Linhas tortas

Linhas tortas

By Felipe SimãoArtsBooks
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Linhas tortas episodes

  • 22 - A crueza que cabe

    Cabelos desgrenhados,

    lençóis e fronhas desconjecturados,

    o cheiro de corpos suados,

    mesclados

    com látex e lubrificante;

    queria que o sexo fosse mais poético,

    mas na falta do edificante,

    escrevo a crueza que cabe no papel:

    a irretirável pregnância do sêmen

    que gera fetos,

    gruda na pela,

    mancha os tecidos

    e empesteia o ar;

    a hipocrisia que nos propicia os hormônios,

    de noite casal,

    de manhã dois estranhos que querem se livrar um do outro,

    a nudez compartilhada,

    vira nu vergonhoso,

    na destransparência dos lençóis

    se esconde o corpo a quem se o deu;

    são os efeitos da intimidade migrante

    que permeia o sexo ocasional;

    dois desconhecidos

    que se cumprimentam pelos genitais;

    fossem mais que um o reflexo do desejo do outro,

    necessidades rebatidas,

    saciadas ou insaciáveis vontades carnais,

    seriam fontes de calor

    que não se apagariam jamais

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    2 min
  • 21 - Primeira noite no Rio

    Liberto-me dum sono claustrofóbico,

    sentindo as gotas de suor

    que asecam num colchão velho,

    ao fundo, o bafo sonoro

    de sons distorcidos,

    é o ritmo da favela que arde,

    o alarde

    duma solidão coletiva,

    de quem celebra a modo pagão

    um feriado cristão;

    nem tão bem, nem tão mal,

    abandonei uma rodoviária

    para ouvir fogos na noite de natal;

    são os retrocessos da evolução

    urbana e pessoal

    na favela do Pavão

    ou no Vidigal

     

    Com a cabeça pesada

    desço as escadas do beliche

    e me rebato sonolento pelas paredes do meu cubículo,

    na cozinha mato a sede duma noite de calor,

    na sala contemplo o esplendor,

    duma tela de muitos matizes e pouca cor,

    o morro é feito de mata, reboco, janelas e lâmpadas,

    luzes que alugam brilho à escuridão matutina,

    constelação de formiguinhas lampejantes,

    a amanhecer becos e vielas,

    a mística noturna de todas as favelas

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  • 20 - Umbral do pretérito

    Andando pelas ruas de um passado que não me pertence mais,

    notei a desimportância de tudo aquilo que deixei para trás,

    uma concatenação de histórias poluía a minha cabeça

    sofrimentos sem sentido dispostos numa cadeia,

    como o amargo de se ressentir por não aproveitar um dia bonito numa cidade feia,

    mas naquele tempo ainda me faltavam algumas peças para fechar o quebra-cabeça,

    eu não podia saber,

    mas para que eu nunca me esqueça,

    quando ando por essas vielas presto muita atenção,

    desapego do visco das feias e me orgulho da rejeição das belas,

    pois ao menos coragem pude ter

    e mostrei o meu tesão

     

    Não são os fantasmas do passado que me assombram,

    é como se eu fosse um fantasma do presente,

    um vivo a caminhar no mundo dos mortos,

    os conhecidos me olham com espanto

    e os desconhecidos me dão olhares sem encanto,

    são narcisistas de rostos tortos,

    gente que está na miséria e nem sente,

    vidas inócuas que se alambram

     

    Eu queria não ter mais que voltar,

    abandonar de vez esse emaranhado de faltas e cumplicidades,

    viver uma vida só de sonhos e vantagens,

    queria demais poder carregar

    todas as doçuras dessa terra

    para longe dessa gente que não se consterna,

    para morarem junto de mim, perto do mar

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    2 min
  • 19 - Sofá

    Um homem passa a ver a vida diferente

    quando tem as costas doídas dum sofá,

    as noites mal dormidas o fazem pensar,

    os raios invadem o ambiente pelas frestas da cortina,

    nos seus olhos já acordados vai se pintando a tela,

    suas malas e trouxas que desarrumam a sala-de-estar,

    naquele ninho de casal

    ele é a coisa fora do lugar,

    nessas horas lhe fere a dor das tardes não vividas,

    em que deixou o sol do lado de fora da janela,

    suas escolhas mal decididas,

    memórias duma vida

    que agora parece tão antiga;

    o som abafado duma cantiga,

    na cabeça do filho que esqueceu a voz do pai

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    1 min
  • 18 - Lagoa

    No deque

    admiro a infinitude das águas,

    me sinto pequeno,

    mas não penso na minha solitude

    nem nas minhas mágoas,

    contemplo

    o canto dos pássaros,

    o encanto das cores,

    as minhas opiniões rígidas sendo desfeitas,

    a dissolvência dos meus dissabores;

    tudo é tão belo na Lagoa Rodrigo de Freitas

     

