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“O dominó preto” [1927 (1982)] é um conto de Florbela Espanca (1894-1930) que se encontra no livro homônimo, preparado pela autora com seis contos, mas publicado postumamente mais de 50 anos depois. Narra a quase década de um amor incondicional do pobre Joaquim pela bela Maria, separados um tanto por sua condição social, outro por sua índole - ou pela necessidade de uma personagem libertada do patriarcalismo, já que Florbela foi a primeira feminista de Portugal e, nesse livro, descreveu mulheres à frente do seu tempo. O fato é que, em “O dominó preto”, Joaquim, por sua bela amada, passa fome e frio, faz um esforço para se alfabetizar, para guardar dinheiro e até entra em sociedade na casa de vendas na qual trabalhava, de onde espiava a rapariga, todas as vezes que ela ia lá comprar. Maria, por sua vez, costurava para o teatro e, na visão do povo, “passava a vida a desgraçar os homens”. A sociedade tenta alertar Joaquim quanto a má sorte deste amor, mas ele segue firme na ilusão e vive o escárnio e o engano, de um encontro prometido no banco da avenida, embaixo da acácia. Como é terça-feira de Carnaval, ela pede a ele para ir vestindo um dominó preto como fantasia, com um lenço azul no ombro. Boa leitura!
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“A tempestade de neve” é um conto de Alexander Pushkin (1799-1837) que desenrola drama e romance, fazendo-se valer do evento de proporções épicas na história europeia, a Grande Guerra Patriótica de 1812. Narrado pelo autor fictício criado por ele, Belkin, traz a história da jovem Maria Gravlovna, leitora de novelas francesas que estava totalmente enamorada por Vladimiro. O casal arma uma fuga com a intenção de um casamento secreto, mas na noite do intento, cai uma terrível tempestade de neve que, naturalmente, culmina numa mudança de planos e de destinos. No desenrolar da narrativa, Pushkin envolve os "tempos de glória” vividos pelo exército russo, ao obterem a vitória sobre o Grande Armée, exército de Napoleão Bonaparte composto por 610 mil homens e 1420 canhões. Foi esse momento na história da humanidade que se reorganizou
- diante do colapso de Estados e civilizações e diversos pôres-do-sol sangrentos - reconfigurando a política europeia, uma vez que enfraqueceu dramaticamente a hegemonia francesa na Europa. A reputação de Napoleão como um gênio militar invencível foi severamente abalada. Burmin, o coronel de hussardos que aparece no desenrolar de “A nevasca" foi um dos feridos, no lado russo. A campanha teve fim em 14 de dezembro de 1812. Mas o conto avançada adiante desfecha quatro anos depois. Boa leitura!
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“O sabiá” é uma poesia de Inspirações da Tarde (1858), de Bernardo Guimarães (1825-1884), o romancista brasileiro oitocentista, famoso por “A escrava Isaura” e “O Seminarista”. Nos versos, o "eu lírico" chama o sabiá de cantor da tarde e abre com uma epígrafe do escritor e diplomata francês Chateaubriand (1768-1848), para quem o pássaro, com sua voz, abençoa continuamente as maravilhas do Criador. Ele descreve a beleza e tentar compreender quem inspira o sabiá a ser essa ave encantadora. O termo sabiá deriva da língua tupi e significa “aquele que reza muito” e é em alusão ao rico repertório vocal destes pássaros. Morfologicamente falando, o canto de sabiá tem um propósito bem claro: demarcar o território e atrair a atenção das fêmeas.
Bernardo Guimarães pertence à primeira geração romântica, quando se procurava encontrar essa “cor local”, tornando a literatura brasileira independente. Por isso, seus escritos têm por característica o exagero sentimental e a valorização de paisagens e costumes do interior do Brasil. Ele se destacou como o iniciador do romance sertanejo ou regionalista. Seus romances, na maioria, têm como cenário as paisagens e costumes dos Estados de Minas Gerais e Goiás. Boa leitura!
