Piero della Francesca (Sansepolcro [Toscana] 1418-1492) é sem dúvida um dos maiores artistas italianos do século XV. A sua pintura espaçosa, monumental e impassível racional atinge os mais altos ideais do primeiro Renascimento, uma época em que arte e ciência estão unidas por vínculos profundos. Como Leonardo da Vinci, nascido duas gerações depois dele, Piero é um ótimo experimentador.
Mestre do Afresco, uma técnica em que ele se destaca, está principalmente interessado na aplicação das regras recentemente descobertas da perspectiva à pintura narrativa e devocional: o rigor matemático absoluto de suas criações contribui para melhorar a qualidade abstrata e icônica de sua pintura, dando às suas obras-primas um poderoso valor sacro.
O humanismo moderno e a “devotio” moderna
O tempo de Piero é o humanismo, um fenômeno que, a partir do início do século XV, expressa uma nova confiança no mundo, no homem, em suas possibilidades cognitivas. O estudo dos clássicos literários e artísticos permite que a última fase da Idade Média construa os fundamentos do futuro renascimento. Os textos antigos são redescobertos, estátuas antigas, medalhas, moedas, fazem reviver a cultura clássica, grega e latina.
A recuperação do homem, de sua fisicalidade, não é mais mortificada na inconveniência da representação, que nunca tinha que ser muito realista, especialmente se fossem santos, virgens ou mesmo Deus. Torna-se evidente o estímulo de pesquisa na direção oposta, com gosto de um realismo que basicamente celebrou o homem, confiando a Deus e às criaturas celestes, rostos, corpos e sensações que exprimiam o mundo de todos os dias.
A cultura popular se tornou um modelo de valores trágicos: portanto, não mais o medo de representar Deus em uma roupa humana. Um sermo vulgaris que se torna épico na figuração parietal, nos ciclos que exaltam a Virgem em sua qualidade como mãe, na humanidade rasgada de Cristo crucificado, no ascetismo místico íntimo de um santo.
Na realidade, o humanismo, na arte italiana, começa bem antes de seu paralelo literário: Arnolfo, Giotto, Nicola Pisano são os pais antigos desse novo sentimento de homem, ainda primordial, talvez inconsciente, mas já orgulhosamente tenso para perguntar a Deus o direito existir independentemente do divino. Qualquer modéstia iconoclasta começou a desaparecer desse medo de tocar os lábios de Deus com o pincel, de desenhar o busto de Cristo ou o ventre de Maria grávida.