflete a complexidade da sua mente. É quando o escritor português mais se aproxima do gênero do romance, assemelhando-se a um diário íntimo, ficcionado, escrito por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros, redigido a partir de um escritório da Baixa de Lisboa, num 4.º andar da Rua dos Douradores, no qual expõe as suas vivências, interrogações e reflexões. É interessante que autor e heterônimo se tornam amigos. Esta característica torna o livro singular, já que não tem uma narrativa definida, com princípio, meio e fim. Neste episódio trazemos o Prefácio, no qual Fernando Pessoa e Bernardo Soares se encontram e Pessoa explica como o livro escrito por Bernardo foi parar em suas mãos; e selecionamos mais cinco textos do seu heterônimo. São algumas das poucas linhas desse vasto mundo literário que ainda está sendo inventariado pelos estudiosos, já que na arca de Fernando Pessoa, hoje Espólio de Pessoa na Biblioteca Nacional de Lisboa, tem mais de 25 mil folhas. Boa leitura!
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“Os gatos de Ulthar” é um conto de H.P. Lovecraft (1890-1937) pautado na Mitologia Egípcia, já que para os antigos egípcios, os gatos eram divindades. O conto fantástico do escritor norte-americano narra a história de uma pequena aldeia chamada Ulthar, mais uma das fictícias do universo de Cthulu, onde criou-se uma lei: é proibido matar os gatos. Ao que parece, a lei partiu de um ato de vingança. A história vai apresentando comportamentos dos humanos, frente aos dos gatos e tudo começa com a desconfiança de que um casal de idosos teriam o mau hábito de assassinar qualquer felino que se achegasse de sua cabana. Mas há um dia que uma caravana de viajantes chega a Ultrar e, entre eles, um menino órfão chamado Menes e que tem para si, unicamente, um gatinho preto. A caravana era de pessoas de pele escura que liam a sorte, faziam estranhas orações e adoravam figuras com metade humana, metade animal. Exatamente como é retratada a deusa Bastet, provavelmente a deidade felina mais conhecida do Egito, segundo o Centro Americano de Pesquisa no Egito (Arce). Quando o gato desse menino some, inicia-se uma sequência de insólitos que culmina em mortes e coisas inexplicáveis, com ilusões que impressionam a imaginação.
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Cantos à Beira Mar (1871) é o livro de poesias de Maria Firmina dos Reis (1822-1917) e, por questões didáticas de produção, vamos chamar o episódio de hoje de Parte 3 e final. Hoje lhe apresentamos 26 poemas, dos 56 do livro: "Visão", "O volúvel", "O lazarento", "Um bouquet", "Não, oh! Não", "O proscrito", "A dor, que não tem cura", "O dia de finados", "Queixas", "Hosana!", “Canto", "O pedido", "Amor", "Cismar", “Itaculumim", "À minha extremosa amiga D. Anna Francisca Cordeiro", “Meditação”, "Nas praias de Cumã", "Embora eu goste", "Não quero amar mais ninguém", "Minha alma", "Desilusão"," A vida é sonho”, "Nênia", "À partida dos voluntários da pátria do Maranhão", "Uns olhos” e "A uma amiga”. O primeiro desse conjunto, “Visão”, é dos poemas mais incríveis, com 127 versos rimados e metrificados em decassílabos. É uma longa narrativa de aventura e emoção, com vocabulário diferenciado, o que prova a envergadura intelectual da autora. Em “Nênia”, ela presta homenagem ao poeta romântico Antônio Gonçalves Dias e faz referência ao naufrágio que vitimou o autor, bem como ao seu corpo nunca visto. O marco de 202 anos de nascimento da autora foi em 11 de março. Ao longo de 95 anos, publicou poesias, ensaios, histórias e quebra-cabeças em jornais e revistas locais e também canções abolicionistas, pois foi folclorista e compositora. Boa leitura!
