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“Confidência” (1865) é uma poesia de 108 versos de Castro Alves (1847-1871) que está no livro Os Escravos (1883), publicado postumamente. Foi escrito no mesmo ano de “O século”, que já foi episódio do LdO, contudo “Confidência” já contem a mesma estrutura poética que “Vozes D’África” (1868), publicado três anos depois: dois versos decassílabos (AA) , um verso hexassílabo(B), dois versos decassílabos (CC), mais um verso hexassílabo (B). Testada a estrutura, eles só diferem no número de estrofes: “Confidência" tem 18 e “Vozes D’África”, 19 estrofes, chegando a 114 versos. Em “Confidência”, o eu-lírico interlocuta com Maria. Enquanto ela enxerga que na alma tem amor e nos vergéis há flores, o narrador estabelece um paradoxo, referindo-se ao negro abutre que esvoaça, ao eco do grito que soluça e questiona: “Liberdade, quando enfim hás de vir?” O poema já ensaia suas críticas à Igreja: “amolando nas páginas da Bíblia o cutelo do algoz”, o que é potencializado nos poemas que viriam depois. Boa leitura!
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“Demônios" (1891) é o conto fantástico de 12 capítulos, precursor da ficção científica brasileira, de Aluísio Azevedo (1857-1913). O enredo é narrado por um escritor, em 1ª pessoa, acometido pela escuridão, silêncio e morte. Era noite, quando o escritor trabalhava, descansava e se preparava para receber "Sua-Alteza, o Sol”, mas eis que o espaço é tomado por um cataclismo, com vidas apagadas por um mesmo sopro, um acontecimento insólito nascido durante uma “febre de concepção, entre as doidas fantasias de poeta, ideias como um bando de demônios”, e espanta-se horrorosamente, ao acordar dessa vertigem produtiva. A partir desse momento, o foco de vida do escritor-narrador é reencontrar Laura, sua amada. O plote leva ao amor, mas não se trata de um conto puramente romântico. Outrossim, temos em "Demônios" um hibridismo de discurso, onde convivem o Romantismo, o Fantástico, e o Realismo/Naturalismo. Há ainda o efeito En Abîme, quando o narrador inominado permite encaixar a escrita dentro de sua vivência insólita, algo que só será clareado ao leitor, no desfecho da história. Boa leitura!
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“O corvo” (1845) é o poema narrativo do escritor estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849). Nós lançamos esse episódio em agosto de 2020, na aclamada tradução de Fernando Pessoa, publicada em 1924. Mas a primeira vez que o poema foi traduzido para a língua portuguesa foi por Machado de Assis, em 1883. E é justamente essa versão que publicamos hoje, no relançamento do texto. Nas Notas de Rodapé, você poderá acompanhar o que cada um dos três gênios da literatura mundial versaram sobre a temática desse amor perdido por Lenora, a partir da interlocução com o animal sinistro e trevoso. Corvo é a ave do mau agouro, que contudo vai pousar no busto de Palas Atenas, deusa da sabedoria, da inteligência, da guerra e da justiça, para os gregos. O corvo é tratado pelo estudante enlutado como um "profeta", que diz a ele única resposta: “Nunca mais”. Publicado pela primeira vez em 29 de janeiro de 1845, no semanário New York Evening Mirror, Poe compôs o poema com 108 versos, encharcado de musicalidade, linguagem estilizada e atmosfera sobrenatural. Cada tradução trata essa métrica com a beleza que sua língua pede. Debatemos também as revelações que Poe fez em 1846, no ensaio“A Filosofia da composição”. Boa leitura!
