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Or


Cabelos desgrenhados,
lençóis e fronhas desconjecturados,
o cheiro de corpos suados,
mesclados
com látex e lubrificante;
queria que o sexo fosse mais poético,
mas na falta do edificante,
escrevo a crueza que cabe no papel:
a irretirável pregnância do sêmen
que gera fetos,
gruda na pela,
mancha os tecidos
e empesteia o ar;
a hipocrisia que nos propicia os hormônios,
de noite casal,
de manhã dois estranhos que querem se livrar um do outro,
a nudez compartilhada,
vira nu vergonhoso,
na destransparência dos lençóis
se esconde o corpo a quem se o deu;
são os efeitos da intimidade migrante
que permeia o sexo ocasional;
dois desconhecidos
que se cumprimentam pelos genitais;
fossem mais que um o reflexo do desejo do outro,
necessidades rebatidas,
saciadas ou insaciáveis vontades carnais,
seriam fontes de calor
que não se apagariam jamais
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Liberto-me dum sono claustrofóbico,
sentindo as gotas de suor
que asecam num colchão velho,
ao fundo, o bafo sonoro
de sons distorcidos,
é o ritmo da favela que arde,
o alarde
duma solidão coletiva,
de quem celebra a modo pagão
um feriado cristão;
nem tão bem, nem tão mal,
abandonei uma rodoviária
para ouvir fogos na noite de natal;
são os retrocessos da evolução
urbana e pessoal
na favela do Pavão
ou no Vidigal
Com a cabeça pesada
desço as escadas do beliche
e me rebato sonolento pelas paredes do meu cubículo,
na cozinha mato a sede duma noite de calor,
na sala contemplo o esplendor,
duma tela de muitos matizes e pouca cor,
o morro é feito de mata, reboco, janelas e lâmpadas,
luzes que alugam brilho à escuridão matutina,
constelação de formiguinhas lampejantes,
a amanhecer becos e vielas,
a mística noturna de todas as favelas
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Andando pelas ruas de um passado que não me pertence mais,
notei a desimportância de tudo aquilo que deixei para trás,
uma concatenação de histórias poluía a minha cabeça
sofrimentos sem sentido dispostos numa cadeia,
como o amargo de se ressentir por não aproveitar um dia bonito numa cidade feia,
mas naquele tempo ainda me faltavam algumas peças para fechar o quebra-cabeça,
eu não podia saber,
mas para que eu nunca me esqueça,
quando ando por essas vielas presto muita atenção,
desapego do visco das feias e me orgulho da rejeição das belas,
pois ao menos coragem pude ter
e mostrei o meu tesão
Não são os fantasmas do passado que me assombram,
é como se eu fosse um fantasma do presente,
um vivo a caminhar no mundo dos mortos,
os conhecidos me olham com espanto
e os desconhecidos me dão olhares sem encanto,
são narcisistas de rostos tortos,
gente que está na miséria e nem sente,
vidas inócuas que se alambram
Eu queria não ter mais que voltar,
abandonar de vez esse emaranhado de faltas e cumplicidades,
viver uma vida só de sonhos e vantagens,
queria demais poder carregar
todas as doçuras dessa terra
para longe dessa gente que não se consterna,
para morarem junto de mim, perto do mar
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Um homem passa a ver a vida diferente
quando tem as costas doídas dum sofá,
as noites mal dormidas o fazem pensar,
os raios invadem o ambiente pelas frestas da cortina,
nos seus olhos já acordados vai se pintando a tela,
suas malas e trouxas que desarrumam a sala-de-estar,
naquele ninho de casal
ele é a coisa fora do lugar,
nessas horas lhe fere a dor das tardes não vividas,
em que deixou o sol do lado de fora da janela,
suas escolhas mal decididas,
memórias duma vida
que agora parece tão antiga;
o som abafado duma cantiga,
na cabeça do filho que esqueceu a voz do pai
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No deque
admiro a infinitude das águas,
me sinto pequeno,
mas não penso na minha solitude
nem nas minhas mágoas,
contemplo
o canto dos pássaros,
o encanto das cores,
as minhas opiniões rígidas sendo desfeitas,
a dissolvência dos meus dissabores;
tudo é tão belo na Lagoa Rodrigo de Freitas
Eu me sento no banco
por onde passaram das mais belas aves sul-americanas,
onde se amaram dois turistas franceses,
onde um pedinte teve uma noite de frio,
tento redesenhar em versos a beleza in natura,
o contraste entre o urbano e o magnífico,
abro mão de ser vadio
e de postergar os verdadeiros amores
a uma vida futura