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“Último beijo de amor” é o desfecho de Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo (1831-1852). Com epígrafe de Romeu e Julieta, não se trata de uma história contada por um dos amigos, como nos capítulos anteriores. Outrossim, é narrado por um observador que vê uma moça vestida de preto entrar na taverna e perscrutar os homens dormindo. “O anjo perdido da loucura”, primeiro, mata Johann com um punhal, como vingança. Depois, acorda Arnold, o loiro, que na verdade, é Arthur, do duelo do conto anterior, com Johann. A moça, por sua vez, é G., de Giorgia, que agora sabemos ser a irmã de Johann, que ele deflorou e que acabou se tornando uma prostituta. Com esse desfecho, vamos perceber como Álvares de Azevedo vai dando importância a esse personagem, sem que necessariamente, uma história seja narrada por ele. “Último beijo de amor” amarra os destinos dos amigos e demais personagens, incluindo a taverna, que é o maior deles, posto que é o cenário dessa inventividade fantástica. Boa leitura!
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“Johann” é o sexto capítulo de Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo (1831-1852). Uma das histórias mais curtas do livro, mas nem por isso menos intensa. Tudo se passa em Paris e começa com um jogo, no qual Johann e Arthur se desentendem e decidem que o melhor será resolver tudo em um duelo, a “luta dos homens de brio". Durante a preparação para o acontecimento, Arthur escreve duas cartas e, entre o bilhete, indica um anel e recomenda a Johann que, se por acaso ele perdesse, que fizesse a entrega de suas missivas para a mãe e para a sua amada, G. Johann, uma vez vencedor do duelo, tem a ideia escabrosa de fazer-se passar por Arthur para deflorar, por uma noite, a mulher que ele amava. Ela era virgem! Esse desvio de conduta acaba de forma trágica, com uma revelação lancinante. É o conto que termina em suspenso, à beira do precipício. É a última história contada pelos amigos ébrios. Boa leitura!
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“Claudius Hermann” é o quinto capítulo de Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo (1831-1852). É um conto com muita conversa na taverna, antes de começar propriamente a história. Há filosofia “de bêbado", análise de comportamento, tentativas de um conceito de poesia. A essa altura, os amigos estão mais bêbados que nunca. O conto é um dos pontos altos da ebriedade, tratando de jogo e luxo insaciável. Provavelmente, seja a narrativa mais erótica e romântica do livro, repleta de analogias artísticas e míticas, justamente para evocar todo esse prólogo, antes da história, cujos trechos mais cruéis, muda-se a narrativa para terceira pessoa. Claudius era muito rico e sua história se passa em Londres. Ele se apaixona cegamente pela duquesa Eleonora, a qual vê pela primeira vez como uma Amazona. É uma italiana que arrebata todos os seus planos, para satisfazer o seu desejo. Ele entorpece a moça com um narcótico fortíssimo, a estupra repetidas vezes por um mês, até que decide raptá-la para definir seu destino. Claudius era um maldito poeta. Uma vez mais, assim como conduziram seus amigos, a desculpa de Claudius para seu desvio de comportamento está em agentes externos, para além de suas forças. Está no próprio contexto byronismo, inerente a essa produção publicada em 1855. Boa leitura!
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“Gennaro” é o quarto capítulo de Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo (1831-1852). A história do pintor, na ocasião com 42 anos, rememora as folhas secas, de quando ele tinha 18 anos, na Itália. Gennaro era aprendiz de pintura na casa do velho Godofredo, pintor casado com Nauza, de 20 anos. Godofredo tinha ainda uma filha, Laura, de 15 anos. Neste capítulo, Gennaro vai narrar, a um só fôlego, o triângulo amoroso que vive com as moças e que veio a culminar numa tragédia à tarantela. “Era uma luta terrível entre o dever e o amor; ou entre o dever e o remorso”, explanou. A história gira por mais de um ano, se passa junto com a passagem do tempo, das luas, das estações. Contudo, começa no outono e termina no inverno, o que mantêm o clima gótico da narrativa. Nesse conto, sobressai-se os temas perversos do infanticídio, do envenenamento e do crime passional. E para manter o clima do Byronismo, que inspirava os jovens escritores ultra-românticos brasileiros, temos uma informação de bastidores: “Gennaro lembra vagamente aquilo que Shelley fez com William Godwin, arrebatando-lhe duas filhas (Claire era sua filha adotiva, lembre-se, sendo filha de sua segunda esposa) para suas aventuras” (AGUSTINI, 2020, p.358) Na retórica do personagem Gennaro é interessante notar, assim como ocorre nos demais quatro amigos, uma magistralidade em se colocar como vítima dos ocorridos, não como algoz. Boa leitura!