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“A morta” (1887) é um conto clássico de terror do escritor francês Guy de Maupassant (1850-1893). Na história, equilibra-se a presença de mortos-vivos com um devaneio fantástico, do jovem apaixonado e viúvo, que é o narrador-personagem. O conto breve, que encurta o medo, entrega ao leitor a maestria de interpretar do que se trata? A história desenrola-se a partir de uma noite chuvosa que vitimou aquela que ele “Amou, foi amada e morreu”, e problematiza-se numa visita ao cemitério, quando o jovem decide “passar a noite junto dela”. No texto, emerge temas caros ao Realismo psicológico francês, como a dor da passagem do tempo, a desilusão, a hipocrisia; e é marcado pela repetição de alguns vocábulos: morta, enterrada, túmulos, que noite! O que reitera o toque de devaneio do narrador, contudo, a narrativa apropria-se de um acontecimento insólito que culmina mais uma vez na corrente Realista, que apregoava o fim das idealizações, trazendo à tona retratos de adultério, miséria e fracasso social e hipocrisias da burguesia. Maupassant fez mais de 300 histórias curtas, além de ter produzido seis romances, peças de teatro, poesias e crônicas. Ele era o discípulo dileto de Gustave Flaubert (primo de sua mãe) estimulando-o para o amor à arte e os princípios estéticos do Realismo. Boa leitura!
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“O habitante de Carcosa” (1886) é um conto do escritor norte-americano Ambrose Bierce (1842-1914) que leva a refletir sobre a morte, conforme já anuncia uma espécie de prólogo no conto, atribuído a Hali, falando que às vezes, o corpo se mantém vivo, entanto o espírito morre. Tudo começa quando um homem acorda e passa a observar ao seu redor a planície com ervas altas e murchas, e ele então se sente o descobridor do cemitério de uma raça secular de homens. Lembra-se que estava “doente" e preocupa-se com o que possa acontecer com ele naquele lugar negligenciado. O foco de atenção do homem, que é o narrador-personagem, é a cidade de Carcosa, que por sua vez, é local fictício inventado por Ambrose Bierce e que futuramente, foi utilizada em ficções de outros escritores. Nove anos depois, Carcosa foi espaço para os contos de mistério e terror, do escritor também americano Robert W. Chambers, no livro ”O Rei de Amarelo” (1895). Foi essa obra que Howard Philips Lovecraft leu em 1927 e tornou Carcosa um dos elementos dos Mitos de Cthulhu. Boa leitura!
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“História Alegre” é um conto de envolvente e instigante do escritor russo Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904). De um ato natural do namoro entre jovens, engolfados pela velocidade do vento, surge um enigma entre o frio e o quente, diante das palavras: “Amo-a, Nadia”. Tchekhov cria um narrador personagem que perscruta o sentimento entre o jovem casal. É uma história muito divertida, motivada a passeios de trenó no inverno russo, nevoento. Seria o vento a confessar seu amor? O "humoresque" traz o plano espiritual para o plano da vida cotidiana, uma marca do inimitável mundo tchekhoviano. Tchekhov foi médico, dramaturgo, novelista e contista, representante do Realismo Russo e afirmava: “A medicina é minha legítima esposa; a literatura, minha amante”. Anton Tchekhov é o mestre do conto moderno, ele fez 574 contos, em 44 anos de vida. Seus protagonistas são pessoas comuns, normalmente pobres, vivendo situações cotidianas. Nesse conto, se sobressai a lisonja. Ele abordava a condição humana e as relações sociais, escrevendo sobre uma sociedade apodrecida, com: hipocrisia, corrupção, esterilidade, lisonja, prepotência, sabujice, entre outros. Boa leitura!
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“A cartomante” (1884) é um conto de Machado de Assis (1839-1908) que estamos relançando no Leitura de Ouvido. A primeira vez que publicamos foi em 12 de dezembro de 2020, quando não tínhamos Notas de Rodapé. Passado esse tempo, escolhemos o texto icônico para o debate, trazendo à tona a interrelação com outros clássicos da literatura mundial; a olhos vistos: Hamlet, de William Shakespeare (1564-1616); e em camadas mais profundas A mulher de trinta anos, de Honoré de Balzac (1899-1850), temperados com a sagacidade machadiana. Ao mesmo tempo em que constrói um personagem narrador em terceira pessoa que sabe de tudo sobre o triângulo amoroso entre Rita, Vilela e Camilo, amigo do casal, opta por contar a história por certo ponto de vista. Desta feita, o conto encaminha-se para que o julgamento das atitudes dos personagens seja todo feito pelo leitor. É ele que dá o veredicto final, inclusive, sobre o narrador. Isso e um pouco mais, explanamos nas Notas de Rodapé desse episódio. Boa leitura!
