O embaralhamento partidário é um problema contínuo no Brasil. A falta de definição ideológica e de um plano de desenvolvimento provocam danos à continuidade das políticas públicas. Segundo o professor José Luiz Portella, pós-doutor em História Econômica pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA), cada político age conforme sua necessidade local, o que dificulta a formulação de uma unidade de pensamento.
A falta de conformidade entre políticos do mesmo partido explicita esse problema. “Os partidos não têm um programa claro. Mesmo um partido que se diga mais militante, acaba sendo contraditório nas suas ações. Uma hora aquilo vale, uma hora não vale. Para o resto dos partidos, especialmente os partidos que estão distribuídos no chamado Centrão, isso não tem nenhuma ideologia envolvida. Os partidos têm, na verdade, uma corrida por ter deputados federais para ter mais tempo de TV e fundo partidário. Isto é o poder nas eleições do Brasil. Os partidos só têm esse objetivo. O mesmo partido libera os seus deputados distribuídos pelas unidades da federação para cada um votar como quiser. Cada um vota de acordo com o seu interesse político local, então não tem nenhuma unidade ideológica. Não tem negócio de ser direita, centro-esquerda, centro, extrema-direita. Os caras votam de acordo com o que os seus interesses.”
Outro problema recorrente é a fragmentação orçamentária. “A fragmentação orçamentária resulta no ‘manda emenda aqui, manda emenda ali’, sem olhar um todo ou para um plano de desenvolvimento que tenha uma visão integral e vai na direção de atender coisas que não são prioritárias, como festa de São João, em um país que tem uma extrema desigualdade e que a maioria das emendas deveriam estar voltadas para um plano nacional de desenvolvimento com foco no combate à desigualdade. É nisso que nós precisaríamos atuar no Brasil; mas nem isso, nem outras políticas recebem essa atenção, porque é tudo fragmentado.”
O professor explica as consequências da combinação da fragmentação com o embaralhamento partidário para as políticas públicas. “Essa junção impacta as políticas públicas, porque você não tem políticas de continuidade, políticas substanciais, políticas destinadas realmente a resolver o problema em tela. O que você tem é um pedacinho. Cada um morde um pedacinho de uma determinada política para aparecer na foto da largada, e ninguém aparece na foto da chegada. As políticas não só não chegam ao fim como elas são prometidas no começo; como elas nunca têm a eficácia devida, quer dizer, mesmo quando alguma consegue chegar ao fim, ela chega de uma maneira esmaecida.”
Portella detalha o impacto. “O problema vai agudizando agora porque está tendo uma divisão à direita, vai ter uma divisão de centro, centro-esquerda com centro-esquerda, e o problema não é só ter os candidatos, o problema é o que eu digo, é esse embaralhamento no País, em cada lugar, de repente a centro-esquerda vai apoiar um candidato de direita, como é o caso do Ceará, o Ciro com o capitão Wagner e tal, tudo, na verdade, é absolutamente o interesse próprio, depois que é plasmado por um discurso todo bonito, tentando justificar aquilo, e o Brasil aceita isso. As pessoas que mais causam isso recebem elogios, são pessoas inteligentes e espertas na política, quer dizer, o problema não acontece só com os políticos, o problema acontece porque a sociedade brasileira aceita que os políticos sejam como são, então ela não só os elege, como ela não protesta.”
O professor finaliza comentando o dano causado para a economia brasileira. “Esse embaralhamento vai dar uma confusão tremenda, porque além dessa confusão entre programas, a partir de 2027 haverá um enorme problema orçamentário combinado com provável ajuste fiscal. Você não consegue manter uma trajetória de dívida ascendente sem ter problemas, os Estados Unidos, que manteve por muito tempo, está tendo problema, o Japão, que manteve essa trajetória por muito tempo, está tendo problema, a economia está colapsando.”
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