Podler: leituras da Ali

Podler: leituras da Ali

By Alline TerraArtsBooks
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Podler: leituras da Ali episodes

  • 🪓 Dom Casmurro: Capítulo I - Do título
    Dom Casmurro
    Machado de Assis
    Capítulo I - Do título
    Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz
    aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim,
    falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser
    que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos
    três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
    -- Continue, disse eu acordando.
    -- Já acabei, murmurou ele.
    -- São muito bonitos.
    Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No
    dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os
    vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal
    pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça,
    chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você."--"Vou
    para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renania; vê se deixas essa caverna do
    Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo."--"Meu caro Dom Casmurro, não cuide que
    o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, doulhe cama; só não lhe dou moça."
    Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs
    o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de
    fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração - se não
    tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não
    lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há
    livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.
    3 min
  • 🎙️🖼️🧑‍🎨O retrato oval / Edgar Allan Poe
    O retrato oval/Life in death (1842).
    Conto lido do livro "Contos de terror, mistério e e de morte"da Editora Nova Fronteira.
    POE, Edgar Allan. Contos de terror, de mistério e de morte. 6. ed. Rio de Janeiro, RJ: Editora Nova Fronteira, 2017. 236 p. (Coleção Clássicos de Ouro). ISBN 9788520938935.
    10 min
  • #33 Precauções inúteis / Lêdo Ivo

    Quem tapa minha boca

    não perde por esperar:

    o silêncio de agora

    amanhã é voz rouca

    de tanto gritar.

    Quem tapa meus olhos

    nada esconde de mim.

    Sei seu nome e seu rosto,

    o lugar em que estou,

    sua noite sem fim.

    Quem tapa meus ouvidos

    me faz escutar mais.

    Igualei-me às muralhas

    e o silêncio mais fundo

    guarda o rumor do mundo.

    Quem me quer sem memória

    erra redondamente.

    Lembro-me de tudo

    e, cego, surdo e mudo,

    até do esquecimento.

    E quem me quer defunto

    confunde verão e inverno.

    Morto, sou insepulto.

    Homem, sou sempre vivo.

    Povo, sou eterno.

    2 min
  • #31🥺O pobre poema / Mário Quintana
    Eu escrevi um poema horrível!
    É claro que ele queria dizer alguma coisa...
    Mas o quê?
    Estaria engasgado?
    Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade
    de quem, sem ler os jornais,
    soubesse dos seqüestros
    dos que morrem sem culpa
    dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados...
    Poema, menininho condenado,
    bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo...
    Tomado, então, de um ódio insensato,
    esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável
    verdade, dilacerei-o em mil pedaços.
    E respirei...
    Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?
    2 min
  • #29🏞️Dez chamamentos ao amigo / Hilda Hist
    Se te pareço noturna e imperfeita
    Olha-me de novo. Porque esta noite
    Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
    E era como se a água
    Desejasse
    Escapar de sua casa que é o rio
    E deslizando apenas, nem tocar a margem.
    Te olhei. E há tanto tempo
    Entendo que sou terra. Há tanto tempo
    Espero
    Que o teu corpo de água mais fraterno
    Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
    Olha-me de novo. Com menos altivez.
    E mais atento.
    1 min

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