Podler: leituras da Ali

Podler: leituras da Ali

By Alline TerraArtsBooks
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Podler: leituras da Ali episodes

  • #9📚 Canção do Dia de Sempre / Mário Quintana
    Tão bom viver dia a dia…
    A vida assim, jamais cansa…
    Viver tão só de momentos
    Como estas nuvens no céu…
    E só ganhar, toda a vida,
    Inexperiência… esperança…
    E a rosa louca dos ventos
    Presa à copa do chapéu.
    Nunca dês um nome a um rio:
    Sempre é outro rio a passar.
    Nada jamais continua,
    Tudo vai recomeçar!
    E sem nenhuma lembrança
    Das outras vezes perdidas,
    Atiro a rosa do sonho
    Nas tuas mãos distraídas…
    1 min
  • #8🍃Não há vagas / Ferreira Gullar
    O preço do feijão
    não cabe no poema. O preço
    do arroz
    não cabe no poema.
    Não cabem no poema o gás
    a luz o telefone
    a sonegação
    do leite
    da carne
    do açúcar
    do pão
    O funcionário público
    não cabe no poema
    com seu salário de fome
    sua vida fechada
    em arquivos.
    Como não cabe no poema
    o operário
    que esmerila seu dia de aço
    e carvão
    nas oficinas escuras
    – porque o poema, senhores,
    está fechado:
    “não há vagas”
    Só cabe no poema
    o homem sem estômago
    a mulher de nuvens
    a fruta sem preço
    O poema, senhores,
    não fede
    nem cheira
    1 min
  • #7✨ Saber viver / Cora Coralina
    Não sei... se a vida é curta ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo: é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira e pura... enquanto durar.
    2 min
  • #6🍃Tratado geral das grandezas do ínfimo / Manoel de Barros
    A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
    Meu fado é o de não saber quase tudo.
    Sobre o nada eu tenho profundidades.
    Não tenho conexões com a realidade.
    Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
    Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
    Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
    Fiquei emocionado.
    Sou fraco para elogios.
    (BARROS, Manoel de. O meu quintal é maior que o mundo. Rio de Janeiro : Objetiva, 2015.)
    1 min
  • #5🎭Os justos / Jorge Luís Borges
    Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
    O que agradece que na terra haja música.
    O que descobre com prazer uma etimologia.
    Dois empregados que num café do Sur jogam um silencioso xadrez.
    O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
    O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
    Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
    O que acaricia um animal adormecido.
    O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
    O que agradece que na terra haja Stevenson.
    O que prefere que os outros tenham razão.
    Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo.
    (BORGES, Jorge Luís. "La cifra". Obras completas II. Buenos Aires: Emecé, 1989.)
    2 min
  • #4🐦Pássaro azul / Charles Bukowski
    há um pássaro azul em meu peito que
    quer sair
    mas sou duro demais com ele,
    eu digo, fique aí, não deixarei
    que ninguém o veja.
    há um pássaro azul em meu peito que
    quer sair
    mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
    fumaça de cigarro
    e as putas e os atendentes dos bares
    e das mercearias
    nunca saberão que
    ele está
    lá dentro.
    há um pássaro azul em meu peito que
    quer sair
    mas sou duro demais com ele,
    eu digo,
    fique aí, quer acabar
    comigo?
    quer foder com minha
    escrita?
    quer arruinar a venda dos meus livros na
    Europa?
    há um pássaro azul em meu peito que
    quer sair
    mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
    somente em algumas noites
    quando todos estão dormindo.
    eu digo, sei que você está aí,
    então não fique
    triste.
    depois o coloco de volta em seu lugar,
    mas ele ainda canta um pouquinho
    lá dentro, não deixo que morra
    completamente
    e nós dormimos juntos
    assim
    com nosso pacto secreto
    e isto é bom o suficiente para
    fazer um homem
    chorar, mas eu não
    choro, e
    você?
    2 min
  • #3🖼️ Retrato / Cecília Meireles
    Eu não tinha este rosto de hoje,
    assim calmo, assim triste, assim magro,
    nem estes olhos tão vazios,
    nem o lábio amargo.
    Eu não tinha estas mãos sem força,
    tão paradas e frias e mortas;
    eu não tinha este coração
    que nem se mostra.
    Eu não dei por esta mudança,
    tão simples, tão certa, tão fácil:
    – Em que espelho ficou perdida
    a minha face? 
    (Meireles, Cecília . Viagem. Global : Editora, 2012)
    1 min
  • #2💌 O amor / Fernando Pessoa
    O amor, quando se revela, 
    Não se sabe revelar. 
    Sabe bem olhar p'ra ela, 
    Mas não lhe sabe falar. 
    Quem quer dizer o que sente 
    Não sabe o que há de *dizer. 
    Fala: parece que mente 
    Cala: parece esquecer 
    Ah, mas se ela adivinhasse, 
    Se pudesse ouvir o olhar, 
    E se um olhar lhe bastasse 
    Pr'a saber que a estão a amar! 
    Mas quem sente muito, cala; 
    Quem quer dizer quanto sente 
    Fica sem alma nem fala, 
    Fica só, inteiramente! 
    Mas se isto puder contar-lhe 
    O que não lhe ouso contar, 
    Já não terei que falar-lhe 
    Porque lhe estou a falar...
    (PESSOA, Fernando. O Amor (1925). Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/jp000002.pdf. Acesso em: jan 2023)
    2 min
  • #1🍃Seiscentos e Sessenta e Seis / Mario Quintana
    A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
    Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
    Quando se vê, já é 6ª-feira…
    Quando se vê, passaram 60 anos!
    Agora, é tarde demais para ser reprovado…
    E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
    eu nem olhava o relógio
    seguia sempre em frente…
    E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
    (QUINTANA, Mario. Nova Antologia Poética. 9. ed. São Paulo: Globo, 2003.)
    1 min

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