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“O último discurso” é um conto comovente de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), publicado no livro Ânsia Eterna (1903), que nos faz refletir sobre a vida e o fim dela. A história narra o sopro de existência para o honorável Dr. Paula Guedes, que com 83 anos está desenganado sobre a cama de madeira de peroba, magérrimo e tilintando de frio em pleno fevereiro no Brasil. Tudo muda quando ele recebe uma carta do Instituto para que seja o orador no evento de homenagem ao tricentenário de Anchieta. Ali ocorre o seu sopro de ressurreição. Diante da resistência da família até mesmo em lhe fornecer papel e lápis, ele dribla a sensação de que o túmulo se aproxima e recorre ao imagético da passagem do tempo, ancora-se em sua teimosia acadêmica para compor o mapa mental de um discurso de mais de 20 páginas. Quando ele veste seu terno de casaca, luvas, gravata branca e comendas para treinar diante da família, uma grande comoção toma conta de todos. Boa leitura!
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“Porque não se matava” (1923[1918]) é conto de Lima Barreto (1881-1922) que escancara os vícios sociais. Ambientado na degradação da República Velha, no Bar Adolfo na rua da Assembleia, dois amigos que se conhecem desde a infância, que compartilharam as lições da escola, o crescimento e a formação, se encontram no ambiente propício da boemia, onde estão escritores, pintores, jornalistas, poetas, literatos, médicos e advogados, conversando e bebendo sempre. Temos de um lado, um homem que não tem mais motivos para viver; do outro, um bom ouvido e é também o nosso narrador. O fato é que o bar é bem descrito, detalhadamente, e comparado ao Silogeu. À época, o Prédio do Silogeu era ocupado pela Academia Brasileira de Letras como sede. Ali também funcionavam a Academia de Medicina, o Instituto dos Advogados do Brasil e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. “É um ninho e também, uma academia”. O fato é que o amigo confabulava sobre se matar, sim ou não, e não gostava de trabalhar: “Afastava-se da caça ao emprego”; e também “nunca conheceu o amor”. Era um homem sem paixões nem desejos, “já descri de tudo, da arte, da religião e das ciências”. E o boêmio marcava com solenidade o número de copos bebidos. Só não se matava por falta de dinheiro, posto que não quer ficar falado depois que deixar o augusto mistério do mundo. O conto "Por que não se matava" de Lima Barreto é sagaz e vai trabalhar a ironia da situação, com argumentos que dão muita vontade de viver. Escute para conhecer! A história saiu apenas postumamente, em 1923, integrando a coletânea Bagatelas. Boa leitura!
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“A calúnia” (1883) é conto de Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904) que apresenta um quiproquó na festa de casamento promovida pelo professor de caligrafia Sergey Kapitonech Akhineiev, que casava a sua filha Natália com o professor de história e geografia Ivan Petrovich Lochdinei. Toda a confusão se dá em torno de um esturjão, o peixe hoje quase extinto, que produz o caviar. Curto, direto, divertido e irônico, apesar de aparentemente o conto se fazer apenas ao redor de uma fofoca, o fato do professor ter beijado a cozinheira - há muito a observar na história. Ele produz uma piada simples, com realismo crítico, fruto da observação precisa da vida cotidiana e da escrita concisa. É o que acontece em “A calúnia", e em tantos outros contos tchekhovianos aparentemente simples, mas profundos. O mais impressionante da história é a forma como Tchekhov envolve o leitor, a ser o portador de um segredo. "Quem terá sido? — perguntamos nós, também, ao leitor...", com o desfecho que pede uma gargalhada, pois o protagonista se envolve numa grande ironia, sendo vítima de sua própria arrogância. A historieta se pauta no rigor social. Culturalmente, o conto de Tchekhov é um bom exemplar para ilustrarmos sobre o esturjão, pois se trata de um peixe ancestral que já se teve em abundância e hoje está em iminente extinção, produzindo uma iguaria aclamada pelo luxo e nobreza, que é o caviar, o ouro negro. Nas Notas de hoje você também saberá: "Como ele renovou as formas do conto moderno?" Boa leitura!
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“O pastor amoroso” é o conjunto de oito poemas de Alberto Caeiro (1889-1915), heterônimo alter ego de Fernando Pessoa (1888-1935), que vêm em seguida de "O Guardador de Rebanhos”. É como se fosse um desdobramento daquele narrador ainda menino que vivia no cimo do outeiro, posto com uma mudança de caráter, no efeito de demonstrar a transformação que o amor é capaz de causar. Pois se em O Guardador ele era devotado à natureza e canta as suas belezas, quando descobre o amor, sua forma de ver o mundo se altera: para desfrutar da natureza, espera pela pessoa amada. Nos poemas do episódio de hoje contemplamos a poética do amor. Ele começa afirmando exatamente esta oposição: “tu mudaste a natureza”; depois anseia por ela para “colher flores pelos campos”; reconhece “amei e não fui amado”; e que “amor é companhia, que é um pastor amoroso, que amar é pensar”; então se dá conta de que agora, “tenho interesse no que cheira: hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver”. Caeiro foi um dos mais importantes heterônimos de Fernando Antonio Nogueira Pessoa, o poeta “plural”, o mais universal poeta português. Cumpre notar que na data da criação (março de 1914), Pessoa remonta a 16 de abril de 1889, em Lisboa, para determinar o nascimento de Alberto Caeiro da Silva. O pastor amoroso é o segundo, dos três conjuntos de poesias attibuídas à Caeiro. Há ainda, Poemas Inconjuntos, para uma próxima produção. Boa leitura!