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Um dia vou voar,
mais que os biguás do Campo do São Bento,
suas asas negras como meu destino,
um desatino sem alento,
de todos os lados tentam me enganar,
com a dose de verdade que há em todo falseio
tento montar um quebra-cabeça
com os pedacinhos de cada mentira que me contam
um guia que me leve a algum lugar
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Chorei pelos dias de sol que passei dentro de casa,
pois agora não sou mais criança e não posso mais brincar,
minha vida é tão vazia de esperança
que perdi o brilho no meu olhar,
uma lágrima escorre para cada dia doce
que eu não soube aproveitar
Sou um homem pós-enclausurado,
nada sei da vida
e dela só posso lamentar,
um menino mais feliz,
faz um homem menos triste,
mas além da memória,
ao passado não se pode voltar
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Sonhei que morri,
contemplei o universo sem a minha presença,
tateei com os dedos cada diferença,
a maioria das pessoas mostrou indiferença,
mas os que sentiram a minha falta,
os que choraram a minha saudade,
choraram um pranto despido de ninharias e de vaidade,
até alguns que não me viram,
minhas palavras nunca ouviram,
perderam-me sem nunca me conhecer,
sem sentir o meu calor,
debulhavam-se em lágrimas por dentro,
numa hemorragia chorosa,
sentindo a pontada duma dor que não conheciam a causa,
latejava num órgão que nunca tiveram,
grandes estórias descritas,
desfeitas em pó num estalar de dedos,
num sopro nebuloso de outono
Sonhei que morri
e percebi
que a minha ausência é ainda mais perturbadora que a minha presença
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Você se olha no espelho
e vê que tem 20 anos
você é maior de idade,
pela lei você já é autossuficiente,
mas na verdade você ainda não é ninguém
Você se olha no espelho,
tem 20 anos,
não tem mais que ir à escola,
aturar professores babacas,
aturar colegas escrotos,
estudar toda a matéria de álgebra na véspera da prova;
o seu martírio acabou,
mas esse fim não foi tão prazeroso quanto você esperava,
querendo ou não, o colégio era um castigo e ao mesmo tempo um alívio,
você podia continuar procrastinando as suas decisões
Você se olha no espelho,
tem 20 anos,
não tem emprego,
nem começou a faculdade,
nem sabe o quer da vida,
o seu único patrimônio é a incerteza
Você se olha no espelho
e vê que tem 20 anos,
está velho demais para ser um adolescente
e jovem demais para ser um adulto,
as revoltas de antes já não fazem mais sentido,
não têm lugar,
a independência que você tanto sonha está muito distante,
parece que nunca vai chegar;
você tem 20 anos
e não era assim que você se imaginava,
os seus sonhos de infância se desmancham a cada dia
agora você sabe
que não vai ser jogador de futebol,
não vai ser astronauta,
não vai ser fotógrafo da Playboy,
você não é genial como imaginava,
se você tem algum talento,
não faz ideia para que
Você se olha no espelho
e puta que pariu,
você já tem 20 anos,
continua virgem,
e as punhetas não mais são suficientes para satisfazer o seu vazio;
você tem 20 anos
e nunca viveu nada,
não consegue enxergar algo que vá além da janela do seu quarto
Você se olha no espelho
e vê que tem 20 anos,
dizem que você ainda tem uma vida inteira pela frente,
você pensa: caralho, tem mais dessa merda?
O teto não é seu
e você tampouco tem chão,
você navega num bote sem remo,
numa noite vadia
de pura escuridão,
uma ferrenha tempestade,
no meio do oceano,
sem qualquer sinal de terra à vista;
seria você um náufrago
ou um afogado?
o seu pai até queria,
mas você não tem tino para ser advogado
Você se olha no espelho,
você tem 20 anos,
o seu futuro é um céu escuro de nuvens nebulosas,
a sua vida,
um limbo contínuo,
você sabe que precisa dessa tempestade,
abraçar o caos,
saber o que será
enfrentar o que há
a existência inteira é grande demais para caber entres as paredes desse quarto,
larga de ser um esquisito,
larga o KY,
toma coragem e beija os lábios de Calipso
Você tem 20 anos,
você se olha no espelho,
fita nos seus próprios olhos e diz:
“agora é pra valer!”
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“Dançando com o vento me perdi”,
esse foi o verso que não escrevi,
nas rodas do tempo, inerte me deixei estar,
não deixei o vento no meu rosto tocar,
neguei ser livre,
perdi a hora de brincar
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