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“A filha do pescador” é um poema em literatura de cordel, do escritor nordestino Leandro Gomes de Barros (1865-1918). O enredo se passa na Palestina, onde o pescador Amon encontra, num dia de tormenta, um berço com uma menina bebê, correndo pelas águas. Salva-a do mau tempo e de um lobo, leva-a para sua cabana e cria a bebê, com sua mulher Agarina, alimentando-a com leite de cabra, por três anos e meio. Chamaram a bebê de Argentina, por ter a cor muito alva. Amon e Agarina foram seus padrinhos de batismo, criando-a como pai e mãe. A menina recebe a proteção do sultão da Palestina e com sua inteligência avançada aprende tudo muito rápido. Até que um dia, o destino vai revelar, em trama épica, o passado da menina enquanto demonstra sua sagacidade e coragem, para salvar aqueles para quem sente amor. O fato é despertado por um sinal em seu corpo, uma rosa, igual a da família real. Ela jurou a Amon morrer honrada e assim vai sucedendo. E salva quem o salvou. Seu poema é construído com métricas e rimas AB AB e respectivas, do começo ao fim, o que demonstra a alta qualidade literária de Leandro Gomes de Barros. São 40 minutos de audio-drama, no qual se é fisgado pelo desenrolar acelerado da história. Lemos direto do livreto de cordel, que contêm 42 páginas e pode ser encontrado em preto e branco, na íntegra, em domínio público. Leandro Gomes de Barros foi um poeta com visão empreendedora, na confecção e distribuição desses folhetos, o que foi decisivo para o desenvolvimento do gênero da literatura brasileira. Boa leitura!
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“O Homem que sabia javanês” é um dos contos mais magistrais da literatura brasileira escrito por Lima Barreto (1881-1922) e publicado na Gazeta da Tarde do Rio de Janeiro, no dia 20 de abril de 1911. Foi o 11º Episódio do Leitura de Ouvido, lá no comecinho de nossa história, quando ainda não tínhamos notas de rodapé. Por isso, resolvemos revisitar essa trajetória e, no mês de aniversário de Lima, ele nasceu há 142 anos, no marco de 13 de maio. E claro, fizemos os devidos debates sobre esse texto que faz uso de dois gêneros: o contador de histórias e o picaresco. É uma descontraída conversa entre dois amigos num bar, Castelo, o pícaro; e Castro, que o escuta enquanto compartilham uma cervejinha. O pícaro é qualificado como uma personagem de condição social humilde, sem ocupação certa, vivendo de expedientes, a maioria dos quais escuso. Ele é o anti-herói por excelência e, assim, é dotado de uma filosofia de vida assaz particular: é materialista, primitivo, desleal, manifestando inclinação para a fraude e a vadiagem. Castelo é tudo isso e muito mais. Lima Barreto morreu há cem anos, quando o Brasil completava o centenário da Independência e seu texto segue muito atual. Boa leitura!
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“Queda que as mulheres têm para os tolos” é um livro que ficou conhecido como de estreia de Machado de Assis (1839-1908), em 1861, contudo, origina-se de um ensaio satírico em francês, do escritor e advogado belga Victor Hénaux (1822-1896): De l'amour des femmes pour les sots. O ensaio traduzido foi publicado por Machado em A Marmota, Rio de Janeiro, 19, 23, 26 e 30/04 e 03/05/1861. No mesmo ano, saiu o livro completo, mencionando o escritor brasileiro como tradutor, mas sem se referir ao texto ou autor originais. O imbróglio foi elucidado, de fato, no século XXI, por ocasião do centenário da morte de Machado, quando as pesquisadoras da Unicamp Ana Cláudia Suriani da Silva e Eliane Fernanda Cunha Ferreira prepararam, cuidadosamente, uma edição bilíngue. Lado a lado, o ensaio traz ideias controversas e explora o arquétipo feminino e masculino, descobrindo, as causas de as mulheres amarem os insensatos. O termo “sottise” (tolice) é traduzido por Machado como “Toleima”. A elucidação do texto original não só fomenta o debate antigo a respeito da originalidade e da imitação na literatura, como também nos revela a gênese da estética literária que será predominante em Machado em todas as suas obras. Um exemplo é a “Advertência" que costuma abrir suas produções, e em 1858 já fora usado por Victor Hénaux como “Avertissement”. As notas de rodapé desse episódio estão imperdíveis e transitam por essas e outras questões da meditação estética machadiana. Boa leitura!