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“O Grand Prix” é crônica de costumes de Eça de Queirós (1845-1900) que está no livro Ecos de Paris, que se fez posteriormente, com as histórias publicadas por ele originalmente como artigos em jornais. Uma das coletâneas compiladas e publicadas no Brasil foi em 1905, após a morte do autor. O livro tem várias edições e reimpressões. Inclusive, a crônica "O Grand Prix" de Eça de Queirós foi publicada pela primeira vez no próprio Brasil! Saiu na edição de 18 de junho de 1893, do jornal Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Isto explica porque ele reserva o desfecho da história ao território brasiliense. A crônica começa no hipódromo de Longchamps, que desde 2018 esteve passando por reformas, mas é ainda um dos principais pontos de corridas de cavalos de Paris. Ao longo da crônica são muitas as alfinetadas: a burguesia com seus caprichos, as orgias e festas com gastos extraordinários, as solenidades e a política, as burocracias da coisa pública, as fofocas, como sobre as meias de Napoleão, a publicação póstuma de versos de Victor Hugo, e até o Canicule, que é o calor extremo em França, nos meses de verão, quando as temperaturas ultrapassam os 35°C durante o dia e se mantêm elevadas (acima de 20°C) durante a noite por vários dias consecutivos. Homônimo ao episódio de hoje, há em Portugal, desde 1988, o "Grand Prix Eça de Queirós”, que refere-se a um prêmio literário. Como crônica de costumes, é bom lembrar que Eça já havia feito isso em Os Maias (1888), obra-prima do autor e um marco do Realismo/Naturalismo na literatura portuguesa, retratando a sociedade lisboeta do século XIX. Boa leitura!
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“O País das Quimeras” (Conto Fantástico), de Machado de Assis (1839-1908) foi publicado originalmente em 1º de novembro de 1862, na revista O Futuro: Periódico Literário, no Rio de Janeiro. Cento e sessenta e quatro anos depois, torna-se nosso primeiro episódio de 2026, abrindo a 7ª temporada do Leitura de Ouvido. Mais tarde, o conto foi reescrito e republicado com o título "Uma excursão milagrosa" no Jornal das Famílias, em abril e maio de 1866. Machado de Assis não incluiu o conto original em nenhuma coleção de livros publicada durante sua vida. Mas a versão que utilizamos aqui, contudo, encerra o livro Relíquias da Casa Velha. Por meio do conto, conhecemos de corpo e alma o poeta Tito, um homem comum em feições, que no alto de seus 20 anos é um partido às moças de 15 ou 16. Mas Tito tinha fraquezas de caráter que o levaram a “mercar com os dons de Deus”, pois para se sustentar, vendia seus versos a um freguês que queria fama literária. Um dia, Tito cai com a doença do amor, resolve viajar ou morrer. Mas recebe uma visita extraordinária de uma bela mulher: uma sílfide com asas com poeira de ouro. Com ela, Tito faz uma viagem inimaginável, até aterrissar no País das Quimeras, onde vai receber inúmeras revelações. O país cerimonioso tem rei e rainha, beija-mão, mesuras e cortesias, mas também continência militar e execução à forca, o que demonstra que mesmo no país da Fantasia, com as Quimeras e Utopias, existem convenções que não podem ser rompidas. Diante das revelações e de ver tudo vaporoso, o poeta passa a ter "olhos de lince", para ler a alma das pessoas. Boa leitura!
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O badalar dos sinos do mundo hoje podem nos lembrar o quão maravilhoso pode ser o Natal, quando nos preparamos, de dentro para fora, para esta comemoração. O conto de hoje é para aqueles que - talvez há anos - não se importam com a data de Natal. E vai derrubar as expectativas de quem: “achou que tudo, seria como sempre”. Os advérbios vão ser remexidos e garanto que o seu coração também, pois o foco aqui é humanização, com problemas de um mundo real.
Luís Fernando Garcia (30/04/1978) é assistente social, Graduado em Serviço Social pela Faculdade Paulista de Serviço Social - FAPSS e mora em Vargem Grande Paulista. Tem Especialização Humanização em Saúde: Narrativas do Adoecimento do Sofrimento e As possibilidades de Cuidado, pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Nosso apoiador Luis Fernando Garcia tirou da gaveta o seu texto de mais de uma década "Um conto de Natal" e comissionou esta produção lindíssima de hoje! É uma reflexão sem igual! Desejamos a você os melhores abraços de seus familiares e amigos e que o seu Natal possa se diferenciar, do da história que apresentamos. Ela é a realidade para muitas famílias.