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“A água” é uma crônica de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) que está no Livro das Donas e Donzelas (1906), no qual ela ensaia sobre esse elemento primordial à toda forma de vida. Júlia traz uma explanação histórica diferenciada sobre as ruínas de Pompeia, baseada em visita da narradora, que parece ser a própria escritora. Historiadores apontam que a região de Pompeia começou a ser habitada por volta da Idade do Bronze (entre 3.000 e 1.200 a.C.), localizada aos pés do Monte Vesúvio, nas proximidades da atual cidade de Nápoles, em uma região da Itália conhecida como Campânia. Em 24 de outubro de 79 d.c. ocorreu a erupção do vulcão partenopeu que deixou a cidade sob as cinzas por centenas de anos, até a descoberta do sítio arqueológico, no século XVI e as escavações, no séc. XVIII. O diferencial do texto de Júlia é revelar e descrever termas e sistemas de tubulação de água, aos seus próprios olhos. Em 1997, Pompeia foi declarada Patrimônio da Humanidade, pela UNESCO, e é a cidade mais bem conservada do Império Romano. Todos os textos de Livro das Donas e Donzelas são protagonizados por mulheres, trazendo ideias feministas e ecológicas. Sua obra teve bastante influências do realismo e naturalismo francês. Boa leitura!
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“Elogio da Vaidade” (1878) é um conto de Machado de Assis (1839-1908) no qual o personagem é ninguém menos que um traço da personalidade humana: “A Vaidade”. Através de um ensaio em seis partes, sem papas na língua, ela se faz narradora para tecer elogios a si mesma, à medida em que traz à tona verdades um tanto desconfortáveis. Foi isso que causou alvoroço quando O Cruzeiro publicou, em 1878, num momento em que a literatura mantinha forte características do Romantismo, mas Machado já alçava voos no Realismo, como faz, claramente, nesse conto. A certa feita, a voz da Vaidade afirma que todos os homens são vaidosos e mal-intencionados e que a Modéstia, é uma espécie de “narcótico”. Assim, vai mostrando sinceramente a sua personalidade, versus a Modéstia, que fica todo o tempo de cabeça baixa, enquanto escuta a voz da Vaidade. Dessa feita, temos uma crítica social com ironia, humor ácido e até um pouco de pessimismo, enquanto Machado vai encharcando o texto com elementos Literários, Artísticos e Míticos: Páris, Tersites, Pança, Quixote, o Poeta, Píndaro, Trissotin, Medéia, Temístocles, Tartufo, Órgon, Dorina, Virginia e Locusta. Esse é o 12º episódio do Bruxo do Cosme Velho no Leitura de Ouvido. Boa leitura!
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“A música de Erich Zann” é um conto de H.P. Lovecraft (1890-1937) que conta a saga de um senhor alemão, idoso e mudo, violista, que todas as noites tocava freneticamente sua viola e isso chamou a atenção do jovem que morava no andar de baixo. O jovem, que é o narrador personagem, estabelece uma ligação admirativa com o idoso, mas quanto mais ele se aproximava, mais o insólito surgia. A narrativa é de tensão crescente e delirante à medida que as músicas sobrenaturais vão surgindo. Lovecraft acreditava que “o medo é a emoção mais forte e mais antiga do ser humano, e o medo do desconhecido é o mais antigo e mais forte dos medos” (LOVECRAFT, 2018, p.1099). Nas notas de rodapé do episódio de hoje, também acontece algo sobrenatural, para a natureza de um podcast. Ouça até o final e surpreenda-se, assim como esse nosso apoiador, nos surpreendeu. Lovecraft é o fundador da ficção moderna de horror. É um grande influenciador da cultura popular, do cinema, da música, da televisão. Boa leitura!
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