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A gente se amava tanto,
o primeiro a amor é sempre o mais latente,
a eternidade da adolescência
cada aula matada pela conveniência do nosso romance
o primeiro amor tudo permite
tudo fica ao nosso alcance
quantas lições perdidas
que hoje nada importam nas nossas vidas
quantas vontades repentinas correspondidas
que o hoje o impulso a gente não se permite
a vida de adulto só admite sensatez
Ainda lembro de você me esperando na porta da sala
tomando Coca-cola,
eu que tanto sonhava em ser jogador de futebol,
quando aprendi a amar, esqueci de jogar bola;
nós dois na praia,
você em cima de mim,
o seu cabelo me protegia do sol,
o verão é bom demais para quem ama pela primeira vez,
nós dois no chuveiro
o medo, o desejo incalável de fazer amor,
nós dois na casa de praia
nós dois o tempo inteiro,
vieram outonos, invernos e o meu mundo crescia com você
vieram primaveras e a minha vida se desabrochava com você
A gente se amava tanto,
e hoje aquele quarto está a mais de 400 quilômetros,
esse amor há mais de quatro anos,
o sol secou o nosso beijo molhado de chuva
e a minha memória parece ter sido convertido em grão de areia
que o vento fez questão de varrer
eu tento me lembrar de tudo,
não fazer da lembrança uma história que eu contei pra mim mesmo,
como minha mãe me contou as histórias da minha primeira infância;
eu quero uma memória real,
mas as suas fotos do Instagram só remontam um falso retrato
você não era assim,
excesso de maquiagem,
preenchimento na boca,
nariz operado,
harmonização facial
eu queria poder redesenhar as suas imperfeições com palavras,
e beijar com meus versos
pela última vez
a mulher que eu amei
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Parece cocaína, mas é só Itaperuna,
numa ressaca da festa de Medicina,
um café vagabundo que deixa na boca um gosto de milho-torrado,
é o sabor amargo
da lembrança de que na vida eu nunca tive um verdadeiro amor
no apartamento, terceiro andar,
abro a janela e fumo o meu prensado
para esquecer do meu futuro mal planejado,
que no passado nem penso mais;
eu só lembro do cheiro do seu condicionador
cabelos afagados,
um odor de carinho malcriado,
os traços dela desapareceram da minha vida como passos na neve,
a gente só lembra quando bebe,
a gente só lembra quando não deve,
só lembra quando não pode mais,
coloca o telefone na bochecha
e profere com a voz embriagada um monte de frases sem sentido
Parece cocaína, mas é só Itaocara,
talvez Campos dos Goytacazes,
em setembro,
nem lembro mais
das histórias de quando eu morava com meus pais,
das tantas vezes em que eu quebrei a cara,
já fui despejado de tanta casa
que perambulo pelas ruas do Rio como um anjo sem asa,
vejo as ondas quebrando na pedra do Arpoador;
esses filhos da puta não conhecem a minha dor,
eles não sabem como é morar no interior;
e as ondas violentas de Ipanema
me levam nesta tarde cinzenta,
para aquela vidraça em Itaperuna,
vejo a vagarosidade da gente que passa
e os julgo da minha Tribuna,
julgo toda aquela gente que como eu
nunca aprendeu,
que não sabe amar
eu grito para o mar,
eu grito
para expurgar
o amor maldito
da festa fantasia de Bom Jesus
grito
blasfemeio,
taco pedra na Cruz,
que alívio é mandar "Deus" à merda
ele e toda aquela vida de merda
que “Ele” planejou para mim
grito o mais alto que posso,
grito sem pudor,
proferindo ofensas ao Cristo Redentor
grito até me cansar e adormecer nas areias fofas da praia
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O Universo é imenso,
infinito,
o dinheiro,
o sexo,
a vida,
tudo é finito,
os homens não passam de formigas
que conspiram intrigas internacionais,
são pedaços de barro aos quais “Deus” deu vida,
todos eles vaidosos,
prostram-se pomposos,
crendo-se imortais,
mas a vida uma hora se finda,
um dia todo homem jaz
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Canções em sueco,
filmes em inglês,
palavrões em espanhol,
obscenidades em francês,
pensamentos em italiano,
frases em japonês,
versos em napolitano
ou no dialeto romano,
o idioma do cotidiano
é o bom e velho português,
mas não acaba por aí,
de tudo há,
de ditados em tupi
a cantigas em iorubá
As línguas se mesclam na minha cabeça,
lambem meus ouvidos,
se perdem na minha boca,
se despem diante dos meus olhos
e eu me desencontro com as letras,
não sei que ortografia é de quem,
que palavra é de uma ou de mais alguém,
que expressão é de onde,
se é uma ideia nativa
ou traduzida,
cidadão cosmopolita,
os meus lábios são poliglotas,
poligâmicos,
entregam-se vadios a todas elas,
mulheres por quem me interessei
e pude conhecer,
mulheres que amei
e não consigo esquecer
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Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto,
as palavras tinham valor,
eram a única coisa que eu tinha
Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto,
o mundo era grande e minha vida era pequena,