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“Lição Póstuma” é um conto de Carmen Dolores (1852-1920), principal pseudônimo para Emília Moncorvo Bandeira de Mello manifestar ao mundo suas ideias. Conta a história de Madalena, que perde a amiga de infância Valentina. Ambas estavam com 46 anos. A partir do esquife, “Madalena meditava com melancolia”. A essa idade, as mulheres do início do século XX consideravam-se estar na “segunda fase”, com os filhos casados e tornando-se avós. Assim morrera Valentina. Mas a face da defunta abalou a alma de Madalena, que resolve ter “direito à própria vida”, ela reflete e conclui que precisa deixar a sua marca pessoal. Entre outras coisas, o breve conto passa a limpo o próprio papel de mãe. O clima do texto reflete a época que a autora vivia: a Belle Époque tropical. A verdadeira identidade de Carmen Dolores levou anos para ser revelada. Na sociedade carioca da época surgiam rumores e a crescente curiosidade em descobrir quem era essa mulher que escrevia. Assim, viúva e tendo perdido o filho homem mais velho, ela sustentou a família "com a sua pena". Foi jornalista, romancista, contista e dramaturga, ela se dedicou também à poesia e à crítica. Era uma conferencista do meio intelectual carioca do início do século XX. Boa leitura!
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“A ressuscitada” (1908) é um conto, dos mais de seiscentos, criados pela condessa espanhola Emilia Pardo Bazán (1851-1921). Este, conta a história de dona Dorotea de Guevara, casada e mãe de dois filhos, de 9 e 11 anos, que desperta em sua cripta, após ter sido chorada e enterrada por seus entes queridos. Ela ressente a “alegria de existir” e faz o que pode para retornar à sua casa, quando desperta entre quatro círios e a revoada de um morcego. Contudo, não necessariamente, reencontra o carinho dos seus. No conto naturalista de Emilia a narradora descreve o espanto e o susto de seus entes queridos, uma vez que dona Dorotea “regressara do país misterioso”. Além da enorme produção jornalística, produziu riquíssima criação literária, com contos, poesia, teatro,
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“Um homem extraordinário” é um breve conto do médico, dramaturgo, novelista e contista, Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904), representante do Realismo Russo. A história retrata a pobreza, levando a uma reflexão comparativa entre a real pobreza material e a lamentável pobreza de espírito. Apresenta um homem altivo e autoritário, mas sem qualquer perspectiva, pautado pelo mercenarismo. E “brinca" quase que ironicamente com os extremos da vida, uma vez que esse homem vai em busca de uma parteira, para o nascimento de seu segundo filho. Através das impressões de Mária Pietróvna Kóchkina constatamos a pobreza de espírito de Kiriákov, o assessor de colegiado. No “inimitável mundo tchekhoviano" ele traz o plano da vida cotidiana, dando espaço para o plano da vida espiritual, que o autor considera essencial. Ao desprover seu protagonista dessa característica espiritual ou, ao menos, da preocupação com ela, Tchekhov nos faz voltar o olhar totalmente a isso. Com limpeza de narrativa, de forma objetiva. Anton Tchekhov é o mestre do conto moderno. Seus protagonistas são pessoas comuns, normalmente pobres, vivendo situações cotidianas. Ele abordava a condição humana e as relações sociais, escrevendo “humoresques"sobre uma sociedade apodrecida, com: hipocrisia, corrupção, esterilidade, lisonja, prepotência, sabujice, entre outros. Boa leitura!
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“Kew Gardens” é um dos contos mais famosos da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941) e descreve de forma íntima e impressionista um dos mais antigos e aclamados jardins londrinos. A história do que viria a ser Kew Gardens começa em 1501, quando da construção do Palácio de Richmond. Foi em 1772 que o local se tornou um jardim botânico e, em 1840, um jardim botânico nacional e centro de pesquisa científica e intercâmbio internacional de espécies de plantas. Em 2003, a Unesco colocou Kew Gardens na lista de Patrimônios Mundiais. A narrativa virginiana tira partido da arte moderna impressionista: embora variados seres humanos - de variadas classes sociais e idades - visitem o espaço, o principal personagem é mesmo o jardim. O conto de Virginia valoriza a arte visual; é como se a narradora estivesse pintando uma tela impressionista enquanto apresenta, a partir do canteiro oval com as folhas em forma de coração e de língua, todas as cores que chegam ao espaço de forma irisada, destacando-se a amarela, a azul e a vermelha, assim como as telas, que são pintadas em ambientes abertos e iluminados. Boa leitura!
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