Podler: leituras da Ali

Podler: leituras da Ali

By Alline TerraArtsBooks
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Podler: leituras da Ali episodes

  • #18✨Breve memória / Caio Fernando Abreu
    De ausências e distâncias te construo
    amigo
    amado.
    E além da forma
    nem mão
    nem fogo:
    meu ser ausente do que sou
    e do que tenho, alheio.
    Na dimensão exata de teu corpo
    cabe meu ser
    cabe meu voo mais remoto
    cabem limites, transcendências.
    Na dimensão do corpo que tu tens
    e que eu não toco
    cabe o verso torturado
    e um espesso labirinto de vontades.
    1 min
  • #17🙃Nada é bom para mim / Fernanda Young
    Nada é bom para mim, aprenda.
    Eu pareço razoável, até mesmo
    Bela, mas sou essa, bem estranha.
    E muitas vezes doente.
    Não se deixe levar por minha
    Tradução de My Funny Valentine,
    Eu sou a mais escrota do bairro
    De qualquer cidade.
    Mas eu irei mudar meu cabelo,
    E não será por você.
    Vou te contar minha história,
    E você irá achar que é mentira.
    Tudo que posso te dizer é:
    Fique.
    Hoje não é o nosso dia,
    Mas fique.
    1 min
  • #16☁️As lentas nuvens fazem sono / Fernando Pessoa
    As lentas nuvens fazem sono,
    O céu azul faz bom dormir.
    Bóio, num íntimo abandono,
    À tona de me não sentir.
    E é suave, como um correr de água,
    O sentir que não sou alguém,
    Não sou capaz de peso ou mágoa.
    Minha alma é aquilo que não tem.
    Que bom, à margem do ribeiro
    Saber que é ele que vai indo...
    E só em sono eu vou primeiro.
    E só em sonho eu vou seguindo.
    1 min
  • #15👩‍💻A alegria da escrita / Wislawa Szymborska
    Para onde corre este cervo escrito na floresta que escrevi? É para beber da água escrita, que desenha seu focinho? Por que ele ergue a cabeça, escutou algo? Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade ele apura as orelhas sob meus dedos. Silêncio – essa palavra ressoa na textura do papel e afasta os galhos que brotam da palavra floresta. Sobre a folha em branco há letras espreitando que podem tomar o mau caminho formando frases ameaçadoras das quais nada escapa. Em cada gota de tinta há um bom estoque de caçadores de olho na mira, prontos a descer pela caneta íngreme, cercar o cervo e apontar as armas.
    Eles esquecem que aqui não há vida de verdade. No preto-e-branco vigem outras leis. Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser e poderá ser dividido em pequenas eternidades, cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo. Aqui nada acontecerá sem meu aval. Contra minha vontade, nem uma folha cairá e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo. Então existe um mundo onde eu possa impor o destino? Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais? Uma existência que, a meu comando, não terá fim? A alegria de escrever. O poder de preservar. A vingança da mão mortal.
    2 min
  • #14🌔Lua adversa / Cecília Meireles
    Tenho fases, como a lua,
    Fases de andar escondida,
    fases de vir para a rua…
    Perdição da minha vida!
    Perdição da vida minha!
    Tenho fases de ser tua,
    tenho outras de ser sozinha.
    Fases que vão e que vêm,
    no secreto calendário
    que um astrólogo arbitrário
    inventou para meu uso.
    E roda a melancolia
    seu interminável fuso!
    Não me encontro com ninguém
    (tenho fases, como a lua…).
    No dia de alguém ser meu
    não é dia de eu ser sua…
    E, quando chega esse dia,
    o outro desapareceu…
    Vaga música (1942)
    1 min
  • #13📚O apanhador de desperdícios / Manoel de Barros
    Uso a palavra para compor meus silêncios.
    Não gosto das palavras
    fatigadas de informar.
    Dou mais respeito
    às que vivem de barriga no chão
    tipo água pedra sapo.
    Entendo bem o sotaque das águas
    Dou respeito às coisas desimportantes
    e aos seres desimportantes.
    Prezo insetos mais que aviões.
    Prezo a velocidade
    das tartarugas mais que a dos mísseis.
    Tenho em mim um atraso de nascença.
    Eu fui aparelhado
    para gostar de passarinhos.
    Tenho abundância de ser feliz por isso.
    Meu quintal é maior do que o mundo.
    Sou um apanhador de desperdícios:
    Amo os restos
    como as boas moscas.
    Queria que a minha voz tivesse um formato
    de canto.
    Porque eu não sou da informática:
    eu sou da invencionática.
    Só uso a palavra para compor meus silêncios.
    2 min
  • #12🫶O Ciúme / Guilherme de Almeida
    Minha melhor lembrança é esse instante no qual,
    pela primeira vez, me entrou pela retina
    tua silhueta provocante e fina
    como um punhal.
    Depois, passaste a ser unicamente aquela
    que a gente se habitua a achar apenas bela
    e que é quase banal.
    E agora que te tenho em minhas mãos, e sei
    que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
    e os teus sentidos são cinco brinquedos
    com que brinquei;
    agora que não mais me és inédita; agora
    que compreendo que, tal como eu te vira outrora,
    nunca mais te verei;
    agora que, de ti, por muito que me dês,
    já não me podes dar a impressão que me deste,
    a primeira impressão que me fizeste;
    — louco, talvez,
    tenho ciúmes de quem não te conhece ainda
    e, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda,
    pela primeira vez!
    2 min
  • #11🧳 Dizendo adeus / Lya Luft
    Estou sempre dando adeus:
    também ao desencontro e ao
    desencanto.
    Estou sempre me despedindo
    do ponto de partida que me lança de si,
    do porto de chegada que nunca é
    aqui.
    Estou sempre dizendo adeus:
    até a Deus,
    para o reencontrar em outra esquina
    de adeuses.
    Estarei sempre de partida,
    até o momento de sermos deuses:
    quando me fizeres dar adeus à solidão
    e à sombra.
    1 min
  • #10🤡 Todas as cartas de amor são Ridículas / Fernando Pessoa
    Todas as cartas de amor são 
    Ridículas. 
    Não seriam cartas de amor se não fossem 
    Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
    Como as outras, 
    Ridículas. 
    As cartas de amor, se há amor, 
    Têm de ser 
    Ridículas. 
    Mas, afinal, 
    Só as criaturas que nunca escreveram 
    Cartas de amor 
    É que são 
    Ridículas.  
    Quem me dera no tempo em que escrevia 
    Sem dar por isso 
    Cartas de amor 
    Ridículas. 
    A verdade é que hoje 
    As minhas memórias 
    Dessas cartas de amor 
    É que são 
    Ridículas. 
    (Todas as palavras esdrúxulas, 
    Como os sentimentos esdrúxulos, 
    São naturalmente 
    Ridículas.)
    (PESSOA, Fernando. Poemas de Álvaro de Campos. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/jp000011.pdf)
    1 min

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