a realidade era feita de suposições,
os meus casos de amor eram inventados
e as minhas amizades eram hipóteses
Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto,
ficava o tempo todo olhando para cima
e não me olhava no espelho,
eu pensava bem de mim
Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto,
eu era mais alegre,
apesar de ser apenas um fantasma
que não foi ejaculado
Quando eu tinha um quarto,
casa e comida,
nada que era meramente material tinha valor
Hoje pernoitado em muitos quartos,
abraçado com estranhos,
descobri que não sou nem um quarto
do que eu queria ser
Quantos quartos eu deixei,
para nunca a mais voltar,
quantos quartos de mim ficaram por aí,
um quebra-cabeça a se desmantelar
Hoje os meus olhos vagam pelo teto,
cabisbaixos
e com as mãos nos bolsos,
à procura de um par
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Está cega
e não me ouve;
está surda
e não vê;
suas palavras,
como soam severas
Ela fala,
sou todo ouvidos;
eu falo,
ela é todos ecos
da própria voz
Não sei se ela é o meu amor
ou meu algoz,
um colo acalentador
ou uma armadilha atroz,
uma mulher que me acaricia
ou que me arranha feroz
Tem dias que eu desejo ser imune,
nunca mais amar,
pois o amor é uma fábrica de traumas
é uma emoção que nos faz idiotas e nos pune
soterrando as nossas almas,
e nos sufocando até não termos mais ar
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Você me toca doce
e eu perco o controle;
você me fala azedo
e no meu peito se faz um destrambolhe;
mas não me descomponho,
você insiste,
palavras acres
por lábios ocres;
com deboche rebato,
com afeto reinvisto,
com meu jeito te reconquisto;
eu me deságuo,
você se inunda;
mão na nuca
mão na bunda,
mãos e línguas por todos os lugares;
meu espezinhar é uma arapuca,
tu negas, mas sempre serei mais do que desejares;
esquece-te daquilo que sonhares,
nós só sonhamos amores perfeitos,
outras pessoas com os nossos jeitos,
não conseguimos imaginar o contraste,
um amor de brigas e sexo selvagem,
a gente não sabe do que gosta,
tem que descobrir
e eu me descubro em ti todos os dias,
você é o meu mundo sem mapa,
meu livro sem capa,
uma vida muito além do meu querer
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Deitado no colchão exposto pelo piso gelado
observo o caminhar das baratas
e já não me levanto num ímpeto assassínio,
continuo deitado e as olho com fascínio,
admirando a rendição do meu espírito sociopata;
a verdade é que eu nunca quis ser diplomata,
o meu lugar é aqui com as baratas,
onde não me alcança a vaidade
de querer mudar o mundo,
mas continuo tendo aquele sonho
em que eu acordo em Islamabad,
as pessoas me falam em língua urdu
e eu respondo em francês;
não tem aquele tom lúdico de sonho,
parece um resquício de sensatez,
um pedido que perdeu a vez,
o último eco de um clamor,
não, eu não vou poder ajudar vocês
Uma barata se esconde atrás do armário;
eu lembro daquele orgasmo insano,
o único instante em que eu a tive lucidez
de genuinamente desejar a paz mundial;
a loucura é um rebento,
um sopro contra o vento
que nos permite ver
a pureza das coisas
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Às vezes parece que tudo vai virar poesia,
que a inspiração se esconde em cada esquina,
que cada nuvem andeja
no céu veleja
pela força de compor um verso,
quem sabe até uma estrofe;
o poeta sofre
com papel e caneta à mão,
craveja na folha a mais fustigante aflição
e costura a ferida
no corpo do lírico eu
que já não é mais seu
Às vezes parece que tudo vai virar poesia,
mas a vida é feita de tédio,
com intervalos de emoção;
às vezes parece que toda rima vai virar poema,
que todo riso vai virar cena
de livro e depois de filme no cinema,
às vezes parece que não haverá dilema,
que não importa o tamanho do problema,
que não pesará a mágoa
ou qualquer outra coisa que chateia;
longe da escória,
cidadão livre e cada sua estória,
mesmo que feia,
vai virar letra bonita;
mas de fastio fez-se a vida,
a trilha se entrava,
a mente trava
e tudo vira palavra não dita,
frase encardida,
ferrugem de memória
que para nada serve;
mas enquanto as palavras não faltam,
a percepção não se perde,
a memoração não falha,
e as estórias não deixam de acontecer,
sigo poeta,
de papel e caneta até o amanhecer,
as letras correm o papel apressadas
e nem veem a lua desaparecer,
os dias devoram a vida,
o tédio devora as horas,
e as horas vão nos comendo minuto a minuto sem percebermos,
mas hoje não,
não neste dia,
nesta madrugada,
ela ficará,
e mesmo quando eu me for, ela ainda estará aqui,
será um clarão no escuro,
enquanto houver alguém para conhecê-la,
com os olhos,
com os ouvidos,
no seu sentimento perpassar o momento mais duro,
a resignação de que a maior parte da vida é antoja,
presencialidade de sentido vazia,
à transcendência é um ataque,
um verdadeiro baque,
saber que nem tudo vai virar poesia
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