    Eu me sento no banco

    por onde passaram das mais belas aves sul-americanas,

    onde se amaram dois turistas franceses,

    onde um pedinte teve uma noite de frio,

    tento redesenhar em versos a beleza in natura,

    o contraste entre o urbano e o magnífico,

    abro mão de ser vadio

    e de postergar os verdadeiros amores

    a uma vida futura

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  • 17 - Quebra-cabeça

    Um dia vou voar,

    mais que os biguás do Campo do São Bento,

    suas asas negras como meu destino,

    um desatino sem alento,

    de todos os lados tentam me enganar,

    com a dose de verdade que há em todo falseio

    tento montar um quebra-cabeça

    com os pedacinhos de cada mentira que me contam

    um guia que me leve a algum lugar

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  • 16 - Pós-enclausurado

    Chorei pelos dias de sol que passei dentro de casa,

    pois agora não sou mais criança e não posso mais brincar,

    minha vida é tão vazia de esperança

    que perdi o brilho no meu olhar,

    uma lágrima escorre para cada dia doce

    que eu não soube aproveitar

     

    Sou um homem pós-enclausurado,

    nada sei da vida

    e dela só posso lamentar,

    um menino mais feliz,

    faz um homem menos triste,

    mas além da memória,

    ao passado não se pode voltar

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  • 15 - Do céu caiu um pedregulho

    Sonhei que morri,

    contemplei o universo sem a minha presença,

    tateei com os dedos cada diferença,

    a maioria das pessoas mostrou indiferença,

    mas os que sentiram a minha falta,

    os que choraram a minha saudade,

    choraram um pranto despido de ninharias e de vaidade,

    até alguns que não me viram,

    minhas palavras nunca ouviram,

    perderam-me sem nunca me conhecer,

    sem sentir o meu calor,

    debulhavam-se em lágrimas por dentro,

    numa hemorragia chorosa,

    sentindo a pontada duma dor que não conheciam a causa,

    latejava num órgão que nunca tiveram,

    grandes estórias descritas,

    desfeitas em pó num estalar de dedos,

    num sopro nebuloso de outono

     

    Sonhei que morri

    e percebi

    que a minha ausência é ainda mais perturbadora que a minha presença

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  • 14 - Você se olha no espelho

    Você se olha no espelho

    e vê que tem 20 anos

    você é maior de idade,

    pela lei você já é autossuficiente,

    mas na verdade você ainda não é ninguém

     

    Você se olha no espelho,

    tem 20 anos,

    não tem mais que ir à escola,

    aturar professores babacas,

    aturar colegas escrotos,

    estudar toda a matéria de álgebra na véspera da prova;

    o seu martírio acabou,

    mas esse fim não foi tão prazeroso quanto você esperava,

    querendo ou não, o colégio era um castigo e ao mesmo tempo um alívio,

    você podia continuar procrastinando as suas decisões

     

    Você se olha no espelho,

    tem 20 anos,

    não tem emprego,

    nem começou a faculdade,

    nem sabe o quer da vida,

    o seu único patrimônio é a incerteza

     

    Você se olha no espelho

    e vê que tem 20 anos,

    está velho demais para ser um adolescente

    e jovem demais para ser um adulto,

    as revoltas de antes já não fazem mais sentido,

    não têm lugar,

    a independência que você tanto sonha está muito distante,

    parece que nunca vai chegar;

    você tem 20 anos

    e não era assim que você se imaginava,

    os seus sonhos de infância se desmancham a cada dia

    agora você sabe

    que não vai ser jogador de futebol,

    não vai ser astronauta,

    não vai ser fotógrafo da Playboy,

    você não é genial como imaginava,

    se você tem algum talento,

    não faz ideia para que

     

    Você se olha no espelho

    e puta que pariu,

    você já tem 20 anos,

    continua virgem,

    e as punhetas não mais são suficientes para satisfazer o seu vazio;

    você tem 20 anos

    e nunca viveu nada,

    não consegue enxergar algo que vá além da janela do seu quarto

     

    Você se olha no espelho

    e vê que tem 20 anos,

    dizem que você ainda tem uma vida inteira pela frente,

    você pensa: caralho, tem mais dessa merda?

    O teto não é seu

    e você tampouco tem chão,

    você navega num bote sem remo,

    numa noite vadia

    de pura escuridão,

    uma ferrenha tempestade,

    no meio do oceano,

    sem qualquer sinal de terra à vista;

    seria você um náufrago

    ou um afogado?

    o seu pai até queria,

    mas você não tem tino para ser advogado

     

    Você se olha no espelho,

    você tem 20 anos,

    o seu futuro é um céu escuro de nuvens nebulosas,

    a sua vida,

    um limbo contínuo,

    você sabe que precisa dessa tempestade,

    abraçar o caos,

    saber o que será

    enfrentar o que há

    a existência inteira é grande demais para caber entres as paredes desse quarto,

    larga de ser um esquisito,

    larga o KY,

    toma coragem e beija os lábios de Calipso

     

    Você tem 20 anos,

    você se olha no espelho,

    fita nos seus próprios olhos e diz:

    “agora é pra valer!”

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    4 min
  • 13 - O poema que não posso mais escrever

    “Dançando com o vento me perdi”,

    esse foi o verso que não escrevi,

    nas rodas do tempo, inerte me deixei estar,

    não deixei o vento no meu rosto tocar,

    neguei ser livre,

    perdi a hora de brincar

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Um livro de poesias sobre a decisão de um jovem, de mudar cidade, em busca de se tornar um artista.

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