Podler: leituras da Ali

Podler: leituras da Ali

By Alline TerraArtsBooks
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Podler: leituras da Ali episodes

  • #28🌸Biografia do orvalho / Manoel de Barros
    A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
    Nesse ponto sou abastado.
    Palavras que me aceitam como sou — eu não
    aceito.
    Não aguento ser apenas um sujeito que abre
    portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
    compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
    que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
    Perdoai.
    Mas eu preciso ser Outros.
    Eu penso renovar o homem usando borboletas.
    1 min
  • #27💪Com licença poética / Adélia Prado
    Quando nasci um anjo esbelto,
    desses que tocam trombeta, anunciou:
    vai carregar bandeira.
    Cargo muito pesado pra mulher,
    esta espécie ainda envergonhada.
    Aceito os subterfúgios que me cabem,
    sem precisar mentir.
    Não tão feia que não possa casar,
    acho o Rio de Janeiro uma beleza e
    ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
    Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos
    — dor não é amargura.
    Minha tristeza não tem pedigree,
    já a minha vontade de alegria,
    sua raiz vai ao meu mil avô.
    Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
    Mulher é desdobrável. Eu sou.
    2 min
  • #26🚦Meu destino / Cora Coralina
    Nas palmas de tuas mãos
    leio as linhas da minha vida.
    Linhas cruzadas, sinuosas,
    interferindo no teu destino.
    Não te procurei, não me procurastes –
    íamos sozinhos por estradas diferentes.
    Indiferentes, cruzamos
    Passavas com o fardo da vida…
    Corri ao teu encontro.
    Sorri. Falamos.
    Esse dia foi marcado
    com a pedra branca
    da cabeça de um peixe.
    E, desde então, caminhamos
    juntos pela vida…
    1 min
  • #25🪨No meio do caminho / Carlos Drummond de Andrade
    No meio do caminho tinha uma pedra
    tinha uma pedra no meio do caminho
    tinha uma pedra
    no meio do caminho tinha uma pedra.
    Nunca me esquecerei desse acontecimento
    na vida de minhas retinas tão fatigadas.
    Nunca me esquecerei que no meio do caminho
    tinha uma pedra
    tinha uma pedra no meio do caminho
    no meio do caminho tinha uma pedra.
    1 min
  • #24💀Psicologia de um vencido / Augusto dos Anjos
    Eu, filho do carbono e do amoníaco,
    Monstro de escuridão e rutilância,
    Sofro, desde a epigênese da infância,
    A influência má dos signos do zodíaco.
    Profundissimamente hipocondríaco,
    Este ambiente me causa repugnância...
    Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
    Que se escapa da boca de um cardíaco.
    Já o verme — este operário das ruínas —
    Que o sangue podre das carnificinas
    Come, e à vida em geral declara guerra,
    Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
    E há-de deixar-me apenas os cabelos,
    Na frialdade inorgânica da terra!
    1 min
  • #23🍂Saudade / Gilka Machado
    De quem é esta saudade
    que meus silêncios invade,
    que de tão longe me vem?
    De quem é esta saudade,
    de quem?
    Aquelas mãos só carícias,
    Aqueles olhos de apelo,
    aqueles lábios-desejo...
    E estes dedos engelhados,
    e este olhar de vã procura,
    e esta boca sem um beijo...
    De quem é esta saudade
    que sinto quando me vejo?
    1 min
  • #22✨Ora (direis) ouvir estrelas! / Olavo Bilac
    “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
    Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
    Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
    E abro as janelas, pálido de espanto …
    E conversamos toda a noite, enquanto
    A via láctea, como um pálio aberto,
    Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
    Inda as procuro pelo céu deserto.
    Direis agora: “Tresloucado amigo!
    Que conversas com elas? Que sentido
    Tem o que dizem, quando estão contigo?”
    E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
    Pois só quem ama pode ter ouvido
    Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
    1 min
  • #21👣Os teus pés / Pablo Neruda
    Quando não posso olhar-te o rosto
    olho-te os pés.
    Os teus pés de osso arqueado,
    os teus pés pequenos e duros.
    Sei que te amparam,
    e que o teu doce peso
    sobre eles se ergue.
    A tua cintura e os teus seios,
    a duplicada púrpura
    dos teus mamilos,
    o estojo dos teus olhos
    que acabam de levantar voo,
    a tua larga boca de fruta,
    os teus cabelos ruivos,
    minha pequena torre.
    Mas se amo os teus pés
    é só por terem andado
    sobre a terra e sobre
    o vento e sobre a água,
    até me terem encontrado.
    1 min
  • #19🙁Solitário / Augusto dos Anjos
    Como um fantasma que se refugia
    Na solidão da natureza morta,
    Por trás dos ermos túmulos, um dia,
    Eu fui refugiar-me à tua porta!
    Fazia frio, e o frio que fazia
    Não era esse que a carne nos conforta…
    Cortava assim como em carniçaria
    O aço das facas incisivas corta!
    Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
    E eu saí, como quem tudo repele,
    — Velho caixão a carregar destroços —
    Levando apenas na tumba carcaça
    O pergaminho singular da pele
    E o chocalho fatídico dos ossos!
    1 min

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