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“Pó de Sim, Pó de Não” (2025), é um Original Leiturinha escrito pela paulista Andrea Avelar e ilustrado pelo cearense Felipe Calv. É um dos livros criados especialmente pela Editora Leiturinha, que estimula autonomia, imaginação, empatia e raciocínio, além de fortalecer o vínculo familiar e o prazer da leitura. Hoje conhecemos a Família Ventura, pessoas que conversam sobre sonhos, sentimentos e emoções. “Pó de Sim, Pó de Não” trabalha emoções de maneira lúdica, usando os pós para ajudar as crianças a nomearem sentimentos, elaborarem frustrações e, assim, encontrarem o equilíbrio emocional. São muitas prateleiras e rótulos, assim como a vida, que é totalmente diversificada! Note que nesta história, o menino Benício está totalmente envolvido com as tradições de sua família, isso conversa demais com essa época do ano em que estamos, que é a das festas. A festa da história, é o aniversário do menino, que ao completar 7 anos, recebe a última das chaves para ter acesso à Sala Empoeirada da casa dos Ventura. A história traz em essência dois valores primordiais: 1- os momentos e rituais compartilhados em família; 2- e a celebração dos livros, quando o menino vai escrevendo suas páginas novas, a partir dos sentimentos que descobre e os pós que mistura. Ou seja, o poder da leitura e do amor são celebrados como laços inquebrantáveis! Por isto, este episódio é tão especial para nós! Chegamos ao episódio 300! Concluindo a sexta temporada! Nós temos muito o que celebrar!
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“O presente dos Magos” é do famoso contista americano William Sydney Porter, sob o pseudônimo O.Henry, que estreia no podcast. Trata-se de uma jornada emocional, que se passa na véspera de Natal. O conto foi publicado pela primeira vez em dezembro de 1905, no jornal The New York Sunday World, e no ano seguinte, foi republicado na antologia do autor, The Four Million, sob o título The gift of Magi. Em “O presente dos magos” vamos conhecer o jovem casal que, com pouco dinheiro, busca o presente ideal para agradar ao outro no Natal. As dificuldades financeiras são acentuadas na apresentação da personagem Della, e do apartamento em que alugam, onde tudo era cinzento: o gato, o muro, o dia. O narrador, que quebra a 4ª camada para estabelecer cumplicidade com o leitor, apresenta-nos também Jim, de 22 anos. Ao sensibilizar pelo ato de presentear, o conto discute desde o valor das moedas, até a generosidade interligada ao amor. Com final até irônico, a obra é aclamada, mas O. Henry ainda é pouco conhecido no Brasil, embora tenha se tornado popular para adaptações, sendo até mesmo lido em rádios, especialmente na época do Natal. O. Henry teve mais de 600 contos publicados. Assim como o casal Della e Jim são ricos em afetos, mas lutam para sobreviver, o autor ficou conhecido por histórias romantizadas e finais surpreendentes. Boa leitura!
O oferecimento é da Editora Litteralux, pela qual a Daiana Pasquim está lançando seu novo livro: Serenas. E você também pode enviar o seu original para [email protected]O primeiro lote de envios do Serenas já foi pelos Correios esta semana e em breve, chegará aos leitores que já o adquiriram. Aproveite a pré-venda e garanta o seu.
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“O presépio” é um conto de Natal de Dom João da Câmara (1852 -1908), nascido e morto em Lisboa, Portugal. Grande dramaturgo, foi o primeiro português a ser indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 1901. No sensibilizante conto recheado de elementos culturais portugueses, vamos conhecer o Manuelzito, de 12 anos, que sai da Portugal rural do século XIX rumo à Lisboa, para "se tornar homem". Há quase um ano como funcionário explorado de uma mercearia, o menino dorme no desvão da escada e sonha com as saudosas noites na aldeia, onde ficaram seus progenitores e amigos. Entre a saudade e o fazer-se homem, Manuelzito tem uma ideia revigorante: moldar lama e construir um presépio em segredo. A história se demora amorosamente no empenho para esculpir cada figurinha, de novembro até a véspera do Natal, quando tudo se acende, em um momento espiritual único que o garoto cria. É uma narrativa com emoção crescente que aquece o coração neste momento entre sonho e realidade, que fechamos no ano. Com o texto podemos mensurar o peso da riqueza material versus espiritual.
Particularmente, encarei como um conto revisional da existência, pois passam-se várias estações e momentos do ano, até se desenhar detalhadamente o presépio, sendo o Natal o clímax. Na antítese, temos o coração duro do patrão. E uma mensagem crucial e excruciante, pois o menino pobre sente um dó muito grande do patrão que não vira nada, nem o olhar tão meigo do Menino Jesus, moldado por ele. Boa leitura!
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