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“Bertram" é o terceiro capítulo de Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo (1831-1852). Esse personagem é uma persona de Don Juan, na literatura brasileira e nas Notas de Rodapé de hoje, você vai compreender o porquê. Ele tem uma “sina amaldiçoada” e tudo que nos conta, na sua vez de bradar a história mais horripilante entre os amigos, magoa ou destrói a vida de alguém. Sua história passa por assassinato, infanticídio, adultério, naufrágio e a assustadora antropofagia. Muitas mulheres percorrem sua vida em cada um desses acontecimentos, mas tudo começa com uma. Bertram afirma: “uma mulher levou-me à perdição”. Essa mulher é Ângela, uma espanhola que, apesar do nome angelical, revela-se uma assassina e um estereótipo de Don Juan, mais viril que o próprio Bertram. O narrador ainda estraga a vida de uma donzela de 18 anos; e da mulher de um comandante que o acolheu, após salvarem-lhe do suicídio. As cenas são narradas repletas de digressões de Bertram para conversar com a taberneira e pedir mais vinho. A digressão também aparece quando um velho entra na taverna e interrompe a narrativa, filosofa e, ao final, quer beber vinho em uma caveira. Ele lembra Satan, da obra precedente, Macário. Uma narrativa byroniana do começo ao fim! Boa leitura!
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“Solfieri” é o segundo conto de Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo (1831-1852). A história narrada pelo jovem ébrio, na verdade, é uma lembrança de seu passado em Roma. Tudo começa numa madrugada, mas acompanha os atos insólitos de Solfieri durante dois anos de sua vida, no qual persegue um estereótipo de mulher, que ele toma como uma estátua de cera, daquela forma branca de mulher que persegue a sua imaginação e ele quer perpetuar, embora não se importe com o nome dela. Da recordação ao que viveu, narra a sua loucura por conta do “vinho do deleite”, ao cometer necrofilia com o corpo de uma moça que está sendo velado numa igreja. Embriagado, a cena horripilante é amenizada ao debandar para a catalepsia, que acometeria a defunta. Ele então rapta a moça ao seu quarto até que persista seus últimos suspiros. Depois das revelações que deixa os amigos desconfiados a história retorna à taverna, ao cenário de orgia onde os cinco amigos fumam e bebem a longas horas.
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“Uma noite do século” é o prólogo do emblemático livro Noite na Taverna, de Manuel Antonio Alvares de Azevedo (1831-1852), publicado póstumo, por seu pai, três anos após a morte do autor. Foi recebido como o primeiro livro de terror da literatura brasileira, uma prosa narrativa composta por sete capítulos, cinco deles são narrativas macabras dos cinco amigos embriagados e apaixonados: Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e Johann (este, já foi episódio do Leitura de Ouvido em março de 2021). O prólogo situa o cenário de uma noite bebida em taças, entre vapores e loucuras. A orgia com mulheres e amigos ébrios de amores e vinho, quando cada qual decide contar a história mais horripilante que já viveu. É nos contos que Álvares de Azevedo faz conhecer sua imaginação vulcânica, embebida em elementos da cultura gótica, compondo o melhor exemplo de byronismo oitocentista da literatura brasileira. É o poeta de “Se eu morresse amanhã”. Aqui no LdO, nós trazemos hoje e nas próximas seis semanas, cada um dos capítulos do livro, com suas histórias e as análises de nossas Notas de Rodapé. Boa leitura!!
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